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Sábado, 17 de Junho de 2017
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - ALGUMAS CURIOSIDADES SOBRE O ARCEBISPO D. DUARTE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  1. Duarte Leopoldo e Silva, primeiro Arcebispo de São Paulo, nasceu em Taubaté, no dia 4 de abril de 1867, e faleceu na capital paulista, no dia 13 de novembro de 1938. Foram seus pais Bernardo Leopoldo e Silva, de nacionalidade portuguesa e D. Ana Rosa Marcondes, que se entroncava nos Marcondes do Vale do Paraíba, muito numerosos em Pindamonhangaba, Caçapava, Taubaté e outras cidades da região.

Iniciou seus estudos em Taubaté e depois parece ter hesitado um pouco quanto à carreira a seguir. Pensou inicialmente em ser advogado, depois em seguir o curso de Farmácia. Mas acabou sentindo-se vocacionado para a vida sacerdotal e ingressou no Seminário Diocesano de S. Paulo.

Recebeu a ordenação sacerdotal em 1892. Depois de breve permanência em Jaú, como coadjutor, foi encarregado de assumir a nascente paróquia de Santa Cecília, na capital. Conseguiu levantar doações para construir a igreja de Santa Cecília e a ornou primorosamente, com os afrescos de Benedito Calixto ainda hoje bem conservados.

Uma curiosidade: o primeiro endereço oficial dessa igreja: Estrada de Campinas, número tanto. É incrível, mas naquele tempo ali já era zona rural, já se estava na estrada de Campinas... Na frente da matriz principiava a famosa alameda de palmeiras (atual Rua das Palmeiras) que conduzia ao Palacete de D. Angélica de Barros, situado na atual confluência da Av. Angélica com a Alameda Barros.

Respeitado como sacerdote culto e refinado, Pe. Duarte lecionou no Seminário e teve seu nome indicado para o Cabido diocesano. Entre outras obras, publicou em 1903 a “Concordância dos Santos Evangelhos ou os quatro Evangelhos reunidos num só”, obra muito bem articulada e que é considerada, internacionalmente, uma das melhores tentativas já feitas de unificação dos quatro Evangelhos.

Aos 37 anos foi nomeado Bispo de Curitiba, com jurisdição, nos Estados de Paraná e Santa Catarina. Lá esteve apenas dois anos, com muita atividade, sendo já no final de 1906 indicado para substituir, na Sé de São Paulo, o Bispo D. José de Camargo Barros, que falecera no naufrágio do navio Sírio, ocorrido a 4 de agosto de 1906 nas costas da Espanha. Uma gigantesca tela de Benedito Calixto, conservada no Museu de Arte Sacra de São Paulo registra o dramático naufrágio.

 

  1. Duarte assumiu a diocese de S. Paulo em abril de 1907. No ano seguinte, a 7 de junho de 1908, o Papa São Pio X, seguindo a política de ampliação do número de circunscrições eclesiásticas, publicou a bula ‘’Diocesium nimiam amplitudinem’’, criando a Província Eclesiástica de São Paulo. A diocese era elevada a Arquidiocese e dela eram desmembradas cinco novas dioceses: Campinas, São Carlos, Botucatu, Ribeirão Preto e Taubaté. Essas cinco dioceses passaram a ser sufragâneas, ou seja, dependentes, da Arquidiocese S. Paulo. Também era diocese sufragânea a de Curitiba. Outra curiosidade: o Santuário de Aparecida e a área adjacente (não verifiquei exatamente qual a extensão dessa área) não deixaram de fazer parte da Arquidiocese de São Paulo. Constituíam um enclave paulopolitano dentro do território taubateense... Só em 1958 esse enclave foi separado de S. Paulo e, acrescido de um território um pouco mais extenso desmembrado da diocese de Taubaté, foi elevado a Arquidiocese de Aparecida. Mas embora Arquidiocese e sede de uma nova província eclesiástica, continuou ligada a S. Paulo, pois o Cardeal-Arcebispo de São Paulo, D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, foi seu administrador apostólico por seis anos, até que, em 1964 deixou a Arquidiocese de São Paulo e assumiu plenamente a de Aparecida.

Ainda outra curiosidade: em 1924, quando foi criada a Diocese de Santos, desmembrada da Arquidiocese de S. Paulo, D. Duarte, já idoso e com problemas de saúde relacionados com a pressão arterial, conseguiu que o Vaticano instituísse um novo enclave da Arquidiocese de São Paulo dentro da nascente diocese de Santos: era uma chácara que possuía à beira-mar, onde lhe fazia bem passar longas temporadas. Chamava-se Vila Betânia. Era de lá que governava a Arquidiocese de São Paulo. O Direito Canônico exigia que o Bispo residisse dentro do território da sua circunscrição eclesiástica. Passando a maior parte do ano na Vila Betânia, D. Duarte não estava fora da Arquidiocese de São Paulo...

Quando foram criadas as 5 dioceses novas, em 1908, D. Duarte tomou uma atitude que lhe pareceu correta e era, de fato, inteiramente razoável, mas que com o tempo se revelou prejudicial. Ele desmembrou os arquivos eclesiásticos históricos de São Paulo e mandou para cada novo bispo todos os arquivos paroquiais antigos, das respectivas áreas. Supunha que os demais bispos e os respectivos sucessores teriam, com esses arquivos, o mesmo cuidado que ele tinha em S. Paulo... Mas nem todos tiveram, e os genealogistas paulistas até hoje lamentam a decisão de D. Duarte, que teve como consequência a dispersão dos arquivos, e a deterioração de muitos deles.

 

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS,  é jornalista profissional e historiador, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História.



publicado por solpaz às 14:20
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