PAZ - Blogue luso-brasileiro
Terça-feira, 11 de Dezembro de 2012
JOSÉ RENATO NALINI - MARIA E JOSÉ

 

 

 

 

 

 

Os pais mais famosos da Cristandade são os genitores do Messias. Jesus é filho de Maria e José. Nomes preferidos pelos brasileiros. O nome mais comum no Brasil é Maria. São 13.356.695. Em segundo lugar vem José: 7.781.515. Todos os prenomes preferencialmente utilizados pelos brasileiros são bíblicos. Prova de que a civilização é essencialmente cristã. Queiram ou não os ateus e sua mais nova geração: os “ateus fundamentalistas”.

Aqueles que, não satisfeitos em não acreditar em Deus, querem “converter” ao ateísmo os crentes. Mas estamos falando em prenomes. O terceiro lugar é Antonio: 3.550.752 e João está em quarto lugar: 2.988.744. Francisco é o quinto: 2.242.146 e Ana o sexto: 1.996.377. Luiz, em sétimo, deveria até mudar de classificação. Pois Luiz com “z” somado ao Luis com “s”, chega a 2.0034.103. Paulo é o oitavo, com 1.416.768, Carlos o nono – 1.384.201 e Manoel o décimo – 1.334.182.

Agora vêm os que não atingiram um milhão: Pedro – 995.254, Francisca – 853.590, Marcos – 823.738, Raimundo – 821.242, Sebastião – 798.627. Agora sem números, pela ordem: Antônia, Marcelo, Jorge, Márcia, Geraldo, Adriana, Sandra, Fernando, Fábio, Roberto, Márcio, Edson, André, Sérgio, Josefa, Patrícia, Daniel, Rodrigo, Rafael, Joaquim, Vera, Ricardo, Eduardo, Terezinha, Sônia, Alexandre, Rita, Luciana, Cláudio, Rosa, Benedito e Leandro. Estou muito bem na cena: chamo-me José, tenho filhos João e José e duas filhas chamadas Ana, embora com prenome composto: Ana Beatriz e Ana Rosa.

Homenagem à minha avó materna, queridíssima Ana Rodrigues Barbosa, que todos conheciam como “Nhana” ou “Doninhana”. O nome tem de ser assimilado por aquele que o porta e ostenta. Quem não gosta do nome, pode e deve trocá-lo. Por uma tradução equivocada, a nossa Lei de Registros Públicos diz que “o prenome é imutável”. Bobagem! O que não pode ser mudado, em regra, é o nome de família.

Aquele que indica a progênie. O rótulo de pertencimento a um clã. Já o prenome pode, sim, ser escolhido. Salvo se o interessado pretender fugir à responsabilidade. Lembro-me sempre de citar Shakespeare quando autorizava, como Juiz das Varas de Registros Públicos da Capital, a mudança de nome: O que é um nome? A rosa não teria perfume, não se chamasse rosa?

 

 

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo.

E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.

 

 



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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2012
TEREZA DE MELLO - VÉSPERA DE NATAL...

 

 

 


 

 

 

 

 

 

Um frio de enregelar vinte e três anos, em cima da bicicleta, deixava a aldeia, seguia para o campo, um cesto atrás com a ceia para a tia Guilhermina.

 

A tia Guilhermina, velhinha de oitenta e muitos anos, vivia sozinha numa barraca perto do rio. Quase não se podia entrar, a porta da rua e única, mal se começava a abrir batia logo na cama de ferro, sempre por fazer. As forças já começavam a faltar à tia Guilhermina e ninguém a ajudava. Ao lado ficava uma mesa com um fogão, panelas, pratos, copos e talhares. Era tudo o que tinha, ali, naquele ermo, sem família, sem mais ninguém, segundo dizia, sós os pássaros, os coelhos e as lebres lhe faziam companhia mas ela não era propriamente a branca de neve. Curvada pelo peso dos anos e do reumatismo sobrevivia sem grandes queixumes, resignada mesmo. Se tivera passado, tinha-o esquecido, nunca falava nele e apenas dizia que não tinha ninguém Ela não insistia, não queria ser indiscreta e imaginava uma vida tormentosa cheia de faltas de todo o género e compadecia-se ainda mais.

 

Pensando na tia Guilhermina pedalava mais forte, o cesto quase se desequilibrava, o vento batia-lhe forte na cara, gelado, puxava para cima a gola de raposa da samarra, mas atenta à curva que se aproximava. As luzes da aldeia tinham ficado para trás. A escuridão era profunda quando finalmente chegou, saltou da bicicleta e começou a andar pelo meio dos campos. Se fosse Verão haveria pelo menos grilos a cantar. Assim, além da escuridão era o silêncio que também a assustava. O silêncio e os cães que ladravam, mas felizmente ao longe. Foi andando com cuidado, não fosse cair, ou torcer um pé, a lanterna acesa, com aquele medo miudinho de se sentir sozinha naquele ermo, mas a tia Guilhermina também vivia sozinha, dizia para si mesma a animar-se. Que corajosa era, pensava a seguir. Ela não seria capaz. E lá continuava a andar, pois a barraca ainda ficava longe.

 

Foi há muitos anos, agora seria impensável.

 

Quando finalmente chegou e bateu à porta e chamou, mas apenas lhe respondeu o mesmo silêncio. Quase a prever desgraças, empurrou a porta devagarinho, entrou. Nada. Ninguém. A sua aflição aumentava, onde se teria metido a tia Guilhermina ? Teria caído. Coitadinha. Tornou a sair, a lanterna mal iluminava a terra e começou a procurar e a chamar. O silêncio sempre como única resposta. Acabou por deixar o campo, voltar para a estrada, para a bicicleta, caminho da aldeia.

