PAZ - Blogue luso-brasileiro
Terça-feira, 16 de Julho de 2013
CIINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - SINERGIA

 

 

 

           

 

 

 

 

              Todas as pessoas tem, durante suas vidas, momentos que as marcam especialmente, que, por inúmeras razões, diferenciam-se dos demais dias vividos. Infelizmente, alguns desses momentos são dolorosos e deixam cicatrizes profundas. Outros, entretanto, são felizes e constituem as boas razões pelas quais vale a pena passar por esse mundo...

 

 

            Assim, tive a dádiva de, nos últimos dias, vivenciar momentos que, no meu referencial de vida, foram sublimes. Na verdade, sequer sei se conseguirei explicar corretamente a quem não conhece o assunto ou a quem não estava presente lá, mas, de toda forma, hoje, é o que minha inspiração me pede para deitar ao papel.

 

 

            Sou praticante de aikido há alguns anos e aprendi muito com essa arte marcial, sobretudo como ver a vida de um modo diferente. Há cerca de dois anos, nosso Sensei e um grupo de aikidoístas iniciamos as preparação para recebermos, aqui no Brasil, amigos e senseis de outros países.

 

 

            De preparativos em preparativos, o tempo passou muito rapidamente e, quando vimos, já estava na hora. Assim, de repente, nos vimos em meio a ingleses, australianos e japoneses, todos dentro do mesmo tatame, vibrando em uma mesma sintonia. Pouco importava que a maior parte sequer entendia o que os outros falavam, pois mesmo quando não havia ninguém para traduzir, partíamos para o gestual, ou, simplesmente, deixávamos nosso coração falar por nós.

 

 

            A par de eu constatar que preciso, urgentemente, aprimorar meu inglês, só para dizer o mínimo, eu percebi que, no fundo, as fronteiras físicas e culturais não são relevantes. O que importa, de verdade, é o que move as pessoas, que tipo de energia e de intenção as une. O resto vai acontecendo...

 

 

            Não sou capaz nem mesmo de entender o que nos fez, a todos, amigos em poucos dias, o que transformou frases inteiras em sorrisos simples e largos. Foram dias incríveis não apenas porque treinamos muito, porque saímos para comer e beber, porque rimos demais, mas porque vivenciamos sentimentos de família, de uma família que não se constituiu por sangue, pela lei ou pela proximidade, mas pela sinergia, pela vontade de nos descobrirmos, de fazermos parte de um todo maior e único, pelo desejo de, pelo esporte, estarmos mais perto do Criador...

 

 

            Eu já havia ouvido que o esporte tem esse poder, mas apenas agora é que de fato entendi. Foi incrível ver jovens, e nem tão jovens, brasileiros e estrangeiros, homens e mulheres, brancos, negros e amarelos, tudo junto e misturado, como devia sempre ser pelo mundo afora.

 

 

            Compreendi, por fim, o significado de Paz...

 

 

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA    - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora   -  São Paulo.

 

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 12:08
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JOSÉ RENATO NALINI - PADRINHOS. INSPIRAI-NOS !

 

 

 

 

 

No mundo egoísta, interesseiro e do imediatismo, esquecemo-nos dos nossos ancestrais. A morte leva os seres queridos e deles nos olvidamos com facilidade. É raro alguém morrer de saudades! Por isso é que se diz, na sabedoria popular, “viúvo é quem morre”. Quem sobrevive dá um jeito de se acomodar à nova realidade. 

 

Somos individualistas na vida familiar e no convívio institucional. Os padrinhos também já não são levados a sério. As pessoas aceitam o convite dos pais para batizar uma criança e ao menor desentendimento se desvinculam da criança à qual prometeram servir como substitutos da maternidade/paternidade biológica.

 

Não é diferente em relação aos “patronos” de nossas conquistas. Quem se lembra do “paraninfo” nos vários diplomas, do Presidente da Banca que nos aprovou em algum concurso, do Patrono do colégio? 

 

Consciente disso e me incluindo no rol dos culpados desse crime de ingratidão, procuro às vezes me redimir. Agora mesmo, vejo que José Bonifácio, Patrono da minha Cadeira 40, na Academia Paulista de Letras, nasceu num 13 de junho há 250 anos. Só falei dele na minha posse, há 10 anos. Era um ecologista, um ser de vanguarda e profético. Merece ser chamado “o primeiro brasileiro”, diz Rubens Ricupero (FSP, 10.6.13). Não poderia mesmo ser perdoado pelos contemporâneos.

 

Young da Costa Manso é meu patrono na Academia Paulista de Direito. Só fiz o seu elogio na minha posse. Mas tenho pensado nele todos os dias, desde que assumi a Corregedoria Geral da Justiça. Foi um incentivador, um homem superior, um espírito insuperável. 

Padre Belchior de Pontes é meu patrono na Academia Cristã de Letras. Estive há dias em Itapecerica da Serra e não sabia que aquele é um espaço em que o jesuíta brilhou e deixou senda inolvidável. Foi tão importante que sua biografia, escrita pelo companheiro de batina Pe. Manoel da Fonseca, foi apreendida e destruída pelo Marquês de Pombal. Nasceu em 1644 e faleceu em 22 de setembro de 1719 e seu nome é uma lenda na região. 

 

Nossa miserável memória se esquece com facilidade dos que foram importantes para nós e para a História. Como se não fizessem falta. Como se o mundo ainda fosse o mesmo depois de sua partida. Exatamente como acontecerá depois da nossa despedida deste triste planeta. 

 

 

 

 JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.



publicado por Luso-brasileiro às 12:00
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FELIPE AQUINO - AS FASES DO AMOR

 

 

 

 

 

 

 

O amor gera a vida; o egoísmo produz a morte. A psicologia mostra hoje com toda clareza que as graves perversões morais tem quase sempre como causa principal uma frustração de amor. Os jovens se encaminham para as drogas, para o sexo vazio, para o alcoolismo e para tantas violências, porque são carentes de amor, desnutridos de amor. A pior anemia é a do amor. Leva à morte do espírito. Ninguém pode ser feliz se não for amado; se não fizer uma experiência de amor. Se isto é importante na infância e na adolescência, também na vida conjugal isto é verdade.

 

E esse amor conjugal começa a ser aprendido e treinado no namoro. Na longa viagem da vida conjugal, que começa no namoro, você precisa levar a bagagem do amor. Você amará de verdade o seu namorado, não só porque ele é simpático, bonito ou porque é um atleta, mas porque você quer o bem dele e quer ajudá-lo a ser ainda melhor, com a sua ajuda. Muitas vezes você quis e procurou uma namorada perfeita, ou um rapaz ideal, mas saiba que isto não existe.

 

A primeira exigência do amor é aceitar o outro como ele é, com todas as suas qualidades e defeitos. Só assim você poderá ajudá-lo a crescer, amando-o como ele é. Alguém já disse que o amor é mais forte do que a morte, e capaz de remover montanhas. O amor tem uma força misteriosa; quando você ama o outro gratuitamente, sem cobrar nada em troca, você desperta-o para si mesmo, revela-o a si mesmo, dá-lhe ânimo e vida, ressuscita-o. É com a chama de uma vela que você acende outra. É com a doação da sua vida que você faz a vida do outro reviver. Desde o namoro você precisa saber que “amar não é querer alguém construído, mas construir alguém querido.”

 

 

 

 

 

 

É claro que um casal se aproxima pelo coração, mas cresce pelo amor, que transcende os sentimentos e se enraíza na razão. Todo relacionamento humano só terá sentido se implicar no crescimento dos envolvidos. De modo especial no namoro e no casamento isto é fundamental. A ordem de Deus ao casal é esta: crescei. Deus não nos dá uma ajuda adequada para curtirmos a vida a dois; mas para crescermos a dois. Isto vale desde o namoro. E o que faz crescer é o fermento do amor. Ninguém melhor do que São Paulo expressou as exigências do verdadeiro amor: “O amor é paciente, O amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante. Nem escandaloso. Não busca os seus próprios interesses, Não se irrita, Não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, Mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa. Tudo crê, Tudo espera, Tudo suporta. O amor jamais acabará” (1Cor 13, 4-7).

 

Medite um pouco em cada linha deste hino do amor, e pergunte a você mesmo, se você está vivendo isto no seu namoro. Você é paciente com a namorada ou não, sabe se controlar diante dos defeitos dela? Você é bondoso para com ele, ou será que algumas vezes exige vingança, e quer ir à desforra por causa de algo que ele fez e que você não gostou? Ser bondoso é saber perdoar, é ser compreensivo e tolerante, sem ser conivente com o erro, claro. Será que você tem inveja dele porque ele a supera em certas atividades? Será que você é um namorado orgulhoso, que acha que só por ser homem já é suficientemente superior a ela? Se você não admite ser ultrapassado pelo outro nas coisas boas, saiba que você não o ama de verdade; pois, quando se ama queremos que o outro seja melhor que nós. Será que você não é arrogante, que se acha superior ao outro, e que quer sempre impor a sua vontade? Até que ponto você permite que a presunção o domine, fazendo-o achar-se o bom?

 

 

 

 

 

 

Saiba que a arrogância e a prepotência atravancam o caminho do amor e do crescimento do casal. Será que você é escandalosa, e parte para a chantagem emocional para conseguir aquilo que você não consegue pela força dos argumentos? Saiba que a gritaria é muitas vezes a linguagem dos fracos, que agem assim por falta de razões.

 

Será que você é egoísta no seu namoro, e ele tem que fazer tudo o que você quer? Aqui está a pedra de tropeço principal para muitos casais. Uma vez que o egoísmo é o oposto do amor, um casal egoísta pode ser comparado a duas bolas de bilhar: só se encontram para se chocarem e se afastarem em sentidos opostos… Será que você é daquelas que vive mau humorada ou que derruba o beiço por qualquer contrariedade? Será que você é daqueles que se irrita por qualquer coisinha dela que não esteja do seu gosto? Você perdeu a linha porque ele se atrasou quinze minutos? Você deixou o seu namoro azedar porque ele olhou apenas um instante para a outra moça que passou ao lado?

 

O amor não se irrita, não xinga, não ofende, não grita! O amor não guarda rancor, diz o apóstolo. É claro que haverá no namoro momentos de desencontros. São normais os pequenos desentendimentos. É fruto das diferenças individuais e das circunstâncias da vida. O feio não é brigar, mas não se reconciliar, não saber perdoar, não saber quebrar o silêncio mortal e manter o diálogo. Para evitar as brigas e desentendimentos é preciso saber combinar as coisas. O povo diz que aquilo que é combinado não é caro. Aprendam a combinar sobre o passeio, sobre as atividades que cada um gosta de fazer, etc… É preciso dizer aqui que a face mais bela do amor é a do perdão. Você tem o direito de ser perdoada, pois errar é humano; mas tem também o dever de perdoar quando ele errar e pedir perdão.

