Blogue luso-brasileiro
Sábado, 25 de Fevereiro de 2017
VALQUÍRIA GESQUI MALAGOLI - AMANHÃ - OUTRO DIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ser poeta não me tirou a percepção do “amanhã” enquanto dia subsequente a este.

Ao contrário, só me fez reforçá-lo. Ora... ora... não é que as dualidades são realmente ossos do referido ofício?!

E olha que eu vou acumulando promessas ouvidas, viu.

Promessas... Ditos que, por seu caráter concreto, ao serem proferidos, fazem-me compreendê-lo como tal, ou seja, para uma data prevista. Datas essas que, entretanto, por seus sequenciais adiamentos, forçam-me a buscar na memória o entendimento do termo enquanto “tempo futuro” ou “nunca”.

Sou grata, portanto, aos acontecimentos que, sendo como são, vindo como vêm, jamais me negam, pois, ser poeta. Faz-se necessário para sobreviver, forjar releituras, insólitas inclusive.

Faz-se necessário amolecer à vontade dos sentidos diante da dureza dos fatos.

Amolecer no sentido de relevar o que se revela. Amolecer no sentido de sentir. O resto é carne, e a carne – é fraca!

Revelações outras à parte, entre as observações que me saltam à vista, noto que, curiosamente, tem-me sido, em noventa e nove por cento das circunstâncias, os jovens que descumprem acordados.

O desacordo consiste em diferenças de conceito e relevância. Ou no próprio conceito de relevância... Que importa?

Decerto envelheço, e às implicâncias soma-se a pouca sabedoria adquirida e mal usada.

Deixa pra lá. Quando eu era jovem, é bem capaz que tenha sido também assim descomprometida com a palavra; que eu a lançasse aos quatro cantos, e que a pobre fosse debatendo-se pelas paredes até cair no esquecimento...

Imagino que eu a manuseasse a bel-prazer, desatenta ao desprazer que causasse a quem interessar pudesse, e que eu também me interessasse muito mais por imaginações baratas do que por consolidações custosas...

Meu imaginar, porém, agora, até ele é todo calculado, calcado em raciocínio apesar de na maioria das vezes involuntário. Se é que isso tem lógica.

Deixa pra lá... É-me custoso raciocinar a essa altura. A essa altura em que a indignação me molda na medida do meu juízo de valores.

 A essa altura, sobretudo, em que a consciência da efemeridade me traz à luz que eu não a tinha... quando era jovem.

 

 

 

Valquíria Gesqui Malagoli, escritora e poetisa,  vmalagoli@uol.com.br / www.valquiriamalagoli.com.br

 



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SONIA CINTRA - BODE EXPIATÓRIO

 

 

 

 

 

 

 

 

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            A expressão bode expitório é de uso comum a vários povos e culturas desde a remota antiguidade. O Levítico menciona pela primeira vez, na Bíblia, o bode expiatório, que teve sua origem na Festa da Expiação, ritual de purificação de todos os pecados. Na Grécia antiga o teatro e o drama assumem a sua feição definitiva. Das suas raízes religiosas, advindas do culto a Dionísio, nasce o Teatro Grego. Esse culto agrário chegou à Grécia através da Trácia e da Frígia e lá se associou à vindima e ao ciclo das estações do ano; e se implantou em Atenas e na sua região, sobre resquícios de antigo culto da mesma natureza, comum a todo o Mediterrâneo Oriental. Fundamentadas neste culto, instituíram-se as Pequenas e Grandes Dionisíacas, festas em honra ao deus Dionísio, que passaram a ser celebradas cada vez mais frequentemente: na vindima, no preparo do vinho e para prantear Dionísio, morto todos os anos com o vinhedo. Nestas cerimônias, entoava-se o "ditirambo", hino de louvor ao deus, que tomou o nome de “tragoedia” (canto do bode), quando acompanhado do sacrifício de um bode, animal sagrado de Dionísio.

Aristóteles afirma na Poética: “A tragédia (...) opera a catarse dos sentimentos de piedade e de temor”. Na Política diz ainda o filósofo: “Além disso a flauta não age sobre o costume, ela tem antes o caráter orgiático, de maneira que ela não deve ser empregada senão nas ocasiões em que o espetáculo tende antes à catarse das paixões do que à nossa instrução”. Lê-se no verbete do Dicionário de Teatro a origem da palavra Tragédia: "do grego tragoedia, canto do bode - sacrifício ao deus pelos gregos", e define assim: "Peça que representa uma ação humana funesta muitas vezes terminada em morte".
Da definição clássica, Daisi Malhadas depreende: "A tragédia é uma imitação de uma ação de caráter elevado e completo, de uma certa extensão, (...) imitação que é feita por personagens em ação e não por meio de uma narrativa, e que, provocando piedade e terror, opera a purgação própria de semelhantes emoções".

