Blogue luso-brasileiro
Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011
JOÃO BOSCO LEAL - VICIADOS EM ADRENALINA

                      

 

 

 

Atualmente as pessoas parecem gostar de viver em estado de muita tensão, com pressa para tudo, os nervos à flor da pele, perdendo o equilíbrio emocional diante da mais simples contrariedade. Os filmes e livros com temas históricos, pacíficos ou de romances, são pouco vistos ou lidos, mas os que tratam de ação, guerra, tiroteios ou suspense, fazem filas nas entradas das salas e não saem da lista dos mais vendidos.

Na juventude, ouvia dizer que o jornal que vende é aquele que sangra quando torcido e hoje percebo como isso é verdadeiro e atual. Por mais que os novos meios de comunicação evoluam, com a internet abrindo novos e imensuráveis caminhos, podemos perceber que os interesses continuam os mesmos e as manchetes dos jornais, telejornais ou de milhares de páginas da web, são sobre brigas, assaltos, crimes, tragédias, revoltas e guerras.

Cenas violentas e verídicas, de pessoas sendo agredidas, feridas, executadas ou já mortas, são constantemente transmitidas em horários de programação livre e assistidas por crianças. Nos últimos dias, provavelmente nenhuma cena foi mais transmitida pelos canais de televisão, publicada pelos jornais e divulgada na internet, do que o linchamento público, morte e exposição do cadáver de Muammar Kadhafi, da Líbia.

Milhões de pessoas assistem os canais, compram os jornais e acessam as páginas com esses temas, facilitando a venda de seus espaços publicitários, mais caros durante os programas de maior audiência, nos jornais de maior circulação ou nos portais mais visitados, proporcionando, assim, maiores lucros às empresas de comunicação.

As indústrias, sempre buscando os mais lucrativos filões existentes no mercado consumidor, produzem automóveis e motocicletas que alcançam velocidades superiores a 300 km por hora, impensáveis de serem atingidas por pessoas que possuam um mínimo de bom senso.

Esporte de extrema violência, o das lutas de vale tudo, chamadas MMA, é o que atualmente mais cresce no mundo e mais lucro proporciona aos seus participantes e promotores, pela quantidade de pessoas que o assiste.

Milhares se reúnem para assistir uma tourada, uma corrida de touros nas ruas, um rodeio ou um treinador de leões e tigres, onde o homem mede força com animais muito maiores, mais fortes e mais pesados que ele.

As torcidas dos times de futebol não se organizam mais para acompanhar e apoiar o seu predileto, mas para o confronto com a do time adversário, se agredindo fisicamente antes, durante ou depois dos jogos e depredando ônibus, veículos e vitrines por onde passam.

Com tudo em sua vida ocorrendo em ritmo acelerado e os horários agendados muito próximos, as pessoas permanecem em constante estado de tensão e parecem gostar de assistir esses fatos, divulgados nos meios de comunicação ou ocorridos nas ruas.

Saindo de um avião, elas ligam seus celulares antes mesmo de chegar aos prédios dos aeroportos, parecendo desesperadas para se comunicar e demonstram verdadeiro pânico quando o esquecem em algum lugar, como se não pudessem mais viver distantes do aparelho.

Em situações de nervosismo e estresse, automaticamente cresce a produção de adrenalina, que acelera os batimentos cardíacos e a respiração, proporcionando maior oxigenação celular e o aumento do fluxo sanguíneo nos músculos relacionados com as atividades sexuais, experiência agradável, que as pessoas procuram repetir.

A adrenalina, por provocar sensações de prazer, vicia como qualquer outra droga, fazendo a pessoa buscar as mais diversas formas de geração de tensão, com a consequente necessidade de novas e sucessivas doses.

 

 

 

JOÃO BOSCO LEAL, é articulista político, produtor rural e palestrante sobre assuntos ligados ao agronegócio e conflitos agrários.

Campo Grande, Brasil.

 



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HUMBERTO PINHO DA SILVA - O PORTO JÁ NÃO É O QUE ERA

 

 

 

                  Em anos de juventude o meu passatempo favorito era peregrinar pelo velho burgo portuense: subir íngremes calçadas lajeadas a granito; descer estreitas escadinhas, entaladas em prédios centenários; calcorrear as tortuosas vielas da Sé e antigas ruas bafientas da Vitória.

                  Não ia só. Como companheiro tinha guapo rapaz: baixo, esbelto e imparável conversador, que informava-me da genealogia das tradicionais famílias tripeiras e seus perdidos ramos em terras do Minho e além Marão.

                   De companheiro de escola, passou a amigo e confidente, e muitas vezes era ele que me convidava a essas incursões.

                  Nessa recuada época passear pela cidade era prazer que se cultivava. Os cafés permaneciam abertos até altas horas e os cinemas transbordavam. Os mais remediados, que se declaravam da classe média, recreavam-se deambulando pela baixa (era o passeio dos tristes), observando vitrinas. Chegava-se a convidar amigos e parentes para esses passeios noctívagos.

                 Caminhava-se seguro e os guardas eram garantes da tranquilidade.

                 Ora, como disse, na companhia amiga de Manel Alpendurada, em regra após o almoço, realizava essas visitas de estudo. Era nesse tempo perito em história da cidade. Lia muito Magalhães Basto e Conde d’Aurora.

                 Lembrei-me, hoje, da nossa curiosidade juvenil, ao atravessar o tabuleiro inferior de D. Luís I e topar que a Ribeira renasceu.

                 Agora está cheia de restaurantes típicos, repletos de turistas; mas então o espaço animava-se de: vendedeiras de peixe, fruta, flores e pano. Sob os arcos haviam mercearias e tasquinhas. Mercava-se: azeitonas, castanha, batata, cerejas de saco e na época própria, o sável era tanto que se oferecia a cinco tostões, peixão capaz de alimentar regimento.

                Na velha rua de S. João – quantas vezes a subi com o Manel ! -  nesse tempo haviam fortes armazéns. Fardos de bacalhau, sacos de arroz e batata saiam de camionetas, aos ombros de pujantes carrejões.

                Todo esse frenético movimento morreu. Os prédios permanecem degradados e o pouco comércio que sobrevive não consegue quebrar o marasmo.

               Neste meu recordar tempos que já não são, subi até largo de S. Domingos e entrei na rua das Flores.

               Quando era jovem abundavam casas de ferragens e pichelarias. Haviam grandes armazéns e muito oiro. Tudo desapareceu; até a queijaria do Nunes, onde minha mãe adquiria o flamengo, e a Casa do Chã, onde meu pai comprava cem gramas de Ceilão, fecharam.

               E sempre ao longo do passeio que realizei para reviver tempos idos, deparei casas delapidadas, abandonadas, desventradas. A baixa portuense encontra-se em ruínas, salvam-se os rés-do-chãos. Alindados pelas lojas, muitas ocupadas por chineses e indianos.

               Onde estão os famosos estabelecimentos de outrora? A Casa Forte, a Lãmaria, Armazéns dos Anjos, Singer, Confiança,Supermercados Vilares, Sapataria Atlas, Simões Lopes e as livrarias Figueirinhas, Tavares Martins e Internacional, onde meu pai permanecia tardes ao redor dos escaparates?

              Tudo desapareceu. Tudo se alterou. Outrora a minha cidade era calma, tranquila e acolhedora; ora, violenta, perigosa, deserta, após as vinte horas; sem cinemas, sem cafés, sem movimento e quase sem polícia.

              Quem hoje se aventura percorrer o velho Porto? Quem tem coragem de sair após o jantar? Quem ainda conserva o costume do passeio dos tristes?

               A minha cidade está moribunda. O Porto da minha juventude, de bicicletas, ardinas, peixeiras, padeiras, leiteiras e rasgado de alegres pregões  -  "Olha o bom rebuçado da Régua!"; "Compre! compre! É barato! Esticadores para colarinhos! Seis, dez tostões"; "Oitenta anedotas de Bogage, apenas por dez tostões! É um fartar de riso, apenas por dez tostões!"; "Merca Chapéus!";"Quem quer limões ó zalhos!..."; "Merca  cruzetas, bancos, apanhadores e caixões de lavar!... "Janeiro!...Comércio!...ó Notícias!...; "Olha o Norte!" -  já não existe.

               Ah que saudade tenho! Saudade do tempo em que o Porto era tipicamente tripeiro!

 

 

HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal



publicado por solpaz às 11:49
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Domingo, 30 de Outubro de 2011
PINHO DA SILVA - FALA-ME, SENHOR !...FALA !...

                     

 

"Vede que não rejeiteis ao que fala"

Heb.1-12

 

"(...) o Senhor falou: dai glória ao Senhor (...) !

Jer.13-15,16

 

 

 

Fala-me, Senhor, fala!... Quero ouvir-Te,

porque a Tua voz, meu Pai, é uma canção!...

Adormece-me nela, assim; com unção,

com ternura, com piedade... e a sorrir-Te !...

 

 

Aconchega-me a Ti !...Quero sentir-Te:

quero escutar, a bater, Teu coração;

"comer" da Tua Palavra o doce Pão;

amar-Te, com Verdade, sem mentir-Te!...

 

 

Ora vê, Senhor: - sou pobrezinho!...

Sem ter o Teu regaço; o Teu carinho;

a Tua voz; Teu sorriso - Oh !... Desventura!... -,

 

 

andaria, nas trevas, meu caminho !

Que seria de mim, por cá, sózinho,

se não fosse a Tua voz, na noite escura?!...

