PAZ - Blogue luso-brasileiro
Sexta-feira, 18 de Abril de 2014
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - UMA HOMENAGEM ELEMENTAR

 

 

 

 

 

 

            Sendo período de Páscoa, era de se imaginar que o normal seria escrever sobre temas correlatos, como coelhinhos, ovos de chocolate e renovação. Contudo, hoje meu coração me impele a falar sobre outro assunto.

 

            Na semana que ora se finda, muita gente, assim como eu, sentiu um pedaço de sua história de vida escolar se perder. Com o falecimento do Prof. Araújo, professor por longas décadas, em uma morte daquelas que não manda avisos, não os óbvios, ao menos, daquelas que não permitem sequer um adeus, centenas de alunos e ex-alunos perderam aquele que foi um dos melhores professores de química da região de Lins-SP.

 

            Quando eu soube da notícia, pelos meus pais, amigos dele que eram, fiquei pensando na fragilidade e na efemeridade das coisas e do tempo. Em uma automática viagem pelo meu período de colegial, hoje chamado de ensino médio, eu passei a me lembrar das aulas de química e do meu agora já saudoso então professor.

 

            Nunca fui uma aluna exemplar nas matérias exatas como matemática e física, mas pela química eu transitava com facilidade. Embora o professor fosse sério e até bravo, era daquele tipo irônico, daquele tipo de humor que é confundido com mau humor, que não se faz entender por todo mundo.

 

            Se fosse hoje, muito do que ele falava seria tido como “politicamente incorreto” nesse mundo “politicamente chato” que vivemos, mas algumas tiradas eram inesquecíveis.  Lembrei-me de que sempre que a sala estava conversando demais, ele nos dizia que, como sugestão, valia trazer de casa um pão bem seco, amanhecido e adormecido e colocá-lo inteiro na boca, só para ter o que fazer até a aula acabasse, quando, provavelmente, já estaria passível de ser comido.

 

            Quase septuagenário, ele ainda lecionava, inclusive junto com meu pai que, por sinal, também foi meu professor na mesma época. Talvez, essa seja uma das razões pelas quais a morte do Prof. Araújo acabou deixando-me tão triste. Assim como meu pai, ele tinha três filhas e uma esposa, as quais, agora, restam as lembranças dos bons anos vividos e a esperança de um reencontro em outro plano, no caso da vida terrena ter algum sentido e propósito.

 

            Graças ao Prof. Araújo eu acertei quase todas as questões de química no meu vestibular, que era muito concorrido e no qual foi aprovada. Devo a ele, assim, ao menos, nessa hora, uma derradeira homenagem. “Querido Mestre, onde quer que você se encontre agora, saiba que, não apenas para mim, estou certa, a Química perdeu um de seus valiosos elementos e que, sem você, sinceramente, a tabela periódica nunca mais será a mesma...”

 

            A família, meu sincero abraço e pesar...

 

 

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA -  Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora   -  São Paulo.

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:39
link do post | comentar | favorito

PAULO ROBERTO LABEGALINI - QUEM NÃO PAGA PROMESSAS...

 

 

 

 

 

 

Há alguns anos, escrevi sobre um possível castigo a quem não pagasse promessas. E me inspirei no artigo do padre Cido Pereira no jornal ‘O São Paulo’, que dizia:

 

“Não é necessário fazer promessas, pois Deus sabe do que precisamos. Quem, porém, quiser fazê-las, prometa a Deus uma vida de santidade, marcada pelo amor a Ele e ao próximo. E saiba agradecer os sinais de bondade que o Criador vai fazendo você experimentar ao longo da vida. Se o amor de Deus por nós é tão grande, você acha que Ele iria, logo depois de uma bênção maravilhosa, nos dar um castigo só porque não cumprimos o que prometemos? Até porque se Deus nos fez experimentar o seu amor, Ele o fez gratuitamente e não pelo que lhe prometemos.”

 

Correto! Eu também penso assim. A Paternidade Divina não se vinga dos filhos ingratos dessa forma, mas continua lhes dando oportunidades para a conversão. E se a conversão for definitiva na vida de um cristão, agradará muito mais ao Pai do que o cumprimento de promessas.

 

Isso não significa dizer que ninguém deva pagar suas promessas, muito pelo contrário. Todos nós temos o dever de agradecer e louvar a Deus pelas graças recebidas, porém, algumas pessoas, em momentos de desespero, fazem promessas quase impossíveis de serem cumpridas. E daí, o que fazer depois?

