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Sexta-feira, 2 de Julho de 2010
SÔNIA CINTRA - SARAMAGO, UM ALENTEJANO NO MUNDO

                  Reza a tradição de nossa civilização ocidental que oscilamos entre sermos heróis e vítimas, ao longo de nossa existência. Herói, quando sozinhos tentamos desafiar o mundo em que vivemos, a despeito de suas inúmeras vicissitudes; vítimas, quando, também sozinhos, perdemo-nos em suas várias contendas e intrigas. Daí, talvez, o hábito ingrato de, apenas morto um grande homem, transformá-lo em mito. O mito, sem tempo-espaço definido, descompromete-nos de tentar seguir seus bons exemplos e com isso engrandecer o mundo em que vivemos coletivamente. Sacralizado o homem, ele se aproxima dos deuses (olímpicos ou não), distanciando-se infinitamente do ser humano que somos. Torna-se impossível alcançá-lo, refletir sobre seus feitos ou dialogar com suas ideias, pois ele é “o nada que é tudo”, tal D. Sebastião, “quer venha ou não”.

            O exemplo de vida e obra do escritor português José Saramago, longe de se render aos apetites do olimpo globalizado, busca alimentar os lugares dos aconteceres solidários dos mortais. Sem receio de erguer a voz  em nome de tantos, pelo risco de ser mal-amado por poucos, ou, como se diz hoje em dia, ser encapsulado, isolado, longe de se render à falsa doçura dos hipócritas, ele foi um desses homens que não temeu expor as amarguras do mundo. Com originalidade e mestria de quem se dedica de corpo e alma à leitura e à escrita literária, ergueu a palavra na construção da dignidade humana dos enfraquecidos e oprimidos pelas injustiças socioespaciais e pelo gigantesco fundamentalismo que atrofia nossos dias: a sociedade de consumo, cruel e voraz, como bem reflete o romance “A Caverna” (2000), cujo conflito principal é resultante da instalação de um mega centro comercial em uma cidadezinha próxima a uma olaria. A simbologia do barro e do plástico ali se contrapõe, sendo evidente a atualização da lenda da caverna de Platão.

            De sua rica biografia e dos títulos de obras editadas que constam das páginas de jornais e revistas do mundo, vale aqui lembrar que, nascido na aldeia de Azinhaga, no Alentejo, em 1922, José Saramago a certa altura da vida teve que sair da escola para prover sustento a sua família. Vale lembrar que ele, depois disso, criou a Fundação José Saramago, provida de extensa biblioteca para uso comum a todos. Isso nos dá a dimensão da labuta e do talento de nosso Nobel de Literatura. Impedido pela censura portuguesa de receber o Prêmio Camões, quando, da publicação do “Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991), foi viver na ilha de Lanzarote, nas Canárias, com sua mulher, a jornalista Pilar del Rio. De lá presenteou o mundo com seus “Cadernos” e “As pequenas memórias” e outros livros de igual magnitude. A obra de Saramago é vasta e profunda, um oceano de letras rigorosas e sublimes, um mar de palavras escritas em nosso favor, que não nos deixam naufragar ante os rochedos e as armadilhas da vida.  Em estilo próprio, uma fusão do neorrealismo e do experimentalismo, em sua prosa, temperada com o fantástico de origem latino-americana,  ele nos acena com a esperança em um tempo sem utopias. De sua poesia, ainda por ser totalmente decifrada e reconhecida, sorvemos a sutileza da emoção de quem se faz racional. O livro “Provavelmente alegria” (1970) é bom exemplo disso.