 

 

PINHO DA SILVA   -   Vila Nova de Gaia, Portugal



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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011
PAULO ROBERTO LABEGALINI - HISTÓRIA e ADORAÇÃO AO SANTÍSSIMO
                                      
 

 

*H I S T Ó R I A

 

Um homem era empregado de uma fábrica na periferia da cidade onde morava. Toda manhã, ele pegava o ônibus e viajava cinqüenta minutos até o trabalho. Na mesma condução, entrava uma velhinha que, sentada próxima à janela, tirava um pacotinho da bolsa e jogava alguma coisa para fora do ônibus.

Um dia, o homem ficou curioso e não resistiu em perguntar:

- Bom dia, desculpe, mas o que a senhora está jogando pela janela?

- Jogo sementes de flor -respondeu. - É que eu pego este ônibus todos os dias e gostaria de poder viajar vendo flores coloridas pelo caminho. Imagine como seria bom!

- Mas a senhora não vê que as sementes caem no asfalto e são esmagadas pelos pneus dos carros ou devoradas pelos passarinhos? Acha mesmo que as flores irão nascer aí, na beira da estrada?

- Acho, meu filho. Mesmo que muitas sementes sejam perdidas, algumas certamente cairão na terra e, com o tempo, irão brotar.

- Mesmo assim, demoram para crescer, precisam de água!

- Ah, eu faço a minha parte. Sempre há dias de chuva, além disso, apesar da demora, se eu não jogar as sementes, as flores nunca nascerão, não é mesmo?

Dizendo isso, a velhinha virou-se para a janela aberta e continuou o seu ‘trabalho’. O homem desceu logo adiante, achando que aquela senhora estava meio caduca. O tempo passou, ele se aposentou e, um dia, no mesmo ônibus, o homem levou um susto: olhou para fora e avistou margaridas na beira da estrada, junto com hortênsias azuis, rosas vermelhas e outras flores. A paisagem estava colorida e linda! Ele lembrou-se da velhinha, procurou-a nos assentos e... nada! Acabou perguntando ao cobrador, que lhe respondeu:

- A senhora das sementes? Pois é, morreu de pneumonia já faz algum tempo.

O homem voltou para o seu lugar e continuou olhando a paisagem florida pela janela. Sentiu uma lágrima correr pelo rosto e pensou: ‘Quem diria, as flores brotaram mesmo! Mas, pensando bem, de que adiantou o trabalho da velhinha? A coitada morreu e não pode ver esta beleza toda que plantou!’.

Naquele instante, escutou atrás de si uma gostosa risada de criança. Olhou e viu uma garotinha apontando entusiasmada pela janela:

- Olha mamãe, que lindo! Quanta flor pela estrada! Como se chamam aquelas azuis? E as branquinhas?

Então, ele entendeu o que a velhinha havia feito. Mesmo não estando ali para contemplar as flores que semeou, ela cumpriu a sua missão, afinal, tinha dado um presente maravilhoso às pessoas.

No dia seguinte, o homem entrou num ônibus que iria por outras estradas, sentou-se do lado da janela e, com um sorriso maroto nos lábios, tirou um pacotinho do bolso...

 

* Do programa ‘Nossa Reflexão’,que vai ao ar em quatro horários no Canal 20: 8h30, 11h30, 17h30 e 22h30. O site www.canal20tv.com.br disponibiliza os vídeos já apresentados na televisão. Clique em ‘Arquivos de Vídeo’ e depois em ‘Nossa Reflexão’.

 

** ADORAÇÃO AO SANTÍSSIMO

 

Hoje, quero recordar um fato vivido por Santo Antônio:

Um dia, em Tolosa, um rico e poderoso incrédulo, chamado Guialdo, teve longa discussão com Santo Antônio sobre o dogma, para ele inadmissível, da presença real de Nosso Senhor na Eucaristia! E o herege fez uma proposta ao Santo: ‘Tenho uma mula. Prendê-la-ei e deixá-la-ei em jejum durante três dias. No fim desse tempo, levá-la-ei à praça pública em presença de todos e lhe apresentarei a ração de aveia. Por vosso lado, lhe mostrareis a hóstia que, segundo as vossas palavras, contém o corpo do homem-Deus. Se a mula rejeitar a aveia para ajoelhar-se diante da hóstia, eu me declararei católico’.

No dia marcado, na praça, entre as zombarias de uns e apreensões de outros, apareceu o apóstolo com o Santíssimo Sacramento e o herege com a mula. Antônio impôs silêncio e, virando-se para o animal, lhe disse: ‘Em nome de teu Criador que trago, embora indigno em minhas mãos, conjuro-te e ordeno-te, ó ser desprovido de razão, a vir imediatamente prostrar-se diante Dele, para que os hereges reconheçam, por esse ato, que toda a criação está sujeita ao Cordeiro que se imola sobre nossos altares’.

Ao mesmo tempo ofereceram à mula o que reclamava o seu estômago, e ela, dócil à voz do santo, sem tocar na aveia, avança e dobra os joelhos diante do Santíssimo Sacramento, em atitude de adoração. A vitória de Antonio foi completa! O herege confessou lealmente suas faltas e, fiel à palavra que empenhara, declarou publicamente seus erros.