 

Volto, em parte, à explicação do Pe. Cido; acredito que Deus concordaria que substituíssem as promessas difíceis por uma vida melhor, marcada pelo amor sincero. Assim, não precisariam mais se preocupar com novas promessas.

 

E como é bom ter certeza que a Misericórdia Divina é infinita! Imagine se Deus agisse como nós, por exemplo:

 

Um cidadão promete ao amigo ser avalista na compra de um imóvel muito cobiçado, mas na hora de fechar o negócio, o tal avalista não comparece no cartório e o seu ‘amigo’ perde a grande oportunidade financeira da vida. Considerando que não houve motivo de força maior para a ausência do avalista no horário combinado, como seria o relacionamento entre ambos a partir dali?

 

Pois bem, com Deus, sempre que ‘furamos’ os compromissos, somos perdoados e ganhamos novas oportunidades para nos reconciliarmos com Ele no seu amor. Isso só não dura para sempre, porque o nosso tempo neste mundo é limitado. Se Ele cumpre tudo o que nos promete e nunca lhe mostramos gratidão, o nosso tempo vai se esgotando e o dia do juízo final chegará.

 

Quando Jesus curou dez leprosos e só um voltou para agradecer (Lc 17, 11-19), Ele indagou: “Não ficaram curados todos os dez? Onde estão os outros nove? Não se achou senão este estrangeiro que voltasse para agradecer a Deus?”. Isso mostra que o Senhor fica feliz com cada coração agradecido, embora não exija sacrifícios de ninguém.

 

É bom lembrarmos que alguns fatos da vida não nos trazem sofrimentos à toa, se soubermos colher os frutos da Bíblia, que diz:

 

“Irmãos, vós ainda não resistis até o sangue na vossa luta contra o pecado, e já esquecestes as palavras de encorajamento que vos foram dirigidas como filhos: ‘Meu filho, não desprezes a educação do Senhor, não desanimes quando ele te repreende; pois o Senhor corrige a quem ele ama e castiga a quem aceita como filho’. É para a vossa educação que sofreis, e é como filhos que Deus vos trata. Pois qual é o filho a quem o pai não corrige? No momento mesmo, nenhuma correção parece alegrar, mas causa dor. Depois, porém, produz um fruto de paz e de justiça para aqueles que nela foram exercitados. Portanto, ‘firmai as mãos cansadas e os joelhos enfraquecidos; acertai os passos dos vossos pés’, para que não se extravie o que é manco, mas antes seja curado. Procurai a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor; cuidai para que ninguém abandone a graça de Deus. Que nenhuma raiz venenosa cresça no meio de vós, tumultuando e contaminando a comunidade.” (Hebreus 12, 4-7; 11-15)

 

Portanto, vemos que Deus nos pede para não desanimarmos, pede para acertarmos os passos para a santificação – não sozinhos, mas junto com os irmãos necessitados – e pede ainda para não abandonarmos a Sua graça.

 

Se desprezarmos esses ensinamentos, nem sequer poderemos considerar que Deus está nos educando nos sofrimentos que passamos, pois viramos as costas a Ele mesmo antes da dor. Mas como o Pai sempre nos aceita de volta se quisermos viver a Sua Palavra, é tempo de deixarmos o pecado pra trás.

 

Atenção: ‘Jesus pode já estar voltando!’. Eu creio nisso e, por amor a Deus e aos irmãos, peço a Nossa Senhora que nos ajude para que nenhuma raiz venenosa cresça no meio de nós, tumultuando e contaminando nossas famílias.

 

Concluindo, recitar e colocar em prática o salmo 39 pode perfeitamente substituir muitas promessas meio inconsequentes: “Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade, Senhor”. Dá para prometer e cumprir isto?

 

 

 

 PAULO ROBERTO LABEGALINI -    Escritor católico, Professor Doutor da Universidade Federal de Itajubá-MG. Pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária da UNIFEI.



publicado por Luso-brasileiro às 11:34
link do post | comentar | favorito

Quinta-feira, 17 de Abril de 2014
Pe. TOMAZ HUGHES SVD - PÁSCOA: TEMPO DE RENASCER! TEMPO DE DESPERTAR PARA A VIDA NOVA!