Em sentido figurado, válido para os dias atuais, um "bode expiatório" é alguém que é escolhido arbitrariamente para levar (sozinho) a culpa de uma calamidade, um crime ou qualquer evento negativo (embora não o tenha cometido). A busca do bode expiatório é um ato irracional para determinar que uma pessoa ou grupo de pessoas, ou até mesmo algo, seja responsável por um ou mais problemas sem a constatação real dos fatos.

 

 

 

 

SONIA CINTRA    -    É doutora em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo. Pesquisadora da Cátedra José Bonifácio - IRI/USP e membro efetivo da UBE. Fundadora e mediadora do Clube de Leitura da Academia Paulista de Letras e do Clube de Leitura Jundiaiense. Ex-presidente da AJL, oradora da Aflaj e madrinha do Celmi. Pós-graduada em Educação Ambiental, ensaísta e articulista de jornais, revistas e blogs nacionais e internacionais. Tem 13 livros publicados com tradução para o italiano, francês e espanhol.



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FELIPE AQUINO - COMO SURGIU O CARNAVAL ?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De onde vem o Carnaval? Alguns, erroneamente dizem até que foi a Igreja Católica que o inventou; nada mais absurdo.

Vários autores explicam o nome Carnaval, do latim “carne vale”, isto é, “adeus carne” ou “despedida da carne”; o que significa que no Carnaval o consumo de carne era considerado lícito pela última vez antes dos dias de jejum quaresmal. Outros estudiosos recorrem à expressão “carnem levare”, suspender ou retirar a carne.

Alguns etimologistas explicam as origens pagãs do Carnaval: entre os gregos e romanos costumava-se fazer um cortejo com uma nave, dedicado ao deus Dionísio ou Baco, o deus do vinho, festa que chamavam em latim de “currus navalis” (nave carruagem), de donde teria vindo a forma Carnavale. Não é fácil saber a real origem do nome.

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Outras festas semelhantes aconteciam na entrada do novo ano civil (mês de janeiro) ou pela aproximação da primavera, na despedida do inverno. Eram festas religiosas, dentro da concepção pagã e da mitologia. Por exemplo, para exprimir o cancelamento das culpas passadas, encenava-se a morte de um boneco que, depois de haver feito seu testamento era queimado ou destruído. Em alguns lugares havia a confissão pública dos vícios, o que muitas vezes se tornava algo teatral, como por exemplo, o cômico Arlequim que, antes de ser entregue à morte confessava os seus pecados e os dos outros.

Tudo isso era feito com o uso de máscaras, fantasias, cortejos, peças de teatro, etc. As religiões ditas “de mistérios” provenientes do Oriente e muito difusas no Império Romano, concorreram para essas festividades carnavalescas. Estas tomaram o nome de “pompas bacanais” ou “saturnais” ou “lupercais”. Como essas festas perturbavam a ordem pública, o Senado Romano, no séc. II a.C., resolveu combater os bacanais e seus adeptos, acusados de graves ofensas contra a moralidade e contra o Estado.

Essas festividades populares podiam acontecer no dia 25 de dezembro (dia em que os pagãos celebravam Mitra (ou o Sol Invicto) ou o dia 1º de janeiro (começo do novo ano), ou outras datas religiosas pagãs.

 

Leia também: Carnaval

O carnaval santificado e as divinas beneficências

Carnaval e Quaresma

A alegria Cristã

 

Quando o Cristianismo surgiu encontrou esses costumes pagãos. Os missionários procuraram então cristianizar esses costumes, como ensinava São Gregório Magno, no sentido de substituir essas práticas supersticiosas e mitológicas por outras cristãs (Natal, Epifania do Senhor ou a Purificação de Maria, dita “Festa da Candelária”, em vez dos mitos pagãos celebrados a 25 de dezembro, 6 de janeiro ou 2 de fevereiro). Por fim essas festividades pagãs do Carnaval ficaram apenas nos três dias que precedem a Quarta-feira de Cinzas.

A Igreja procurou também incentivar os Retiros espirituais e a “Adoração das Quarenta Horas” nos dias anteriores à Quarta-feira de cinzas. Hoje, graças a Deus, temos em todo o nosso país Encontros e Aprofundamentos religiosos.

 

Ouça também: De onde veio o carnaval? Como o cristão deve viver este período?

 

Infelizmente o Carnaval, sobretudo no Brasil, “descambou” para a dissolução dos costumes; nos bailes e nas Escolas de Samba predominam o nudismo e toda espécie de erotismo. Esquece-se que os Mandamentos são a via da libertação e que o pecado é a escravidão da pessoa: “Não pecar contra a castidade” e “Não desejar a mulher do próximo” (cf. Ex 20,2-17; Dt 5,6-21).

