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Domingo, 19 de Março de 2017
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - NA PONTA DOS PÉS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cinthya Nunes Vieira da Silva.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

             Como já mencionei algumas vezes em minhas crônicas, embora a cidade de São Paulo tenha, infelizmente, vários pontos negativos, todos causados pelas mãos e gestões humanas, registre-se, há aqui nesse lugar uma singularidade de coisas, pessoas, espaços e acontecimentos que fazem dessa cidade um espetáculo (ainda que controverso) à parte. Nesse sentido, nessa semana, uma cena em especifico chamou a minha atenção.

            Enquanto eu aguardava nas proximidades da entrada de uma estação de metrô, já no comecinho da noite, que fossem me buscar, fiquei observando as pessoas que por ali passavam, bem como os imóveis dos arredores, aliás, em um exercício ao qual sempre me dedico, sobretudo à procura de inspiração. Dei-me conta, de repente, que uma melodia invadia o lugar como se fosse uma delicada trilha sonora, bem delicada e ao fundo. Instintiva e curiosamente eu comecei a procurar a origem do som, uma doce música clássica, dessas que são usadas nas caixinhas de música.

            Depois de alguns minutos correndo os olhos por todos os lugares notei que, em esquina próxima, encima de um bar, havia uma sala na qual bailarinas ensaiavam os seus passos, embaladas por aquele som que, em meio à loucura do que ocorria nos arredores, fazia parecer que lá dentro o tempo seguia em ritmo diverso, alheio a tudo.

            Durante os vinte minutos que ali permaneci, restei embevecida com a cena que se descortinava diante dos meus olhos. Era possível ver os movimentos dos braços e parte dos troncos das bailarinas, todas bem jovens, compenetradas e embaladas pela música, como se vivessem em um Universo paralelo, como se fossem, elas mesmas, criaturas de outro mundo. Pensei que, de algum modo, ao menos naqueles momentos, de fato pertencessem a um plano distinto, no qual os movimentos humanos são ditados por alguma deusa inspirada.

            Lembrei-me de que eu mesma, em determinado momento da vida, fiz uma pequena incursão pela dança. Lamentavelmente, desde sempre faltou-me a coordenação motora adequada para tal tarefa, mas nunca deixei de me sentir conduzida pelo poder da música, pela força motriz e até espiritual que belas melodias são capazes de provocar.

            De uma forma geral as artes tem essa capacidade de transportar as pessoas para lugares muito além dos espaços comuns, seja pela contemplação ou seja pela prática. Música, pintura, teatro, dança e outras expressões de arte podem ser formas de transcender, de ultrapassar a mesmice das coisas e foi essa a exata sensação que tive ao ver as bailarinas aquele dia, alheias ao barulhos dos carros, ônibus e transeuntes que por ali circulavam, como se, naquele momento, o sagrado, o delicado da vida pedisse passagem ou exigisse uma pausa.

            Fiquei pensando que às vezes é preciso andar mesmo na ponta dos pés, seja para não deixarmos, no coração dos outros, pegadas mais pesadas do que gostaríamos ou que deveríamos, seja para sermos capazes de evitar mais eficazmente as pedras que enfrentamos pelos caminhos. Quantas são as vezes nas quais nos falta não apenas a delicadeza das bailarinas, como também a disciplina necessária para nos movermos como se fossemos mais leves do que a vida nos tornou?

            Vivemos tão abarrotados de inutilidades, de preocupações, de receios e de pesos desnecessários que vamos perdendo pelo trajeto a capacidade de sermos mais do que somos, no melhor dos sentidos. Naquele dia, inspirada pelas meninas do balé, apaguei as luzes do meu quarto e coloquei uma música delicada para ouvir enquanto relaxava por uns minutos na minha cama. Por alguns mágicos instantes eu estava também na ponta dos pés, deslizando e rodopiando nos labirintos da minha mente e do meu coração.

            Resta o desejo de que todos sempre sejamos capazes, quando nos for necessária a ausência daquilo que nos faz mal, de resgatar em nossas memórias o que nos permite a lembrança de que sempre haverá um oásis para onde fugir, para onde nos refugiarmos, seja fora ou dentro de nós. Para mim, inevitavelmente, haverá a imagem de uma bailarina, delicada, na ponta dos pés, sobre uma caixinha de música...

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.  -  cinthyanvs@gmail.com

 



publicado por solpaz às 18:12
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