PAZ - Blogue luso-brasileiro
Sexta-feira, 27 de Maio de 2011
LAUIRENTINO SABROSA - VOZES DA NATUREZA

 

 

Esta noite tive um sonho, tão estranho  e maravilhoso como nunca até hoje tinha tido. Estava numa  grande herdade que tinha a norte uma verdadeira selva, e, a poente, ali perto, o mar, que se me afigurou ser um imenso espelho em milhões de pedaços estilhaçado, tão manso e amigo do vento, que este só o balançava no  berço que Deus lhe deu.  Pela janela sob a qual eu estava, ouviu-se um vagido de bebé que tinha nascido meia  hora antes. Era manhã cedo, havia festa no quarto do neófito com a risada de um seu irmãozito e de uma mulher que era  a sua mãe, ou, possivelmente, a assistente da sua mãe.  A essa festa se associava a festa da capoeira e do curral. Cantava altaneiro o galo, cacarejavam as galinhas e piavam os pintainhos. Na  estrebaria relinchava um cavalo, mas não longe, um asinino, não compreendendo aquela festa, zurrava antipaticamente como se estivesse zangado com ela  Era manhã cedo mas já estava uma manhã esplendorosa. Uma ligeira brisa arrastava suavemente folhas e penas, fazendo-as mover num frou-frou de sedas com as perninhas que ela lhes emprestava. O sol dardejava os seus raios, como que querendo participar, envolvendo toda a atmosfera de luz e calor, sua maneira de cantar em saudação ao neófito da vida, em união com patos que grasnavam e abelhas que zumbiam. Os pardais e as aves livres do céu, umas em pipilos outras em gorjeios, feitas aves canoras de lírica inspiração, pareciam dar também o seu contributo para toda a sinfonia de alegria, em que não faltavam  pombas e rolas a arrulhar. Mas as pessoas daquela família, com a animação e alegria do nascimento, mal se davam conta de toda a beleza do ambiente. Para elas, a mais importante das vozes era a do seu coração, um bater que se lhes afigurava ser repique festivo de sino de aldeia, longe de se lembrarem de que esse mesmo sino, sem deixar de ser augusto bronze, um dia, um dia, iria, iria, muito possivelmente, dobrar plangentemente. Parece mesmo que se tinham esquecido dos animais, faltando-lhes com a ração habitual e, por isso, uns vitelos berravam e alguns porcos grunhiam. Porém, na cozinha, um gato enroscado no seu cesto, perfeito filósofo alheio a tudo, ronronava consoladamente

Coincidência ou não, o próprio trânsito da rua para qual dava a fachada principal daquela mansão, parecia querer comemorar festivamente e estava mais animado que era habitual, até que dois carros passaram lentamente e a buzinar, com bandeiras  desfraldadas como se fossem em propaganda política. Logo a seguir dois automobilistas, em correria de quem sofregamente quer devorar a estrada, acabaram por estragar tudo: de repente, um resvalar de pneus e um chiar de travões, que não puderam evitar a tempo o estrondo duma colisão. Por alguns segundos, silêncio sepulcral.  Finalmente dois homens saíram, cada qual do seu carro, que só por graça especial espargida pelo bebé, ali perto a dormir docemente, não ficou reduzido a uma esmagada lata de conservas. Apalparam-se como a contarem os seus ossos, verificaram que estavam ilesos na sua pele e nos seus fatos, mas não reconheceram que estavam lesionados no ânimo e na razão:  entraram em briga verbal, resfolegando injúrias, bramindo como possessos, blasfemando como ímpios – num minuto envolveram-se em briga física, transformaram-se não sei se cães a rosnar, se lobos a uivar, se  leões engalfinhados a rugir. E então eu, distante e qual cordeiro que mal sabe balir, comecei a ficar atrozmente aflito, e tão aflito que de súbito ouvi um formidável estampido, tão forte, tão forte e assustador que acordei. Eis que tinha passado das realidades oníricas para as realidades telúricas. Levantei-me ainda abalado pelos segundos de pesadelo, consegui ouvir o tic-tac do relógio da sala contígua, assomei à janela e pude ver o contraste entre o ambiente do sonho e o ambiente de grande e impiedoso inverno que reinava lá fora. Mais um trovão estrugiu, como medonho gargarejo de um qualquer grande Gigante da Montanha, seguido de cavalgada de Pégaso em chão de cascalho. Do céu plúmbeo caía uma torrente de chuva, que, certamente em homenagem ao neófito do meu sonho, dentro em pouco abrandou, passando então eu a ouvir mais distintamente o seu tamborilar num telhado de zinco.

Que variedade de sons que eu tinha ouvido no meu sonho e continuava a ouvir agora na realidade, vindas das pessoas e das coisas, vindas do céu ou do mar!  O ribombar do trovão e os corvos a crocitar; as pegas a palrar e os cães a latir; o zéfiro  a sussurrar e as fontes a rumorejar; uma boca a ciciar e uma cratera a explodir;  bebés a rir e rãs a coaxar; doentes a gemer e moribundos a estertorar; o gluglulejar do peru e os  pássaros a chilrear;  o crepitar das silvas e o marulhar do mar; o fragor das catararas, os bois a mugir e foguetes a estalar; o estrépito de uma cavalgada, uma raposa a regougar e multidões a ulular – tudo são vozes da Natureza que se hão-de aperfeiçoar, ao serem afinadas por diapasão divino. Nessa hora não haverá plangor de crianças, apenas clangor de trombetas; nada há-de faltar e nada há-de sobrar; não haverá gebos nem górgonas, apenas efebos e sílfides a louvar; o rato deixará de ter medo do gato e vai com ele brincar, tentando-lhe as vibrissas roer; nessa hora o mar deixará de fustigar as praias e os ventos deixarão de fustigar o mar.

Nessa hora, na plenitude da plenitude dos tempos, todos os sons e todas as vozes serão apenas UM, em união com tudo e todos, imersos  na Trindade santa, com quem toda a Criação  vai  cantar em uníssono um canto de som inconfundível –  trinado  nunca ouvido, mavioso, maravilhoso, divino, melodioso, inefável, majestoso, excelso, solene, celestial, glorioso, eterno, sublime...

 

 

LAURENTINO SABROSA   -  Economista e escritor,Senhora da Hora, Portugal.





publicado por Luso-brasileiro às 14:43
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