 

Foi quando tornou a ver gente e perguntou pela tia Guilhermina. Que estava a cear em casa da filha, disseram-lhe e indicaram-lhe o caminho. Filha ? estranhou, pois se sempre lhe dissera que não tinha família.

 

Foi, o cesto pesava, o frio parecia que aumentava, puxou as meias de lã, e de novo a gola da samarra, tocou à campainha.

 

---- Quem é ? ouviu perguntar uma voz ordinária e logo uma mulher com um bonito vestido e saltos altos, colar de pérolas ao pescoço, bem penteada, que quase poderia parecer uma senhora se não fosse a voz, lhe entreabriu a porta e antipática, continuou: ---Que quer a estas horas ? Não incomode. Não a posso atender.—disse.

 

Até ela chegava a música da telefonia, objecto raro e de luxo ao tempo. Discretamente espreitou para dentro da casa e pareceu-lhe ver na sala de jantar uma mesa comprida com toda a espécie de petiscos e aguarias.

 

Olhou para o seu cesto de palha, recheado, para a samarra, as meias de lã. Olhou para si mesma, deu meia volta e voltou para casa acabar de enfeitar o presépio. O cão e os gatos esperavam por ela. Acendeu a lareira, sentou-se a olhar as chamas e à espera do marido que tinha ficado a fazer serão no escritório.

 

Era a véspera de Natal…

 

 

 

 

TEREZA DE MELLO (Maria de Lourdes Brandão de Mello) - Faleceu em Outubro de 2009, na cidade de Abrantes,(Portugal) onde vivia. Foi durante anos colaboradora assidua  do Blogue luso-brasileiro "PAZ" . Autora de vários livros de poemas, e de " A Casa da Barca", edição da Câmara Municipal de Ponta da Barca - Outubro de 2000

 

 

 

 

 

 



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HUMBERTO PINHO DA SILVA - O ÚLTIMO NATAL EM FAMÍLIA
 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nos derradeiros anos da década de setenta, convidaram-me a cear em Alto de Pinheiros, pacato bairro paulista, em casa de parentes.

 

Era uma bela moradia cercada de luxuriante jardim, tipo inglês, mosqueado de miudinhas flores encarnadas.

 

A ampla sala de jantar, quando cheguei, estava decorada para a festa. Na grande mesa de jacarandá, havia alva toalha adamascada, e sobre ela, pratos de porcelana branca, com arabescos a ouro, ladeados de lustrosos talheres de prata.

 

Ao centro, o vistoso vaso de faiança de Alcobaça, transbordava de fruta fresca, rodeado de garrafas de vinho chileno, guaraná, e muito suco de maracujá.

 

Suaves e delicados vapores perfumados enchiam o ar: aromas a canela e açúcar caramelizado, à mistura com o gostoso cheirinho de cozido de castanhas, batata, e de bons lombos de bacalhau, que me disseram ser de Portugal, mas importado da Noruega.

 

Chegavam da cozinha leves sussurros de vozes nordestinas e agudos risinhos de crianças. De súbito, revoada de gurizinhos travessos, à compita, rompeu pela sala, desaguando no adormecido jardim, onde imponente abeto, de largos frondes, feericamente engalanado de vistosas lâmpadas coloridas, comunicava, aos transeuntes, que era noite santa, a santa noite de Jesus.

 

Entreguei caixa de vinho verde, alvarinho, e outra de saboroso vinho fino – o “Porto” que não pode faltar na ceia de família portuguesa, – e acomodei-me junto ao ancião, que embebido, assistia ao “ Direito de Nascer”, novela que a “Globo”, com sucesso de audiência, transmitia.

 

Conversamos de outros natais; de natais de outrora; do bolo-rei, doce que o idoso, que saíra do Porto, em 1913, desconhecia.

 

Estávamos em doce cavaqueira, quando confidenciou-me o seguinte:

 

Nos anos trinta, pelo Natal, a família aconchegava-se à volta da mesa. Vinham tios, irmãos, primos e mais primos, alguns de muito longe. Apinhava-se a casa com festa rija, que terminava altas horas. Nesse tempo a cidade de São Paulo era tranquila. Ninguém receava atravessá-la, mesmo noite dentro.

 

Após a ceia, Papai Noel, vestido de encarnado, entrava, segurando grande saco de serapilheira. Dele saíam, como coelhos da cartola de mágico: bicicleta para menino, boneca para menina, brinquedos sem conta, e roupa de marca.

 

Um dia a filha Helena, que era excelente aluna, pediu-lhe uma bicicleta; prenda demasiada para a pobre bolsa. Comprou-lhe, nesse Natal, gracioso vestidinho de organdi, azul celeste. Na hora da distribuição, coube a garotinha, sua sobrinha, moça sapeca, nada aplicada ao estudo, garrida bicicleta, que faiscava, reluzindo na intensa iluminação da sala.

 

Helena cravou a vista no velocípede, atirando-lhe olhinhos de censura, indignada.

 

À saída, voltando-se para o pai, desabafou com raiva:

 

- Papai Noel é muito injusto. Pedi-lhe uma bicicleta e dá-me vestidinho!

 

Com os olhos humedecidos, o idoso, murmurou tristemente:

 

- Foi o último Natal em família! Como é difícil o pobre conviver com o rico!

 

 

 

 

HUMBERTO PINHO DA SILVA   - Porto, Portugal

 

 

 

 

 

 



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EUCLIDES CAVACO - BALADA DO TEMPO
 
        
 
 
 
 

 
Prezados amigos e leitores
BALADA DO TEMPO É o tema que vos ofereço esta semana e que poderão ver
  aqui neste link:
 

 
http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Balada_do_Tempo/index.htm

 
 
As minhas habituais amistosas saudações.
 
