PAZ - Blogue luso-brasileiro
Terça-feira, 29 de Março de 2011
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - LEMBRANÇAS DE MEU PAI

 

 

Dia 28 de março fez 24 anos que meu pai suspirou macio e seguiu viagem para a Eternidade. É a lembrança dele, nesta data, que me dá a consciência de que estamos no Outono. O Outono é o período em que a euforia do verão dá lugar a um sabor mais consistente aos dias. Há intensidade no cinza da atmosfera, mas cinza azulado. Época de frutos que contêm sementes para a vida se prolongar. E, no mês de março, durante alguns ou todos os dias, é Quaresma. Preparação para refletir sobre a Cruz e ouvir o anúncio da Ressurreição.

Foi de Outono e Quaresma a partida de meu pai. Os limites e o sofrimento na doença, que doeram muito também em nós; a serenidade, após a Unção dos Enfermos, na travessia da noite para a madrugada e o amanhecer por caminhos com flores lilases. No luto, Deus, diariamente, sentava-se ao meu lado e punha, em minhas úlceras, o bálsamo de Sua ternura e compreensão. Fazia-me, como até hoje, encontrar meu pai querido em Sua Palavra.

Meu pai me impregnou de lições e acontecimentos agradáveis e profundos. Minha mãe foi a mulher que ele mais amou.  No casamento, ela lhe ofereceu a sua juventude de 23 anos e ele lhe retribuiu com a maturidade dos 48. Minha mãe o compreendeu em seu entusiasmo, contentamento, dificuldades e nostalgia. Assumiu as lembranças ternas da família que era dele. Meu pai me afirmou, quatro meses antes de partir, que minha mãe jamais o abandonara no sofrimento e na doença e que fora parceira nos passos com alma. Ele testemunhou, inúmeras vezes, que se decidir pelo Matrimônio, aos quase 50 anos, foi um bem porque a esposa era ela.

Bom pai. Teria tanto a dizer sobre ele em nossos 33 anos de convívio. Basta, contudo, lhes contar que ele foi fiel à família, pleno na paternidade e se colocou, como construtor exímio, em todos os seus dias, na edificação do caráter dos filhos. Mesmo que me distancie de algum dos princípios dele, não aguento não retornar, tão forte foi a vida dele de homem virtuoso em minha vida. Possuía fragilidades, porém não era do egoísmo. Aquilo que recebia partilhava com os seus.

Gostaria muito de poder lhe dizer aquilo que vi e aprendi nos 24 anos sem ele. Quais as paisagens e abraços novos que levo comigo. Quais as atitudes que não me fizeram melhor e destinei às chamas. Às vezes, enquanto enfeito com violetas azuis e girassóis o seu túmulo, conto-lhe sobre o que Deus tem feito em minha vida, sobre a mamãe, meu irmão, minha cunhada, os netos que vieram, recentemente, pela misericórdia de Deus e carregam o sobrenome que ele honrou.

Recordo-me que, em 1959 e no início da década de 60, em dezembro, a figura central não era Papai Noel, mas o Menino. Acompanhávamos a imagem maior do presépio, no Advento, de casa em casa, cantando pelas ruas: “O meu coração é só de Jesus,/ a minha alegria é a Santa Cruz” e na despedida: “Lenta e calma sobre a terra/ desce a noite e foge a luz,/ quero agora despedir-me,/ boa noite, meu Jesus”. Ecoa em mim a voz forte dele no cântico que anunciava em quem havia depositado a sua fé. Ele se orgulhava de amar a Deus e a Igreja.

Tenho grande saudade de meu pai! Há outras datas, além de 28 de março, que me comovem ao pensar nele. Em todas elas, dentro de mim, bendigo ao Altíssimo pelo homem de verdade que Ele me deu como pai.

 

Maria Cristina Castilho de Andrade

É educadora e coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher/ Magdala - Jundiaí, Brasil



publicado por Luso-brasileiro às 14:30
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