Blogue luso-brasileiro
Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011
JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI - BISPO SURPREENDE E RECUSA PRÊMIO EM SOLENIDADE NO SENADO FEDERAL

                

                                                                                                             

 

               O bispo cearense de Limoeiro do Norte, dom Manuel Edmilson Cruz, recusou uma homenagem do Senado Federal sob a alegação de que o aumento dos vencimentos dos parlamentares se constituiu num atentado aos direitos humanos do povo brasileiro. O religioso afirmou que a Comenda Dom Helder Câmara, que lhe foi oferecida, não honra a história de quem lhe dá título, expondo que a realidade da população mais carente, contrasta com a confortável situação salarial dos deputados e senadores. Um protesto que obteve grande repercussão e apoio geral contra uma verdadeira agressão desferida por aqueles que têm obrigação legal e moral de tutelar os interesses públicos.

 

                   No último dia 20 de dezembro, aconteceu a solenidade de entrega da COMENDA DOS DIREITOS HUMANOS DOM HÉLDER CÂMARA, outorgada pelo Senado Federal a personalidades que se destacaram na área. Na ocasião, num plenário esvaziado, apenas com alguns parlamentares e convidados, um dos homenageados, o bispo cearense de Limoeiro do Norte, dom Manuel Edmilson Cruz, acabou impondo um espetacular constrangimento aos parlamentes. Após receber uma placa alusiva das mãos do senador Inácio Arruda (PCdoB/CE), ao discursar, ele recusou a reverência  em protesto ao reajuste de 61,8% concedidos pelos deputados e senadores aos seus próprios vencimentos, alguns dias antes.

                     “A comenda hoje outorgada não representa a pessoa do cearense maior que foi Dom Helder Câmara. Não representa. Desfigura-a, porém. Sem ressentimentos e agindo por amor e por respeito a todos os senhores e senhoras, pelos quais oro todos os dias, só me resta uma atitude: recusá-la. Ela é um atentado, uma afronta ao povo brasileiro, ao cidadão, à cidadã contribuinte para o bem de todos, com o suor de seu rosto e a dignidade de seu trabalho”, afirmou o bispo.

                    Ele destacou que a majoração deveria ter como base o mesmo índice concedido ao salário mínimo, em torno cerca de 6%. “O aumento a ser ajustado deveria guardar sempre a mesma proporção que o aumento do salário mínimo e da aposentadoria. Isso não acontece. O que acontece, repito, é um atentado contra os direitos humanos do nosso povo”. Aplaudido pelo público, o religioso ainda expôs que a realidade da população mais carente, obrigada a enfrentar filas nos hospitais da rede pública, contrasta com a confortável situação salarial dos parlamentares, criticando-os por aprovar aquele montante à remuneração. “Quem assim procedeu não é parlamentar, é para lamentar”, disse.

                   A surpreendente posição de dom Manuel obteve enorme repercussão na imprensa e idêntico apoio de inúmeros setores religiosos e da própria sociedade em geral, inclusive muitos militantes dos Direitos Humanos. Demonstrou a revolta que parte da população, envergonhada com o comportamento de vários homens públicos em geral, nutre pelos desmandos propiciados por muitos de nossos representantes políticos, mais preocupados com seus anseios particulares do que com os interesses coletivos, e para os quais “tudo pode” enquanto o resto sofre inúmeras privações e ferrenha regulagem de seus parcos salários, notadamente os beneficiários da Previdência Social.

                    A Teoria Geral dos Direitos Humanos primordialmente defende: os direitos fundamentais dos seres humanos e sua concretização; a dignidade da pessoa humana e o acesso à Justiça; a autolimitação do poder do Estado ao cumprimento das leis que a todos subordinam e a igualdade de oportunidades e o Estado Democrático de Direito. Efetivamente, na atualidade, muitos dos atos praticados por nossos legisladores e governantes contrariam e desrespeitam frontalmente tais preceitos, procrastinando o nosso amadurecimento institucional, que requer desenvolvimento cultural e educacional, fortalecimento da cidadania com a inclusão dos excluídos e um grande esforço de restauração do respeito à lei, com provimento eficiente de justiça e segurança pública.

       O corajoso ato de dom Manuel deve servir de alerta para que não aceitemos passivamente constantes agressões desferidas por aqueles que têm obrigação legal e moral de tutelar as aspirações populares, mormente em relação ao dinheiro público, tão malversado em nosso país, em detrimento ao desatendimento das muitas necessidades básicas da maior parte do povo brasileiro. Precisamos deixar de lado o comodismo e o egoísmo, mudando nossos modos de pensar e agir, para lutarmos decisivamente pela busca de caminhos que garantam uma vida digna à maioria dos brasileiros e não apenas a uma minoria privilegiada. Imprescindível que o povo se organize e procure soluções ao seu alcance, reivindicando, fiscalizando e cobrando de nossas autoridades a satisfação de seus anseios constitucionalmente garantidos. E, amparando-se em mensagens cristãs, forçar a Nação a trilhar  um rumo certo, condicionando cada cidadão ao respeito por si mesmo e ao seu irmão.

        Reiteramos: não pode nos faltar coragem para recolocarmos os alicerces à construção de um Brasil justo, unindo-se forças para não nos omitirmos na defesa dos preceitos evangélicos na vida social, econômica e política, participando ativamente na modificação de estruturas injustas e corruptas, tornando possível um projeto comprometido com a distribuição de renda e de combate às concentrações, capaz de diminuir os contrastes entre seus habitantes, exigindo permanente seriedade de nossos representantes.

 

                           

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, jornalista, escritor e professor universitário



publicado por solpaz às 13:51
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