 
 Euclides Cavaco  - Director da Rádio Voz da Amizade.London, Canadá
cavaco@sympatico.ca
 
 
 
NATAL: É A HORA DE CRER EM JESUS
 
 

 

 

 

 

 

 

      Natal é a hora de crer em Jesus,

     Louvá-lo no berço no seu branco linho; 

     A Vida que trouxe, a Verdade, o Caminho,

     Cobria as estrelas de graça e de Luz!

 

     Sem uma estalagem, foi num curralinho,

     Envolto de palhas, que trazia a jus

     Que a Terra não tinha, mas deram-lhe a cruz,

     Em vez dum Abraço, Amor e Carinho!

 

 

     Maria chorou pelo filho adorado,

     Ao vê-lo de espinhos, depois, “coroado”

     Num mundo, até hoje, com brigas e mal…

 

 

     Que pena! As ganâncias e a falta de Fé

     Na Bíblia que ensina, mas eu creio, até,

     Que Deus quereria mais santo o Natal!...

 

 

 

     Clarisse Barata SanchesGóis - Portugal

 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

                     Destine seu imposto de renda para projetos sociais de sua cidade.

           Você não tem nada a perder, somente a contribuir!

 

 

       Projeto GeraAção Jovem – Selo CMDCA nº 61/2012

 

 

A Cáritas Diocesana de Jundiaí e o

Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente de Jundiaí – CMDCA

 

apresentam uma proposta de trabalho com crianças e adolescentes da comunidade do Jd. Novo Horizonte e imediações,

na defesa de seus direitos de esporte, cultura e lazer,

  na perspectiva do afastamento de situações de risco sociais e aliciamento e uso de drogas.

 

 

Objetivo Geral: Realizar atividades diárias, no período da tarde, de esporte, cultura e lazer para crianças e adolescentes, em situação de risco social, residentes no Jd. Novo Horizonte e imediações.

 

 

Objetivos Específicos:

 

  • criar vínculos com as crianças e adolescentes que frequentam o Centro Comunitário São Francisco de Assis,
  • afastar as crianças e adolescentes do aliciamento e uso de drogas,
  • criar espaço de diálogo sobre  perspectivas de futuro, importância dos estudos, qualificação profissional,
  • encaminhar para programas e projetos de qualificação e inclusão ao mercado de trabalho,
  • diminuir a evasão e aumentar a assiduidade escolar,
  • favorecer atividades de lazer e integração comunitária.

 

Meta: Atendimento de 50 crianças e adolescentes,

 

 

Metodologia:

 

  • realizar atividades de esporte, cultura e lazer, com grupos alternados por faixa etária e de interesses, de segunda a sábado,
  • valorização do protagonismo infanto-juvenil, na perspectiva de criar o sentimento de responsabilidade e pertencimento.

 

Local: Centro Comunitário São Francisco de Assis, situado à Rua Pastor Francesco Ciaranella, nº 10, Pq. Almerinda Chaves.

 

 

Investimento: R$ 23.150,37

 

 

Como participar e repassar parte de seu imposto de renda!

 

 

Destine parte de seu imposto de renda para a realização do Projeto GeraAção Jovem, que está certificado com o Selo nº 61/2012  do Conselho Municipal de Direitos da Criança e Adolescente, que será responsável pelo repasse dos recursos financeiros para as instituições certificadas com o Selo, possibilitando transparência e acompanhamento por toda a sociedade jundiaiense na efetivação dos objetivos do projeto.

As pessoas jurídicas (empresas) tributadas podem destinar até 1% do imposto devido até o último dia de funcionamento bancário de dezembro.

As pessoas físicas que preenchem o formulário completo podem destinar até 6% do imposto devido até o último dia de funcionamento bancário de dezembro.

 

 

Como proceder:  Conhecendo até quanto pode destinar ao Fundo Municipal da Criança e do Adolescente de Jundiaí, deve efetuar a transferência até o último dia de expediente bancário do mês de dezembro, via internet ou diretamente no Caixa apenas deste banco e agência.

 

Banco do Brasil    -   Av. Jundiaí, 600 - Tel. 11 - 4521-3255

Agência 0340-9   -  C/C PMJ-FMDCA, nº 73.139-0

CNPJ 45780103/0001-50

 

 

Feita a destinação (depósito) é importante que ela seja imediatamente comunicada à Secretaria Executiva do CMDCA, informando:

 

  • O nome da entidade e do Projeto para qual está destinando parte de seu Imposto de Renda,
  • Dados para emissão do recibo e endereço para o envio do recibo por correio.
  • Anexar o comprovante de depósito.

Pode enviar por:

 

  • fax (11) 4583-7313,
  • carta - Rua Marechal Deodoro, nº 504, Centro – CEP 13.201-002 Jundiaí SP,  ou
  • e-mail semads@jundiai.sp.gov.br

 

O CMDCA vai emitir um recibo que deverá ser arquivado por no mínimo 5 (cinco) anos para eventual comprovação perante a Receita Federal. Se a destinação for feita em nome de Pessoa Jurídica, você deve informar o nome da empresa, CNPJ e o valor. Se Pessoa Física, seu nome, CPF e valor. O recibo será logo em seguida enviado pela Secretaria Executiva do CMDCA, por meio dos Correios.

