
Era um domingo a noite e eu liguei para minha irmã Ivy, como fazemos todos os finais de semana. Tão logo ela atendeu ao telefone, escutei a voz da minha sobrinha Isadora, de quatro anos e meio, ao lado, perguntando se era a Tia Cinthya no telefone. Minha irmã, na sequência, disse-me que ela queria falar comigo.
_ Tia Cinthya, como é que você saiu do armário? Quem ajudou você??? – já tascou ela, quase sem respirar, falando rápida e ansiosamente.
_ Foi a tia Edna quem me ajudou! – respondi a ela.
_ Ahhhh.... Gente, gente, foi a tia Edna!!! Heheehe
Tão logo ouviu a resposta da pergunta que a vinha incomodando há dias, Isadora largou o telefone, sem sequer dizer tchau, feliz da vida por ter resolvido seu pequeno enigma.
Dias antes, eu fora surpreendida com essa mesma pergunta, agora formulado por minha mãe:
_ Cinthya, a Isadora quer saber quem é que ajudou você a sair do armário.
_ Hein??!!? Que história mais louca é essa? Eu nem sabia que estava no armário! Pode me explicar isso direito...
Depois de uns dez minutos, entendi o que andava povoando a cabeça de uma menininha muito curiosa e levada, por vários dias. Tudo começou porque ela mesma vinha tentando se enfiar dentro de uma gaveta de um armário, lá na casa da avó paterna. Era daquele tipo de gaveta basculante, usada para guardar roupa suja. Daí que minha irmã teve a idéia de contar para a Isadora que, uma vez, há milhões de anos –luz, a tia Cinthya tinha feito a mesma coisa quando era criança e que tinha acabado ficando presa lá. Por sorte, alguém a tinha salvado, mas ela não lembrava mais de quem fora.
Foi o que bastou para atiçar a mente da Isa. A bichinha passou uma semana perguntando a todo mundo que me conhecia, como é que eu tinha saído de lá e porque eu tinha feito aquilo. Tenho a impressão de que aquilo se tornou uma espécie enigma, uma pergunta que não poderia ficar sem uma resposta. Assim, um dia, ao telefone, ela fez a dita pergunta para minha mãe, que não fazia a menor idéia do que se tratava. Enquanto ela e meu pai trabalhavam o dia todo, nem sonhavam com o que as filhas aprontavam...
Com “certo” atraso, contei a ela o ocorrido, até porque, nessas alturas, já achava que não corria o risco de tomar bronca, o que não se mostrou exatamente correto, mas contei também que não me lembrava mais quem é que tinha me tirado de lá. Eu estava brincando com a Ivy e sempre entrávamos em uma gaveta que havia no banheiro, para brincar. Só que um dia a gaveta se fechou enquanto eu estava dentro. Sem forças para abrir sozinha, apavorei-me com a hipótese de ficar presa lá para todo o sempre e comecei a gritar. Sei que alguém me ajudou a sair e que, muito provavelmente, deve ter sido minha tia Edna. Pelo que me lembro, nunca mais entrei naquela gaveta e agora, fosse como fosse, eu tinha que dar uma resposta satisfatória para minha sobrinha e convencê-la de que repetir o feito da tia não seria uma boa ideia.
Assim, quando a encontrei pessoalmente, algumas semanas depois de falar com ela ao telefone, contei a história toda e disse que tinha ficado com medo, que tinha feito uma arte e que ela não deveria se arriscar, pois era perigoso. Com olhos atentos, ela prestou atenção e prometeu-me não esquecer do que eu lhe dissera.
Falando com minha mãe ao telefone, ela contou-me que a Isadora dissera que a Tia Cinthya tinha ensinado pra ela que não se deve entrar nos lugares onde se guarda coisas. Tarefa cumprida, pensei eu...
Eu, por outro lado, vivi fortes emoções. Descobri que saí do armário e nem sabia que tinha estado lá. Mais sério do que isso, porém, foi me lembrar de que não consegui saí sozinha e nem tenho certeza de quem me ajudou de verdade. O importante é que eu não deixaria minha sobrinha entrar, não no que depender de mim, mas se ela o fizer, estarei sempre por perto para ajudá-la a sair...
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo