Blogue luso-brasileiro
Segunda-feira, 28 de Março de 2016
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - FORA DOS PALCOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 
Escrevo em meio à turbulência pela qual passa nosso país com problemas políticos, econômicos, sociais e com máscaras que se rompem. Observo a fala inflamada dos críticos de inúmeras vertentes e procuro encontrar parecer sem paixão.
Vem-me um fato atual. A senhora saiu da tribo há meio século, aos 17 anos, iludida por um branco que, ao saber do filho a caminho, desapareceu. No outro relacionamento, em busca de sobrevivência, o homem transbordava aguardente. Criou os filhos com a força de seus braços e, um pouco mais tarde, os netos também. Feijão com arroz não faltaram, embora algumas vezes chegassem com atraso, mas não obteve terra para se fixar, atendimento de saúde com respeito, escola que lhe ensinasse a preencher os “campos” necessários em uma ficha para este ou aquele atendimento.
Resiste por olhares de misericórdia com ações concretas. Habita espaços que não lhe pertencem.
Atualmente são dois: ela e o neto de cinco anos com febre reumática. A Benzetacil, que necessita ser aplicada de 21 em 21 dias, fica a três ônibus urbanos de distância. Comove-se na dor do menino, que se locomove com dificuldade no retorno e nos dias subsequentes. Procura acertar uma refeição, com seu parco vencimento, que recupere a cor e o corpo de antes, que a doença murchou. O especialista está marcado para 38 dias após sair do hospital. E a incomoda também a demora e a irritação de alguns funcionários, quando é preciso um serviço de emergência ou uma orientação. Ignoram suas dificuldades pela falta de acesso a tantos bens. É a indígena espoliada na cidade grande. É a pobre, com seus rebentos, empurrada para as periferias. É um retrato das margens.
Enquanto isso, alguns se agridem para ter ou manter o poder.  Recordo-me do livro “Sobre Demônios e Pecados” – Editora Verus – de Rubem Alves. Diz ele: “Para o arrogante, o mundo é um palco, todas as pessoas são admiradores e ele é o centro do espetáculo. (...) O arrogante está possuído pela vaidade”. E sobre a avareza: “Aí o demônio lança mão do mais profundo desejo que existe na alma humana: o poder. (...) Quem é movido pela avareza não tem olho nem coração para sentir o sofrimento dos outros, porque estes lhe são apenas um valor econômico”.
Como precisamos de líderes realmente a serviço, que não subam aos palcos e garantam uma vida com dignidade aos empobrecidos.

 

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE   -   Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.
 



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JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI - EDUCAÇÃO, MAIOR ARMA CONTRA O PRECONCEITO RACIAL.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

         Comemorou-se em 21 de março o DIA INTERNACIONAL CONTRA A DISCRIMINAÇÃO RACIAL, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1969, nove anos após o denominado Massacre de Sharperville, cidade próxima a Johannesburg, na África do Sul e que vitimou quase 250 pessoas participantes de uma manifestação contra a Lei do Passe que exigia da população negra, a exibição de cartões de identificação, contendo os locais onde podiam circular. Embora o movimento fosse pacífico, o exército não hesitou em utilizar armas para conter a população negra que saiu às ruas reivindicando seus direitos, o que causou um saldo de sessenta e nove mortos e aproximadamente cento e oitenta feridos.

            Trata-se de uma data muito importante, reveladora de algumas das faces cruéis do racismo, que não hesita em atirar em pessoas indefesas. Infelizmente, decorridos 47 anos, ainda vivemos num mundo onde as diferenças de raça, cultura, crenças, sexo ou condições sociais são motivos para discriminação, marginalização, lutas e preconceitos. Há perseguições e desrespeito contra ideias, comportamentos e povos. Atrás disso, está grande e injustificada prepotência de seres humanos que se julgam superiores a outros.  Recentemente o jogador Neimar do Barcelona foi alvo de reações insensatas de torcedores durante jogo pelo Campeonato Espanhol.

            Evidencia-se por isso, que promover a igualdade é de extrema importância para o desenvolvimento social e econômico de um país, principalmente o Brasil, no qual há “o preconceito de se negar o preconceito”, mas ele continua forte e revela constantemente suas mazelas. A educação é a melhor arma, já que sem ela, a mobilidade social estará emperrada e a própria sociedade permanecerá refém de suas limitações, de suas desigualdades e de suas distinções. Mais do que nunca, é preciso combater veementemente todas as formas de intolerância e exclusão social, constituindo-se tal premissa num compromisso não só do governo, mas de toda a população em geral.

Há um preceito que diz todos são iguais perante a lei, inexistindo qualquer fundamento ou comprovação científica que justifique a aversão contra algumas pessoas, a não ser uma concepção falsa com opiniões sem lógica, fruto da ignorância daqueles que discriminam. No dia em que cada um souber respeitar o próximo, não haverá lugar para tais manifestações, que anulam totalmente a dignidade e pelo qual sentimentos são aniquilados, impedindo a viabilização da cidadania, já que é imprescindível proscrever o arbítrio para garanti-la integralmente.

