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Domingo, 19 de Março de 2017
RENATA IACOVINO - ESCREVER POR EXTENSO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

            "Na sociedade contemporânea, nada é feito para durar", afirmou Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, recém-falecido e tido por muitos como um pessimista.

            Sua teoria sobre a sociedade líquida, esta em que, para ele, vivemos hoje, nos torna indivíduos voltados para a rapidez em que tudo flui, não nos importando criar ou manter algo sólido.

            Essa liquidez é o que rega nosso sentimento, então? Um sentimento cujo objetivo é seu avesso?

            Há disputas acirradas em se tentar não sentir, em sepultar emoções ou, o que é muito comum nesse universo virtual em que habitamos, fazer de conta que sentimos o que nem de longe passa por nós.

            Casamento perfeito: eu me relaciono com as pessoas sem me relacionar. Ou pelo menos fabrico esta ilusão.

            Bem, estas são minhas impressões, não palavras dele. Sua tese leva-me a estas reflexões. Que me levam igualmente a pensar sobre a colocação do filósofo Cortella em uma de suas recentes palestras.

            Dizia ele que a comunicação que praticamos hoje nos carrega de volta à era das cavernas, pois a troca verbal está cada dia mais se resumindo a símbolos. A forma menos comum de nos comunicarmos é a verbal. Aquela em que há um diálogo, ou quando ao nos dirigirmos ao outro, o fazemos com uma frase, com início, meio e fim, sem abreviações e/ou símbolos e, especialmente, com sentimento.

            Adaptamo-nos a escrever uma letra em substituição a uma palavra. E quando não queremos nos comunicar muito, ou temos tanta pressa para nada que precisamos resumir ainda mais nossa escrita, colocamos um símbolo, desses de que dispomos tão facilmente no whatsapp. Para que perder tempo em escrever, principalmente se o que sinto é tão líquido?...

            Marcar encontros com amigos (quando eles ainda existirem em sua vida) é um exercício hercúleo. E como a tal contemporaneidade nos exige pouco esforço nesse quesito, o melhor é deixar pra lá. Afinal, pra quê?

            Melhor nos encontrarmos por acaso, no acaso, ao acaso, porque é o que temos de tão certo neste momento, o indefinido, ou como diziam na minha época "qualquer nota".

            Hoje preferimos viver de palavras que morrem em si e de imagens que projetam o irreal.

            De forma objetiva, como diz Bauman, a maneira de nos relacionarmos se resume a "basta apertar um botão e pronto. Acabou!". Somos números necessitando nos escrever por extenso.

            Ponto final.

 

 

 

RENATA IACOVINO, escritora e cantora / www.facebook.com/oficialrenataiacovino/

 

 



publicado por solpaz às 18:05
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