PAZ - Blogue luso-brasileiro
Segunda-feira, 27 de Setembro de 2010
HUMBERTO PINHO DA SILVA - O VIGARISTA DE SÃO PAULO

                      

 

 

No baú das recordações, que é a memória, permanecem cenas, episódios difusos envoltos em nuvens de fumo, quase apagados pelo tempo; e histórias fictícias ou não, que meu pai contava e recontava no propósito – que só agora compreendo, – de alertar-me para as alicantinas da vida.

Entre elas há uma pitoresca, passada com parente de minha avó paterna.

Por ser curiosa e utilíssima para os jovens e adultos descuidados, que julgam que o mal só acontece ao próximo, vou esquiçá-la em dois ou três traços, melhor dizendo: em poucas linhas.

Essa antepassada que nasceu nas últimas décadas do século XIX, era casada com negociante. Homem ambicioso que trabalhara desde menino. Como a vida não lhe corresse como desejava, assentou granjear fortuna no Brasil - quiçá influenciado pelos “brasileiros” que regressavam trajados de branco, grossos anéis de oiro nos dedos e adquiriam: quintas, conventos e solares a nobres arruinados, - terra onde se dizia que o oiro e as gemas eram tão abundantes como o leite e o mel na terra prometida.

Seja como fosse embarcaram num navio que os levou a Santa Cruz; após semanas de enjoos, receios e borrascas, desembarcaram salvos e sãos em Santos.

Treparam a montanha e chegaram a São Paulo e associando-se a patrício montaram pequeno armazém de secos e molhados. Bafejados pela sorte o negócio prosperou, transformando-se em imponente empório.

Ia tudo bem até que o marido lhe adoeceu de grave enfermidade, vindo a falecer meses decorrido, apesar dos cuidados médicos e dedicação da esposa.

A viúva inconsolável, chorou a morte do marido. Vestiu-se de luto cerrado; Assistiu às missas celebradas e recolheu-se angustiada a casa, que lhe pareceu fria e triste.

Só, longe dos seus, perdida numa grande metrópole, sofria a sua dor e a sua sorte.

Ao cair de tarde de Outono, de céu de cinza, foi jantar a casa do sócio. A conversa caiu sobre a funesta sina:

- Por que não vai para Portugal - disse-lhe carinhosamente o sócio. - Eu cuido de tudo e mensalmente mando-lhe a parte de seu marido.

Debulhada em lágrimas, agradeceu, e confiante no velho companheiro, que sempre lhe fora leal, concordou passar-lhe procuração de plenos direitos, para administrar bens e negócio.

Foi dramática a despedida. Houve lágrimas, abraços, juras da esposa do sócio, para que viajasse tranquila, pois garantia-lhe que o dinheiro seria escrupulosamente entregue.

Chegou a minha antepassada derreada pela longa e penosa viagem a casa da mãe. Abraçou-a; reviu amigas de infância; comprou o que carecia e aguardou pela chegada da primeira remessa.

Decorrido o mês e como nada chegava, resolveu escrever ao sócio. Ansiosa, esperou por novas. Inquieta, interrogava o carteiro, mas a resposta era sempre a mesma: Nada chegou do Brasil.

Como não recebesse, nem carta, nem cheques, nem letras, dirigiu-se a advogado portuense, que a escutou atentamente, e quando concluiu a confissão, este, de semblante carregado, disse-lhe:

- Minha Senhora: vou contactar colega de São Paulo para verificar o que se passa; mas desde já aviso-a que provavelmente perdeu os bens. Pode ser que me engane, mas a experiência, como jurista, leva-me a pensar assim.

Ficou aflitíssima, mas confiava ainda na honestidade do sócio amigo; mesmo assim as lágrimas saltaram, quando o jurista lhe disse:

- Minha Senhora: ao passar procuração, com plenos direitos, foi o mesmo que doar o quinhão no negócio. Documentos desses não se passam sem consultar um advogado, mesmo que seja a irmão! Pode ser que o sócio seja honesto, mas…são raros os casos dessas certidões irem parar a mãos limpas. O oiro cega até os crentes, quanto mais os vigaristas. Não conhece o anexim: “Amigos, amigos, negócios aparte?”

O certo é que o dinheiro nunca chegou. De inculcas em inculcas, veio-se a saber que o sócio havia passado a cota para seu nome, declarando que lhe entregara, em dinheiro vivo, diante testemunhas, e não pedira quitação, porque pensava que amiga íntima, quase irmã, não vinha reclamar o que recebera perante testemunhas idóneas.

Nunca compreendi, mesmo criança, porque não foi apresentado queixa judicial de burla. Talvez, nessa recuada época as comunicações fossem demoradas e difíceis ou talvez o sócio fosse mestre em falcatruas.

 

HUMBERTO PINHO DA SILVA   -  Porto, Portugal



publicado por Luso-brasileiro às 18:55
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