PAZ - Blogue luso-brasileiro
Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009
TEREZA DE MELLO - O ZÉ DO TELHADO

                     

 

 

 

Naquele tempo, o Zé do Telhado era apenas um rapazote alto e magricela, com muitas sardas e borbulhas na cara. Jogava ao pião e à bilharda, saltava ao eixo com os outros rapazes da sua idade. Saia sempre vencedor.

Tinha um jeito especial para fazer subir os papagaios e lá ia ele correndo pelos campos, seguido dum bando de garotos, encalorados com a correria.

-- Dá-lhe guita, dá-lhe guita --- gritavam todos excitadíssimos.

O papagaio subia, subia, arrastando consigo um enorme rabo de lacinhos de papel de todas as cores

O Zé do Telhado comandava:

-Agora vamos à quinta chamar pelo menino Francisco.

O “ menino Francisco”, era o pai do meu avô, e lá iam, seguidos pelo papagaio sempre no ar.

Um dia hei-de subir mais alto do que o papagaio !—costumava ele dizer.

Os outros riam-se --- Podia lá ser ! Só se fosse pássaro.

--- Hão-de ver ! Hão-de ver --- respondia confiante.

O Zé do Telhado foi crescendo e nunca deixou de ser amigo do menino Francisco. Iam ambos caçar e tinham longas conversas.

Depois o “menino Francisco” foi para Lisboa e por lá casou, mas, de tempos a tempos, voltava à quinta e o Zé do Telhado ia sempre visitá-lo e levar-lhe umas perdizes.

O Zé do Telhado começava a subir --- come ele dizia – a subir como um papagaio!

Era o terror das pessoas endinheiradas da região, e as suas façanhas, aumentadas de boca em boca, amedrontavam a todos. Somente os pobres não o temiam.

Os anos passavam e a fama das suas aventuras não diminuía, nem a amizade pelo seu amigo.

Um dia foi participar-lhe o casamento de uma filha e pedir-lhe uma jóia emprestada para ela levar à igreja. E, então, o meu bisavô foi buscar um colar de brilhantes, que tinha herdado dos pais.

Desde esse dia o Zé do Telhado não tornou a aparecer na quinta. Ninguém sabia dele. Dizia-se que andava a monte, fugido á justiça.

Todos na minha família perderam a esperança de tornar a ver o colar. Apenas o meu bisavô que confiava ainda no amigo tentava defende-lo e afirmava que um dia, quando menos esperassem, havia de voltar.

Mas os dias passavam. Os dias, os meses e os anos e, pouco a pouco, começou também a desconfiar do seu amigo. Quando o criticavam, já não o defendia, esboçava um gesto vago e começava a falar de outras coisas.

Certa noite, perto das onze horas, ouviu-se ao longe um galopar que deslizava pelas ruas da aldeia adormecida e, atravessando o pátio, parou junto da casa. O Zé do Telhado, a cavalo, acabava de chegar.

Os criados da quinta, gesticulando muito, acorreram de todos os lados e, fazendo grande alarido tentavam detê-lo.

O Zé do Telhado, olhando-os desdenhoso e aborrecido, insistia em ver o meu bisavô. E o meu bisavô, num instante, viu-se cercado pelas cunhadas e pela Mulher que o seguravam, tomadas de pânico.

-- Da outra vez foi o colar, agora o que será ? --- exclamavam elas no auge da indignação. Mas ele nem as ouviu e, irritado, desembaraçando-se das suas mãos, saiu da sala.

O Zé do Telhado esperava-o impaciente e, quando o viu aparecer, olhou-o de soslaio espiando os seus pensamentos. Todos aqueles anos sofrera temendo ter perdido a sua confiança e amizade.

O meu bisavô, impenetrável, e resolvido a não se deixar convencer dessa vez, ouvia o Zé do Telhado. E o Zé do Telhado contava: a filha no dia do casamento tinha perdido o brilhante do fecho e ele correra tudo até conseguir outro igual para o mandar encastoar.

O meu bisavô, pouco a pouco, mudava de expressão e por fim sorria divertido --- pois se o colar já não tinha esse brilhante quando lhe emprestara !

Então o Zé do Telhado, desatando o embrulho que trazia entregou o estojo: --- o brilhante que repusera seria uma lembrança para a Exma Senhora do menino Francisco.

E, logo saltando para o seu cavalo, partiu à desfilada caminho da serra.

O Zé do Telhado, olhava o céu e as estrelas e de novo se sentia a subir … A subir como um papagaio.

 

 

TEREZA DE MELLO   - escritora, Lisboa

Do livro “O Mar do Búzio” 1967

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:44
link do post | favorito

Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




mais sobre mim
arquivos

Abril 2021

Março 2021

Fevereiro 2021

Janeiro 2021

Dezembro 2020

Novembro 2020

Outubro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

pesquisar
 
links