PAZ - Blogue luso-brasileiro
Domingo, 2 de Maio de 2010
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - RAIO - X

                      

                      

                       

 

 

            Foi só olhar com um pouco mais de atenção para ver que o nosso cachorrinho Peteco não estava muito bem. Normalmente muito ativo, pulando no sofá sempre que por ali via um cobertor ou somente uma oportunidade para uma soneca da tarde, despreocupada. Notamos que ele passou a ganir quando era pego no colo, conforme o lugar em que o pegávamos, bem como não parecia conseguir dar o habitual pulo que o colocava direto no meio das almofadas.

            Como sempre fazemos com nossos animais de estimação, lá fomos nós levar o Peteco ao veterinário. Na consulta, com uma precisa agulhada, a veterinária fez com ele quase desse um salto mortal, impulsionado pela dor que ela fez revelar, na coluna do pobrezinho. Sempre ouvíramos dizer que os cães dessa ração, os vulgos “salsichas”, acabam tendo problemas de coluna, essencialmente quando estão mais velhos, idosos. Com sete recém completados anos, ele ainda é tão serelepe como quando era um filhote, o que acabou fazendo com que nós meio que nos esquecêssemos de que, em um paralelo com a vida humana, ele estaria beirando meio século.

            Com a receita de alguns comprimidos para dor e antiinflamatórios, bem como um pedido para um Raio-x, voltamos para casa e tratamos de medicar nosso cachorro. Horas depois, ele parecia estar renovado. Como se a dor tivesse desaparecido, ele voltara a andar sem dar a impressão de estar encolhido. Embora de forma mais tímida, já ensaiava pular no sofá novamente. Embora o Raio-x ainda não tivesse sido feito, concluímos que ele estava bem melhor e ficamos menos apreensivos.

            Gostar do Peteco foi algo que aconteceu ao primeiro golpe de vista. Eu o conheci como cachorro de um amigo, bem filhotinho. Menos de dois meses depois, ele já morava em casa e passaria a protagonizar várias situações hilárias, muitas das quais transformadas em crônicas. Como costuma acontecer quando se ama alguém, não estávamos, como não estamos, preparados para ficar sem nossos cachorros, entre eles o Peteco.

            Para completarmos o diagnóstico, fui com ele até um centro veterinário de grande porte para fazer o Raio-x. Esqueci de levar a coleira e, chegando lá de carro, tive que subir um enorme lance de escadas, sem corrimão, equilibrando, em um braço, um cachorrinho de sete quilos e meio e, na outra, minha bolsa, rezando para não cair e rolar, escada abaixo.

            Na sala de espera, logo me dei conta de que esquecer a coleira não fora uma coisa muito prática, eis que lá havia outros cães, a maior parte deles, no mínimo, com o triplo do tamanho do Peteco. O maior problema é que ele, como sempre, não estava nem um pouco ciente dessa desvantagem. Para evitar uma tragédia, eu o mantive no meu colo, o que funcionou até o momento em que a recepcionista me chamou até o balcão, com a finalidade de fazer o meu (ou seria o do Peteco?) cadastro.

            Fui passando as informações que ela me pedia, até que ela solicitou a data de nascimento dele. Tudo o que sei a respeito disso, do meu cão sem “pedigree”, é o ano em que ele nasceu, mas, para não ter que explicar, tampouco desvalorizá-lo, eu inventei uma data aproximada. Coloquei o Peteco no chão para poder assinar a ficha e o prendi entre meus tornozelos, rezando para que ele não resolvesse encarar outro cachorro, principalmente um pastor alemão caolho que, com o único olho, fitava meu “salsicha”...

            Cerca de quinze minutos depois a veterinária apareceu e eu a acompanhei até a sala de Raio-X. Conforme determinado por ela e pelo assistente dela, coloquei o Peteco sobre o aparelho, vesti uma parafernália que me deram e fui instruída a como segurar meu cachorro na posição necessária. Além de tremer como louco, ele não ficou lá muito satisfeito em ser esticado. Eu confesso que fiquei meio encanada com o fato de que a veterinária e o assistente saírem da sala enquanto eu ficava lá tomando umas doses de radiação. Só me restava a esperança de que o avental de quase duzentos quilos que me colocaram sirva para evitar que um dia comece a nascer uma orelha no alto da minha cabeça.