 

 

 

 

 

 

 

 

Muitos de nós, de uma certa idade, lembram ainda quando a Quaresma era observada com muito rigor nas famílias e comunidades cristãs, com especial ênfase em deprivar-se de algum bem – doces, bebidas, cinema ou algo semelhante.  Que alegria quando chegasse Sábado Santo, pois tudo isso terminou!  Sem negar o valor das práticas daqueles tempos idos, antes da reforma litúrgica do Papa Pio XII, a celebração da Páscoa foi diminuída na sua importância e quase que desligada da caminhada quaresmal, pois a Quaresma terminava ao meio dia do Sábado Santo!

 

O ponto alto do Ano Litúrgico é o Tríduo Pascal.  Aqui está resumido todo o mistério da nossa salvação, pela vida, morte e ressurreição de Jesus.  Na quinta à noite comemoramos a Ceia que resumiu toda a vida de Jesus.  “Tendo amado os seus, amou-os até o extremo”  (Jo 13,1) - até o último ponto de doação, dando a sua vida.  Jesus nos deu o mandamento que deve nortear toda a nossa vida – “façam isso em memória de mim!”.  Não fazendo uma lembrança de algo que já passou, mas o memorial – tornando presente tudo que foi celebrado nessa ceia derradeira, e comprometendo-nos com o seguimento de Jesus hoje, alimentados por seu corpo e sangue, numa vida de amor e solidariedade.

 

            Há uma ligação estreita entre todos os elementos do Tríduo, pois sexta feira foi a consequencia lógica da vida de Jesus.  Ele não veio para morrer, mas para que “todos tenham a vida e a vida em abundância” (Jo 10,10).  Por isso, o seu projeto do Reino bateu frontalamente com os projetos de dominação do seu tempo, e por isso, ele foi assassinado.  Fiel até o fim, assumiu as consequências da fidelidade à vontade do Pai, e foi morto, e morto na Cruz.  Desvinculado da Quinta-feira Santa e do Sábado Santo, Sexta-feira Santa seria a celebração de uma derrota fragorosa.  Por isso, depois de sentirmos a dor e a tristeza da sexta feira, aparente vitória do mal, celebramos, numa explosão de alegria, a vitória de Deus, do bem, na Ressurreição de Jesus, garantia da nossa, através da Liturgia Pascal.

 

            Nos relatos dos Evangelhos certos elementos são comuns: o fato que o túmulo era vazio, que as primeiras testemunhas eram as mulheres, e que uma delas era Maria Madalena.  Um fato salta aos olhos – ninguém esperava a Ressurreição.  A Cruz era o fim da esperança, a maior desilusão possível.  Se somarmos a isso o fato que todos eles traíram Jesus (ou por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar o ambiente pesado entre os discípulos na manhã do Domingo.  Nisso, chegam a Maria e as mulheres com a notícia do  túmulo vazio.  Pedro e o Discípulo Amado correm até o túmulo. Enquanto Pedro vê sem entender enquanto o Discípulo Amado acredita.  Só quem olha com os olhos do amor, penetra além das aparências!

 

            Salta aos olhos, mesmo com uma leitura superficial dos relatos evangélicos, que a experiência da Páscoa fez uma reviravolta na vida dos discípulos e discípulas.  De um grupo de decepcionados, desiludidos e fracassados, se tornaram um grupo dinâmico, evangelizador, animado, olhando a vida, com suas alegrias e tristezas, de uma outra maneira.  Isso fica claro no relato dos Discípulos de Emaús, em Lucas 24, 13-35.  Podemos sentir no desabafo do Cléofas sentimentos de tristeza, decepção, desilusão, até revolta contra Jesus, por, aparentemente, ter fracassado e destruído os sonhos e esperanças deles: “nós esperávamos (notemos o tempo do verbo!) que fosse ele o libertador de Israel, mas...já faz três dias que tudo isso aconteceu.” (Lc 24, 21).  De repente, depois de ter feito a experiência da presença de Jesus Ressuscitado, tudo muda: “Então uma disse ao outro: Não estava o nosso coração ardendo quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?”  Na mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém, onde encontraram os Onze, reunidos com os outros” (Lc 24, 32-33).