Que fato impressionante, não? Até me arrepio de contar! E um dia, quando participei do programa ‘A Tenda do Senhor’ na TV Canção Nova, referindo-se a esta história, o Pe. Léo comentou: “Se até um burro ajoelhou-se, por que ainda existem pessoas que não se ajoelham?”

Deixo esta pergunta para você, leitor, responder.

 

** Do programa ‘Acreditamos no Amor’,que vai ao ar em dois horários na Rádio Futura FM, 106,9 MHz: 6 h e 18 h– segunda a sexta.

Site para ouvir o programa ao vivo e rezar o Ângelus conosco: www.futurafm.com.br

 

PAULO ROBERTO LABEGALINI -    Escritor católico, Professor Doutor da Universidade Federal de Itajubá-MG. Pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária da UNIFEI.



publicado por solpaz às 11:27
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Terça-feira, 25 de Outubro de 2011
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - VALDEMAR MESQUITA TOGNI

                     

 

 

 

 

Não poderia deixar de escrever a respeito do Sr. Valdemar. Era ele da chama de louvor no altar da Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito – Santuário Eucarístico Diocesano -, onde mamãe e eu participamos da Missa aos domingos. Se me perguntassem qual é a primeira imagem que me vem dele, é exatamente essa: a de sua reverência diante do altar para, em seguida, acender as velas, cuja claridade indica que nos reunimos em torno de Jesus Cristo, Luz do mundo, que o Pai enviou a fim de nos libertar das sombras funestas. Como escreveu São João no princípio de seu Evangelho: “Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João. Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz. O Verbo era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem”. (Jo 1, 6-9). Sr. Togni, pelo respeito profundo com que também acendia as velas e o Círio Pascal, demonstrou ser discípulo da luz da Ressurreição.

Tratava do que era da Igreja de maneira precisa e com solenidade. Não era um técnico apenas em assuntos burocráticos do conselho administrativo ou na análise das reformas necessárias para glorificar a Deus e acolher os irmãos. Por opção de leigo, nas incumbências dele, vivia na alma o que preparava, da melhor maneira possível, para os fiéis que se aproximavam do Santuário e lhe somos gratos por esse zelo de tantos anos. Cuidava, igualmente, da Liturgia e integrava o coro de vozes de anjos. Parece-me, contudo, que alumiar mais se destacava aos seus olhos. Lembro-me do entusiasmo dele com o terço iluminado na imagem de Nossa Senhora e com o lustre, através do qual  resplandecem as pinturas que dizem do Reino de Deus.

Admirava as Leituras de Isaías, por certo porque o Profeta anunciou: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; sobre aqueles que habitavam uma região tenebrosa resplandeceu uma luz” (Isaías 9,1).

Seu coração batia forte: pela esposa querida, Gislaine, a quem por toda a vida diria sim, pelos filhos, pelas netas, por toda família. Era verdadeiro e de carinho ímpar com os amigos.

No domingo, dia nove, estava na Igreja, coordenando a Liturgia. No dia 16, ausentou-se por não se sentir bem. Na madrugada do dia 18, se foi. Creio que, ao se despedir lentamente a noite do dia 17, após a Unção pelos Padres Donizeti e José Brombal, recebeu a graça de vislumbrar o amanhecer róseo da Eternidade e se entregou nos braços do Criador.  Na contemplação de Jesus da Eucaristia pede, agora, pelos que amou na Terra.

De presença humana digna e clara a intercessor no Céu.

 

Maria Cristina Castilho de Andrade

É educadora e coordenadora diocesana da  Pastoral da Mulher/ Magdala,Jundiaí, Brasil

 



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Domingo, 23 de Outubro de 2011
LAURENTINO SABROSA - O TEMPO

 

 

 

Há pouco tempo, um amigo meu desabafou comigo a dizer-me que andava há 37 anos a pedir a Deus certa benesse, e ainda não tinha sido atendida. Eu disse-lhe: “Podes crer que Deus “ignora” o que seja essa coisa de 37 anos”. Porque, para Deus, não existe o Tempo tal como nós o imaginamos e sentimos. Apesar de tudo, como temos a tendência de atribuir a Deus atributos humanos, a Bíblia diz em qualquer lado mais ou menos isto:”o que para os homens é um século, para Deus será apenas um segundo”, e deve ser por isso que Deus fez demorar, pelos cálculos humanos, vários séculos o regresso dos judeus à sua amada Jerusalém.