 

O gesto mais nobre de Jesus foi o de perdoar os algozes que o crucificavam. Não pode haver futuro para um casal que não sabe se perdoar mutuamente. Esta é a maior reserva de estabilidade para o casal. Outra face bela do amor é a fidelidade. Ser fiel ao outro não quer dizer apenas não ter outro parceiro; é muito mais do que isto, é ser verdadeiro em tudo. É não tapear o outro em nada. É não ser fingido, mascarado ou dissimulador. Se você mente para a sua namorada saiba que está destruindo o amor entre vocês. Nada é mais fatal para o amor! A mentira gera a desconfiança; a desconfiança gera o ciúme; o ciúme gera a briga e a separação. Ser fiel ao outro é saber respeitá-lo, defendê-lo, e não traí-lo de qualquer forma, seja por pensamentos ou palavras. Se você fizer dos seu namoro uma brincadeira de esconde-esconde, você estará brincando de amar, e isto é muito mal. Portanto, quebre toda falsidade, dissimulação e fingimento, porque isto destrói o amor.

 

 

 

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A mentira tem pernas curtas, diz o povo; ela logo aparece, e quando isto ocorre deixa o mentiroso desqualificado, e não mais digno de confiança. Desde o namoro é preciso ter em mente que a beleza do amor está exatamente na construção da pessoa amada. É uma missão para gente madura, com grandeza de alma. Construir uma pessoa é educá-la em todos os aspectos, e isso é uma obra do coração. O amor tudo suporta, tudo crê, tudo espera; o amor não passa jamais. Não há o que o amor não possa fazer. Quando não ajudamos o outro a crescer é sinal de que o nosso amor por ele ainda é pequeno. Se o seu namoro não for um exercício constante do amor, ele ficará vazio, monótono, e sem sabor. E como a natureza tem horror ao vácuo, este vazio será preenchido por desentendimentos e brigas.

Namorando se aprende a amar, mas amando se aprende a namorar. Para você meditar:

Sete vezes menosprezei a minha alma

1. Quando a vi disfarçar-se com a humildade para alcançar a grandeza;

2. Quando a vi coxear na presença dos coxos;

3. Quando lhe deram para escolher entre o fácil e o difícil, e escolheu o fácil;

4. Quando cometeu o mal e consolou-se com a ideia de que outros cometem o mal também;

5. Quando aceitou a humilhação por covardia e atribuiu sua paciência à fortaleza;

6. Quando desprezou a lealdade de uma face que não era, na realidade, senão uma de suas próprias máscaras;

7. Quando considerou uma virtude elogiar e glorificar.

 

 

 

 

FELIPE AQUINO   -   Escritor católico. Prof. Doutor da Universidade de Lorena. Membro da Renovação Carismática Católica



publicado por Luso-brasileiro às 11:49
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JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI - PRINCÍPIO BÁSICO DA CARIDADE: AMAR E AJUDAR O PRÓXIMO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

         A saúde, educação, moradia, qualidade de vida e tantos outros, são temas que têm de sair das manchetes dos jornais e das revistas para se consolidar na vida de todas as pessoas. Devemos, portanto, resgatar os princípios de solidariedade e de fraternidade para reduzirmos as diferenças entre as pessoas, eliminarmos a violência e buscarmos uma convivência harmoniosa em comunidade.

 

         O descompromisso com terceiros e a indiferença com a situação destes, revela um unilateralismo extremo que impossibilita a maioria da população de conseguir alimentos, moradia, educação, saúde, trabalho com salário justo, lazer e segurança, elementos essenciais a um mínimo de dignidade.

 

         O ato de ajudar as outras pessoas auxiliando o próximo no progresso da humanidade, talvez seja a mais importante forma de caridade, que tem como  dia comemorativo internacionalmente o 19 de julho e que no Brasil é celebrado até por força de decreto presidencial de 1966.

 

         O seu conceito se tornou mais claro com o cristianismo, por meio do mandamento que diz: “amai-vos uns aos outros”. Ou seja, esse é o princípio da caridade, amar e colaborar com o outro.sse auxílio na realidade é consistente, lastreado no respeito irrestrito à dignidade da pessoa humana. Deve ser amplo e absoluto, distante de qualquer egoísmo.

 

         Num país em desenvolvimento como o nosso, a exclusão social, que hoje já é imensa, será motivo de uma mobilização cada vez maior da nossa sociedade. A caridade é um dos instrumentos essenciais para que o triste quadro se reverta.

 

         É muito fácil jogar uma moeda a uma pobre ou um macro de pão a um faminto. E ainda mostrar para o mundo que fizemos isso, registrando em redes sociais ou na imprensa. Faz-nos sentir menos culpados pelo escândalo da miséria do próximo e faz-nos parecer melhores na convivência social. A caridade que se revela desta forma não é mais que um meio de preservar a penúria e aliviar temporariamente nossa consciência, uma maneira de cobrir com um véu os nossos defeitos e delitos. E o que é pior: fazemos isso com toda a divulgação possível para nos encobrirmos com o manto da hipocrisia.

 

         Perto de nós, há sempre uma pessoa, uma família ou uma entidade precisando do nosso trabalho, da nossa ajuda e do nosso amor. Com desprendimento, procuremos ajudar com êxito de resultados.      Posições individualistas e cômodas devem ser substituídas por ações solidárias e participativas, deixando de lado nossas indiferenças para com o próximo e para com o meio em que vivemos. Independente da data, a caridade deve estar presente em todos os momentos de nossas vidas.