É triste observar que o próprio Governo estimula esse desregramento com uma ampla distribuição de “camisinhas”, para que os foliões pequem à vontade sem perigo de contaminação. O Papa João Paulo II assim se expressou sobre a camisinha: “Além de que o uso de preservativos não é 100% seguro, liberar o seu uso convida a um comportamento sexual incompatível com a dignidade humana […]. O uso da chamada camisinha acaba estimulando, queiramos ou não, uma prática desenfreada do sexo […] O preservativo oferece uma falsa ideia de segurança e não preserva o fundamental” (PR, nº 429/1998, p. 80).

 

Assista também: O Católico pode “pular” carnaval?

 

Nesta época vale recordar o que disse São Paulo: “Nem os impudicos, nem idólatras, nem adúlteros, nem depravados, nem de costumes infames, nem ladrões, nem cobiçosos, como também beberrões, difamadores ou gananciosos terão por herança o Reino de Deus (l Cor 6,9; Rm 1, 24-27)”. O Apóstolo condena também a prostituição (1 Cor 6,13s, 10,8; 2 Cor 12,21; Cl 3,5) e as paixões da carne tão vividas no Carnaval.

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O sexo foi feito para o matrimônio e o matrimônio foi elevado à sua dignidade por Cristo (Mt 5,32). Jesus proclamou: “Bem-aventurados os puros, porque eles verão a Deus”. Disse São Paulo: “A mulher não pode dispor do seu corpo: ele pertence ao seu marido. E também o marido não pode dispor do seu corpo: ele pertence à sua esposa” (1 Cor 7,4). As consequências do sexo vivido fora do casamento são terríveis: famílias destruídas; pais e mães (jovens) solteiros; filhos muitas vezes abandonados, ou em orfanatos, e hoje muitas crianças “órfãs de pais vivos”, como disse João Paulo II.

Por tudo isso o cristão deve aproveitar esses dias de folga para descansar, rezar, estar com a família e se preparar para o início da Quaresma na Quarta-feira de Cinzas. O cristão não precisa dessa alegria falsa das festas carnavalescas; pois o prazer é satisfação do corpo, mas a verdadeira alegria é a satisfação da alma, e esta é espiritual.

 

 

FELIPE AQUINO - Escritor católico. Prof. Doutor da Universidade de Lorena. Membro da Renovação Carismática Católica.

 



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PAULO R. LABEGALINI - COISAS QUE SEMPRE EXISTIRÃO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Um dia, na festa de 90 anos da ‘Revista Adoremos’ em Belo Horizonte, recebi um prêmio por esta redação:

 

“Adorar a Deus é amar profundamente a Trindade Santa – mistério que só a fé explica. E esse sentimento de humildade se concretiza no coração humano quando ele se abre aos ensinamentos da verdade, da caridade e da justiça. Portanto, todo veículo de comunicação que difunde estes princípios, nos conduz a prestar um culto sincero a Deus.

Por isso, a Revista Adoremos tem cumprido o seu papel durante os últimos noventa anos! Como toda criança, começou engatinhando no início do século XX, caminhou com dificuldades por algum tempo, teve ajuda de muitos quando mais precisou e, principalmente, contou com as bênçãos do Céu todos os dias.

Hoje, as folhas são de melhor qualidade, a capa ganhou cor e muitas ilustrações, fotos, mas a mensagem é a mesma de sempre: ‘amai-vos uns aos outros’. Como há muitas maneiras de dizer isto, os textos não se repetem e os talentos dos articulistas se renovam ano a ano.

Foram centenas de destaques a datas importantes, reflexões, notícias, ensinamentos para o crescimento da nossa espiritualidade cristã, além de humor, histórias de santos e culinária. Isto tudo, bem temperado com amor à evangelização, continua presente na revista vicentina que sai de Minas para os quatro cantos do Brasil.

E São Vicente? Esteve em todas as edições! E Nossa Senhora? Também nunca faltou! E Ozanam? Sua vida foi passada a limpo por muita gente também! Enfim, Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo que impulsionou tantos corações a se unirem em favor dos pobres!

Amar é bom, realizar obras santas é ótimo e ser assinante da Revista Adoremos é fazer um bom uso da sabedoria que Deus nos deu. Bravo! Parabéns a todos nós!”

 

Ah, um outro fato que enviei à revista foi este:

O Pe. Marcelo Rossi contou que estranhou o comportamento de um senhor durante a missa que celebrou no Santuário do Terço Bizantino, em São Paulo. Assim que terminou a celebração, foi conversar com ele:

– Desculpe-me, mas tenho visto sua esposa erguendo os braços e louvando a Deus toda semana e o senhor sempre ficou de braços cruzados; hoje, porém, também acenou com ela e se manteve alegre! O que aconteceu?

– Bem, padre, há poucos dias fui surpreendido por bandidos no banco em que trabalho e fiquei de braços levantados por muito tempo enquanto uma arma permaneceu apontada em minha direção. Então, percebi que é muito melhor erguer os braços louvando do que qualquer outra coisa.