Informações site – http://eusouadiferenca.com.br/index.php

 

 

Envie um e-mail ou fax ou carta com a cópia do comprovante para a

Cáritas Diocesana de Jundiaí informando o valor da destinação para o “Projeto GeraAção Jovem – Selo nº 61/2012”

 

 

 

Cáritas Diocesana de Jundiaí

 

Rua Eng. Roberto Mange, 400, Anhangabaú – CEP 13.208-200 Jundiaí SP

Fone/ FAX  – 4583.7474

e-mail – caritas@dj.org.br

site – www.caritas.dj.org.br

 



publicado por Luso-brasileiro às 15:17
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Sábado, 1 de Dezembro de 2012
JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI - DECLARAÇÃO UNIVERSAL SOBRE BIOÉTICA E DIREITOS HUMANOS

 

 

 

 

 

 

 

            Registram-se várias tentativas de se encetar em alguns países uma discussão formal sobre a elaboração de normas que imponham alguns limites a uma revolução genética que está apenas começando,mas cujas implicações já afetam a vida das pessoas há pelo menos trinta e quatro anos, quando Louise Brown se tornou o primeiro bebê de proveta do mundo. Desde então, milhares de crianças nasceram por meio da mesma técnica e expressões como fertilização “in vitro”, “mãe de aluguel” e “barriga de aluguel” se popularizaram. Mais recentemente, vieram os alimentos transgênicos e o processo de obtenção de indivíduos originários de outros por multiplicação assexual, trazendo questionamentos legais e de juízos de apreciação que prometem levar o tema ainda mais longe.

 

            Nessa trilha, surgiu o “biodireito”ou “direito da vida”, uma importante ciência jurídica nova, ainda sem uma sistematização. Tanto que os governos, por exemplo, vêm adotando medidas isoladas para controlar o impulso dos cientistas num campo tão amplo a experimentações controvertidas. Depois do nascimento há quinze anos, da ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado a partir das células de um animal adulto, muitas nações proibiram a clonagem de seres humanos. Em outros, no entanto, as experiências continuam e o tema ganha notoriedade, quer por constantes reportagens na mídia, quer por programas populares que enfocam o tema.

 

            A questão da engenharia genética é polêmica e ganha maior complexidade diante da circunstância da ciência evoluir bem mais acentuadamente que as leis. Num recente encontro da OAB no Rio Grande do Sul,Brasil, apontaram-se algumas situações que ilustram essa constatação:- “Que direitos têm, por exemplo, os embriões que não são atualizados  nos processos de fecundação assistida? Que garantias tem a mulher que cede seu útero para gerar o filho de uma outra mulher? É válido permitir que casais sem condições de procriar apelem à clonagem? É justo modificar animais geneticamente e retirar deles os órgãos alterados e transplanta-los para seres humanos?”. Como se observa, há necessidade premente de se cuidar juridicamente dos efeitos que podem dela advir, tornando-se demasiadamente arriscado e perigoso relega-los ao alcance exclusivo de parâmetros éticos, morais ou religiosos.

 

            Desta forma, neste contexto, tais condutas, capazes de modificarem a vida, devem ser estudadas, debatidas e controladas por leis específicas que coíbam abusos e imponham como objetivos primordiais o respeito à dignidade humana e a preservação de criaturas vivas em geral, aprimorando-se e descobrindo novos tratamentos a inúmeras doenças que proliferam, muitas delas até hoje incuráveis. A Ciência jamais poderá se sobrepor ao exercício da cidadania; ao contrário, deve estar sempre ao seu serviço. Por isso, seria de bom alvitre que nossos legisladores desde já se empenhassem em buscar instrumentos normativos que direcionem as pesquisas genéticas no âmbito de tal princípio. O assunto é delicado e está a merecer tratamento especial de nossos juristas, além de suscitar amplos debates nos variados segmentos da sociedade, principalmente na Igreja Católica, que proclama respeito irrestrito à vida.

 

A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) aprovou, em 19 de outubro de 2004, durante a sua 33ª Assembléia Geral, um importante documento de bioética, resultado de mais de dois anos de trabalho, estudos, consultas e discussões internacionais, envolvendo especialistas das áreas científica, ética e de saúde do mundo inteiro. Trata-se da DECLARAÇÃO UNIVERSAL SOBRE BIOÉTICA E DIREITOS HUMANOS que apresenta quatorze princípios: 1) Respeitar a dignidade humana e os direitos humanos. 2) Maximizar os benefícios e minimizar os danos quando se trata da aplicação e do avanço do conhecimento científico e das práticas médicas. 3) Garantir a autonomia e a responsabilidade individual. 4) Ressaltar a importância do consentimento. 5) Dar proteção especial a pessoas que estão privadas da capacidade para consentir. 6) Respeitar a vulnerabilidade humana e a integridade pessoal. 7) Zelar pela privacidade e confiabilidade das informações pessoais. 8) Garantir a igualdade fundamental entre todos os seres humanos de modo que eles sejam tratados de forma justa e eqüitativa. 9) Respeitar a diversidade cultural e o pluralismo. 10) Estimular a solidariedade e a cooperação entre os seres humanos. 11) Associar responsabilidade social e saúde. 12) Compartilhar os benefícios da pesquisa e suas aplicações. 13) Proteger as gerações futuras em relação ao impacto das ciências da vida, incluindo sua constituição genética. 14) Preservar o meio ambiente, a biodiversidade e a biosfera.