           Embora a contribuição literária de Saramago seja evidente, importa o legado de grande humanista que nos deixou, seja pela formação clássica (autodidata) com que expressou o mundo contemporâneo, seja pela criação de novos mecanismos linguísticos para dizer o ainda não dito. Quem já não se surpreendeu com os diálogos demarcados por vírgulas e maiúsculas, no lugar dos dois-pontos e travessão tradicional, e com suas personagens? Quem não se apaixona por Blimunda e Sete-Sóis? Quanto rir de sua descrição irônica e minuciosa dos infrutíferos encontros reais em “Memorial do convento”(1982). Quanta tensão depreendida do “Ensaio sobre a cegueira”, levado às telas pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles (2008), até percebermos o quanto somos cegos aos outros, de como “a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens”. Que grata aprendizagem no seu par dialético “Ensaio sobre a lucidez” (2004). Quanto navegar com “A jangada de pedra” (1986), ou que maravilhas descobrir em “O Conto da Ilha Desconhecida” (1997). Que graciosa “A maior flor do mundo”. Longe do temor à morte, ela é tema recorrente em sua obra, como é o caso de “As intermitências da morte” (2005) e “O homem duplicado” (2000). Longe da submissão ao autoritarismo burocrático, Saramago revoluciona as relações de poder em benefício do ser humano, através da  compaixão e da solidariedade, o que é muito claro em “Todos os Nomes” (1997) e no recente “Caim”.

De teor multidisciplinar, não lhe escapam à escrita refinada questões filosóficas, geográficas, literárias, históricas, religiosas, dentre tantas, como da física e da química, que, pela intertextualidade, paródia, digressão, metalinguagem, oralidade, períodos longos, frases circulares e outros recursos estilísticos e semânticos, são trazidas a nosso olhar e compreensão, como podemos aferir em “O ano da morte de Ricardo Reis” (1984), “História do cerco de Lisboa” (1989), “A viagem do elefante” (2008), para citar alguns livros. Quanto percorrer Portugal em suas narrativas de viagem. Além de escritor, ele foi revisor e tradutor. Deixou-nos um legado humanista, denso e belo. Quem não se emociona ante a poesia de “Levantado do chão” (1980), romance sobre o qual diz o próprio autor: “Do chão sabemos que se levantam as searas e as árvores, levantam-se os animais que correm os campos ou voam por cima deles, levantam-se os homens e as suas esperanças. Também do chão pode levantar-se um livro, como uma espiga de trigo ou uma flor brava. Ou uma ave. Ou uma bandeira.” A obra de Saramago reflete questões que buscam a liberdade do homem e a fé em um deus autêntico. Quanto querer que ele estivesse aqui, conosco, para lermos seu próximo livro. Quanto querer que ele estivesse vivo para nos ensinar a viver. Oxalá não façam dele mito para o distanciarem de nós!

 

SÔNIA CINTRA - escritora brasilrira

 

 

 



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VINICIUS AZZOLIN LENA - LUSOFONIA

                     

                     

                      Das Costas d'África, no entorno
                   ao Oriente desconhecido.
                   Da Madeira à Oceania
                   às praias moçambicanas,
                   Angola e Santo Tomé,
                   suas naus não perdem o rumo
                   no Bojador ou Cabo Verde,
                   nem no Golfo da Guiné

                   Se sopram ventos contrários
                   que enfunam as velas rotas
                   de tanto e tanto marear,
                   vão conquistando aos pedaços
                   de mares e de praias mil,
                   transpondo o Mar de Sargaços,

                   Portugal reata o Mundo,
                   ao redescobrir o Brasil.

                   E hoje são nove bandeiras

                   a compor uma sinfonia
                   co'a mesma sonoridade,
                   de lusas raízes que um dia
                   a vencer o mares profundos,
                   de deu em deu inscreveram,
                   o povoamento de um mundo
                   em sonora lusofonia

 

VINICIUS LENA    --   Jornalista - Editor do jornal Nova Fronteira de Barreiras BA. Membro efetivo da Academia Barreirense de Letras. Livros publicados: "Traçando Barreiras" Histórica (). No prelo: "Pequenas Histórias" - Contos, e "Reflexos" (Poesias

 



publicado por Luso-brasileiro às 12:57
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RENATA IACOVINO - AUGUSTO... DOS ANJOS

                      

 

 

O século XIX viu nascer um dos mais originais poetas brasileiros.

Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos, conhecido na literatura como Augusto dos Anjos, nasceu em 20 de abril de 1884 no engenho de Pau d´Arco, na Paraíba.

Estimulado à leitura desde cedo pelo pai, suas influências foram marcadas por poetas do Romantismo, com os delírios inerentes ao movimento e que nortearam tão bem o estilo do menino triste que era.

A aparência esquálida, os olhos fundos e a perseguição por uma liberdade impossível deram a tonalidade a esse poeta paraibano, que soube transformar a concepção de lírica até então existente, na qual não se coadunavam razão e sentimento.

Seus sonetos se diferenciavam sobremaneira dos praticados nos movimentos literários anteriores – o parnasianismo e o simbolismo. As características predominantes em suas poesias deflagram um universo apocalíptico, alucinado, sempre se utilizando de termos científicos, produzindo, assim, uma espécie de obra clínico-literária. Além disto, o aspecto formal propriamente dito, ou seja, as técnicas aplicadas aos versos, tentando definir o que, então, era certo ou errado, foram, igualmente, alvo de crítica por aqueles que faziam a leitura estritamente pelo viés parnasiano ou simbolista.

Pode-se dizer que Augusto dos Anjos foi o praticante único – ao menos em sua plenitude – da poesia de necrotério. O impacto de desintegração da dita sensibilidade e dos valores do poeta como ser humano, resultaram numa nova expressão literária e neste arcabouço, um novo estado poético nascia, esdrúxulo, dissonante e antagônico.

Mas o espírito decadentista somou-se ao ideal romântico.

Seus escritos estão associados à fase pré-modernista, surgida no Brasil no início do século XX. Mas é tido como um poeta de transição, abarcando traços do parnasianismo e do simbolismo.

O vocabulário absolutamente particular utilizado por ele é um dos mecanismos da originalidade que permeiam sua abordagem sobre a morte, a decomposição da matéria e os vermos, traçando um irresistível modelo de efeitos rítmicos e sonoros.

A produção intelectual de Augusto dos Anjos concentra-se em um único livro, intitulado Eu, de 1912, no entanto, outros poemas e prosa foram recolhidos e editados originalmente em publicações de 1977 e 1978.

Após seu falecimento, em 1914, publicou-se na Paraíba, em 1920, nova edição de Eu, desta vez acrescida das Outras Poesias. Assim, o título Eu e outras poesias passou a ser adotado nas edições seguintes.

Mas sua popularidade teve início em 1928, com duas edições no Rio de Janeiro e uma em São Paulo. Sequencialmente, ocorriam edições quase anuais.

Podemos citar que um dos marcos de seu reconhecimento público se deu com a acolhida de Manuel Bandeira, ícone da poesia moderna, em 1946, pois até então este o havia ignorado ou até mesmo rejeitado.

Inúmeros trabalhos tiveram e têm como objeto a obra de Augusto dos Anjos, seja no âmbito da crítica literária, de estudos formais, biográficos, sociológicos e estéticos, sempre buscando explorar um contexto cultural e literário mais amplo.

A obra deste poeta é interessantíssima, portanto, é essencial tanto para quem aprecia poesia ou literatura, tanto para quem almeja expandir seus conhecimentos culturais, históricos e sociais. Assim como na música, na literatura também possuímos autores de elevada qualidade.

Para finalizar, um pouco dos versos do poeta: “Como um fantasma que se refugia/Na solidão da natureza morta,/Por trás dos ermos túmulos, um dia,/Eu fui refugiar-me à tua porta!/Fazia frio e o frio que fazia/Não era esse que a carne nos conforta.../Cortava assim como em carniçaria/O aço das facas incisivas corta!/Mas tu não vieste ver minha Desgraça!/E eu saí, como quem tudo repele,/– Velho caixão a carregar destroços –/Levando apenas na tumbal carcaça/O pergaminho singular da pele/E o chocalho fatídico dos ossos!” (Solitário).

 

 Renata Iacovino, escritora, poetisa, membro da Academia Jundiaiense de Letras, AFLAJ, AILA e Grêmio Cultural Prof. Pedro Fávaro. e-mail: reiacovino@uol.com.br

 



publicado por Luso-brasileiro às 12:52
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HUMBERTO PINHO DA SILVA - A PERVERSÃO DA SOCIEDADE

                     

 

 

Ao ler o sermão do Padre Manuel Bernardes, pregado no dia do Arcanjo S. Miguel, deparei com o seguinte:

“ As palavras torpes e licenciosas, que agora se usam em lugar das Orações e canções pias da Cartilha, que se ouviam pelas ruas, em tempo do Padre Mestre Inácio Martins (…), são jaculatórias do diabo (…).”

O que diria hoje o bom Padre Bernardes se escutasse as licenciosidades e palavras obscenas que se ouvem não só na rua, mas na TV e cinema!?

Raros são os filmes onde não se empregue linguagem de sarjeta e imagens saturadas de erotismo. Então a TV – que, segundo jornalista francês, tem antenas como o diabo, – transformou-se em escola de desmoralização. Todos os canais, sem excepção, apresentam programas asquerosos, incitando a juventude - e não só, - à violência e desenfreada promiscuidade. As novelas televisivas, que deviam ser educativas, inculcando sentimentos nobres e exemplos de virtude e abnegação, têm, nas últimas décadas, sido fermento do mal, causado estragos irreparáveis na sociedade: ridicularizando valores, que foram e são esteios do povo, como: a família, matrimónio, virgindade e respeito pelo corpo; princípios cristãos, que são os alicerces da Civilização Ocidental.                

 A escola, que durante anos era local de instrução e formação do carácter, converteu-se, em muitos casos, em estabelecimentos de bandalheira e desvergonha. Antro onde, a cada passo, se quebra o respeito, impera a violência e se corrompe corpo e alma.

O desnorte, que responsáveis fingem desconhecer, mas que em certos países fomentam e apoiam, não é peculiar de uma nação, já que não há, no Ocidente, quem escape ao desregramento.

Não se pense, todavia, que todos os jovens estão pervertidos, como os devassos fazem crer, muitos ainda se opõem ao vergonhoso desvario. Conheço em Portugal e Brasil quem combata essa descarada devassidão, manifestando-se em movimentos juvenis. Infelizmente, a maioria da mass-media, figuras públicas e políticos, encontram-se corrompidos e ignora-os, evitando que sua voz tenha a repercussão necessária.

A nível mundial há o desaforado desejo de apartar Deus da escola; de perverter a juventude; fomentando o divórcio, o adultério, a prática abortiva, em suma: denegrir a imagem da mulher, que é, e sempre foi, o suporte da sociedade Ocidental.

Basta passar os olhos pelas revistas, ditas femininas, e dedicadas às adolescentes, para verificar que a maioria acicatam as jovens a prostituírem-se: ensinando e mostrando imagens de posições e posturas depravadas; fazendo crer que o recato é fruto da timidez e ausência de amor.

Dizem-me, e acredito, que é traça de plano de inspiração satânica, no intuito de aniquilar a civilização cristã.

Cabe aos cristãos conscientes, e são ainda milhões, a urgência, de cerrarem fileiras e precaverem-se e denunciarem, energicamente, os atentados à dignidade humana e os constantes afrontas a Deus, se querem ainda salvar esta geração.

 

HUMBERTO PINHO DA SILVA  -  Porto, Portugal



publicado por Luso-brasileiro às 12:49
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PINHO DA SILVA - CAPITEL ROMÂNICO DO SÉC. Xlll - CLAUSTRO DA SÉ DE LISBOA, PORTUGAL

                     



publicado por Luso-brasileiro às 12:46
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