 

            DIA MUNDIAL DA JUVENTUDE

 

No dia 30 de março comemora-se o Dia Mundial da Juventude, celebração  criada pelo Papa João Paulo II em 1985 e que com o passar do tempo, foi absorvida por outras crenças e religiões, tornando-se um pretexto para uma programação especial com atividades que destaquem a situação dos jovens. Em nosso país, por exemplo, enfrentam questões bastante difíceis em termos de formação educacional e técnica. Apesar do grande número de escolas e faculdades, a queda do nível do ensino público provocou uma grande ausência de senso crítico e muitos deles são bastante alienados e massificados, aceitando imposições de um consumismo desenfreado. Mesmo assim, há os que fazem a diferença para a superação de crises e até mesmo para deixar a sociedade mais expressiva, apresentando as marcas da rebeldia sadia e da vontade de fazer a diferença para acabar com a intolerância do mundo.

Mas não podemos perder de vista que a juventude é apenas um período da vida, pois deve ser encarada como um estado de espírito, um efeito da vontade, uma qualidade da imaginação, uma intensidade emotiva, uma vitória da coragem sobre a timidez, do gosto da aventura sobre o amor ao comodismo. Na realidade, não se envelhece por haver vivido certo número de anos; fica-se velho quando se abandona seu ideal.

                       

 

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é  advogado, jornalista, escritor e professor universitário. É presidente da Academia Jundiaiense de Letras (martinelliadv@hotmail.com).

 

 



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ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - D. PEDRO I: UM CASO DE AMOR E ÓDIO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No dia 7 de abril de 1831, o Imperador D. Pedro I, fortemente pressionado por manifestações de descontentamento em relação a sua pessoa e a seu governo, abdicou da Coroa em favor de seu filho D. Pedro, que era menino de 5 anos de idade. Teve início, então, o período da Regência, que por falta de uma autoridade mais efetiva e de prestígio moral e simbólico, fez o país mergulhar numa situação conturbada em que perigou seriamente até mesmo a unidade nacional.

Existe um consenso, entre os historiadores do período, em considerar o governo de D. Pedro I, como excessivamente autoritário, quase despótico. Na verdade, o Primeiro Reinado vivenciou duas fases bem distintas, no que diz respeito à popularidade de D. Pedro. Na primeira, ele foi, literalmente, idolatrado; na segunda, passou a ser criticado, depois rejeitado, por fim quase odiado. Como explicar isso?

Vou tentar responder essa questão abordando-a por dois aspectos diferentes, ambos psicológicos. Um, de psicologia coletiva, outro, de psicologia individual. Começo pelo coletivo.

Tive ocasião de participar em Salvador, em 2008, de uma jornada de conferências sobre o segundo centenário da vinda para o Brasil da Família Real portuguesa. As sessões foram realizadas na sede da Faculdade Dois de Julho – instituição que constituía o germe de uma futura Universidade Metodista da Bahia. No período da tarde, depois de ter falado o Cônsul de Portugal, Dr. João Sabido Costa, fiz eu a minha palestra e, logo a seguir, tivemos todos o gosto de assistir a uma bela conferência do Prof. Ubiratan Castro de Araújo, natural da Bahia, negro retinto e doutor em História pela Sorbonne (com tese orientada pela Profa. Kátia Mattoso), sobre a breve passagem do Príncipe Regente D. João por Salvador, quando veio de Portugal para o Brasil e antes de se estabelecer no Rio de Janeiro.

O conferencista, que infelizmente iria falecer alguns meses depois, destacou que a presença da Família Real despertou nos baianos um entusiasmo indescritível, pois, além de todo o imaginário próprio da "liturgia" monárquica (ao qual, por temperamento, são muito afeitos os baianos), despertou também esperanças de que, cativado pelo charme peculiar da Bahia, D. João se resolvesse a fixar ali sua Corte, de modo que Salvador recuperasse a histórica posição de primazia que Pombal transferira para o Rio de Janeiro.

Foi, como acentuou o professor, um caso de amor, um caso de paixão intensa à primeira vista. A Bahia literalmente apaixonou-se pela Família Real e, de modo muito particular, pelo Príncipe Regente. E decepcionou-se profundamente por não ter seu amor correspondido, ou pelo menos correspondido na medida que desejava. O fato de D. João ter optado pelo Rio de Janeiro para sede da Corte magoou, também profundamente, a Bahia. E o amor intenso, infeccionado por ciúmes, transformou-se num ressentimento que adquiriu características vingativas. O republicanismo da Bahia, segundo o professor, teve raízes num amor intenso transmutado em ressentimento vingativo.

Não concordo inteiramente com o Prof. Ubiratan nesse particular de ser a Bahia especialmente republicana, pois durante todo o segundo reinado ela sempre foi fiel ao imperador e, em 1889, foi a última província a aderir à república. Não creio, por isso, que se possa falar da Bahia como tradicionalmente republicana. Mas, de qualquer modo, essa transmutação psicológica do amor em ressentimento, e ressentimento vingativo e explosivo, é útil para entendermos o que se passou com D. Pedro I, no Brasil.