            Terminada a sessão de “fotos”, eu, que já estava apreensiva, perguntei à veterinária se ela já sabia o que ele tinha, ao que ela me respondeu, com um ar enigmático, que tinha visto sim, mas que ia falar com a veterinária do Peteco, a que pedira o exame e depois ela conversaria comigo.

            Nem preciso dizer que fiquei com a pulga atrás da orelha. Se ela não queria me dizer, com toda certeza era algo ruim. O que ela achava que eu iria fazer? Começar a jogar as coisas para cima? Enlouquecer?  Na verdade, olhando para o meu cachorrinho, que àquela altura dos acontecimentos já estava até exausto de tanto estica-estica, com aquele olhar de inocente e bobão, tudo o que me deu vontade foi de chorar.

            Saí da sala e fui com o Peteco para o caixa, pagar. Pouco depois a veterinária me deu um envelope com o laudo e me desejou boa sorte. Saí de lá pisando em falso, como se algo muito ruim estivesse para acontecer. O envelope não estava lacrado e após conseguir descer a imensa escadaria com o Peteco outra vez nos braços, bastou virar a primeira esquina para eu devassar o conteúdo dele (do envelope, é claro!).

            Com o coração aos pulos, mesmo na minha ignorância médica e veterinária, concluí, com alívio, que não era nada demais. Tudo o que ele tinha era um desgaste nas vértebras da coluna, próprio da raça. Mais tarde a veterinária dele me confirmou isso, acrescentando que, dali para frente, Peteco teria que evitar muitos saltos, muita escada e teria que tomar, para o resto da vida, suplementos alimentares. Ouvimos a tudo isso como quem ouve a notícia de ter ganho na loteria. Estava, por fim, tudo bem...

            Um dia, por certo, haverá uma despedida, mas não agora. Ainda haverá outras tantas crônicas, outros tantos dias de cão. Fico somente me perguntando a razão pela qual a outra veterinária fez todo aquele mistério, mas por conta dele eu pude me lembrar das mil razões pelas quais amo os meus cães, pelas quais um simples pulo até o sofá é capaz de me provocar tantas emoções...

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA- Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo



publicado por Luso-brasileiro às 16:42
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Cfd. ALUIZIO DA MATA - FICAR DE JOELHOS

    

                    

 

  

Provavelmente você já se viu em uma situação semelhante, isto é, estar no meio de muitas pessoas e se envergonhar de ter que praticar um gesto que ache estranho ou até mesmo ridículo, no seu entender.

Vou dar um exemplo: você está assistindo um jogo de futebol e o juiz erra contra o seu time. Sem pensar você solta um daqueles palavrões e depois fica olhando com cara de bobo para as pessoas que estão por perto e que te olham admirados.

Outro exemplo: você é emotivo e está assistindo um filme que tem uma cena tocante. Pode ser no cinema ou no sofá da sua sala. Se outras pessoas notam seus olhos marejados de lágrimas e perguntam se você está chorando, aposto que prendes o nó na garganta e diz que não.

 

O vicentino não deve se envergonhar de fazer campanhas para a sua Conferência. Se tiver que ir de casa em casa para fazer a arrecadação mensal, que o faça sem respeito humano. Se tiver que vender uma rifa, que o faça também. Não deve se envergonhar de participar de procissões, de entrar na fila (se tiver) para fazer sua confissão e, principalmente, de visitar seu assistido.

 

Tem pessoas que se sentem envergonhadas de fazer um Sinal da Cruz quando passam perto de uma igreja. E se o fazem, olham ao redor para se certificar que ninguém viu.  Envergonham-se de rezar em alta voz, mesmo que outras pessoas que estejam por perto o façam.

Estou dizendo isto porque vejo, na igreja, pessoas que não se ajoelham nos momentos nos quais deveríamos reverenciar Jesus.

A Consagração é um desses momentos. Aliás, o principal.

Tem pessoas que acham que ajoelhar é humilhante e se desculpam dizendo que Deus não quer isso.

Ajoelhamos não porque Deus exige, mas porque sabemos da dignidade do momento e do personagem ao qual o ato representa.

 

Mas, gostaria de colocar para os que pensam e agem assim, que sentem vergonha, uma determinada situação.