Pois é, quando criança, somos imaturos demais para pensar em Deus; quando jovens, somos autossuficientes e não precisamos Dele! Recém-casados, somos felizes ao extremo... Trabalhando, estamos sempre muito ocupados... Idosos, sempre meio cansados... E quando morremos? Bem, aí já é tarde demais para agradecer e pedir perdão, não? Ainda bem que eu percebi isso a tempo; e você?

Quem lê artigos católicos sabe que o dom maior da caridade é semelhante ao amor de Deus por nós: infinito e sem limites. Deus faz nascer o sol tanto para os maus quanto para os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos! Portanto, a caridade se estende também aos inimigos, porque cada ser humano dever ser para mim uma imagem do Salvador, que disse: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15, 12).

Praticar um amor-serviço ao próximo é acreditar que a caridade jamais acabará e, para amarmos assim, temos necessidade de recebermos o Espírito Santo – que distribui para nós o dom do amor, da bondade, da alegria, da mansidão e da paz. Ele nos torna irmãos de todo homem e nos faz viver em comunidade ao redor da Eucaristia.

No dia-a-dia, podemos ser caridosos em família através da tolerância e do perdão. Se Deus nos deu uma vida em comum com outras pessoas e aceitamos livremente conviver juntos, como podemos justificar a ausência de amor em nosso lar? O Pai nos amou primeiro, enviou seu Filho único para expiar nossos pecados, continua tendo uma imensa misericórdia por cada um de nós... e a nossa resposta a tudo isso: é gratidão ou ingratidão?

Veja o que disse São Paulo (I Cor 13), indicando o caminho mais excelente de todos:

“Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada. Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento aos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria!

A caridade é paciente, é bondosa, não tem inveja, não é orgulhosa, não é arrogante, nem escandalosa, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor, não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta e jamais acabará... Por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade, porém, a maior delas é a caridade.”

O amor, o louvor e bons artigos católicos, jamais deixarão de existir.

 

 

 

 

PAULO ROBERTO LABEGALINI - Escritor católico. Vicentino de Itajubá - Minas Gerais - Brasil. Professor doutor do Instituto Federal Sul de Minas - Pouso Alegre.‘Autor do livro ‘Mensagens Infantis Educativas’ – Editora Cleofas

 



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HUMBERTO PINHO DA SILVA - PORTUGAL PERDULÁRIO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nas minhas numerosas viagens a terras de Santa Cruz, sou, por vezes, abordado por amigos, declarando: que os portugueses “ roubaram” o Brasil – Oliveira Martins, diz: que só de Goiás, foram extraídos, cento e cinquenta arrobas de oiro, por ano!: “ O Brasil e as Colónias Portuguesas”. (Para onde foi tanto oiro?!…) Decorridos sessenta anos ... o Marquês de Pombal, escreveu: “ Encontrei uma monarquia esgotada de cabedais…”.

Recentemente, ao folhear: “ Cartas Sobre Educ. da Mocidade”, do pedagogo e médico Ribeiro Sanches (1699-1783) - membro da Acad. De S. Petersburgo; da Acad. Real de Ciências de Lisboa; da Real Sociedade de Londres; da Acad. de Ciências de Paris; e Conselheiro da Imperatriz da Rússia, – deparei com curiosa opinião, sobre o desgoverno português.

Por a considerar interessante, e oportuna, vou trasladá-la, sem comentários:

 

“ As riquezas da África e de toda a Índia Oriental (porque do Brasil, excetuando papagaios, alguma madeira e açúcar, não chegava a Portugal outro rendimento) cobriam as praias de Lisboa. Estas imensas riquezas – a maior parte delas precedidas da conquista de mar e terra, outras dos tributos dos régulos conquistados – se distribuíam pelo soberano, pelos fidalgos e valentes soldados e pelos eclesiásticos. Tanta riqueza, nos primeiros, trouxeram o maior luxo que jamais tinha visto Portugal: el-rei D. Manuel, com péssimo conselho, foi o primeiro que deixou o vestido português nas solenidades, vestindo umas vezes à flamenga e outras à francesa. Prodigiosa quantidade de conventos se edificaram de novo por estes anos, de capelas, de oratórios (mas é reparar que se não aumentaram as paróquias). Cresceram as imunidades dos bispos e dos prelados; a sua jurisdição, pelo novo tribunal da Inquisição e poderem por sua ordem, por seus meirinhos e familiares, prender os leigos. Porque esta monarquia, já formada, tinha para fazer os gastos nas suas pretensões.

“Mas no reino não se fabricava nenhuma matéria de luxo, nem ainda tudo o necessário para viver, pois no ano de 1519 libertou el-rei D. Manuel os trigos e mais sementes estrangeiras de pagarem direitos de alfândega – indício certo que faltava gente que cultivasse. Era preciso que todas aquelas riquezas fossem parar em Inglaterra, Itália, França e em Flandres, muita parte também em Roma. Como o povo português não entrava na legislação da monarquia gótica, nenhuma parte daquelas riquezas se distribuía por ele; e excetuando alguns palácios em Lisboa, e quintas e coutadas dos arredores, igrejas e conventos, nada ficava em Portugal destas riquezas. Assim vemos ainda o reino sem caminhos, sem pontes, com portos e foz dos rios entupidos – sinal certo que não se espalhavam aquelas riquezas pelos oficiais nem pelos mercadores do reino.

