Blogue luso-brasileiro
Sábado, 13 de Janeiro de 2018
VALQUÍRIA GESQUI MALAGOLI - CONSTRUINDO MEMÓRIAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

            “Anjo todo beleza, conheceis estas rugas/ Do horror de envelhecer como tormento infausto/ De ler o obscuro horror de penoso holocausto/ Nestes olhos que sempre subjugas?/ Anjo todo beleza, conheceis estas rugas?/ Anjo todo ventura, alegria e clarões,/ Davi a agonizar teria retornado/ Só às emanações de teu corpo encantado./ Mas de ti só imploro as tuas orações,/ Anjo todo ventura, alegria e clarões!”.

            Charles Baudelaire sempre me emociona.

            Tendo-se firmado “o poeta maldito” por excelência, mescla inigualável e veementemente o grotesco e o sublime do ser humano, como no fundo ele é, muito embora não o saiba ou fuja de sabê-lo.

            Tão delicados, apesar da crueza, os versos acima!

            – Pudera tê-lo, meu anjo, comigo em todo tempo e lugar.

            Quem, tenha a fé que tenha ou nenhuma, não conversa com seu anjo?

            Mas, o que nos traz aqui, hoje, não são anjos, demônios, nem a forma ou o talento do controverso poeta e crítico francês. Eu apenas passei pela estante, esbarrei os olhos no livro, abracei-o e, nisso, quis esticar até você que lê o abraço.

            Adoro abraços. Caso me faltem palavras, seja por bem seja por mal – corro abraçar.

            Foi o que fiz, dia desses, com meus gatos.

É que, por falar em esbarrões, imaginem que eu estava literalmente às voltas com a feitura das panquecas, quando tudo no cômodo contíguo veio abaixo...

Dois dos meus companheirinhos escalaram o móvel e, ao descer, um fugindo do outro, esbarrou no objeto decorativo com que eu fora carinhosamente presenteada.

Caído este se quebrou aquele. Por aquele se entenda o vidro que cobre o nível debaixo do tal móvel a quem, imóvel, sem defesa, só coube sofrer os danos.

Fiquei tão triste à vista do enfeite esfacelado. Tão triste...

Todavia, quanto pode durar uma tristeza nascida de alegria assim inocente e contagiante?

Ficou para depois o lamentoso cálculo com os gastos do vidro substituto. Cuidei somente de juntar os cacos esparramados.

Aos poucos a gente vai entendendo que viver é construir memórias. E que momentos memoráveis dispensam quaisquer objetos que os eternizem.

“Meu gato, vem, ao meu peito amoroso;/ Encolhe as garras dessa pata,/ E que eu mergulhe em teu olhar formoso/ Que é feito de metal e ágata.”.

 

 

 

 

 Valquíria Gesqui Malagoli  -   escritora e poetisa, vmalagoli@uol.com.br / www.valquiriamalagoli.com.br



publicado por solpaz às 18:04
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