O Tempo é, na verdade, qualquer coisa misteriosa em que devíamos meditar. Quem quiser meditar sobre o Tempo para tentar atingir a sua essência, natureza e transcendência, tem em Santo Agostinho um grande mestre. No seu livro CONFISSÕES, a secção XI é na sua quase totalidade uma longa dissertação sobre o Tempo: fala na eternidade, no movimento dos corpos relacionado com o tempo, a relação tempo-espaço,  a sucessão dos momentos do tempo e a sua duração, o antes e o depois, o que é pretérito e o que é futuro, como medir o tempo. Mas Santo Agostinho, que nos seus SERMÕES é relativamente acessível, nesta sua divagação perscrutadora sobre o Tempo, é ao mesmo tempo filósofo e teólogo, nada fácil de assimilar e compreender nos seus raciocínios e deduções. Para ele o Tempo é qualquer coisa de características imponderáveis, incompreensíveis, que se fosse uma divindade não seria equiparável a Deus só porque Deus é anterior a todos os tempos, e o Tempo era a coisa que Ele próprio fazia quando a terra era massa vazia e informe. Mesmo sem atingirmos as lucubrações de Santo Agostinho, ficamos a saber que o Tempo, mesmo sem ser uma divindade, merece a nossa veneração e respeito, mesmo como simples sucessão de instantes separados, minutos, horas, etc. que se escoam com proveito ou sem proveito na nossa vida. Esta definição de tempo como sucessão de instantes é demasiado simplista ou ingénua que não satisfaz ninguém, muito menos a Filosofia e a Teologia. O problema permanece insolúvel já desde os filósofos da Antiguidade, que, segundo parece, chegaram a consultar a Esfinge, a qual nada lhes respondeu, talvez por ser ela o próprio Tempo feito estátua de silêncio. O tempo não se deixa agarrar e, pelo contrário, tal como a lendária esfinge, parece devorar todas as teorias a seu respeito, porque nenhuma delas o sabe explicar.

Com o desenrolar do tempo, desenrolam os acontecimentos e se observa a deterioração e envelhecimento das coisas e dos seres vivos. É coisa em que, mesmo sem termos lido Santo Agostinho, sem teologias ou filosofias, devemos reparar para lhe dar o devido valor. Será um factor de felicidade ou de infelicidade conforme o uso que lhe dermos.

Podemos matar o tempo, perder tempo se deixarmos que ele deslize como água por um esgoto com grande prejuízo na vida; mas podemos tirar dele grande proveito se em tudo chegarmos a tempo e horas, se soubermos bem aplicar os tempos livres, se sempre chegarmos a tempo, se soubermos dar tempo ao tempo para fazermos as coisas a seu tempo e nunca antes do tempo.

É uma riqueza que Deus nos dá de graça mas difícil de administrar. E, todavia, dele nos virá a pedir contas pelo uso que lhe dermos. É o sentido deste soneto, que vejo atribuído a um certo Frei Castelo Branco, século XVII, pessoa acerca de quem nada pude colher nas minhas enciclopédias 

 

              

                                                                   

 

Deus nos pede do tempo estreita conta!                

Para fazer, a tempo, a minha conta,                        

Dado me foi por conta muito tempo.                     

Mas não cuidei do tempo e foi-se a conta              

                                                                   

 

É forçoso dar conta a Deus do tempo

Eis-me agora sem conta, eis-me sem tempo!

Mas como dar, sem tempo, tanta conta

Se se perde sem conta tanto tempo?

                                                                

 

Ó vós que tendes tempo e tendes conta,             

Não o gasteis, sem conta, em passa-tempo.        

Cuidai, enquanto é tempo, em terdes conta.       

 

Ah! Se quem isto conta do seu tempo

Tivesse feito a tempo, apreço e conta

Não chorava sem conta o não ter tempo

 

Vê-se aqui um lamento de alguém que nesciamente não aproveitou o tempo. É o que sucede com quase todos nós, principalmente na juventude. Muito mais tarde, notam-se os efeitos na falta de preparação para enfrentar a vida, pelo estudo, pelo desporto –  tempo gasto inutilmente em dissipações,  companhias nada recomendáveis, divertimentos  fúteis, às vezes com deterioração da saúde.  Um dia em que procure uma saída de vida, chega a qualquer lugar mesmo a tempo de não fazer nada. E, então, é demasiado tarde. Já não há possibilidades de recuperar o tempo perdido. Não se pode malbaratar ou desprezar o tempo.

O homem é o único ser a ter noção ou consciência de que existe o tempo. Assim, o tempo desliza no irracional; o homem desliza no tempo e o tempo desliza nele: “o tempo é a escola em que aprendemos, o tempo é o fogo em que ardemos”.

Numa meditação sobre o Tempo, o que menos importa é o tempo atmosférico, mas também ele pode ser causa ou pretexto de o aproveitarmos bem ou mal.

A própria Bíblia nos adverte que nos convém gerir bem o tempo, e, então, diz:” há uma hora para nascer e uma hora para morrer; uma hora para semear e uma hora para colher; uma hora para construir e uma hora para demolir; uma hora para rir e outra hora para chorar; uma hora para falar e outra hora para calar”  (Eclesiastes 3, 1-8) . Quer-se dizer que tudo, pela própria natureza das coisas, tem o seu tempo próprio. Assim, uma grande sabedoria da vida é aproveitar o tempo de tal maneira que tudo nos ocorra na hora própria: há um tempo para descansar e um tempo para trabalhar; há um tempo para rezar e um tempo para divertir; há um tempo para estudar e um tempo para namorar; um tempo para dizer sim e uma tempo para dizer não. 