 

Em homenagem ao Dia Mundial da Caridade, que nos inspira a refletir sobre a importância da fraternidade e da solidariedade na convivência humana, transcrevemos a poesia “A Caridade de Alguém” de Cora Coralina : “Numa pedra, sentada e perdida, /Na minha vista, triste e sofrida, /Era eu ainda, pequena criança, /Muito pobre, sem amor nem esperança. //Fora enviada, a dar um recado, /Mas meu caminho, estava traçado, /Com fome, sem qualquer alento, /Sentar-me naquela pedra, único pensamento. //Alguém, por aquele caminho passou, /De cesto do almoço que transportava, /Retirou um pouco de bacalhau, e, uma batata. //Fora, a caridade de alguém, /Quando os outros, me olhavam com desdém, / Que me olhou com certo carinho, / Me deu alento, para seguir o meu caminho!...”

 

 

 

 

 

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI  é advogado, jornalista, escritor e professor universitário.



publicado por Luso-brasileiro às 11:40
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PAULO ROBERTO LABEGALINI - A HUMILDADE DO REGADOR

 

 

 

 

 

 

 

Há regadores de diversos tipos: grandes, pequenos, coloridos, de alumínio, de plástico, modernos, e até uma simples canequinha pode servir para aguar um vasinho de planta na janela. Todos têm a função de dar vida à vegetação, e é o jardineiro que sabe escolher exatamente o regador mais apropriado para cada situação. Se a chuva é pouca e não há mangueira disponível, lá vai o regador cumprir sua tarefa do dia, colaborando com a missão do jardineiro que o conduz.

Na infância, eu passava férias em Monte Sião e gostava de apreciar o lindo jardim na praça da cidade. Ficava impressionado com o capricho das podas, formando bichos nos ciprestes e estrelas nos buchinhos – tudo verdinho, mesmo no inverno! O jardineiro levava a fama, mas o simples regador também fazia a sua parte.

E se imaginássemos que Jesus é o grande jardineiro do Pai, quem seria o regador conduzido por Ele? Antes de responder, é preciso lembrar a missão que Jesus recebeu quando veio a nós: fazer com que todos tenham vida em abundância (Jo 10,10). Usando uma imagem relacionada com a natureza, podemos dizer que Jesus veio transformar a terra seca e rachada do mundo em um jardim cheio de vida, onde todos possam encontrar as condições necessárias para viver com dignidade.

Então, para formar um jardim em que o povo possa desfrutar amor e paz, nós, cristãos, também recebemos o mesmo envio do Pai. Pelo batismo, assumimos a responsabilidade de nos tornar um só com Cristo e devemos irrigar a esperança junto àqueles de vida mais ressecada, ameaçados pela morte do corpo e da alma. Portanto, somos regadores nas mãos de Jesus!

A missão que cada ser humano tem no Jardim do Reino é singular, intransferível e nenhum outro pode realizar. Para desempenhar as tarefas com sucesso, cada regador precisa ser dócil, abandonando-se nas mãos do jardineiro para que ele o conduza aonde há mais necessidade de água. O lugar não importa, já que o regador confia no seu condutor e estará sempre disponível para servir. Pode ser usado na sua própria casa, no meio de gente abandonada, nas igrejas, nos hospitais e até em outras cidades. O importante é estar sempre cheio, porque regador vazio enferruja e não serve para nada.

E a grande vantagem de sermos regadores a serviço de Deus é estarmos repletos de água da melhor qualidade: Água Viva do Espírito Santo, a única capaz de saciar a sede do mundo! Como a samaritana do Evangelho de São João (4,15), precisamos também dizer a Jesus: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede”.

Mas, antes de querer irrigar as vidas dos outros, todo cristão deve permitir que a sua terra seca se torne um bonito jardim, contendo fontes de água pura, tipo: a escuta da Palavra, a participação na Eucaristia, a vida de oração e a prática da caridade. Somente quem experimenta disso com humildade pode ser conduzido por Cristo.

A palavra humildade vem do latim, que significa ‘filhos da terra’. Refere-se à qualidade daqueles que não tentam se projetar sobre as outras pessoas, nem mostrar ser superior a elas. Humilde também é aquele que reconhece o seu chão, que assume seus deveres e culpas sem resistência.

A humildade dos que vivem na pobreza pode ser vista pelos ricos como fraqueza. Na verdade, é preciso ser muito corajoso para levantar os humilhados que foram jogados ao chão. Também é preciso muita oração para o abastecimento do espírito; e haja água no regador!

Por isso, é bom lembrar que a nossa oração só é acolhida por Deus quando parte de um coração solidário com os oprimidos e empobrecidos. São Paulo, quando velho, preso e condenado à morte, meditou sobre a sua vida (2Tm 4,7): “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé”. É o testamento de alguém que estava com a consciência do dever cumprido e aguardava com humildade e confiança  a recompensa de Deus.

Também no capítulo 18 do Evangelho de São Lucas, Jesus mostra a oração humilde de um cobrador de impostos que se apresenta diante de Deus de mãos vazias, mas disposto a acolher a graça: “Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador”. No mesmo momento, mais à frente do templo, reza um fariseu orgulhoso, auto-suficiente, satisfeito pelo que é e pelo que faz: “Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. Eu jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de toda a minha renda”. O desprezo pelos outros contaminou a sua oração.

Eis uma grande lição para nós: um esperava a recompensa e, o outro, a misericórdia. Considerando que Jesus já nos trouxe a salvação, resta-nos conquistá-la pela súplica de perdão e prática de boas obras. Não queiramos, porém, nos justificar sempre pelas faltas, mas nos alegrar por sermos bons regadores nas obras da Igreja, pois, segundo o nosso Senhor: “Quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”.

 

 

 

PAULO ROBERTO LABEGALINI -    Escritor católico, Professor Doutor da Universidade Federal de Itajubá-MG. Pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária da UNIFEI.

