Blogue luso-brasileiro
Sábado, 17 de Junho de 2017
VALQUÍRIA GESQUI MALAGOLI - FENÓMENO ABSTRATO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em composição de Alzira Espíndola e Itamar Assumpção, quem tem ouvidos ouve: “Pra que rancor, tanto tédio/ Pra que terror, tanta mágoa/ A vaca já foi pro brejo/ Os burros já deram n'água/ Pra que rogar tanta praga/ Pra que, se não tem remédio/ Pra que abrir outra chaga/ Por que não dormir sem medo/ Pra que ferir, ser ferido/ Pra que somente repúdio/ Pra que achar tudo errado/ Se o tal telhado é de vidro.”.

Entretanto, quem é que, hoje em dia, tem ouvidos para isso ou aquilo? Quem, se em tempos de célebres futilidades, bem faz quem os preserva quase sempre moucos, sabido é que os espera isto, traduzido por Mario Quintana: “Frases felizes...Frases encantadas... Ó festa para os ouvidos! Sempre há tolices muito bem ornadas... Como há pacóvios bem vestidos.”.

Mesmo porque, pensando bem, como bem antes de nós já pensou e disse Fernando Pessoa (que, aliás, de tanto pensar e dizer, apessoou-se em outros de si mesmo): “Não há sossego de pensar nas propriedades das coisas,/ Nos destinos que não desvendo,/ Na minha própria metafísica, que tenho porque penso e sinto./ Não há sossego,/ e os grandes montes ao sol têm-o tão nitidamente!/ Têm-o? Os montes ao sol não têm coisa nenhuma do espírito. Não seriam montes, não estariam ao sol, se o tivessem. (...) tudo é cansaço neste mundo subjetivado,/ Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,/ Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas/ Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente. (...) Ah, o existir o fenômeno abstrato – existir.” (Álvaro de Campos)

Não há, porém, saída a contento, considerando-se que o que faria uma criatura pensante, se não... vocês sabem – se não pensasse?

Desisto. Não encontro resposta.

Ou é essa a resposta própria: desiste-se.

E, penso eu, desistir não é uma opção. Não uma das boas, pelo menos.

Fazer arte, artesanato, terapia? Oras, tudo exige raciocínio.

Ninguém está livre do pensar, nem os tolos. Senão não se diria nem ouviria tanta bobagem.

Mesmo a fé, abstrata, quem diria?, do pensar não se abstrai...

“A criança olha/ Para o céu azul./ Levanta a mãozinha,/ Quer tocar o céu./ Não sente a criança/ Que o céu é ilusão:/ Crê que o não alcança,/ Quando o tem na mão.” (Manuel Bandeira).

 

 

 

 

Valquíria Gesqui Malagoli, escritora e poetisa, vmalagoli@uol.com.br / www.valquiriamalagoli.com.br



publicado por solpaz às 14:05
link do post | comentar | favorito
|

Europa
mais sobre mim
Brasil
arquivos

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

pesquisar
 
Foz Coa
links