PAZ - Blogue luso-brasileiro
Quarta-feira, 27 de Abril de 2011
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - VEJA, SENHOR!

 

 

Ela se preparara, talvez há anos, para acompanhar a Via-Sacra levando a Cruz. A possibilidade, contudo, naquela noite, acontecera em poucos dias. Um sonho das integrantes da Pastoral da Mulher/ Magdala em testemunhar, pelas ruas da cidade – as mesmas ruas em que foram vítimas de escárnio - que as dores pessoais de cada uma não as privou de ver que a dor suprema era a do Senhor, que Se entregara ao sofrimento e à morte para salvar o ser humano do poder do mal. Como profetizara Isaías: “Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse. Era desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos; passando por ele, tapávamos o rosto; tão desprezível era, não fazíamos caso dele. A verdade é que ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores; e nós pensávamos fosse um chagado, golpeado por Deus e humilhado! Mas ele foi ferido por causa de nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes; a punição a ele imposta era o preço da nossa paz, e suas feridas, o preço da nossa cura” (53, 2-5). A violência que lhes abriu úlceras e as empurrou para fora do rebanho como ovelhas desgarradas, não as impediu de voltar ao colo do Pastor que as buscara.

Foi a mulher expressão firme que, por primeiro, pediu para levar a Cruz. Os braços elevados e a Cruz fincada em seu peito em soluços pelas lembranças tristes e densas. Fez-se de silêncio. “O silêncio é um espelho em nós e devemos nos espelhar para contemplar quem somos” – diz o Frei Patrício Sciadini, OCD, em seu livro “Silêncio” – Edições Loyola – 2000. Olhou atenta o seu mundo de antigamente. O pai que se foi antes que a visse. A mãe que partiu aos cinco anos dela. A situação de escassez de alimentos, de roupas e de ternura em sua infância. Os meninos de família rica, culturalmente convidados a ser machos em lugar de homens puros, que passaram, em troca de bombons, a exercitar no corpo dela os seus instintos. O ruído dos bares noturnos, que reproduzia o dia todo, para não se encontrar com ela mesma. O rosto coberto pela maquiagem. A fome de comida e de amor. O achar-se perdida por culpa própria.

A noite da sua Via-Sacra, contudo, aconteceu de maneira diferente. A face sem brilho e cores artificiais. Os olhos límpidos, lavados, durante o percurso todo, por lágrimas. Estava no silêncio de Deus, em oração. Desinstalara-se das trevas para se colocar na madrugada da Ressurreição. Era o silêncio que anuncia o Frei Sciadini, “feito de amém, FIAT, eis-me aqui”. Silêncio de intercessão pelos seus.  Silêncio em que se instalou em si própria. Silêncio humilde, sem ego, avaliando suas fragilidades e de onde vem a verdadeira força. Alma em escuta. Experiência do que afirmou a Beata Elisabete da Trindade (1880-1906): “Eu valho muito: valho o sangue de um Deus feito homem”.

Ao se deparar com um hotel de alta rotatividade, no qual outrora estendera o seu corpo pela sobrevivência, virou a Cruz em direção a ele e, espontaneamente, exclamou em voz alta: “Veja, Senhor, não estou mais lá, porque O tenho em minha vida”.

Louvado seja o Deus Amor!

 

Maria Cristina Castilho de Andrade

É educadora e coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher/ Magdala - Jundiaí, Brasil





publicado por Luso-brasileiro às 14:45
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