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:34
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FRANCISCO VIANNA - AS AGRURAS PRESENTES E FUTURAS DO EGITO

 

 

 

 

 

 

 

O EGITO ESTÁ SOB A AMEAÇA DE UMA DITADURA MILITAR, POR UM LADO, E DE UM NÃO MENOS AUTORITÁRIO REGIME FUNDAMENTALISTA ISLÂMICO, DE OUTRO LADO. A DEMOCRACIA, COMO SEMPRE SE FRAGILIZA ENTRE ELAS.

 

 

 

 

Manifestante egípcio sentado sobre canhão militar, no Cairo.

            O Ministro das Relações Exteriores egípcio, Mohammed Kamel Amr, renunciou ao seu cargo na terça feira de ontem, tornando-se o ministro de mais alto perfil a sair do governo desde que começaram os protestos contra o regime do presidente Mohammed Morsi no fim de semana. A renúncia de Amr veio depois que os militares egípcios deram um ultimato na segunda feira de anteontem ao presidente ao exigir que ele e a Irmandade Muçulmana – que age como sua eminência parda – iniciassem um diálogo com membros da oposição dentro de 48 horas, ou corressem o risco de os militares impusessem um "roteiro político" a ser seguido por todos os partidos. Tais ocorrências se dão em meio a mais recente de uma série de crises políticas no Egito desde a queda do ex-presidente Hosni Mubarak em fevereiro de 2011.

            A turbulência política que, no Egito, enfrentam a sua classe política e suas poderosas Forças Armadas, se tornou quase uma situação comum a todos os setores da sociedade, com suas demonstrações públicas de insatisfação e de desequilíbrio emocional como é típico ocorrer no processo democrático. E, na medida em que o sistema político do Egito evolui, torna-se claro que – com a exceção de algumas questões críticas, incluindo Gaza, o Canal de Suez, e a capacidade militar egípcio para assegurar a soberania de ambos – os governos ocidentais e regionais estão constatando a afinidade do Egito para a agitação com preocupação decrescente.

            O Egito já foi outrora o eixo político e religioso do mundo árabe sunita. As instituições egípcias, tais como a religiosa Universidade Al-Azhar e o islamismo defendido pela Irmandade Muçulmana continuam a ter influência regional significativa, mas o Egito está longe de ser um candidato a exercer um papel de fato na chamada “hegemonia árabe”. Questões regionais maiores, como a Guerra Civil na Síria e os sunitas a reagir de modo a colocar um Irã anteriormente ascendente na defensiva, são prioritárias dentro do pântano político do Egito, bem como aos olhos dos Estados Unidos e de seus aliados ocidentais, que parecem ter se cansado de intervir no Oriente Médio.

            Mesmo que o Egito deixe de ser um lidero confiável dos árabes sunitas, o país ainda, por algum tempo, deverá manter a sua relevância geopolítica. O Canal de Suez é e continuará sendo um caminho vital para o transporte global, e a proximidade do Egito é e será sempre vital para a pequena Faixa de Gaza, bem como seu já longo cessar-fogo com Israel, tudo a influenciar Washington em manter suas ligações estratégicas com os militares egípcios, mesmo que eventualmente o governo do Cairo lhe seja hostil ou pouco cooperativo. As Forças Armadas egípcias, beneficiadas e modernizadas pela aliança com os EUA são o poder que mais garante uma segurança interna, tanto no Canal de Suez como na fronteira com Gaza, favorável ao Ocidente e a Israel. Enquanto os militares mantiverem tal posição e atitude como o pilar mais forte dentro do estado egípcio, os EUA provavelmente não interferirão com os assuntos internos egípcios, pelo menos ostensivamente.

            E os militares egípcios não dão sinais de fraqueza ou de que não corresponderão a essa associação estratégica com o Ocidente. Mas, a sua estabilidade é ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição; livres da interferência de atores externos mais fortes, os militares egípcios estão se tornando cada vez mais responsáveis (e responsivos) pela continuada agitação interna do Egito. Todavia, na ausência de um apoio material maior do Ocidente ou de qualquer intervenção, atores regionais, como o Qatar e em menor medida a Arábia Saudita e a Líbia, estão ajudando a aliviar algumas das pressões econômicas enfrentadas pelo estado egípcio. Ninguém, no entanto, está oferecendo uma solução fácil para milenares desafios geoeconômicos e geopolíticos do Egito.

            Na verdade, a ninguém interessa que o Egito entre em colapso, mas ninguém no Ocidente ou mesmo na região parece disposto a intervir e, com isso, ter que assumir o encargo de reconstruir o Estado egípcio. E a atual estabilidade segue perene com a ação difusa dos militares egípcios a ajudar a amenizar as preocupações estrangeiras que possam existir em relação a um possível colapso. O resultado é um atoleiro nacional de interesses políticos e sectários concorrentes e uma força armada egípcia, que cada vez mais se vê forçada a agir como árbitro entre os concorrentes em seu litígio crônico. Mais sem vontade do que incapaz de intervir e estabelecer o regime militar direto, os militares parecem confiantes de que sempre terão a última palavra e o controle sobre a posterior capacitação de qualquer das forças políticas e públicas que assuma o governo ou a supremacia política egípcia - eleições, oposição, protesto e agitação – e que provavelmente não vão mudar num futuro próximo.

            Subjacente a tal dinâmica, está um sério desequilíbrio na economia do país, com uma população em crescimento que supera em muito os recursos desta nação desértica e acostumada às dádivas agropecuárias das cheias do Nilo. Como o foco se volta para dentro do Egito, à medida que a sua posição regional vacile a sua economia continuará a declinar, mesmo e quanto mais sua população continuar a crescer sem que haja uma expansão da riqueza que sustente tal crescimento.

