PAZ - Blogue luso-brasileiro
Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - O GRANDE REI

                        

 

 

De imediato, não entendi que elas levavam, para a terra onde nasceram e vivem seus pais, o presente que agrada o Rei.

Não vieram de pontos diferentes como Melchior, Baltasar e Gaspar em busca de um novo acontecimento que iria determinar uma mudança na história humana. Deslocaram-se empurradas pela miséria, meninas ainda. O sangue delas era próximo e a trajetória também. Homens, com aparência de vitoriosos, passavam pelo povoado envolto em fome, sede, falta de perspectivas e desânimo e, aos adultos, diziam de outras terras, nas quais as meninas encontrariam um futuro com aplausos e, no retorno, trariam fortuna que compra comida, água, casa, remédio... Para comprovar, entregavam-lhes algumas moedas de ouro. Os adultos, de imediato, juntavam as poucas coisas que as pequenas possuíam, sem se esquecer da boneca de pano, e as viam partir aos prantos, presas na parte traseira de caminhonetes enferrujadas. Embora tivessem poucos anos, pressentiam que viajavam para a desgraça. Os homens de discurso ensaiado não as convenciam, nem o ouro das moedas, nem o discurso pálido dos pais, ao lhes dizer que desejavam para elas um tempo melhor. Agarradas uma às outras: as três, as que já se encontravam na caçamba e as que foram colocadas depois, na viagem de dois dias,  atravessaram o sertão de pó vermelho, sem planícies, rios, praias, montanhas que acariciam a alma.

“Ancoraram”, em outro Estado, no bordel mais famoso do entorno. Cheiro de álcool, luzes coloridas, música alta, gente com olhos de cifrão e outros de desejo. Fantasmas todos, acalmados pela mãe nas antigas noites de sustos, ressuscitaram de imediato. Tinham somente a elas mesmas e às bonecas de pano para se firmar. Vestiram-nas de festa, com roupa de mulher, no ano novo, para o leilão de corpos. Uma por final de semana. A maquiagem, que tentava disfarçar os traços de criança, escorria em meio às lágrimas pela dor dos esqueletos adultos que pesavam nelas e as machucavam. Para sobreviver, se conformaram, sem aceitar, que a trajetória delas era essa. Oito anos após, passada a novidade e o grande interesse por elas, quando não mais se preocupavam em vigiá-las, já que rendiam somente trocados, fugiram para o Estado de São Paulo, visto como terra onde “mana leite e mel”. Não se impactaram com o novo prostíbulo. Eram inadequadas para leilão e mulheres adultas, cujas bonecas se perderam em madrugadas estéreis.

Chegaram aqui logo em seguida. Recuperaram o contato com a família que ficou na paisagem do adeus doloroso.  Ajeitaram-se na periferia. As filhas e os filhos crescem na escolha da mãe e das tias por caminhos que não sejam os que foram os delas. Não é necessário que sejam doutores, mas sim da escola, da honestidade, do trabalho.

Neste mês de dezembro, “painho” e “mãinha” pediram que fossem, com os filhos, passar as festas lá. Estão doentes e gostariam de revê-las e conhecer os netos. Elas arcaram com as despesas de ida e eles lhes darão as passagens de volta. Antes disso, participaram da Celebração de Natal da Pastoral da Mulher. Viram alguns dos filhos encenando o presépio vivo, enquanto elas entoavam do Pe. Zezinho a música “Ouro, Incenso e Mirra”: “São três reis que chegam lá do Oriente/ para ver um Rei que acaba de nascer./ Dizem que um é branco, o outro cor de jambo,/ o outro rei é negro e que vieram ver: / o novo Rei que nasceu, igual estrela no céu. (...) Dizem que um futuro muito diferente/ Essa pobre gente ainda conhecerá. (...) Olham pro Rei que nasceu, igual estrela no céu./ E trazem ouro, incenso e mirra/ Pra festejar o novo Rei/ Que tem poder e majestade,/ que vem do céu, que é de Deus,/ Que vai sofrer, que vai morrer/ E que nos libertará”.

Pediram-nos, antes de embarcar, que lhes déssemos a coroa dourada do presépio vivo e cópias da letra da música “Ouro, Incenso e Mirra”, para cantarem com a família, que não vêem há tanto, no almoço do Natal e da passagem do ano.

Reconhecem que o Messias é um rei humilde e escondido, que Deus não faz acepção de pessoas e desmorona as barreiras do preconceito e que Jesus satisfaz todas as esperanças. Na coroa, que levaram com elas, “após avistarem a estrela”, o presente do grande Rei: o perdão aos que permitiram que a infância delas fosse destruída por aqueles que ofereceram o maior lance.

 

Maria Cristina Castilho de Andrade

É educadora e coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher/ Magdala, Jundiaí, Brasil

 



publicado por Luso-brasileiro às 14:56
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