 

 

 LAURENTINO SABROSA   -   Economista, Senhora da Hora, Portugal

 



publicado por solpaz às 18:26
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CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - BLECAUTE

 

 

            A gente só percebe a falta de algumas coisas quando de fato elas faltam. Com os fósforos, por exemplo, é assim. Como ninguém em casa fuma, bem como o fogão é elétrico, em algum momento, que já nem me lembro quando, deixamos de ter fósforos disponíveis.

            Vira e mexe, embora morando em uma das maiores cidades do mundo, ficamos sem luz. Ou é a chuva, ou uma árvore ou sei lá eu mais o quê, mas por vezes ficamos no escuro. Nas primeiras vezes, sem velas ou sem fósforos, ou sem ambos, a coisa ficou feia. Simplesmente tínhamos que nos resignar e ficar no sofá, esperando pela Luzzzzzzz...

            Lanternas compradas, pensamos que o problema estava resolvido. Ao menos não ficamos no breu total. Na hora em que a luz acabou uma vez mais, percebemos que os fósforos ou um isqueiro eram igualmente necessários, pois sem eles não conseguíamos fazer o fogão funcionar e tínhamos que nos virar com comida crua e/ou gelada. Nesses momentos, anotamos a extrema precisão de fósforos. O problema é que, no dia seguinte, ou assim que a luz retorna, simplesmente nos esquecemos disso.

            Daí que hoje pela manhã, ao invés de levantar assim que o despertador tocou, resolvemos dormir um pouco mais. Infelizmente, tivermos uma noite insone, a segunda na mesma semana e, por isso, foi bem convidativa a idéia de permanecer com Morpheu por mais um tempo. Quando nos preparávamos para acordar, ouvimos uma explosão e, logo em seguida, constatamos, com pesar, que a luz acabara. Algo explodira nas redondezas...

            Toda preguiça será castigada! Fósforos!!! Ai, outra vez tínhamos esquecido deles... Resultado: nada de café da manhã. O que adianta, pensei, ter torradeira e cafeteira elétricas? Tivemos que nos contentar com um pedaço de bolo e iogurte. Sem televisão para conferir as notícias matinais, servimo-nos do jornal, certos de que, até a hora do banho, a dita cuja iria dar o ar da graça.

            Na rua, as vizinhas já estavam na calçada, reclamando. Uma delas, uma senhora idosa, gritava que a culpa era de uma árvore que fica a mais de 50 metros de onde a explosão aconteceu. “São esses galhos, essas folhas!” Já de início azedei o meu humor, pois a pobre da árvore, uma das poucas que não foram cortadas na rua, é refúgio de pássaros e dá uma sombra abençoada. Que raio de culpa ela tinha? Fiquei pensando em que ponto as pessoas se dissociaram tanto da natureza... Para não falar bobagem para “entendida em eletricidade”, voltei para a leitura do jornal.

            Em certa altura, constatei o quanto somos dependentes da eletricidade. Nada, absolutamente nada, em casa, funcionava. Eu queria adiantar serviços domésticos, mas a lavadora de roupas, a secadora e a lava-louças estavam mudas, sem reação. Conferi os aquários, para ver se os pobrezinhos dos meus peixes ainda estavam se agüentando ou se eu teria que fazer respiração boca a boca.

            Depois de três longas e primitivas horas sem eletricidade, já começávamos a pensar em alternativas para o banho. Por quanto tempo eu agüentaria, em um dia frio, tomar um banho eficaz? Nem dava para esquentar um pouco de água. Malditos fósforos!

            Prometi a mim mesma que, na próxima compra, ou, se fosse o caso, ainda hoje, eu sairia para comprar fósforos. Pilhas deles! Nunca mais ficaria nesse mato sem cachorro, ou melhor, sem fogo! Quando a luz voltou, cinco horas depois, comecei a ligar tudo e dei graças a Deus à modernidade. Tomei um banho quente, delicioso e quando saí de casa, fiquei com a estranha sensação de que eu tinha que me lembrar de providenciar alguma coisa... Ah, deixa pra lá...

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA- Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo



publicado por solpaz às 18:21
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EUCLIDES CAVACO - PERFEIÇÃO
Com desejos dum bom dia
para todos os meus amigos especiais aqui vos deixo este poema :
PERFEIÇÃO
correndo o risco de provavelmente alguém discordar com a esta versão poética
este poema é de facto a transparência da minha filosofia sobre este controverso tema.
Respeitarei as observações e comentários que alguém deseje partilhar.
Veja o poema Perfeição aqui neste link:
http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Perfeicao/Index.htm
Euclides Cavaco
cavaco@sympatico.ca


publicado por solpaz às 18:04
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JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI e ALEXANDRE BARROS CASTRO - DIA DE FINADOS

                        

 

 

 

                Morte, “a morada na qual se entra sem levar nada deste mundo, exceto o que se traz no coração” (Frei Beto)

 

         

 

Princípios como igualdade, fraternidade e liberdade dão lugar ao individualismo de uma cultura de sensações em que o ser humano perde sua identidade e na qual a morte está sendo abolida de nossas vidas. Ao aproximarmos do Dia de Finados, lembrando de nossa transitoriedade neste mundo, procuremos resgatar os verdadeiros valores do humanismo, evitando vulgarizar a morte, pois a sua banalização impossibilita que nos confrontemos com o limite de nossa permanência na Terra.

