PAZ - Blogue luso-brasileiro
Terça-feira, 22 de Março de 2011
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - AUSÊNCIA

 

 

 

Há dores existenciais de outros que sangram em mim. Somente não me desintegro porque creio com ternura imensa em Deus, que faz da esperança um acontecimento.

Não sei se houve denúncia ou se quem de direito observou a situação da menina. Foram à casa da amiga da mãe, em que ancoraram, mas, pelo que soube, a mãe não se encontrava desperta. Não conheço a mãe e nem seus vínculos familiares. Conheço somente onde reside de passagem. Haviam me contado sobre a menina e sua mãe e as duas me comovem. História nômade, sem ter sangue cigano. Um dia aqui, outro dia ali. Não é fácil, por certo, nem para a mãe e nem para a menina.

Passei perto da casa e vi a viatura e a criança, de um ou dois anos, sentada no banco detrás. Pequenina, cabelos escorridos, olhar sem expressão, os braços cruzados, apertando o corpo. Segurava-se para se proteger dos tombos, da rua, do carro estranho, das conversas que não compreendia? Quem sabe?!

Lesionou-me o coração! A menininha ali, sozinha, sem as vozes conhecidas, sem as fisionomias que identifica, sem os abraços que se fazem, mesmo que por minutos, aconchego.

As autoridades competentes estão certas. Os filhos não podem ficar à mercê dos desatinos dos pais. As crianças têm o direito a crescer com dignidade e vida noturna não combina com pequeninos. No entanto, melhor seria que todas as mães conseguissem criar bem os seus filhos, em todos os aspectos: emocional, espiritual, moral, material. Melhor seria que todos os filhos tivessem, junto deles, a mãe e o pai.

Fiquei com uma vontade imensa de pegar a criança no colo, dizer de seu Anjo da Guarda, cantar com ela para Nossa Senhora: “Mãezinha do céu, eu não sei rezar/ eu só sei dizer quero te amar/ Azul é seu manto, branco é seu véu,/ Mãezinha, eu quero te ver lá no céu!”, com o propósito de iluminar os seus olhos e acalmar suas emoções.

Coitada da menina, cuja mãe se desencontrou na vida. Coitada da mãe da menina, que caiu de algum trapézio do mundo. As duas, não tenho dúvida, carregam sofrimentos: a menina carrega a amargura da mãe e a mãe, dentre outros, padece pela história bonita que desejava para a filha e não conseguiu. A mãe deve ter, na boca, o sabor azedo do fracasso. A filha deve sentir falta dos favos de mel com que todas as mães-rainha alimentam seus filhos.

Peço a Deus pelas duas e que a ausência de agora possa se transformar em  presença amorosa.

 

Maria Cristina Castilho de Andrade

É educadora e coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher/ Magdala



publicado por Luso-brasileiro às 11:40
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