            Ou seja, os maiores problemas do Egito deixarão de ser atacados interna e externamente, mesmo que sua situação política continue a ocupar as manchetes do mundo. Esse é o substrato que pode levar o Egito a futuras ditaduras militares rudes o suficiente para equilibrar a sociedade sem que ela tenha que se miserabilizar pelo socialismo ou, pior ainda, se submeter a um regime fundamentalista islâmico como o que aspira impor a Irmandade Islâmica.  

 

 

Quarta feira, 03 de julho de 2013

 

 

 

 

FRANCISCO VIANNA  -   Médico, comentador político e jornalista  - Jacarei, Brasil

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:21
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HUMBERTO PINHO DA SILVA - EDUCAR E ENSINAR

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dizia Fulton Sheen, que quando se observa alguém de cabeça inclinada, enterrada entre mãos, logo se pergunta se está com dores de cabeça.   

              

Isso acontece, porque a sociedade deixou de pensar. Pensa que pensa, mas não pensa, como bem dizia o mendigo de Joracy Camargo.

 

Conhecemos, pelos meios de comunicação social, tudo ou quase tudo que ocorre no mundo - pelo menos o que lhes interessa, - mas desconhecemos o principal, que é: a felicidade da nossa família.

 

Devido à fraca atenção que prestamos a nossos filhos - porque temos estudos e carreira profissional, - estes tornam-se vítimas de depressões. Doença que outrora só atingia praticamente adultos, é agora frequente na puberdade, assim como outros transtornos.

 

Responsabiliza-se a sociedade pela violência, agressividade e comportamentos incorrectos, na escola; esquecendo que a sociedade não é mais que conjunto de famílias.

 

Não admira que professores, mesmo os mais dedicados, encontrem-se “ stressados”, já que a falta de educação reflecte-se na escola.

 

A sala de aula transformou-se em campos de batalha. O mestre, outrora respeitado, passou a bobo de divertimento. Contribuiu, para isso, o facto de terem retirado autoridade ao professor, e considerarem que o adolescente é irresponsável, portanto, tudo lhe deve ser perdoado.

 

Mal vai quem quer impor ordem ou aplique castigo, por mais inofensivo que seja. Pais, advogados, inspectores e até políticos e jornalistas caiem-lhe, sem dó, em cima, responsabilizando-o por maus-tratos físicos ou psíquicos.

 

Tudo porque os pais não sabem, ou não querem educar. No receio de os traumatizar, satisfazem-lhes todos os caprichos e aceitam todas as birras.

Cabe aos pais e não à escola, educar. Esta tem por principal missão, o ensino. É em casa que a criança forma a índole e toma conhecimento de regras que lubrificam as relações interpessoais, e permitem-lhe viver em sociedade.

 

Não há, como se pensa, uma só forma de educar. Criança que nasça em família muçulmana, cristã, budista, hindu ou agnóstica, tem comportamentos e modos de pensar diferentes. Isso não impede de vir a ser cidadã exemplar, se for educada a respeitar os mais velhos e o semelhante.

 

A escola, ao educar, transmite regras estereotipadas. Cunha, do mesmo jeito, como o banco emissor imite moeda: todas iguais. Normas, que nem sempre são aceites pelos progenitores, que conservam opiniões, conceitos morais e até políticos, bem diferentes do mestre.

 

Educar é transmitir: registos, comportamentos, atitudes, conversas e imagens, que o adolescente, observa aos pais e à família.

 

Devem, pois, os pais incutir conceitos, normas de conduta, e até avivar sentimentos, dialogando com os filhos, ouvindo as inquietações e dificuldades que sentem.

 

Os jovens são estimulados pela mass-media, ao consumismo, a aceitar opinião em voga, pensar pela cabeça alheia, aceitar o que a lei permite, mesmo que seja perversa. Se é permitido, se se usa, posso seguir, - pensa o jovem.

 

A missão dos pais é estimular sentimentos altruístas; mostrar a diferença entre o bem e o mal; ensinar a pensar, baseado em valores recebidos desde a infância.

 

Se não se fizer assim, cria-se o delinquente, o adulto cata-vento, que gira ao sabor da corrente.

 

Só teremos sociedade sã, pacífica e justa, se soubermos educar desde o berço.

 

E essa educação só pode ser administrada pelos pais e não pela escola, e muito menos, pela lei.

 

 

 

 

 

 

HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal

 

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:06
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EUCLIDES CAVACO - CORTESIA FADISTA
 
 
 
 
 
 
 
Olá amigos de todo o mundo
CORTESIA FADISTA É o poema que preenche esta semana o espaço de poema da semana com uma nota de apreço aos fadistas amigos que durante as minhas férias deste ano em Portugal preencheram a minha alma de fado. Veja e ouça CORTESIA FADISTA em poema da semana ou aqui neste link:
http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Cortesia_Fadista/index.htm

Aceitem tembém por cortesia as minhas saudações amigas.
 
 

Euclides Cavaco  - Director da Rádio Voz da Amizade.London, Canadá

cavaco@sympatico.ca


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Quinta-feira, 11 de Julho de 2013
JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI - 15 DE JULHO - DIA INTERNACIONAL DO HOMEM

 

 

 

 

 

 

 

 

 Depois do Dia da Mulher, nada mais justo do que comemorar também um dia para os homens. Quem nunca recebeu uma corrente no e-mail com a indicação de que a mulher tem um dia só para ela, mas os seres do sexo masculino têm o resto do ano só para eles? Brincadeiras à parte, agora também já têm um dia exclusivamente deles, embora sua comemoração ainda não alcance grande repercussão.