 

 

 

                “Ando um pouco de banda/ é que carrego meus mortos comigo” (Carlos Drummond de Andrade). Terça feira é comemorado o Dia de Todos os Santos e quarta, Finados. Essa segunda celebração, como ressaltou o grande poeta, deveria motivar uma natural reverência aos entes queridos já ingressados no reino onde se findam todos os mistérios. Ela também pode despertar à reflexão sobre a nossa transitoriedade neste mundo – pensamento muitas vezes desagradável e que preferimos deixar de lado. No entanto, a grande verdade é que a morte faz parte da vida. Segundo o biólogo José Mariano Amabis, do Departamento de Biologia do Instituto de Biociências das Universidades de São Paulo, “a morte é uma das maiores invenções que ocorreram no Universo. Sem ela, não teríamos vida. Esse é o princípio básico. Todos os seres vivos, para se manter, para, evoluir, para se modificar, precisam morrer. Os indivíduos morrem, mas a vida continua”.

 

                        Na atualidade, o que se observa infelizmente, é uma manifesta tendência de sua vulgarização e de inversão de padrões e preceitos, predominando um clima de indiferença e de relações individuais, onde os sujeitos passam a tratar os próximos como objetos. A máxima “rei morto, rei posto” vem se acentuado a cada dia e a preocupação básica das pessoas se volta exclusivamente aos interesses de ordem política, social ou financeira. Ignoram quase que totalmente a questão da efemeridade – um descaso injustificável, já que ela é absolutamente certa, embora insistamos em nos despistar dessa certeza. A solidez dessa concepção foi captada pelo consagrado poeta Jorge Luís Borges: “Há um verso de Verlaine, que nunca voltarei a recordar./ Há uma rua, próxima, que está vedada aos meus passos./ Há um espelho, que refletiu minha imagem pela última vez./ Há uma porta, que fechei até o fim do mundo./ Entre os livros de minha biblioteca (eu os vejo)./ Há alguns, que jamais abrirei de novo;/ Neste verão farei cinqüenta anos/ A morte me desgasta incessante...”.

 

                        Em entrevista ao jornal “O Globo”, o psicanalista carioca Jurandir Freire Costa, professor de Medicina Social da UERJ, afirmou que “os ideais democráticos da Revolução Francesa, que defendiam os conceitos de liberdade, fraternidade e igualdade, ideais que uniam o coletivo, estão sendo varridos para dar lugar ao individualismo de uma cultura de sensações, na qual a morte está sendo abolida de nossas vidas” (Cad. B – pág. 1 – 24/1/99). E prossegue o médico: “Se de fato existe uma ocultação da morte enquanto limite do eu, da consciência, compensamos isso por aquilo que pode ser chamado de banalização da morte. Ela é apresentada e velada, exposta e oculta”. Ou seja, somos expostos à morte todos os dias das formas drásticas, mais violentas, através da mídia e de nossos entorno, mas ao mesmo tempo, esse processo de banalização permite que não nos confrontemos com o limite de nossa permanência na Terra. A morte é sempre a dos outros, ela fica longe da nossa realidade, nos bastidores. Isso tudo, segundo Jurandir, é resultado do “domínio e predomínio” do econômico e material em nossas vidas, em detrimento dos valores éticos, morais e espirituais.

 

                        Precisamos constantemente rever as posições assumidas diante do período de convivência terrestre e resgatar a ameaçada estrutura humanista. A efetivação deste último objetivo inclui a busca do bem comum, no pleno respeito à dignidade humana e na garantia dos direitos que daí decorre. A morte realmente é uma circunstância normal do ciclo da vida, que não devemos temer, ao contrário, necessitamos acolhê-la com serenidade, requerendo-se para tanto, empenho no progresso de conversão pessoal e no testemunho de realizações fraternas e solidárias. E não adianta recusarmos a sua ocorrência, nem tentar desmistificá-la, pois a nossa passagem por este planeta é breve e exata. Nessa trilha e a título de meditação, transcrevemos aqui novamente, um texto do escritor Frei Beto: “A vida é o dom maior de Deus. Ninguém escolhe quando, onde e como fazer. É a loteria biológica. Injusto é uns nascerem em condições dignas de viver e outros, não. E isso não é culpa de Deus. É o resultado de nosso apego, de nossa ganância e, sobretudo, de nossa falta de memória de que dentro de poucos anos, seremos também lembrados no Dia dos Mortos – que habitam a morada na qual se entra sem levar nada deste mundo, exceto o que se traz no coração” (O Estado de São Paulo –  1/11/95 – pág. 2).