O primeiro dos brasileiros, o fundador da nacionalidade, o ídolo inconteste do Brasil inteiro, o depositário das melhores esperanças da nova pátria, transformou-se de repente no "português", no "estrangeiro", antipatizado e pouco simpático. Sou levado a achar que, além das explicações políticas que por certo são muito reais, também se passou com D. Pedro I um fato psicológico análogo ao exposto pelo brilhante professor baiano.

Em outras palavras, D. Pedro I foi detestado precisamente na medida do amor intenso que antes despertara. A decepção que produziu era tão imensa quanto as esperanças que antes despertara. É para esse fator psicológico coletivo que eu gostaria de chamar a atenção dos leitores, sem desprezar, é claro, outros fatores que intercorreram. Continuarei no próximo artigo.

 

 

 

  ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.                   

 

 



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CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - EU USO ÓCULOS!!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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            Embora eu soubesse que esse dia chegaria, confesso que não estava exatamente preparada para ele. Aliás, o fato de algo ser inevitável nem de longe significa que seja fácil de digerir ou de aceitar. Cresci com muitos primos e amigos usando óculos desde tenra idade e nunca achei que esse objeto fosse feio ou que deixasse o seu usuário estranho. Sempre me pareceu, ao contrário, algo muito normal. Só que não era no meu rosto que ele se encontrava e isso, agora vejo, acabou fazendo diferença.

            O tempo passou e mesmo quando completei quarenta anos meus olhos se mantinham cumprindo com eficácia e louvor a função para a qual foram programados. Consultei um oftalmologista e ele me disse que, por ora eu estava a salvo, mas que, provavelmente, em um ou dois anos, eu sofresse do famoso “encurtamento dos braços”, mal do qual ninguém, de um jeito ou de outro, consegue se livrar. Saí de lá feliz da vida, com meus olhos de águia, grata por não ter que carregar mais uma coisa comigo. Além de tudo, dois anos iriam demorar e, depois disso, eu veria como as coisas ficariam. Lidar com o futuro é sempre muito mais fácil...

            Só que eu fechei os olhos e o futuro virou o presente. Nem sei onde esses dois anos foram parar. Comecei, certo dia, a perceber que estava difícil ler bulas e letras muito pequenas. Acabei me iludindo, crendo que eu estava tão somente cansada, mas, quando a coisa foi ficando um pouco mais feia, eu soube que minha hora havia chegado. Marquei novamente o médico de olhos e lá fui eu receber o veredicto: “_ Você está com início de presbiopia, os célebres ‘braços curtos’ e vamos fazer óculos para leitura.” E de longe, doutor? “Ah, para longe, olhos de águia ainda e creio que prosseguirão assim até o fim de sua vida.” Sorte das águias que elas não leem, pensei eu...

            Já um pouco resignada, fui até uma ótica e escolhi os óculos que menos me deixavam com cara de mais velha, pois para isso já conto com alguns fatores da natureza, e, no fim das contas, até gostei da minha escolha e, alguns dias depois, lá fui eu buscar o dito cujo. Foi aí que minha alegria descambou. A parte estética não me incomoda, em verdade, nem um pouco, até porque eu já tenho hábito de usar óculos de sol o tempo todo e já me acostumei a tê-los no rosto. O que tem me deixado louca é usar óculos que servem para olhar para perto, mas que me deixam zonza se, inadvertidamente, olho para longe!

            É um tal de tira óculos, coloca óculos que tudo que consegui, além de perceber que de fato as letras estão muito mais claras (e visíveis) com eles, foi uma imensa dor de cabeça. Segundo o médico, eu apenas devo coloca-los para leitura e evitar olhar para longe. Supeerr simples. Tentei a estratégia de fechar os olhos sempre antes de olhar para outro lugar, antes que eu me esquecesse de tirar os óculos, mas depois de uma canelada na mesa eu percebi que não era a coisa mais inteligente a fazer.

            Lembrei-me, inevitavelmente, nesses dias, daquela música dos Paralamas do Sucesso e dei graças por não me importar com as “meninas do Leblon”, tampouco se alguém olha para mim. Ao contrário, minha preocupação é olhar para as pessoas, caso eu esteja com meus óculos de não olhar para longe. Pois é, o tempo chega para todos e caminho para o tempo do Condor, um primo distante da Águia, rs...

            Nessa Páscoa, momento de reflexão sobre renascimento, eu me reinvento também, aprendendo a lidar com algumas limitações que o tempo impõe, mas, brincadeiras à parte, grata por poder continuar por aqui, fazendo parte de tudo isso, podendo rir de mim mesma. Excelente Páscoa a todos e que sejamos aptos a vermos a vida sempre com novos olhos, ou novos óculos, como for possível...

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.  -  cinthyanvs@gmail.com



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VALQUIRIA GESQUI MALAGOLI - O QUE OS OLHOS NÃO VEEM

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dimitri admirava a paisagem pela janela. Eu lhe confidenciava coisas que não se diz aos filhos: esse mundão aí fora não é bonito!