“Se el-rei D. João III fosse tão tolerante com os seus súbitos como Carlos V com Castela e Flandres, poderia repartir-se muita parte destas riquezas das Índias por todo o reino. Havia naquele tempo em Lisboa milhares descendência dos judeus batizados, que comerciavam com as nações estrangeiras. A Inquisição, desde o ano de 1544 ou 1545, fez tal estrago naqueles mercadores que a maior parte se foi estabelecer em Anvers, Londres e Hamburgo, e não só levaram cabedais imensos, mas ensinaram aquelas nações, mercadoras já, o comércio da navegação portuguesa. E desta origem veio aquela potente Companhia das Índias da Holanda e a de Inglaterra, fundadas pelos anos de 1600 pouco mais ou menos.

“Quando considero as imensas riquezas que chegaram aos portos do reino, quase por oitenta anos, e que todas iam parar nas mãos de quem trabalhava o que despendiam os portugueses, parece-me que era impossível conservar-se Portugal por um século mais, ainda que não viesse a cair (como veio) debaixo do domínio castelhano: porque estas riquezas fizeram os ingleses, os holandeses, os hamburgueses e muita parte da Itália, ricos e potentes, aumentando-se na agricultura, nas artes e nas ciências; e do estado em que estavam antes, bem moderado e mesmo abatido, vieram - depois da descoberta dos dois mundos - poderosos e altivos, a poder molestar os seus descobridores.”

 

Segundo Ribeiro Sanches, não foi o povo, nem propriamente a nobreza ou o clero, que enriqueceram, mas: “ os ingleses, os holandeses, os hamburgueses e parte da Itália.

Estaria Ribeiro Sanches equivocado?

 

 

 

HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto,Portugal



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EUCLIDES CAVACO - CAPAS DE SAUDADE
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

Vale a pena ver esta leve alusão às tradições da nossa querida cidade de Coimbra e dos estudantes que passam pela douta universidade...Veja aqui o poema formatado neste link ou no texto:

 

 


http://www.euclidescavaco.com/Po…/Capas_de_Saudade/index.htm

 

 

 


CAPAS DE SAUDADE

 

 

A capa dum estudante
É mais triste à despedida
As memórias dum instante
Valem cem anos de vida.

A capa negra, ondulante
Ao vento, a sós no Penedo
Revela amores de estudante
Que o vento cala em segredo.

Ó capa que Coimbra ufana
Ó Mondego sonhador
Ó paixão duma tricana
Que inspira cancões de amor.

Em cada capa velhinha
Há sempre uma mocidade
No peito de quem a tinha
Ficam marcas de saudade !...

 

 

 

 
 
 

 



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Domingo, 19 de Fevereiro de 2017
JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI - SÃO FRANCISCO DE ASSIS INSPIROU DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DOS ANIMAIS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Comemorou-se no último dia 27 de janeiro, mais um aniversário da Declaração Universal dos Direitos dos Animais outorgado em Bruxelas na Bélgica pela UNESCO em 1978 e é sempre muito bom invocá-la, em qualquer época. Inspirada em São Francisco de Assis, ela destacou que todo o animal possui direitos e que o seu desconhecimento e o desprezo pelos mesmos, têm levado e continuam a levar o homem a cometer- lhes crimes e contra a natureza, suscitando severas punições.

E, apesar de sua longa existência, o documento ainda não é divulgado e considerado como deveria e muitos entes vivos, organizados, dotados de sensibilidade e movimento, continuam sendo maltratados, perseguidos ou subjugados, em flagrante desrespeito aos princípios desta importante proclamação de alcance internacional.

No entanto, o reconhecimento à existência das espécies constitui o fundamento do equilíbrio ecológico.  Por isso, o sistema educativo deve ensinar desde crianças, as pessoas a observarem, a compreenderem, a respeitarem e a amarem os demais seres. A agressão gratuita aos bichos e aves reflete uma insensibilidade absolutamente inadmissível frente à necessária consciência ambientalista que deve prevalecer atualmente. Tanto que até o abate nos matadouros vem se reestruturando no sentido de evitar maiores sofrimentos àqueles que os utilizam de alimento. Além desse aspecto, vale ressaltar a importância que representam à convivência em geral.

De acordo com dados divulgados pela comunidade científica, em apenas dez minutos de contato com animais o organismo humano libera “dopamina”, “betaendorfina”, entre outras substâncias responsáveis pela sensação de prazer e bem–estar físico e mental. Por isso, é cada vez mais comum, que cachorros, gatos cavalos, coelhos etc., sejam reconhecidos por seu surpreendente poder terapêutico. A interação com eles, na troca de carinho, confiança e cuidados, tem se tornado um excelente remédio contra ansiedade, depressão, estresse e baixa auto-estima, indicado até mesmo para casos de deficiência física e psíquica.