 

 

 

                (Extraído do livro “O Estado e o Cidadão, Um exercício da cidadania” de João Carlos José Martinelli e Alexandre Barros Castro – Ed. Litearte- 2002-  ps. 176/178)

 



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JOÃO BOSCO LEAL - A EVOLUÇÃO E A SAÚDE HUMANA

            

 

Em meados da década de 60, menos de 50 anos atrás, costumava passar as férias escolares em uma propriedade rural, onde sequer a energia elétrica existia. As geladeiras, para os que na época possuíam esse conforto no meio rural, assim como os lampiões para iluminação, funcionavam a querosene ou, quando já mais modernas, a gás.

As parteiras ainda eram muito comuns em toda a região e raramente uma mulher era levada para que seu parto fosse realizado em um hospital. Doenças mais comuns e até pessoas picadas por cobras, muitas vezes eram tratadas por benzedores, trazidos de distâncias até maiores de onde existiria um médico, tamanha era a fé de muitos em sua capacidade de cura.

Crianças nuas e descalças brincavam no quintal de terra das casas puxando um barbante que na outra extremidade transpassava uma lata de massa de tomate vazia que rolava, como se fosse um carrinho, ou correndo com um velho cabo de vassoura entre as pernas, seguro em uma das pontas por dois fios de barbante imitando rédeas, como se montado em um cavalo e as espigas de milho retiradas do pé ainda pequenas, na fase em que na ponta possuem uns fiapos, como fios de cabelo, eram as bonecas.

Ao seu lado, galinhas e porcos soltos cruzavam o esgoto que corria a céu aberto, buscando restos de comida e eram tocados pelos cães quando tentavam roubar alimentos depositados nas varandas das casas onde, em um gancho feito com a canela seca de um veado, também estava pendurado todo o equipamento de montaria dos trabalhadores, que raramente possuíam uma geladeira ou sequer um lampião a gás, utilizavam lamparinas a querosene e mantinham a carne salgada, o charque, ou frita e armazenada em pedaços, imersa em banha suína, em latas de 20 litros fabricadas especificamente para esse fim.

Todas essas cenas eram muito comuns no interior do Estado de São Paulo, o mais desenvolvido do país, possibilitando imaginarmos como seria a vida nas regiões mais distantes, menos desenvolvidas. Mesmo assim, muitas pessoas com mais de 30, 40 anos, que nunca haviam ido a um consultório médico ou odontológico e haviam sido criadas em condições de higiene ainda piores daquelas vividas por seus filhos, possuíam a dentição perfeita, com lindos sorrisos, sem nunca ter tido uma só cárie ou qualquer outro tipo de doença.

Atualmente as crianças são superprotegidas, passam o dia diante da televisão ou de jogos eletrônicos, e mesmo os que praticam algum tipo de esporte se exercitam muito menos que seus antepassados. Como não andam descalças e possuem raríssimos contatos com a natureza ou animais domésticos, como tiveram seus pais e avós, elas não são expostas a vírus e bactérias comuns no meio ambiente, dificultando a criação natural de diversos anticorpos em seu organismo.

A agressão física que sofremos pelo uso das novas tecnologias, necessárias para a produção de alimentos suficientes para alimentar os bilhões de pessoas que hoje habitam nosso planeta, está nos tornando seres muito mais frágeis, suscetíveis a diversas doenças causadas principalmente pelos novos tipos de alimentação e a inatividade física.

Ao despertar escovamos os dentes com uma pasta repleta de produtos químicos; tomamos café produzido com muitos agrotóxicos; inseticidas são aplicados quase que diariamente na produção de hortaliças, frutas e verduras; antibióticos são usados em larga escala na produção de aves e suínos; a água que bebemos contém flúor e outros produtos para purificá-la e equilibrar seu PH, enquanto as fábricas despejam milhares de carros, caminhões e motocicletas diariamente nas ruas, aumentando exponencialmente a emissão de gases poluentes na atmosfera.

Com o conhecimento gerado pelas pesquisas realizadas nos últimos cinquenta anos, surgiram novas drogas, vacinas, exames preventivos, equipamentos hospitalares e tantas outras possibilidades que a média de vida do brasileiro quase que dobrou no período.

Enquanto a evolução científica prorroga a expectativa de vida e nos proporciona maiores confortos, os veículos mais acessíveis a todos, a diminuição dos trabalhos braçais, a consequente falta de exercícios físicos e os alimentos industrializados, nos tomam a saúde.

 

 JOÃO BOSCO LEAL, é articulista político, produtor rural e palestrante sobre assuntos ligados ao agronegócio e conflitos agrários.

Campo Grande, Brasil



publicado por solpaz às 17:31
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