Prejulgamentos à parte, nada de pessimismo. Este e seu justo oposto otimismo referem-se a perspectivas, como a que Dimitri e eu tínhamos além da vidraça.

Fato é o além-perspectiva, isso sim. Aí, a questão é mais embaixo. Não porque nos encontrávamos alguns andares acima da grande avenida que víamos, não.

É que a tal questão é a tal realidade.

Essa aí que, à vista grossa dos iludidos, autointitulados otimistas e confundidos com eles, parece depender única e exclusivamente de cada criatura.

A seu respeito mente-se. Iludem-nos. Ilude-se, espalhando a semente de que será colhida, conforme a plantarmos, como se outras terras não houvesse, nem terrenos vizinhos, nem fenômenos extra-território-do-umbigo.

A realidade não se importa se você: escolheu observar a vida sob óculos de lentes cor-de-rosa; optou por desfilar à falsa luz da alienação que desobriga do que excede a própria sombra, à margem desse filete de olhar embasbacado com a periferia mágica do ensimesmamento, confortável com a ideia de que o sagrado está tão enraizado em si que lhe é todo pertencimento.

Falta-nos imaginação!

Imagem e ação. Imaginar com a alma a fim de agir conforme sua sugestão às cenas realíssimas cuja realidade urgente os olhos renegam; para se tocar de que esse pertencimento já deu! Já virou recusa.

Quem aí não gostaria de, soltando os filhos, observá-los migrarem em busca de seus sonhos?

Acontece que a gente acaba se flagrando temeroso, mesmo com esperança (leia-se otimista apesar dos contras), protegendo-os mesmo quando os deixa livres. Protegendo-os em pensamento e orações pelo que, em suma, é também nossa culpa, nossa tão grande culpa.

E a gente por eles reaprende a sonhar. Sonhar com um lugar onde não haja ideologias, visto não haver injustiças. Sonhar com que eles vivam suas vidas sem compartilhar a cartilha do “que os olhos não veem – o coração não sente”. Sonhar que confidenciar ao manso gato seja, ao invés de realidade, somente um jeito inusitado de puxar pelo rabo o dedo de prosa.

 

 

 

 

VALQUÍRIA GESQUI MALAGOLI, escritora e poetisa,  vmalagoli@uol.com.br / www.valquiriamalagoli.com.br

 



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JOSÉ RENATO NALINI - ESCREVER E SONHAR

 

 

 

 

 

 

 

 

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Escrevo todos os dias. Há mais de sessenta anos! É o meu encontro definitivo comigo mesmo. Conforta-me, anima-me, refaz a esperança e a capacidade de sonhar.

Nem sei como agradecer devidamente à minha mãe que arrancou a primeira página do meu caderno de linguagem no primeiro ano primário, onde eu deixara rastros do uso da borracha, para que eu refizesse a redação despida de rasuras. Ela mesma que, nos meus dez anos, fez-me cursar datilografia na Escola Remington, onde D.Amélia Lima Lopes era rígida gestora do aprendizado. Meu presente de aniversário aquele ano foi a Olivetti que usei até poder comprar a IBM de esferas, ambas substituídas pelos mágicos computadores.

Tenho a certeza de pensar melhor ao digitar do que ao me exprimir verbalmente. Acompanhar a formação das palavras, das frases, do texto que vai tomando forma à medida em que se dedilha o teclado é uma das melhores sensações existenciais que se pode experimentar. Nunca tive dificuldade em escrever. Sem modéstia, bom datilógrafo, melhor digitador.

Comecei a refletir sobre o ofício de escrever ao ler o artigo “Eterna lição de casa”, de Joca Reiners Terron (FSP 7.2.16, p.C8). Partilho da opinião de Simon Leys, pseudônimo do escritor e sinólogo belga Pierre Ryckmans (1935-2014), de que escrever me converte num “scholé”, verbete grego para designar “a condição de um indivíduo que é dono de si, que tem livre disposição de si”. Muito ao contrário da postura de quem vê a escrita como castigo: “Escrever é ser condenado a fazer lição de casa por toda a eternidade”.

As palavras são facilmente capturadas, surgem espontaneamente na consciência e saem aos jorros. Muitas vezes, sem prévia censura, o que já foi intuído por Marguerite Duras, a belga de “Memórias de Adriano”: “escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos”.

Lygia Fagundes Telles, a maior escritora brasileira, repete sempre um texto de seu amigo Drummond: “Lutar com a palavra é a luta mais vã. Mas continuamos nela, mal rompe a manhã”. Cito de memória. Mas o sentido é esse. Tirassem-me a possibilidade de escrever a cada dia, estaria sepultada a minha capacidade de sonhar. E sem sonho não se vive.

 

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 24/03/2016

 


JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.