Por isso, a Declaração dos Direitos dos Animais é de extrema relevância e nos alerta para o respeito que precisamos devotar a quaisquer espécies vivas. Vale aqui invocarmos a poetisa Olympia Salete: “A vida é valor absoluto. Não existe vida menor ou maior, inferior ou superior. Engana-se quem mata ou subjuga um animal por julgá-lo um ser inferior. Diante da consciência que abriga a essência da vida, o crime é o mesmo”.

         Mais do que nunca é preciso que nos preocupemos com a preservação do ambiente como um todo. É evidente que o homem sempre buscou estabelecer relações entre si e a natureza. No entanto, em nome de um suposto avanço científico nos campos técnicos, acabou rompendo esse trajeto, destruiu ecossistemas, exterminou espécies e continua a colocar em risco a possibilidade de vida no planeta.

Realmente, novas concepções e ideias precisam encontrar campo para germinar, dentro da dinâmica da evolução humana e devem ser passíveis de cobrança judicial. Os enunciados da boa convivência compreendem o respeito e a preservação dos poucos recursos naturais que nos restam, dentre os quais os animais. Mesmo que haja excepcionalmente alguns excessos dos preservacionistas, constitui-se numa obrigação geral o impedimento a manifestações de brutalidade contra quaisquer seres vivos e a denúncia aos órgãos competentes para que as leis que os protegem se cumpram efetivamente.

 

Resumo dos direitos dos animais

 

 

Em síntese, são os seguintes os direitos previstos na Declaração Universal dos Direitos dos Animais: todos os animais têm o mesmo direito à vida; têm direito ao respeito e à proteção do homem; nenhum animal deve ser maltratado;  todos os animais selvagens têm o direito de viver livres no seu habitat;  o animal que o homem escolher para companheiro não deve ser nunca ser abandonado;  nenhum animal deve ser usado em experiências que lhe causem dor;  todo ato que põe em risco a vida de um animal é um crime contra a vida;  a poluição e a destruição do meio ambiente são considerados crimes contra os animais;  os diretos dos animais devem ser defendidos por lei e  o homem deve ser educado desde a infância para observar, respeitar e compreender os animais.

 

 

 

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI, é advogado, jornalista, escritor e professor universitário. Presidente da Academia Jundiaiense de Letras (martinelliadv@hotmail.com)



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ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - IVAN WASTH RODRIGUES E OS UNIFORMES MILITARES

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ivan Wasth Rodrigues (1927-2007), artista de muito talento, formado na Escola Belas Artes de São Paulo, é frequentemente confundido com seu tio José Wasth Rodrigues (1891-1957), do qual foi discípulo e continuador. Ivan deixou obra monumental, como ilustrador de livros históricos brasileiros e autor de muitos selos impressos pelos Correios nacionais. Trabalhou também para o MEC e o IBGE. Possuía grande erudição histórica, haurida autodidaticamente, e dominava vários idiomas, também estudados e assimilados por conta própria. Pesquisava conscienciosamente fontes e informações históricas antes de fazer cada desenho, de pintar cada aquarela. Extremamente rigoroso consigo mesmo, a autenticidade documental de suas produções resiste aos críticos mais severos.

A “História do Brasil em quadrinhos”, com texto de Gustavo Barroso, lançada em 1959/1962 pela EBAL (Editora Brasil-América, do Rio de Janeiro) em dois volumes, foi inteiramente ilustrada por Ivan, com desenhos fantásticos que constituem uma coleção maravilhosa, com grande autenticidade documental e muito bom gosto. A obra mais chamativa que produziu foi a quadrinização de “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, publicada pela EBAL em preto e branco em 1981, e em cores, no ano 2000, pela ABEGraph.

Cheguei a ter um contato pessoal com ele, por telefone, quando já estava no fim da vida. Autorizou-me de boa vontade a usar algumas imagens suas num livro que eu estava editando e, embora não estivesse bem do ponto de vista econômico, compreendeu que se tratava de uma edição de alto interesse cultural e sem nenhuma perspectiva de lucro, de modo que nada quis cobrar pela utilização de suas imagens.

Uma das suas obras mais valorizadas é a coleção dos uniformes militares utilizados no Brasil desde o século XVI, reproduzida em “Uniformes Militares Brasileiros”, livro-álbum lançado em 1984 pela Léo Christiano Editorial, do Rio de Janeiro, com texto de Deocleciano Azambuja e aquarelas de Ivan Wasth Rodrigues. Trata-se de uma raridade bibliográfica disputadíssima. Há muitos anos desejo adquiri-la, mas sempre que a encontrei foi a preços proibitivos fora do meu alcance. Coleções incompletas são, frequentemente, desfeitas e suas pranchas destacáveis, com as aquarelas impressas, são oferecidas avulsamente, em leilões. Também alcançam altos preços.