 

            A Declaração se constitui num instrumento de manifesta relevância à preservação de aspectos ligados a matéria, face à complexidade do objeto e as interpretações dúbias que propiciam. De acordo com a jurista MARIA HELENA DINIZ, a BIOÉTICA constitui-se no “estudo da moralidade da conduta humana na área das ciências da vida, procurando averiguar se é lícito aquilo que é científica e tecnicamente possível. A bioética não pode ser separada da experiência efetiva dos valores “vida”, “dignidade humana”e “saúde”, que são inestimáveis. Daí ocupar-se, por exemplo, de questões éticas atinentes ao começo e fim da vida humana, às novas técnicas de reprodução humana assistida, à seleção de sexo, à engenharia genética, à maternidade substitutiva etc. Em suma, é o estudo sistemático do comportamento humano, sob a luz dos valores e dos princípios morais, na área da vida  e dos cuidados da saúde”( in “Dicionário Jurídico”- Vol. I – p.416- Ed. Saraiva).

 

 

 

 

 

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, jornalista, escritor e professor universitário. Recebeu o Prêmio Quality Golden de Direitos Humanos de 2011 (martinelliadv@hotmail.com)

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:14
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CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - FIM DO MUNDO

 

 

 

 

 

 

 

                Como ciclicamente sói ocorrer, lá vamos nós com mais uma estória de fim do mundo. Se bem que, se não me falha a memória, já estamos doze anos no lucro, pois o mundo já deveria ter acabado na virada do milênio. Para algumas pessoas, infelizmente, de certa forma, acabou mesmo. Para os demais, seja porque continuaram a viver, seja porque nasceram nesse meio de tempo, tudo continua como sempre, mais no meio do que no fim.

                Agora, parece que “sei lá eu quem” fez as contas direito, atualizaram o calendário interplanetário ou raio que o parta e, o resultado é que o mundo, agora vai mesmo acabar e tem até dia para isso: 21 de dezembro de 2012. Na verdade, como eu estava meio com dúvida sobre a data certa desse “compromisso mundial”, resolvi dar uma paradinha para consultar o Google, e descobri que, uma vez mais, ganhamos mais um tempinho, pois a catástrofe estava prevista para 21 de maio...

                Sinceramente, já que é para acabar, fico triste que não tenha sido em maio, porque eu nem teria pago as últimas parcelas do maldito imposto de renda. Uma única vez eu teria vencido o Fisco! Mas agora parece que vai mesmo. A sacanagem é ser antes do Natal. Ou seja, pelo sim e pelo não é melhor comprarmos uns presentes, só que há o risco de não termos para quem entregar! Ando pensando até em ver o Noel topa passar em casa lá pelo dia 20 de dezembro, mas, pensando bem, o Bom Velhinho, detentor de informações privilegiadas, por certo, nem deve ter enchido o saco nesse ano...

                O fato é que, ironias à parte, ando bem sem tolerância para esse tipo de adivinhação e exploração da crendice popular. A questão toda é a seguinte, ao meu ver: se for mesmo para acabar, de que ainda sabermos antes? Fim é fim. Significa que não vai ficar ninguém e nem nada para contar história. O bom é que iremos todos juntos, o que já alivia um pouco. Ou seja, se não há o que fazer, não há o que temer...

                Por outro lado, se não acabar, estaremos diante de mais uma grande idiotice humana. Uma vez mais, ter-se-á enganado pessoas crédulas, instituído pânico e deixado outros tantos em depressão. Já vi muita gente quase entrando em parafuso, só de pensar no apocalipse.

                Sei lá... Talvez a louca seja eu, mas não gasto meus dias a pensar nisso. Se acabar, irei na certeza de que não perdi tempo pensando nisso. Se não acabar, o que é quase infinitamente certo, ainda terei minhas contas para pagar e minha vida para tocar. Os malucos profetas da desgraça, por sua vez, logo irão dizer que recebemos uma moratória divina, que os planetas se desalinharam na última hora ou que os cálculos precisam ser refeitos e que o fim será em 13/13/2013 ou alguma sandice dessas...

                A bem da verdade, tenho achado que o mundo vem acabando faz tempo e por isso, sinceramente, verto meu mais profundo pranto. Constato o fim dos rios limpos, das florestas, da segurança, da boa-fé, da ingenuidade das crianças, do respeito, da ética, da esperança em dias melhores.

                E o pior de tudo? Por esse “fim”, ninguém fica a pregar alucinadamente nas praças, nas igrejas lotadas ou em qualquer outro lugar. De longe, é mesmo o fim...

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.



publicado por Luso-brasileiro às 18:08
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JOSÉ RENATO NALINI - EU OUÇO VOCÊ

 

 

 

 

Estou lendo “O que o dinheiro não compra – Os limites morais do mercado”, de Michael J. Sandel, o famoso autor de “Justiça” e isso me fez pensar em muita coisa. Hoje pagamos pela psicanálise, deixando de usar o confessionário gratuito. É verdade que o psicologismo contemporâneo critica a confissão, sob argumento de que ela libera o pecador para reiterar sua via pecaminosa.

“Lavou, está novo!” é comentário do agnóstico ou do ateu. Nada obstante, o consumismo contribuiu para esvaziar o confessionário. Numa sociedade de consumo, o que não se paga não tem valor. Na contramão dessa tendência, algumas paróquias paulistanas instituíram serviço gratuito de oitiva de quem quer desabafar, sem necessariamente se confessar. Voluntários ouvem aqueles que querem falar e não têm quem os ouça. Os voluntários não são psicólogos, não dão conselhos. Oferecem apenas tempo, atenção e paciência.

O salvatoriano Padre Deolino Pedro Baldissera instituiu a escuta na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, em Moema, em 2003. Hoje conta com 16 voluntários e o serviço foi ampliado para outras paróquias: 15 na Capital, uma em Santo André e outra em Santos. O Grupo de Apoio do Serviço de Escuta é a entidade que treina os interessados em ouvir a população. Entre as regras está o respeito à escolha religiosa. O serviço pode ser utilizado por crentes de todas as confissões e por ateus.