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FELIPE AQUINO - A IMPORTÂNCIA DA OITAVA DE PÁSCOA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Após o domingo de Páscoa a Igreja vive o Tempo Pascal; são sete semanas em que celebra a presença de Jesus Cristo Ressuscitado entre os Apóstolos, dando-lhes as suas últimas instruções (At1,2). Quarenta dias depois da Ressurreição Jesus teve a sua Ascensão ao Céu, e ao final dos 49 dias enviou o Espírito Santo sobre a Igreja reunida no Cenáculo com a Virgem Maria. É o coroamento da Páscoa. O Espírito Santo dado à Igreja é o grande dom do Cristo glorioso.

 

O Tempo Pascal compreende esses cinquenta dias (em grego = “pentecostes”), vividos e celebrados “como um só dia”. Dizem as Normas Universais do Ano Litúrgico que: “os cinquenta dias entre o domingo da Ressurreição até o domingo de Pentecostes devem ser celebrados com alegria e júbilo, “como se fosse um único dia festivo”, como um grande domingo” (n. 22).

É importante não perder o caráter unitário dessas sete semanas. A primeira semana é a “oitava da Páscoa”. Ela termina com o domingo da oitava, chamado “in albis”, porque nesse dia os recém batizados tiravam as vestes brancas recebidas no dia do Batismo.

Esse é o Tempo litúrgico mais forte de todo o ano. É a Páscoa (passagem) de Cristo da morte à vida, a sua existência definitiva e gloriosa. É a Páscoa também da Igreja, seu Corpo. No dia de Pentecostes a Igreja é introduzida na “vida nova” do Reino de Deus. Daí para frente o Espírito Santo guiará e assistirá a Igreja em sua missão de salvar o mundo, até que o Senhor volte no Último Dia, a Parusia. Com a vinda do Espírito Santo à Igreja, entramos “nos últimos tempos” e a salvação está definitivamente decretada; é irreversível; as forças o inferno vencidas pelo Cristo na cruz, não são mais capazes de barrar o avanço do Reino de Deus, até que o Senhor volte na Parusia.

A Igreja logo nos primórdios começou a celebrar as sete semanas do Tempo Pascal, para “prolongar a alegria da Ressurreição” até a grande festa de Pentecostes. É um tempo de prolongada alegria espiritual. Esse tempo deve ser vivido na expectativa da vinda do Espírito Santo; deve ser o tempo de um longo Cenáculo de oração confiante.

Nestes cinquenta dias de Tempo Pascal, e, de modo especial na Oitava da Páscoa, o Círio Pascal é aceso em todas as celebrações, até o domingo de Pentecostes. Ele simboliza o Cristo ressuscitado no meio da Igreja. Ele deve nos lembrar que todo medo deve ser banido porque o Senhor ressuscitado caminha conosco, mesmo no vale da morte (Sl 22). É tempo de renovar a confiança no Senhor, colocar em suas mãos a nossa vida e o nosso destino, como diz o salmista: “Confia os teus cuidados ao Senhor e Ele certamente agirá” (Salmo 35,6).

Os vários domingos do Tempo Pascal não se chamam, por exemplo, “terceiro domingo depois da Páscoa”, mas “III domingo de Páscoa”. As leituras da Palavra de Deus dos oito domingos deste Tempo na Santa Missa estão voltados para a Ressurreição. A primeira leitura é sempre dos Atos dos Apóstolos, as ações da Igreja primitiva, que no meio de perseguições anunciou o Senhor ressuscitado e o seu Reino, com destemor e alegria.

Portanto, este é um tempo de grande alegria espiritual, onde devemos viver intensamente na presença do Cristo ressuscitado que transborda sobre nós os méritos da Redenção. É um tempo especial de graças, onde a alma mais facilmente bebe nas fontes divinas. É o tempo de vencer os pecados, superar os vícios, renovar a fé e assumir com Cristo a missão de todo batizado: levar o mundo para Deus, através de Cristo. É tempo de anunciar o Cristo ressuscitado e dizer ao mundo que somente nele há salvação.

Então, a Igreja deseja que nos oito dias de Páscoa (Oitava de Páscoa) vivamos o mesmo espírito do domingo da Ressurreição, colhendo as mesmas graças. Assim, a Igreja prolonga a Páscoa, com a intenção de que “o tempo especial de graças” que significa a Páscoa, se estenda por oito dias, e o povo de Deus possa beber mais copiosamente, e por mais tempo, as graças de Deus neste tempo favorável, onde o céu beija a terra e derrama sobre elas suas Bênçãos copiosas.

Mas, só pode se beneficiar dessas graças abundantes e especiais, aqueles que têm sede, que conhecem, que acreditam, e que pedem. É uma lei de Deus, quem não pede não recebe. E só recebe quem pede com fé, esperança, confiança e humildade.

As mesmas graças e bênçãos da Páscoa se estendem até o final da Oitava. Não deixe passar esse tempo de graças em vão! Viva oito dias de Páscoa e colha todas as suas bênçãos. Não tenha pressa! Reclamamos tanto de nossas misérias, mas desprezamos tanto os salutares remédios que Deus coloca à nossa disposição tão frequentemente.