O uniforme é peça de grande importância para o militar, com algumas funções primordiais: 1) deve lhe servir como proteção ao corpo, contra o frio e o calor excessivos, contra a chuva, contra o sol, e, quando em situação de combate, deve também protegê-lo contra o inimigo, por meio de equipamentos defensivos (por exemplo, o capacete) e uso de artifícios de camuflagem; 2) deve ser prático, no sentido de oferecer a ele mobilidade e conforto para o exercício de suas atividades, tanto na paz quanto em combate; 3) deve servir como fator de identificação hierárquica e funcional; 4) deve também, por via de simbolismo, exprimir e significar valores morais que têm, para o militar, importância fundamental.

A enorme variedade dos uniformes, ao longo da História, em épocas e situações distintas, permite identificar os valores e as ideologias dominantes em cada tempo histórico. Vou dar um único exemplo que permite identificar como ideologias podem influenciar um uniforme. Tradicionalmente, os militares portavam no peito as medalhas e condecorações recebidas. O critério dessas distinções sempre foi qualitativo, ou seja, o militar ia subindo de grau, dentro de uma mesma ordem de valores, a cada nova ação digna de recompensa que praticasse. Podia subir de cavaleiro para oficial, para dignitário, para grã-cruz de uma ordem, podia passar de uma coroa ou medalha de bronze para outra de prata e, por fim, de ouro etc. etc.

Os exércitos comunistas, igualitários por ideologia, instituíram um critério novo de homenagens, mais quantitativo do que qualitativo. Passaram a conferir a mesma medalha ao mesmo indivíduo, no mesmo grau único, um número indefinido de vezes. Um sujeito podia, por exemplo, ser três ou quatro vezes condecorado com a mesma insígnia de “Herói da União Soviética”. E houve um que recebeu onze vezes a mesma “Ordem de Lenine”. O que valia era a quantidade, mais do que a qualidade. Por trás dessa mudança de critério - que se exprimia de modo visual e vivo, no uniforme - estava todo um universo de concepções filosóficas e criteriológicas, que marcava bem a diferença entre a civilização e a cultura anteriormente predominantes, e a “nova sociedade” socialista. igualitária e proletária que tentavam implantar.

Um estudo dessas variações, sobretudo no âmbito da Nova História Cultural (tendência historiográfica à qual prefiro tender, apesar de ter em relação a ela alguns pontos de dissonância), é algo extremamente rico e sugestivo.

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS, é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

 



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CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - ASAS DA PAZ

 

 

 

 

 

 

 

 

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            Devo registrar, antes de mais nada, que por muitas vezes acredito que penso em coisas nas quais a maior parte das pessoas não pensa, ou, na melhor das hipóteses, nas quais só pense quem, assim como eu, tem a preocupação com os animais e com o destino que é dado a cada um de nós, gente ou bicho, nesse mundo.

            Sei que a maior parte das pessoas se incomoda e talvez com razões justas, com as pombas que vivem nos grandes centros urbanos, seja pela sujeira que fazem, seja pelas doenças que podem transmitir ou ainda pelo fato de que invadem telhados e qualquer brecha nas construções humanas para lá fazerem seus ninhos. Não estou aqui criticando quem não gosta das pombas ou quem as quer fora das cidades, só acho que o mundo é um lugar difícil para elas e eu, se fosse uma pomba, ia me arriscar a viver bem longe dos seres humanos.

            Então, ainda que pareça estranho, eu sempre tive pena das pombas. Quando eu era criança já empreendia uma "cruzada" pela salvação de algumas delas. Na casa dos meus avós paternos havia um grande forno a lenha, destinado a assar os pães que meus avós vendiam na pequena padaria que era anexa à casa. Ocorre que, do lado de fora, no quintal, uma parte do topo do forno era acessível para as pombas que, diante de um lugar protegido e quentinho, lá faziam seus pequenos ninhos.

            Quando descobri que lá encima poderia haver ovos e filhotes, fiquei enlouquecida e logo arrumei um meio de subir a uma altura que me permitisse enxerga-los. Na verdade, mais do disso, pois tratei de segurar os ovinhos, observá-los e devolvê-los com cuidado aos ninhos sempre que os pais não estavam por perto. Eu seguia observando até que os filhotes nascessem e gostava de segura-los aninhados em minhas mãos. É claro que eu fazia isso sem a anuência ou conhecimento dos meus pais, mas era dos meus avós que eu mais fazia questão de esconder essas minhas atividades, eis que eles não queriam uma infestação de pombos por lá.

            O fato é que não havia qualquer contato das pombas com o forno ou com o que quer fosse produzido na padaria. As aves apenas se aproveitam do calor que emanava de uma parte da construção que ficava sobre o forno. As pombas também se aproveitavam da existência de galinhas no quintal e quando a comida era atirada para as penosas, lá se lançavam em busca de um quinhão.

