PAZ - Blogue luso-brasileiro
Terça-feira, 22 de Março de 2011
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - A COISA VAI FICAR PRETA ?

 

 

            Desde que o Sensei disse que muito provavelmente farei exame para faixa preta nesse ano, comecei a suar frio. Olhando para trás, nem parece que já se passaram mais de três anos de treino. Quando comecei, sentia-me como se fosse uma espécie de polvo e esse nem era o maior dos meus problemas. Além de ter a sensação de múltiplos braços e pernas, eles me pareciam não funcionais!

            Coordenação motora nunca foi lá meu forte e eu jamais tive a ilusão de que isso mudaria radicalmente. Assim, quando me dispus a fazer aulas de aikidô, eu sabia que o caminho seria mais do simplesmente longo, pois também seria repleto de obstáculos. Não foram poucas as vezes, desse modo, que me perguntei até onde chegaria. Só não pensei em desistir, sabe-se lá por quê...

            Os dias foram se passando, os treinos se sucedendo, algumas dificuldades superadas, outras tantas descobertas e as faixas foram mudando de cor na minha cintura. Aquilo que parecia distante no tempo, foi se aproximando em uma velocidade ímpar, tal qual as horas que não sentimos passar.

            Agora, diante da perspectiva de nova mudança de faixa a caminho, dentro de possíveis seis ou oito meses, não consigo deixar de sentir certo pânico. Ainda continuo com múltiplas pernas e braços! A única diferença é que já controlo parte delas. De toda forma, ainda há algumas incontroláveis e eu temo não conseguir domesticá-las a tempo.

            Como parte da preparação, ao final de quase todos os treinos, o Sensei me coloca, assim como a outros aikidoístas, para fazer o que chamamos de JIWAZA. Na verdade, é uma simulação da vida real, do que aconteceria se tivéssemos que usar o aikidô como defesa pessoal, diante de uma situação de risco.

            Quando se aproxima o término da aula, já sinto a adrenalina invadir meus poros. Há dias em que me saio razoavelmente bem; em outros, até dou conta do recado com certo orgulho, mas na maior parte dos dias eu constato que ainda falta muito para que eu me sinta merecedora de mais do que já conquistei. Não sei explicar, simplesmente. Até entendo, mas não sei explicar... O que funciona com um “oponente” não funciona com outro. A necessidade de adaptação às variadas circunstâncias, faz-me pensar em quantas vezes é preciso se adaptar para não ser tragado pelas dificuldades.

            Sei que na vida também é assim. Há dias bons e dias maus. Sei que o importante é lutar a boa luta, seja no tatame ou fora dele, mas em tudo isso há mais coisas em jogo. As lições envolvidas são muitas. É necessário ter disciplina para treinar, concentração para manter o foco, preparo físico para suportar o ritmo, preparo mental para não sucumbir diante da pressão, humildade para entender que ir bem uma vez não significa sucesso sequer no dia seguinte e perseverança para não desistir quando nada parecer dar resultado...

            Não sei como será quando o dia do exame chegar, seja lá quando for. Não sei se vou agüentar, se serei melhor do que tenho conseguido ou se me decepcionarei. Só sei que não vou desistir.  Das lições que recebi lá, ainda que eu esteja certa de que seja um aprendizado eterno, no qual sou iniciante, creio que a mais importante é a luta pela superação dos próprios limites. Na vida, isso faz toda diferença. Se eu tombar, será lá, mas não antes. Só isso, em partes, está sob meu controle, nada mais.

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA- Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo



publicado por Luso-brasileiro às 11:45
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