O anonimato é a regra e o serviço recebe desde idosos solitários, como jovens com problemas sentimentais. A prova de que o serviço é útil é a contínua procura de pessoas desesperadas porque ninguém as ouve. A solidão na multidão é fenômeno contemporâneo e afeta a todas as classes sociais. Em São Paulo, há domésticas de outras regiões do Brasil que não têm com quem conversar nos fins de semana. Idosos que recordam tempos felizes.

Pessoas que chegam, choram, desabafam e nem precisam voltar mais. Encontraram uma forma gratuita de despejar sua tristeza, angústia ou desespero. Ninguém mais quer ouvir problemas. A sociedade quer se divertir, esquecer seus males, disfarçar, fingir. O que faz aquele que gostaria de partilhar seu desconforto com o semelhante? É interessante pensar nisso e nos tempos estranhos que nos foram oferecidos para esta curta permanência no Planeta Terra.

 

 

 

 

JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.



publicado por Luso-brasileiro às 18:01
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RENATA IACOVINO - ASSIM CAMINHAMOS... A HUMANIDADE !

 

 

 

 

 

 

 

            Comunicação rápida, excesso de informação misturada à desinformação e à informação equivocada, tudo caminha para uma aceleração incontida, uma rapidez no fazer e no ter, no ter material, no possuir superficial e fugaz, que desemboca numa frustração muitas vezes imperceptível, na infelicidade não buscada mas compulsória, num mundo às avessas, onde os valores são, agora, o não envolvimento, a não aproximação com o outro, a relação mecânica e fria, a não comunicação verbal, o assassínio da linguagem verbal, da palavra, do diálogo, da frase bem construída e pensada, refletindo a era do não pensar, da morte em vida, do crime legitimado contra o humanismo e a solidariedade, local onde o egoísmo impera, onde passamos a incorporar a máquina – aquilo com o que quase que totalmente só conseguimos nos relacionar  –, por total incompetência e incapacidade de olharmos no olho do outro, de querermos buscar uma migalha de sensibilidade, que seja, de fazermos uso da inteligência de maneira inteligente e não alienada, fazendo-a inexistir, de sermos burros, mundo onde nos encobrimos com nossas fraquezas e tentamos nos evidenciar por meio de uma cena, uma encenação falsa, hipócrita, vil, martirizando nossos princípios, que se tornaram fim, sem concretização, um fim abandonado em seu percurso iletrado, como que criando novos seres, inanimados, desanimados, apáticos, sem força nas mãos, que já não carregam o fazer do dia a dia, o fazer no dia a dia, e então produzem mãos cansadas, fracas, que se extinguirão com o passar das gerações e serão, pois, apenas pinças, pescando migalhas, como mentecaptos, afogados em suas máquinas, escravizados em tudo que elas lhes proporcionam subtraindo, totalmente dependentes delas para as necessidades básicas, não mais só as complexas, voltando a ser o primitivo, o primitivo tecnológico, na era do capital, com muito dinheiro ou com dívida, não faz diferença, o que faz é, sim, ter, ter o nada, e ter a ilusão que esse nada é tudo, até consumar-se, até ir ao encontro de todos os outros, aqueles que já partiram, da mesma forma e tão rápido quanto o Homem que se imaginou forte.

 

 

 

Renata Iacovino, escritora, poetisa e cantora / reiacovino.blog.uol.com.br /reval.nafoto.net / reiacovino@uol.com.br

 

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 17:57
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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - A BELEZA E O SENAC JUNDIAÍ

 

 

 

 

 

 

 

O Laboratório de Bem-Estar e Beleza - Saúde e Mente - preparado com carinho. Em cada espaço uma pequena vela com chama firme e um vaso de violeta lilás. Tom igual ao do lençol que cobriria as atendidas durante o processo do tratamento facial.  Lilás e branco se recompondo, também, naquele instante: a pureza da ternura e a meditação nas possibilidades. O toque sereno, a massagem, que expande a pele para se libertar das impurezas, e o hidratante que substitui a rispidez do pó cinza do asfalto, da poeira de terra, das agressões que sombreiam o rosto e doem por dentro.

Dia 22 de novembro de 2012.  O dia exato em que a Associação Maria de Magdala completava 17 anos. O presente do SENAC de Jundiaí, de coordenadores de área e do curso, de professores, das alunas do Curso Técnico em Estética, com apoio da Gerência local.  Iniciativa deles, que estão atentos à comunidade e ao que podem oferecer, em áreas diversas, para que os munícipes se fortaleçam – principalmente os que tiveram poucas oportunidades -, assumam os seus direitos de cidadania e sejam mais felizes.

Somente onze das integrantes da Magdala tiveram a coragem de aceitar o convite, vencer os medos dos preconceitos de que tanto foram vítimas e adentrar ao prédio com seu piso, paredes, vidraças e mobiliário que indicam respeito ao ser humano. Poucos homens e muitas mulheres, vestidas de branco ou não, receberam cada uma com alegria de festa. De início, o café saboroso do final de tarde, preparado pelo Curso de Hotelaria.  Quando há integração, as estrelas do céu, de tamanho diferenciado, iluminam o ambiente.

Antes do tratamento, orientações para saúde da pele, que tem a função de nos proteger: o sono, alimentação, a importância de beber bastante água,  uso do protetor solar, malefícios do cigarro e do álcool, observação de pintas e manchas, a automassagem no rosto. Antes do tratamento, testemunhos para que o coração não se torne incapaz de bater gostoso. E a frase que resume as experiências de vida de lá: “Nós nunca sabemos que resultados virão de nossas ações. Mas se nós não fizermos nada, certamente não teremos resultado”.