            Muitos anos depois e eu continuo me apiedando das coitadas. Sempre que vejo uma delas machucada, perambulando pelas calcadas e ruas sem poder voar, percebo que não há viva alma que a elas dê guarida ou refúgio. Normalmente morrem abandonadas à própria sorte e sequer seus corpos são retirados com urgência e dignidade, ficando muitas quase como um decalque sobre o asfalto e o concreto.

            O máximo que algumas pessoas fazem é alimenta-las, oferencendo-lhes os restos de refeições ou pedaços de pão, mas até isso atrai o ódio de muita gente que não as deseja por perto. Dessa forma, infelizmente, não é raro que sejam envenenadas, que sejam alvo da crueldade de gente que sequer é capaz de ver nelas seres vivos.

            Fico pensando que, curiosamente, o símbolo da paz seja uma pomba, junto ela, tão relegada, mal-falada e pouco amada. Em tempos de guerras, de todo tipo de guerras, talvez isso nem seja assim tão paradoxal, tão incoerente, sei lá. Só acredito que elas são injustiçadas, porque a sujeira que fazem, nem de longe chega perto da sujeira que nós produzimos e se as pessoas, pelo mínimo, lavassem as mãos antes de tocar nos alimentos, por exemplo, já tiraria das pombas uma dose de culpa que vem carregando nas asas.

            Certa vez li uma matéria sobre uma moça que, muito melhor pessoa do que eu, olhou para uma dessas aves que, machucada, jazia esquecida pelo chão e, de forma piedosa, dela tratou e cuidou, tudo com aval de um veterinário que, em muito, desmistificou alguns fatos. O animal não apenas se recuperou como virou um pet e, solto para ir e voltar, sempre retornava para o lar que a ele se abriu.

            Talvez esse texto cause estranheza a alguns leitores, mas eu confesso, sem pudores, que, se pudesse, teria comigo não só as pombas, mas outros tantos animais desprezados e incompreendidos por aquele se julga a melhor e mais perfeita espécie da Criação. Estranho que sejamos todos dotados da capacidade de amar, todos desejosos de sermos amados, compreendidos e perdoados, mas pouco exercitamos disso para o próximo, pombo ou gente.

            Se eu fosse uma pomba, reivindicaria juridicamente que o sinal da paz dos homens fosse alterado, até por se tratar de pura apropriação indevida e imerecida...

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.  -  cinthyanvs@gmail.com



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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - AUTOCONTROLE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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No mesmo dia, duas situações me despertaram. A primeira, ao trafegar pela Vila Joana. Um casal, com aparência de moradores de rua, seguia pela calçada em titubeios. Assim que os vi, a moça estava toda molhada. Por certo se banhara em alguma mangueira cedida pelo percurso. O moço lhe entregou uma toalha de banho e ela, com expressão de contentamento, sem se deter, enxugava os cabelos encaracolados. Vinham, creio eu, de um bairro onde há farto comércio de drogas. Seguiam em direção ao centro da cidade.
A que decadência chega o ser humano e sem perder a noção de algumas coisas essenciais como a higiene pessoal, nesse caso acontecendo à vista de todos. Que judiação! Desconheço o que se passou com os dois após saírem do berço e suas angústias. Qual foi o mundo que lhes apresentaram. Quais os olhares com que se depararam. Quais as experiências que adquiriram junto à sociedade, à família, à escola e ao mundo. Cidadãos do acaso em busca de nada.
À tarde, estive com um egresso do sistema penitenciário. A compulsão pelas drogas o levou a delitos outros e dos delitos ao cárcere. Amargou vários anos preso, pois não retornava nas “saidinhas”. Há um tempo considerável, deixou os entorpecentes e sua história atual indica um novo rumo. Trabalha como autônomo, pois é raro que um atestado de antecedentes criminais, com nódoa, possibilite a inserção no mercado de trabalho. Durante a conversa, comentou que tem conseguido se autocontrolar quando alguém o irrita e concluiu: “Se abro a boca, a mão se fecha”. Um soco é quase imediato. Conhecer-se é virtude essencial. Aplaudi-o por essa vitória e me veio o casal que avistara pela manhã. Como conseguir o autocontrole após incontáveis decadências? Na verdade, cada um de nós necessita de autocontrole nisso ou naquilo, ma, se não houve degradação maior, é mais fácil.
Na atualidade falta esse exercício de autocontrole. Há pais que permitem e justificam as atitudes negativas dos filhos e, mais tarde, nos desencontros dos mesmos se fazem de vítimas. Correção de atitudes comportamentais nas escolas é motivo de denúncia e de reclamos dos responsáveis pelas crianças e adolescentes. E como quem vive sem limites pode, em algum momento, dizer não ao que é prazeroso, mas corrói o ser humano? Nos dois casos que citei, creio que o problema maior se encontre na ausência de aconchego social.

 

 

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE -

 Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil



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