 

         O Dia Internacional do Homem é celebrado a 15 de julho. A data foi criada há onze anos pelo ex-presidente russo Mikhail Gorbachev e apoiado pela Organização das Nações Unidas em Viena. Mas há quem diga que as comemorações foram iniciadas em 1999 por Jerome Teelucksingh, em Trinidad e Tobago. Ela também alterna os dias de celebração em alguns países, podendo ser comemorada em 19 de novembro.

 

No entanto, se no Dia Internacional da Mulher descreve-se a luta pela emancipação feminina, a do Homem se “constitui numa excelente idéia para equilibrar os gêneros", de acordo com a diretora da Secretaria de Mulheres e Cultura de Paz da UNESCO, Ingeborg Breines.  A celebração se revela numa ocasião em que se reúnem para combater o sexismo e, ao mesmo tempo, reverenciar suas conquistas e contribuições na comunidade, na famílias,  no casamento, e na criação dos filhos.

 

     Conforme os criadores do festejo, os elementos masculinos devem projetar  uma imagem positiva de si mesmos na sociedade e ressalvar suas contribuições. Por isso, são objetivos básicos da data: promover modelos masculinos positivos, não apenas de estrelas do cinema ou esportes, mas de homens do dia-a-dia cujas vidas são decentes e honestas; comemorar as contribuições positivas para a convivência social, comunidade, família, casamento, guarda de crianças e meio-ambiente; concentrar sobre a saúde do homem e seu bem estar social, emocional, físico e espiritual; destacar a discriminação profissional contra os homens nas áreas de serviços sociais, nas atitudes e expectativas sociais e no direito; melhorar as relações de gênero e promover a igualdade sexual, e criar um mundo melhor, onde as pessoas possam se sentir seguras e crescer para alcançar seu pleno potencial

 

         Assim, o Dia Internacional do Homem tem objetivos muito bons e bem definidos, com idêntica importância ao Dia da Mulher. Com efeito, homens e mulheres podem e devem ter papéis próprios, de mesmo valor e de importância equivalente dentro da estrutura comunitária. Enfim, desde o começo da Sagrada Escritura  revelou-se  que Deus criou ambos como duas formas de ser pessoa, duas expressões de uma humanidade comum. Por outro lado, o artigo 1° da Declaração Universal de Direitos Humanos relata: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”

 

 

 

 

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, jornalista, escritor e professor universitário

 

 

 

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:14
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CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - CACHORRADA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

            Já fazia um tempo em que isso não acontecia e eu comecei a pensar, ou melhor, a me iludir, crédula de que eles estavam ficando mais sossegados em decorrência de idade, eis que ambos tem mais de dez anos de vida. Talvez tivessem aposentado a loucura e agora estivessem dispostos a manter a ordem e a disciplina, rs.

 

            Ledo engano. Tudo recomeçou quando tirei umas roupas que eu havia colocado para secar, de dentro da secadora e as coloquei dobradas sobre a mesma. Normalmente, inclusive, nem as deixo naquele local, mas acabei me esquecendo e saí para trabalhar. Quando retornei, logo no portão eu percebi que algo estava diferente, já que os pestinhas não estavam latindo como de costume, ao virar das chaves.

 

            Assim que abri a porta da área na qual eles ficam, vi uma cena de guerra: as roupas estavam todas esparramadas pelo chão, em diferentes agrupamentos, combinações e formatos. De cara vi que havia pedaços desconectados do todo e tratei de partir para a contagem das baixas.  Parte das roupas tinha sofrido um ataque biológico apenas: estavam cobertas de xixi! Outras, contudo, pereçam. Meu amado pijama de inverno foi encontrado agonizante, com imensos buracos nas costas e no traseiro...

 

            Alguns dias depois, pude constatar que o ciclo não se havia fechado. Saímos de casa para o trabalho e, novamente, o silêncio nos incomodou. Encontramos os dois aninhados no sofá, bem quietinhos, como quem pede para não ser incomodado. Creio que deixamos a porta aberta e eles tomaram posse do que acharam de direito. Para nossa sorte e para a deles também, não houve outras vítimas.

 

            Ainda dentro daquela semana, assim que estávamos no portão percebemos que o Peteco, nosso “salsicha”,parecia latir de um lugar diverso do que deveria estar. Tão logo entramos descobrimos que uma vez mais ele fora enganado pelo companheiro dele, Floquinho, e subira uma escada que não é capaz de descer, ao contrário do que o poodle faz. Resultado? Uma porta de madeira parcialmente roída na tentativa de ser aberta, além de um cachorro que deve ter latido por horas, em pânico, para “alegria”dos vizinhos!

 

            Diante de fatos não há argumentos e eu entendi que eles nunca deixarão de ser um tanto “malucos”mesmo, tenham a idade que tiverem. Confesso que há momentos nos quais fico com raiva diante dos estragos, mas sempre que me lembro da expressão dos dois ao serem descobertos, eu concluo que a vida é melhor assim mesmo, com gente e cachorros malucos, do bem...

 

 

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA    -   Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora   -  São Paulo.  



publicado por Luso-brasileiro às 11:08
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RENATA IACOVINO - FINAL DE DOMINGO

 

 

 

 

 

 

 

 

            Se ele falasse, cantaria: "são as águas de março fechando o verão, é a promessa de vida no teu coração".

 

            Mas sua expressão maravilhosa foi a de me olhar com os olhos arregalados e sair desembestado pelo corredor. Ao voltar, de encontro a mim, indagou-me com seu miado rouco: "o que está acontecendo?".