Ao observar uma das integrantes da Associação, no início da terapia da pele, cuidada com tanta meiguice e profissionalismo por uma das alunas, me veio a imagem dela na década de 70, nas esquinas escuras da cidade, o corpo leiloado, a perna em desalinho pela doença da infância, olhos amargurados por sua história de desamparo e solidão, cabelos desgrenhados e na tentativa de cantar com encanto uma canção da Jovem Guarda, que atraísse aplausos da plateia, que ora passava indiferente e ora a agredia com impropérios ou zombaria. Deus é capaz de mudar todas as coisas. Deus transforma. O povo do SENAC JUNDIAÍ ali se encontrava para dizer do sabor, do perfume, da beleza do Criador em cada uma de suas criaturas.  E as mulheres para que fosse reafirmado, em sua história, que Deus vê com igualdade os diferentes.

Aplausos ao SENAC JUNDIAÍ que cumpre com louvor o seu objetivo: investir no que há de melhor: em pessoas.

 

 

 

 

Maria Cristina Castilho de Andrade

Coord. Diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala, Jundiaí, Brasil.



publicado por Luso-brasileiro às 17:52
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LAURENTINO SABROSA - O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO E ALGUMAS DIVAGAÇÕES A PROPÓSITO - lX

 

 

                                             

 

 

 

 

 

 

A estrutura da Língua Portuguesa, por ser muito complexa, exige normas que esclareçam dúvidas e uniformizem o ensino, quanto aos acentos gráficos, quanto às concordâncias, flexão verbal, distinção entre ch e x, etc. etc.. Em inglês, por exemplo, as concordâncias e as flexões verbais são mesmo muito simples, e em inglês como já disse ao leitor, nem sequer existem os acentos gráficos. Quando se quer estabelecer normas ortográficas, umas vezes deve ser observada a etimologia, outras vezes a ortoépia, mas em qualquer das opções pode haver dificuldades. O povo que faz a língua com espontaneidade e até com ingenuidade, é aí o grande Mestre.

 

Pessoalmente, acho caricato ou mesmo ridículo que um Acordo estabeleça uma doutrina como bom Português, e anos depois um novo Acordo venha estabelecer como bom Português doutrina contrária. É o que este Acordo faz em alguns pontos. Vejamos. Como já referi nestas linhas a velha tentativa de uniformizar a língua portuguesa em Portugal e no Brasil, tem dado origem a muitas conferências, a muitas resoluções, a muitos diplomas, etc. O texto que serve de preâmbulo à apresentação das normas do Acordo Ortográfico de 1945, texto que expõe as “conclusões complementares do Acordo de 1931”, diz no seu III parágrafo: Não se consentem grafias duplas ou facultativas. Cada palavra da língua portuguesa terá uma grafia única. Não se consideram grafias duplas as variantes fonéticas e morfológicas de uma mesma palavra.  Estava consagrada expressamente no anterior Acordo de 1945 (BASE XXXI) a manutenção das formas hei-de, hás-de, há-de, etc., agora abolidas por este Acordo. Será que estas alterações eram mesmo necessárias para a modernização e prestígio da língua, como os autores delas dizem pretender? Será que essas alterações fazem parte da evolução real da língua e têm fortes raízes na tradição linguística? Não me parece.

 

Lamento que se tenha perdido tanto tempo e gasto tantas energias em pretensões de uniformização entre culturas diferentes, portuguesa, africana e brasileira, tão diferentes que uma prática de dezenas de anos, em dezenas de conferências, resoluções, diplomas, e acordos que nunca o chegaram a ser verdadeiramente, mostra ser perfeitamente utópica. Para além disso, a língua portuguesa enferma de mal gravíssimo, cuja cura devia ter prioridade sobre todas as questões de quaisquer reformas.

 

Os promotores e intelectuais do Acordo, que é Acordo à força, por um “inteligente e bem-aventurado” SEGUNDO PROTOCOLO MODIFICATIVO ter limitado a obrigatoriedade de assinatura aos três países que já o aceitaram, esses promotores e intelectuais deviam, antes de mais nada, procurar maneiras de evitar o aviltamento, o abastardamento da nossa língua, que desde há muito vem sofrendo, pela introdução de estrangeirismos, que se pode considerar infrene e estúpida por serem totalmente inúteis.

 

Agora, o meu escrito passa a ser uma diatribe indignada contra esses senhores que, muito contra, ou muito a favor, deste último Acordo, não se preocupam, não escrevem ou dizem uma palavra a combater, a propor soluções para regenerar a língua e a curar do cancro maligno do excesso de termos estrangeiros. Será que são muito usados só porque se tornou moda ou intelectualmente distinto aplicá-los? Será que os tais intelectuais do Acordo acham que a nossa língua vai ter mais prestígio e beleza para as gerações futuras e junto dos estrangeiros quando a maior parte do nosso vocabulário for mais deles do que nosso?

 

A televisão e a imprensa, que deviam ter uma grande função educativa, são, sobretudo neste campo, os maiores focos de deseducação. Os seus jornalistas, locutores e comentadores fazem gala de mostrar que são gente moderna e culta, e que sabem aplicar bem vocabulário estrangeiro técnico e não técnico, na devida altura.

 

A  RTP1 tem desde há muito no programa  da manhã um pequeno espaço dedicado ao BOM PORTUGUÊS. Nunca houve uma única palavra a recomendar o não uso dos estrangeirismo inúteis, porque pelos vistos não é mau português os seus jornalistas ou redactores desportivos falarem muito de derby, quando noticiam e querem entusiasmar os ouvintes para um PORTO-BENFICA. Desde há um tempo para cá, esse tal programa de BOM PORTUGUÊS passou a estar exclusivamente ao serviço do ACORDO: ter ou não ter c ou p, ter ou não ter acento, ter ou não hífen, ser com maiúscula ou com minúscula, são as observâncias a respeitar para termos BOM PORTUGÊS. Os inúmeros erros que dantes eram tratados e corrigidos, e que nós continuamos a ver em letreiros, em reclames, nas falas e escritos mesmo de quem tem responsabilidades intelectuais, deixaram de existir! O  BOM PORTUGUÊS resume-se à observância do Acordo!