Muitas vezes somos miseráveis sentados em cima de grandes tesouros, pois perdemos a chave que podia abri-lo. É a chave da fé, que tão maternalmente a Igreja coloca todos os anos em nossas mãos. Aproveitemos esse tempo de graça para renovar nossa vida espiritual e crescer em santidade.

O Círio Pascal

O Círio Pascal estará acesso por quarenta dias nos lembrando isso. A grande vela acesa simboliza o Senhor Ressuscitado. É o símbolo mais destacado do Tempo Pascal. A palavra “círio” vem do latim “cereus”, de cera. O produto das abelhas. O círio mais importante é o que é aceso na vigília Pascal como símbolo de Cristo – Luz, e que fica sobre uma elegante coluna ou candelabro enfeitado. O Círio Pascal é já desde os primeiros séculos um dos símbolos mais expressivos da vigília, por isso ele traz uma inscrição em forma de cruz, acompanhada da data do ano e das letras Alfa e Ômega, a primeira e a última do alfabeto grego, para indicar que a Páscoa do Senhor Jesus, princípio e fim do tempo e da eternidade, nos alcança com força sempre nova no ano concreto em que vivemos. O Círio Pascal tem em sua cera incrustado cinco cravos de incenso simbolizando as cinco chagas santas e gloriosas do Senhor da Cruz.

O Círio Pascal ficará aceso em todas as celebrações durante as sete semanas do Tempo Pascal, ao lado do ambão da Palavra, até a tarde do domingo de Pentecostes. Uma vez concluído o tempo Pascal, convém que o Círio seja dignamente conservado no batistério. O Círio Pascal também é usado durante os batismos e as exéquias, quer dizer no princípio e o término da vida temporal, para simbolizar que um cristão participa da luz de Cristo ao longo de todo seu caminho terreno, como garantia de sua incorporação definitiva à Luz da vida eterna.

No Vaticano, a cera do Círio Pascal do ano anterior é usada para a confecção do “Agnus Dei” (Cordeiro de Deus), que muitos católicos usam no pescoço; é um sacramental valioso para nos proteger dos perigos desta vida, pois é feito do Círio que representa o próprio Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Ele é confeccionado de cera branca onde se imprime a figura de um cordeiro, símbolo do Cordeiro Imolado para reparar os pecados do mundo.

Esses “Agnus Dei” são mergulhados pelo Papa em água misturada com bálsamo e o óleo Sagrado Crisma. O Sumo Pontífice eleva profundas orações a Deus implorando para os fiéis que os usarem com fé, as seguintes graças: expulsar as tentações, aumentar a piedade, afastar a tibieza, os perigos de veneno e de morte súbita, livrar das insidias, preservar dos raios, tempestades, dos perigos das ondas e do fogo – impedir que qualquer força inimiga nos prejudique – ajudar as mães no nascimento das crianças.

 

 

FELIPE AQUINO Escritor católico. Prof. Doutor da Universidade de Lorena. Membro da Renovação Carismática Católica.

 

 



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PAULO R. LABEGALINI - SOMOS CRIATURAS ESPECIAIS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando eu tinha 13 anos e morava em São Paulo, comecei a frequentar um curso de datilografia no Colégio Nossa Senhora Consolata. A instrutora era a mesma que ministrou aulas ao meu tio Nenê há 20 anos! Já meio de idade e sempre sisuda, a irmã de caridade era extremamente exigente.

Lembro-me que, para concluir o curso, passávamos por 50 lições e um teste de desempenho final, quando se cronometrava o tempo para digitar um texto. Guardo na memória as dezenas de vezes que um aluno se levantava, ia mostrar a lição datilografada à irmã e voltava com uma folha em branco para refazer. Isso também aconteceu comigo e, principalmente quando elaborava alguma tabela trabalhosa, era desanimador repetir a tarefa.

Quando alguém se diplomava, ia à frente e recebia o certificado sob aplausos dos colegas. No dia em que fui receber o meu, a irmã disse algo que quase me matou de susto! Com sotaque italiano, falou mais ou menos assim: ‘O Labegalini foi o melhor aluno que passou por aqui’. E começou a chorar! Fiquei todo desconcertado, sem entender nada, pois nunca havia conversado outros assuntos com ela e muito menos poderia imaginar que se simpatizava comigo.

Também recordo que passei alguns dias encucado e contava às pessoas em busca de alguma explicação. Uns levaram na brincadeira, outros devem ter achado que menti, mas, hoje tenho a resposta: ‘Fui um aluno especial na vida daquela professora de datilografia!’. Após tantos anos de hábito, sentada numa cadeira e esperando alguém lhe apresentar a lição pronta para corrigir, percebeu que finalmente havia chegado alguém que justificou sua perseverança em ensinar.

Sei que todos têm histórias como esta para contar, afinal, quem já não cativou ou encantou alguém? Deus nos fez criaturas muito especiais! Cada um é diferente do outro e ninguém pode ser substituído em determinadas situações. É claro que me refiro às atitudes de amor, porque, no pecado, as maldades são mais fáceis de imitar.