Imaginemos que uma pessoa esteja em uma rua muito movimentada e que ela pare em uma banca para comprar um jornal ou uma revista. Ao retirar o dinheiro da carteira, por um descuido ou por um movimento mais brusco deixa cair uma cédula de cem reais. Por um desses acasos do destino, um pequeno vento toca a nota para debaixo da banca. Duvido que qualquer um não vá se ajoelhar para tentar recuperar o dinheiro, não se importando com as muitas pessoas que estejam olhando.

 

Quem vale mais? Jesus ou uma cédula de cem reais?

Qual seria o nosso procedimento diante de uma situação dessas?

Será que com vergonha de ajoelhar diante de outras pessoas deixaríamos a nota se perder?

Duvido.

 

ALUIZIO DA MATA - Vicentino, Sete Lagoas, Brasil



publicado por Luso-brasileiro às 16:26
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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - HERANÇA

                       

 

 

O pai era alcoolista e a mãe descuidada. Morreram cedo. No descuido, a filha repetiu a trajetória do pai. Com um pouco mais de 60 anos, soube da doença. Já estava avançada. Quase nada disse. Não desistiu e nem mascarou. Antigamente, quando as horas lhe pesavam, perambulava embriagada, a ponto de não retornar ao pequeno quarto de pensão que dividia com a filha, mais um rebento dos desatinos. O álcool a possuía como os homens de outrora. O gosto era menos amargo que o dos homens. Os homens deixavam marcas de gado. Eram, no dia seguinte, esperança em cacos. Concluíra, no início, que a embriaguez a protegeria de ataques que a feriam. O primeiro, o segundo, o terceiro gole... O cheiro de aguardente que atraía outros alcoólicos ou que a aproximava deles. O frio sem inverno, debaixo das pontes, sob as marquises, rindo de nada, babando emoções necrosadas. No início da madrugada, uma fogueirinha com vultos, como proposta para aquecer a alma. Naquele tempo, não percebia que o vício se transformava em gosta cáustica que a corroía. Existia entre a solidão cinza e o desamparo.

Convidaram-na para as reuniões de quarta à noite na Catedral, com o propósito de ouvir a Palavra de Deus. Aceitou porque o convite partiu de alguém do mundo dela, cansada da noite. Isso se chamava parceria para o bem, embora as expectativas não fossem muitas. Depois de cinquenta anos girando em torno de sua coluna vertebral, olhando para os lados, atrás e na frente, sem encontrar resposta de ternura e laços bonitos, o vazio era tanto que se imaginava para sempre em um buraco sem flores e amores.

Permaneceu na Pastoral da Mulher. Deparou-se com o Senhor da Misericórdia que não lhe restituiria o tempo perdido, não tiraria o álcool impregnado em suas carnes, não retiraria a fumaça grudada em seus pulmões, não curaria as chagas de sua garganta, não branquearia a moldura vermelha de seus lindos olhos azuis. Tudo isso, na verdade, muito superficial. Atingiu-a de maneira mais profunda, colocou claridade em sua alma. E ela não mais deixou de participar. Continuou até mesmo quando a doença, que despertou a depressão, tentava dominar sua alma. Seguiu pela esperança que encontrara na descoberta de Deus. Ia com a sonda do estômago. Incomodava o corpo, todavia não impedia o seu coração, como da Samaritana, de pulsar pelo Amigo. Sobrevivia com a doença, mas não mais sem a Palavra que a alimentava.

Pela insistência, levou a filha meses depois. A moça não queria. Fazer o que lá? Além do mais, pensava ela, na Igreja estavam incluídos que lhe eram estranhos e que poderiam observá-la com recuo. Mas pelos chamados maternos repetidos e por ver a mãe, de passo em passo, sair da decadência, deixou-se levar. Não supunha que abdicaria da cachaça ao escolher Deus. Não julgava que aprenderia a ler e a escrever melhor e que tocaria a música, do novo momento de sua história, em um teclado de computador.

Um pouco depois da chegada do Outono, a mãe percebeu que se distanciava.  A fala em sussurros pela garganta obstruída. A filha, em prantos, ajoelhou-se e pediu perdão pelos desencontros de tempos anteriores. Faltara-lhes um canto com privacidade para a convivência.  A mãe apenas sorriu com doçura como nas últimas vezes que a vimos. Disse à filha que lhe deixava, como herança, a Pastoral da Mulher/ Magdala. Que ela não se afastasse jamais, assim como a mãe não se distanciara. Que Deus, que criou a Pastoral, fosse, na vida dela, tão grande a ponto de que a cachaça não coubesse mais. A filha assumiu o compromisso de persistir e, apesar da dor da separação, consentiu, sob a luz da fé, que a mãe partisse com Deus Pai.