 

Modernamente, há fanatismos para tudo. Um dos mais recentes, é a aplicação do Acordo. No moderno Dicionário da Academia diz-se : …, não tendo sido aprovado o novo acordo ortográfico por todos os países de língua portuguesa, foi respeitada, neste dicionário, a ortografia vigente. (Prefácio do Presidente da Academia, Dezembro de 2000). No entanto, tenho presente um livro datado de Outubro de 1999, que adverte mesmo o leitor: É aqui usada a ortografia estipulada pelo novo “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”. Numa altura em que praticamente muitíssimo poucos sabiam o que era isso do novo Acordo Ortográfico, o autor fez gala de o respeitar! Há 13 anos! Conheci o autor. Já faleceu. O seu “querido” acordo, verdadeiramente ainda não entrou em vigor, embora muitos lhe queiram dar um nascimento prematuro.

 

 

 

 

 

 

LAURENTINO SABROSA    -   Senhora da Hora, Portugal

                            laurindo.barbosa@gmail.com



publicado por Luso-brasileiro às 17:47
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PAULO ROBERTO LABEGALINI - FAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE MIM

 

 

 

 

 

 

 

A responsabilidade dos Ministros Extraordinários da Comunhão Eucarística é muito grande em distribuir e também em receber a sagrada comunhão. A ponte entre Deus e os homens é missão nobre dos ministros, mas estar com a consciência tranqüila para receber a Eucaristia é igualmente importante.

‘Fazei isto em memória de mim’ (Lucas 22, 19), significa realizar obras de amor lembrando os gestos de Jesus. Isto se completa na participação da Celebração Eucarística – conseqüência da caminhada cristã. Porém, se o coração não tem compaixão do próximo, o respeito excessivo pelo sagrado aparenta hipocrisia. As coisas de Deus exigem bom senso acima de tudo, mas sem limites extremos de anormalidade.

 

E para se levar a sério o pedido de Jesus – ‘Fazei isto em memória de mim’ –, precisamos ter princípios cristãos bem definidos, como aqueles citados no livro da EditoraSantuário: ‘Cinco pães e dois peixes’, 10ª edição, de François Xavier Nguyen Van Thuan. O autor destaca 24 elementos de conduta cristã. Eis o que mais nos aproxima de Deus:

 

Desejar renovar o mundo; promover a felicidade do próximo; dar a vida pelo irmão; buscar a unidade dos cristãos; crer na Eucaristia; vestir a camisa do amor; deixar-se levar pela oração; viver o Evangelho; seguir somente Jesus Cristo; cultivar um amor especial por Maria; entender a ciência da Cruz (sofrer em Cristo); ter o ideal de se aproximar de Deus; temer o mal (resultado do pecado); manter o desejo de ‘vir a nós o vosso Reino’; desapegar-se dos bens materiais; ter contatos pessoais (e saber ouvir); ser discípulo e missionário de Jesus; fazer a vontade de Deus; saborear o momento presente; caminhar nas bem-aventuranças; buscar a recompensa no Paraíso...

 

Tudo istoem memória de Cristo! E se alguém, por exemplo, tem dificuldades em perdoar, não deve estar em conformidade com os passos cristãos propostos por François Van Thuan. E ainda: ao invés de assumimos o risco de desorientar os amigos com alguns conselhos inúteis, por que não passar a divulgar esta relação ao próximo?

 

Aliás, quem tem o dom da comunicação precisa sempre pôr a ‘boca no trombone’. Leia abaixo alguns trechos de ‘Passeio Socrático’, escrito por Frei Betto:

 

“Ao  viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do  Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão.  Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São  Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares,  preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Aquilo me fez refletir: Qual dos dois  modelos produz felicidade?

Encontrei  Daniela pela manhã no elevador, 10 anos, e perguntei: ‘Não foi à  aula?’ Ela respondeu: ‘Não, tenho aula à tarde’. Comemorei: ‘Que bom, então de  manhã você pode brincar, dormir até mais tarde’. ‘Não’, retrucou ela, ‘tenho  tanta coisa de manhã! Aulas de inglês, de  balé, de pintura’, e começou a elencar seu programa de garota  robotizada. Fiquei pensando: Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação!’

 

Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Em 1960, uma progressista cidade do  interior de São Paulo tinha seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não  tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em  relação à malhação do espírito. Vamos todos morrer esbeltos: ‘Como  estava o defunto?’. ‘Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!’

 

Hoje, a  palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos  virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais. O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento  globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para  uma boa saúde mental  três requisitos são indispensáveis: amizades,  auto-estima, ausência de estresse.

 

Há uma  lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média,  as cidades adquiriam status construindo catedrais; hoje, no Brasil,  constrói-se shopping center. É curioso: a maioria dos shoppings tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de  missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há  mendigos, crianças de rua, nem sujeira.

Costumo  advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas:

 

– Estou fazendo  um passeio socrático. Sócrates,  filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro  comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.”

 

 

 

 

 

 

PAULO ROBERTO LABEGALINI -    Escritor católico, Professor Doutor da Universidade Federal de Itajubá-MG. Pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária da UNIFEI.



publicado por Luso-brasileiro às 17:40
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