 

            Aos primeiros raios e trovões, Dimitri mostrou-se indiferente, mas bastou aquela chuva forte e barulhenta começar e vi-o atônito. Chamei-o ao sofá e pronto: esqueceu o que acontecia logo ali, do lado de lá das paredes. Parecia até que aquilo tinha sido pretexto para mais uma de suas brincadeiras.

 

            E em meio à chuvarada e ao som vindo do Parque da Uva, naquele domingo, também arrumei um pretexto para aumentar o som e ouvir boa música: a que não vinha do lado de lá das paredes.

 

            Caetano dava o tom em Quando o Galo Cantou: "Quando o galo cantou/eu inda estava agarrado/ao seu pé e à sua mão/uma unha na nuca/você já maluca de tanta alegria/do corpo, da alma e do espírito são/eu pensava que nós/não nos desgrudaríamos mais(...)".

 

            Fui montando nosso repertório e, assim, distraindo aquele final de domingo e fazendo uma das coisas que mais gosto, mas que por falta de tempo, quase não tem acontecido: ler encartes de CD, observar as minúcias de uma ficha técnica, acompanhar as letras, lendo-as, enquanto ouço...

 

            E isso me fez pensar na famigerada falta de tempo, que hoje anda na boca de tudo mundo. Essa questão da falta de tempo virou quase uma religião, uma entidade. Repararam como pra tudo que temos que fazer, quase sempre vem junto a frase: "ah, mas estou sem tempo pra isso", ou "se eu conseguir, farei, mas estou sem tempo", ou "vou tentar encaixar nos meus afazeres, porque estou sem tempo"? E esta encarnação da ausência de tempo – que de mito passou à realidade, já que vivemos numa era frenética de ter de dar conta de muitas tarefas concomitantemente – parece só existir para o narrador. Não, isto é algo até dispensável de ser dito, é chover no molhado, ou seja, é uma redundância...

 

            E a chuva veio diminuindo, quando quem cantava na sala era Calcanhotto: "não, de novo não/não quero ouvir, não/agora não/maldito rádio/ agora que parecia que eu ia/mudar de vez o curso dessa história/agora que parecia que ia ser agora/não é momento/de reprisar canções que são só minhas(...)".

 

 

 

 

 

Renata Iacovino, escritora e cantora / reiacovino.blog.uol.com.br / reval.nafoto.net / reiacovino@uol.com.br

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 10:53
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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - O IMPACTO DE DEUS

 

 

 

 

 

 

 

Li e reli o livro “El Impacto de Dios” – Claves para La lectura de San Juan de La Cruz – de Ian Matthew - Centro Internacional Teresiano Sanjuanista – Ávila. Foi-me recomendado pelo Carmelo São José. Uma leitura fascinante para uma conversa profunda com Deus. Uma leitura para rezar e encontrar o Senhor nos infortúnios da existência humana.

São João da Cruz é bastante conhecido por suas reflexões sobre a presença de Deus na “noite escura”, que ele experimentou em diversos momentos, dentre eles nas injúrias e no cárcere. Nas amargas circunstâncias, nunca vacilou sua convicção na generosidade divina.

A noite escura nos mostra que não somos donos de nada. Os fatos se apresentam contraditórios, turvos, incompreensíveis. As amarguras crescem. O sofrimento é inexplicável. São problemas econômicos, solidão, abandono dos amigos, incompreensões, uma doença e até mesmo depressão.  São João, em momentos como esses, exclama: “Onde Te escondeste?”.  Um tempo de negatividade da vida, que chega a restringir nosso autodomínio. Necessitamos da presença de Deus, porém sentimos Sua ausência e nos sentimos como estranhos.

São João da Cruz, cujo universo está empapado de um Deus que se autocomunica, revela a sabedoria divina que lhe vem em tempos de noite escura. A obscuridade possui o selo do Espírito de Deus que paira sobre as águas da morte e o poder para produzir a ressurreição. Momento para se juntar ao Amado. A noite que se pode fazer de Páscoa. Contudo, para o encontro com o Ressuscitado necessitamos morrer e isso dói. É preciso constatar a própria debilidade, conhecer-se a si mesmo, compreender que sozinhos não somos nada. O problema fundamental é passar pela vida sem haver saído da posição fetal, sempre curvados em nós mesmos. Despojar-nos de nossos “egos” é como uma morte. Significa dizer não a um desejo, que não estou disposta a negociar. A questão essencial diz respeito a não darmos espaço para Deus. É Ele o “invasor generoso” ao encontrar espaço. A opção por Deus dá asas.

O caos se ilumina quando Deus olha e O faz através do Filho. O fim de Deus, em todos os acontecimentos, é engrandecer a alma e Seu olhar limpa, oferece graças, enrique e ilumina. Um Deus que ama com um amor que cria o bem em nós, um Deus que insiste em pôr em nossas mãos novas possibilidades.

São João da Cruz enfatiza que o sofrimento redentor passa por crer, confiar e amar, que são os únicos instrumentos que permitem a união entre o ser humano e Deus. Cita Maria, quando verifica o apuro dos esposos em Caná e não sugere nenhuma solução a seu Filho. Apenas Lhe apresenta a necessidade. A fé consiste na obra do Espírito que afina o coração para que pulse no ritmo do coração do Filho de Deus. Somente Deus salva da noite escura e o amor nos abre a um Deus que está empenhado em salvar.

Deus é o Amor que vence as trevas de nossos medos e dá sentido aos acontecimentos todos de nossa vida.

 

 

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE   - É coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil

 



publicado por Luso-brasileiro às 10:49
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