Chegamos ao velório um pouco depois do corpo. A face, da que se fora, com a claridade que Deus lhe colocou na alma. Não importa durante quanto tempo, mas, ao saber do Cristo Jesus fez-se de fidelidade proporcional ao seu entendimento.  Não havia ninguém ainda no velório e nem outro corpo sendo velado. A ampulheta anunciava a aurora.  Não vimos a fogueirinha da lata que esquentava a solidão. Romperam-se definitivamente as mortes que a rondavam. Silêncio e penumbra. Mas ela não estava sozinha. Atrás de sua cabeça, destacava-se a cruz com Jesus de olhar amoroso, que ela escolhera para chegar em paz à Eternidade. No alto do céu, destacava-se a estrela da manhã.

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE  -  É coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher e autora de “Nos Varais do Mundo/ Submundo” – Edições Loyola

 



publicado por Luso-brasileiro às 16:20
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VINICIUS AZZOLIN LENA - UMA CIDADE SEM PARQUE

                        

 

          

Não é de hoje que se que se fala – e este jornal abordou este assunto reiteradas vezes – que nossa cidade necessita urgentemente de uma área de lazer que contemple o grande público. Mesmo porque, na falta de uma área reservada e segura para caminhadas, passeios e esportes leves, a população tem se valido – de forma inadequada – da BR 242 que divide a cidade ao meio, pois além de atrapalhar o tráfego (que em determinados horários é desviado às laterais), põe em risco os usuários. Dentro deste enfoque – e preocupados principalmente com a trafegabilidade na BR 242 e a falta de área específica – o Ministério Público Federal, convocou uma audiência em sua sede de Barreiras, dia 02/04, com a finalidade de tratar deste assunto.

Nesta audiência estiveram participando, a prefeita Jusmari Oliveira, o procurador da República, Fernando Túlio da Silva, o promotor Eduardo Bittencourt, o superintendente do Denit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), Saulo Filinto de Souza. O resultado deste ato foi a celebração do TAC – Termo de Ajustamento de Conduta – em que, entre outras coisas, recomenda a construção de uma passarela metálica sobre o Rio Grande, unindo a Praça Landulfo Alves (margem direita) ao Parque de Exposições Geraldo Rocha. (margem esquerda do Rio Grande), acompanhado da recomendação de reestruturar as áreas de lazer do referido parque, como iluminação e guaritas para a guarda municipal, etc. Tudo bonitinho, dentro do vidrinho. Porém...

A todas estas, a pergunta que se impõem é: como é que ficará a área de lazer construída nas curvas do rio, margem esquerda, pelo então prefeito Saulo Pedrosa, ainda em seu primeiro governo? Obra que, à época, gerou muita fofoca política, discussões de botequim, além de lhe servir de contrapropaganda em campanhas políticas subsequentes, devido ao alagamento a que a área estava sujeita em determinada época do ano.  Quem não se lembra que aquela área, quando foi inaugurada e aberta ao público em dezembro de 1995, havia pista concretada para caminhadas ou ciclismo, muro de arrimo à beira dágua, quadras de vôlei com iluminação, canal ligando a parte alta com a parte baixa das curvas do rio, com pontes estilo japonês, que permitia banho às crianças com segurança. E outras mordomias que constavam do projeto inicial, como um campo de baseball e ... uma passarela  sobre o Rio Grande.

É bom lembrar que seu sucessor, o prefeito Antonio Henrique, no princípio de seu mandato (enquanto aliado), deu continuidade ao projeto construindo sanitários e quiosques de piaçava. Parecia que, enfim, a população – principalmente a que não tinha condições de ir ao Rio de Ondas em fins de semana – ganharia uma área de lazer à beira do rio, dentro da cidade. Entretanto, lá pelas tantas, por motivos político-eleitoreiros, que todos se recordam, Antonio Henrique “rompeu” com seu ex-aliado e o projeto foi relegado ao interdito. A área foi fechada ao público, os quiosques “pegaram” fogo, os sanitário viraram depósito de entulhos, e o projeto Guanabara foi abandonado. E hoje jaz à beira dágua, retomado pela natureza, que, em protesto – ou de vergonha pelo descaso – encobriu toda a área com um dossel verde.

Posteriormente, em seu segundo mandato, (em 2005) Saulo Pedrosa tentou a retomada do projeto, iniciando o replantio de árvores, a limpeza do local e serviços afins. E os serviços só não foram adiante porque o Ibama entrou na jogada. Multou a prefeitura em 20 mil reais, embargou a obra, ou qualquer outra que por ventura se projetasse ali.

Eis que agora é o próprio Ministério Público Federal quem recomenda que prefeitura construa uma passarela e reestruture o Parque Geraldo Rocha a fim de transformá-lo em parque de uso constante. Só o que não ficou claro é em que ponto do rio a passarela será construída, sem passar pelo desprezado, mal falado e esquecido projeto Baia da Guanabara?

 

  VINICIUS AZZOLIN LENA   -  Jornalista - Editor do jornal "Nova Fronteira" de Barreiras BA. Membro efetivo da Academia Barreirense de Letras. Livros publicados: "Traçando Barreiras" Histórica (). No prelo: "Pequenas Histórias" - Contos, e "Reflexos" (Poesias)

 



publicado por Luso-brasileiro às 15:55
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Sábado, 1 de Maio de 2010
Côn. JOSÉ GERALDO VIDIGAL DE CARVALHO - FALECEU UM NOTÁVEL SACERDOTE

 

Pranteia a Arquidiocese de Mariana o falecimento do Côn. Paulo Dilascio um dos mais ilustres membros do Presbitério marianense. Seu falecimento se deu dia 26 de abril em Belo Horizonte, onde se achava internado no Hospital Madre Teresa. Seu sepultamento se deu em São João del Rei, onde nasceu a 2 de maio de 1931. Antes, seu Corpo foi velado em Ouro Preto e Mariana, cidades nas quais exerceu um magnífico apostolado, dirigindo o Colégio Arquidiocesano de Ouro Preto, a Escola Estadual Dom Silvério em Mariana, além de ser um êmulo de São Vicente de Paulo, tornando-se um paladino da caridade, um luzeiro intenso de amor ao próximo. Foi um dos mentores das “Obras Sociais Monsenhor Horta”, instituição fundada com seu irmão Monsenhor Vicente Dilascio, outro ícone da grandeza do sacerdócio de Jesus Cristo. Não menos profícuo foi sua operosidade nos trabalhos pastorais em Mariana, tendo sido Coadjutor de Mons. Vicente, quando este foi, durante muitos anos, Cura da Catedral. Renomado pastor de almas, pedagogo inigualável, líder na plena acepção da palavra, o Côn. Paulo Dilascio se distinguiu ainda como brilhante literato e orador apreciadíssimo. Seu falar altíloquo e terso, escorreito e solene encantava a quantos o ouviam em suas palestras, discursos, sermões, homilias. Falava e escrevia com apuro e perfeição. Foi um vernaculista de prol, castiço, estilista esvelto, escritor adamantino. Letrado de rijeza e lume na frase e de vigor nas idéias fulgurantes que lançava sempre honrou a “última flor do Lácio”. Empregava formas peregrinas, locuções surpreendentes. Era um intelectual de raça que possuía um verbo à altura do seu talento. Fidelíssimo aos sagrados fundamentos da fé, honrou a oratória, atingindo, por vezes, com sua eloqüência o esplendor de um Bossuet, de um Bourdaloue, de um Rui Barbosa. Era, além do mais, de uma atividade impressionante e, dirigindo Colégios durante quarenta e três anos, se sentiu mal exatamente quando de Mariana se dirigia a Ouro Preto para mais um dia de serviços a favor da Educação da juventude. Sua figura admirável há de reviver nas mentes de quantos o conheceram como uma exemplicação indelével de trabalho.  Formado também em Direito tinha  um sentimento vivaz, uma paixão indomável pela justiça, sobretudo quando se tratava de defender os pobres e desvalidos. Era, além do mais, de uma fidalguia extraordinária tendo recebido uma educação de berço de seus virtuosos pais Nicoláo Dilascio e Zulmira dos Santos Dilascio.  Bom por natureza e tolerante por convicção, envolvia a todos no temperado e delicioso ambiente de uma cordialidade sem limites. Urbaníssimo, tinha a posse de todas as nobres qualidades que enaltecem a alma e constelam uma existência, características estas dos bons, dos úteis, dos benfeitores da sociedade. Afabilidade habitual, aberta, ínsita, efusiva, radicada, a um tempo na própria índole e nas lições de suas atividades sempre realizadas para glória de Deus e bem das almas. Caráter sem jaça, tinha o brilho de um coração, de fato, sempre voltado para o interesse do próximo. Possuía, em plenitude, o dom santo do altruísmo. Terminada sua trajetória terrena se pode afirmar que imitou a Jesus Cristo que passou pela terra fazendo o bem.  Quantos o conheceram o viram sempre no centro deste fulgor que se chama dignidade e jamais deslizando desta linha suave que tem o nome de sabedoria que vem do Alto. Não se consegue proclamar nos estreitos limites de um artigo o louvor que merece um personagem como o Côn. Paulo Dilascio, mas seu elogio está nas suas próprias obras e seu nome será sempre lembrado nos anais dos maiores obreiros do Evangelho. Quem acompanhou  sua vida sacerdotal, desde  sua ordenação dia 30 de novembro de 1954 até o dia em que Deus o chamou desta vida, pode atestar que ele, a exemplo de Paulo de Tarso, cumpriu com seu dever e agora só lhe resta uma grande recompensa na eternidade feliz que os justos gozam junto de Deus.