Santo Agostinho, doutor da Igreja que morreu no ano 430, comentando sobre o capítulo 21 do Evangelho de São João, escreveu:

“O Senhor pergunta a Pedro se ele o ama, coisa que já sabia; e pergunta-o não uma vez mas duas e mesmo três. E, de cada vez, Pedro responde que o ama; e, de cada vez, Jesus lhe confia o cuidado de apascentar as suas ovelhas.

Torna-se evidente que aqueles que se ocupam das ovelhas de Cristo, com a intenção de fazer delas ovelhas suas mais do que de Cristo, têm para com elas um afeto maior do que o que experimentam para com Cristo. É o desejo da glória, do poder e do proveito que os conduz e não o amoroso desejo de obedecer, de socorrer e de agradar a Deus.

Com efeito, que significam estas palavras: ‘Amas-me? Apascenta as minhas ovelhas’? É como se dissesse: Se me amas, não te ocupes de ti mesmo mas das minhas ovelhas; olha-as não como tuas mas como minhas; nelas, procura a minha glória e não a tua, o meu poder e não o teu, os meus interesses e não os teus. Não nos preocupemos, pois, conosco mesmos; amemos o Senhor e, ocupando-nos das suas ovelhas, procuremos o interesse do Senhor sem nos inquietarmos com o nosso.”

Pois é, se fomos criados com imenso amor e somos especiais aos olhos de Deus, precisamos justificar nossa existência cumprindo fielmente a missão de irmãos em Cristo. Uma das maneiras de nos lembrarmos dessa responsabilidade é recordar o quanto somos abençoados, como relata esta história:

Sonhei que fui ao Céu e um anjo mostrava as diversas áreas lá existentes, dizendo:

– Esta é a área de embalagem e entrega. Aqui, as graças e bênçãos solicitadas são processadas e enviadas às pessoas que as pediram.

Notei que todos estavam muito ocupados, tal era a quantidade de bênçãos que deveriam ser encaminhadas.

–  Esta é a seção de reconhecimento –  falou o anfitrião, mostrando poucos anjinhos à sua frente. –  É tão triste! As pessoas recebem as bênçãos que pediram, porém quase ninguém envia confirmação de reconhecimento. Bastaria dizer: ‘Grato, Senhor!’.

–  E quais bênçãos devem ser reconhecidas? – perguntei.

–  Se tem alimento em sua geladeira, roupas no corpo e um lugar para dormir, você é mais rico que 75% dos moradores deste mundo! Se tem dinheiro no banco e algumas moedas sobrando em casa, você está entre os 8% mais bem sucedidos do planeta! Se tiver seu próprio computador, você é parte de 1% que tem essa oportunidade.

E continuou:

–  Se acordou hoje com mais saúde que doença, é mais abençoado que os muitos que nem sequer sobreviverão a este dia. Se nunca experimentou o temor da batalha, a solidão da prisão, a agonia da tortura, nem as dores de sofrimento, está à frente de 700 milhões de pessoas!

Comecei a ver como eu sou abençoado, mas o anjo completou:

–  Se pode ir a uma igreja sem o temor de ser preso e torturado, é invejado por mais de três bilhões de pessoas, que não podem reunir-se com outros de sua fé. Se teus pais estão vivos e casados, é uma raridade! Se pode sorrir, você é um exemplo a tantos que estão em desespero.

Então, acordei, percebi o quanto sou especial neste mundo e, imediatamente, enviei ao Departamento Divino de Reconhecimento a seguinte mensagem: ‘Obrigado, Senhor!’

 

 

 

PAULO ROBERTO LABEGALINI - Escritor católico. Vicentino de Itajubá - Minas Gerais - Brasil. Professor doutor do Instituto Federal Sul de Minas - Pouso Alegre.‘Autor do livro ‘Mensagens Infantis Educativas’ – Editora Cleofas

 

 



publicado por solpaz às 19:33
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HUMBERTO PINHO DA SILVA - QUANDO OS MÉDICOS ERAM SACERDOTES...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Recordando Pedrosa Júnior, Ferreira Leite, Rocha Paris, e Salvador Ribeiro

 

 

 

 

 

                 No início de Abril do ano de 2014, fui operado. Segundo o médico, a intervenção cirúrgica correu o melhor possível. Veio-mo dizer ao quarto do hospital, onde mal podia mexer-me de dores.

                 Para aliviar o incómodo, injectaram-me analgésicos.

                 Dias após a cirurgia, comecei a esvair-me. Uma manhã, desmaiei, tombando, desamparado, no chão.

                  Preocupado, liguei para o hospital. Declararam-me que o cirurgião não estava, e não me forneceriam – por não haver autorização, – o número de telefone, nem clínicas onde o pudesse encontrar.

                  Aflito, vendo os familiares em alvoroço, telefonei ao médico assistente. Escusou-se, aconselhando-me a recolher à “Urgência”

                  Ao recordar, agora, o tumultuado período pós-operatório, lembrei-me dos médicos do meu tempo de menino e moço.