 

JOSÉ GERALDO  VIDIGAL DE CARVALHO    -   Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos - Brasil



publicado por Luso-brasileiro às 19:01
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HUMBERTO PINHO DA SILVA - A SANTIDADE DO REDENTORISTA

                      

 

 

Nos anos cinquenta era um jovem com imensos projectos e tantos outros desejos.

Com frequência ia à Misericórdia de Gaia e não deixava de visitar o Sr. Martins.

O Sr. Martins e sua irmã, eram os enfermeiros oficiais dessa Casa de Assistência. Profissional competentíssimo tinha no rol das proezas “descobertas” excepcionais, que saltavam de boca em boca, não só no meio hospitalar, mas nos lares de famílias gaienses.

Contava-se que certa vez uma mulher, andando descalça, sentiu leve dor no calcanhar. Decorrido dias surgiu grave infecção que a obrigou a recorrer ao médico. O tratamento prolongava-se e a mulher encontrava-se cada vez pior, até que certo dia apareceu no posto de enfermagem do Sr. Martins.

Observou a fistula, limpou a ferida e com pinça esterilizada puxou cautelosamente a saliência estranha e escura, e perante a dor e espanto da mulher surdiu fragmento de vara de guarda-chuva!

Falava-se, entre outras façanhas do Sr. Martins, o caso da costureira que espetara uma agulha no peito. Várias vezes os médicos radiografaram-na, mas quando iam abrir nada encontravam. A agulha deslocara-se.

O caso estava bicudo, diziam os médicos. Até que o Sr. Martins prontificou-se deslocar-se ao radiologista munido de bisturi, ai a lancetou. A agulha foi finalmente retirada com grande sucesso do enfermeiro.

Mas, das infindáveis histórias que vivera, a que não conseguia recontar sem os olhos humedecerem-se, era a de um irmão redentorista do Seminário de Cristo Rei:

Certa vez apareceu no pronto-socorro, que abria janelas para a quinta que dava para a Bifurcação, frade redentorista, acompanhado de irmão.

Ao descobrir as pernas o Sr. Martins verificou, assombrado, que tinha os joelhos numa lástima, escorrendo sangue vivo.

Encolhido tartamudeando o humilde cenobita confessou:

Ouvira contar que em certo lugar travava-se violenta batalha. Havia milhares de feridos e mortos.

Condoído, entrou na cela e espalhando milho, que colhera na quinta, ajoelhou-se sobre os grãos, deprecando fervorosamente ao Senhor que amansasse o coração dos beligerantes. Assim se manteve até que os joelhos arrebentassem em sangue.

Ao verem as vestes ensanguentadas não teve outro remédio senão declarar o que acontecera.

O Sr. Martins contava e recontava o episódio em voz embargada, e raras vezes não deslizava uma lágrima pelo rosto.

O enfermeiro, ao que se sabe, não era nada dado a sentimentalismo.

 

HUMBERTO PINHO DA SILVA, Porto, Portugal



publicado por Luso-brasileiro às 18:36
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PINHO DA SILVA - BOM JESUS, BRAGA, PORTUGAL

                    



publicado por Luso-brasileiro às 18:33
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