                  Na maioria eram verdadeiros sacerdotes da medicina. Viviam e preocupavam-se com o bem-estar do doente, fosse a hora que fosse. Para eles a medicina não era apenas uma profissão…

                   Assim agia o Dr. Pedrosa Júnior, médico gaiense, que residia na então Avenida Marechal Carmona. Nunca desligava, à noite, o telefone, porque – assim dizia: – a consciência não lho permitia.

                    Muitas vezes, altas horas da madrugada, levantava-se, para visitar doentes, que requeriam sua presença, urgente.

                    Por vezes nem cobrava. Os honorários variavam consoante as possibilidades económicas do doente… e se houvesse problemas financeiros, que tivesse conhecimento, não pagava.

                    Foi director clínico do Hospital da Misericórdia de Gaia.

                    E quem não se recorda, com ternura, do pediatra António Ferreira Leite?

                    Nunca recusava – mesmo quando se encontrava extenuado por um dia de intenso trabalho, – visitar, pela noite dentro, doentes; e sempre levava um sorriso nos lábios e palavras reconfortantes.

                     Por vezes não cobrava a consulta. Que o digam os humildes pescadores de Afurada e numerosas famílias ciganas.

                     Interpelado por amigos e familiares, porque não retirava o auscultador do descanso, durante a noite, para poder repousar calmamente, prontamente retorquia com pontinha de censura: A obrigação do médico é estar sempre disponível a prestar assistência a quem necessita…”

                       E todas as noites o telefone tinia… e em muitas, tocava mais que uma vez…

                       Já que venho a recordar médicos de outrora, que viveram em Vila Nova de Gaia, seria imperdoável não mencionar o Dr. Rocha Paris.

                        Erguia-se muito cedo, por vezes antes do nascer do Sol, para assistir doentes sem recursos, que moravam na escarpa da Serra do Pilar ou debaixo de barcas.

                     Atravessava caminhos manhosos, despovoados e até perigosos, para visitar enfermos, que se abrigavam em toscas barracas de madeira lurada, e de velha folheta ferrugenta, que mal os defendia da chuva e ainda menos das nortadas. Deixava, muitas vezes, o dinheiro necessário para comprarem os medicamentos, quando verificava que não havia meios de aviar a receita.

                     Foi pioneiro, em Portugal, da: “Medicina no Trabalho”.

                     Seria injusto, também, não mencionar, neste meu recordar, o Dr. Salvador Ribeiro.

                    Quando realizava os “domicílios” e se inteirava que não havia recursos para adquirir medicamentos, deixava, sob a receita, o dinheiro necessário.

                     Só mais tarde é que a família teve conhecimento desse bonito gesto altruísta.

                      Eram assim muitos médicos de outrora. Viviam para a medicina e para os doentes. Chegavam a interessar-se pela situação económica dos familiares dos enfermos.

                       Assim acontecia com o Dr. Pedrosa, que chegou a ser Presidente de Câmara Municipal de Gaia.

                        Condoía-se com as carências dos doentes e dos seus problemas, não com palavras, como é uso na nossa sociedade hipócrita, mas com atitudes e acções, como bom samaritano, que era.

                        Eram assim, muitos médicos do meu tempo de criança – não todos! … -: dedicados sacerdotes da medicina.

 

 

 

HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal.

 

 

Casa do Dr. Pedrosa Junior - V. N. de Gaia - Recon

 

 

Casa do Dr. Pedrosa Junior - V. N. de Gaia - Reconstituição debuxada de memória, de Pinho da Silva

 



publicado por solpaz às 19:19
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EUCLIDES CAVACO - ALMA DE POETA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aqui deixo o meu contributo para o dia mundial da poesia que se celebra amanhã, com parabéns para todos quantos fazem das palavras POESIA e a tratam com carinho e dedicação.
Veja e ouça aqui o poema declamado neste video formatado por Gracinda Coelho ou no poema ilustrado por Mena Aur.
 


https://www.youtube.com/watch?v=78tm82F0RMQ&feature=youtu.be

http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Alma_de_Poeta/index.htm
 
 
 
 
 
Os meus desejos duma semana muito agradável
 
 
 
 
EUCLIDES CAVACO - Director da Rádio Voz da Amizade , Canadá.

 

 

 

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PINHO DA SILVA   -   MINHA VIDA COM
TERESINHA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Regresso !
 
 

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(Continua na próxima semana)

 

 

 

PINHO DA SILVA - (1915 – 1987). Nasceu a 12 de Janeiro, em Vila Nova de Gaia, (Portugal). Frequentou a Escola de Belas Artes, do Porto. Discípulo de Acácio Lino, Joaquim Lopes e do Mestre Teixeira Lopes. Primo do escultor Francisco da Silva Gouveia (autor da celebre estatueta de Eça de Queiroz). Vila-florense adotivo, por deliberação da Câmara Municipal. Redator do “Jornal do Turismo”. Membro da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Foi Secretário-geral da ACAPPublicou " Minha Vida Com Teresinha", livro autobiográfico.

 

 

***

 



publicado por solpaz às 19:17
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