 

            Páscoa era para eles, e deve ser para nós, “tempo de renascer”.  Mas é bom notar – só “renasce” quem morreu!  Temos que descobrir em nós o que precisa renascer, o que tem morrido, ou está agonizando!  Pode ser a fé, a força, o ânimo, a esperança, o engajamento na comunidade, a energia para lutar por um mundo melhor.  Todas essas coisas são capazes de renascer, se realmente fizermos a real experiência da Páscoa, da Ressurreição de Jesus.  Não de uma maneira sentimental e aérea, mas realista.  Para ressuscitar, Jesus teve que passar realmente pela morte.  Mas venceu a morte e continua a viver – e no meio de nós.  Lembremos como Paulo dava importância à Ressurreição. Escrevendo aos coríntios, uma comunidade onde alguns “iluminados” negaram ou menosprezaram o fato da Ressurreição, ele brada: “Se os mortos não ressuscitam, Cristo também não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, a fé que vocês têm é ilusória e vocês ainda estão nos seus pecados....Se a nossa esperança em Cristo é somente para esta vida, nós somos os mais infelizes de todos os homens (I Cor 15, 16-19).

 

            Não há dúvida que não é fácil manter sempre a esperança, a fé e a coragem diante de tantas dificuldades na vida.  Sempre foi assim.  O autor anônimo de Hebreus, escrevendo na segunda parte do primeiro século a uma comunidade judeu-cristã, sabia disso, e falou: “Corramos com perseverança na corrida, com os olhos fixos em Jesus...para que vocês não se cansem e não percam o ânimo, pensem atentamente em Jesus” (Hb 12, 1c-3).  A celebração da Semana Santa nos dá uma oportunidade de fazer isso – olhar de novo atentamente para Jesus, o Verbo de Deus, “que se fez homem e armou a sua tenda no meio de nós” (cf Jo 1, 14).  Assim podemos reanimar a nossa fé, a nossa missão, a nossa participação na comunidade, olhando, recordando e celebrando o Jesus real que se tornou igual a nós em tudo, menos o pecado.  Ele que, apesar de ser abandonado por quase todos e sentindo-se abandonado até pelo Pai, gritou “Meu Deus, Meu Deus porque me abandonaste”(Mc 15,34), mesmo assim foi fiel até o fim e assim foi ressuscitado pelo Pai.  Tempo de renovação, tempo de reviver, tempo de ânimo novo, tempo santo – a celebração da Vida, Morte e Ressurreição de Jesus, “autor e consumidor da fé” (Hb 12,3) Que esta celebração nos dê renovado força e novo ânimo sempre, especialmente quando a Cruz for muito pesada!

 

 

 

 

  TOMAZ HUGHES SVD   -   é Missionário do Verbo Divino. Irlandês. Membro da Província SVD Brasil Sul. É coordenador do Apostolado Bíblico na Zona Panam e no Brasil. Vive em Curitiva.

 

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 15:26
link do post | comentar | favorito

JOSÉ RENATO NALINI - CRÔNICAS ABSOLVIDAS

 

 

 

 

Os profissionais do direito são afeiçoados à palavra. Por isso é comum que não se satisfaçam com petições, pareceres, sentenças ou acórdãos. Enveredam pelas letras e escrevem poesia, romance, ensaio e todas as demais formas literárias. Para permanecer entre os atuais, Ives Gandra é poeta e teatrólogo, Eros Grau é romancista, assim como Miguel Reale Júnior.

Ayres Brito também faz poesia, Massami Uyeda incursiona pelos hai-kais, Roberto Delmanto escreve contos e agora Antonio Cláudio Mariz de Oliveira oferece suas deliciosas “Crônicas Absolvidas”. A facilidade com que aborda temas da memorialística familiar e profissional é sedutora. Manuel Alceu Affonso Ferreira, que o prefaciou, confessou-se “capturado pelo seu charme aglutinador”.

E todos os que lerem seus relatos sentir-se-ão como eu, fascinados pelo percurso em tão boa companhia. Talvez pelo fato de termos nascido no mesmo ano, muita coisa é familiar. Por sinal que Antonio Cláudio, assim que o conheci, identifiquei um amigo de infância. Embora crescido em Jundiaí, a geração tem pontos em comum e até as leituras e influências são as mesmas.

Pontos coincidentes até nas agruras de ser avô, como se lê na gostosa página “Como sofrem os avôs!!!” Resgatei bons momentos vivenciados com seu pai, a quem conheci como Desembargador do Tribunal de Justiça, quando assessorei o Corregedor Geral da Justiça, Desembargador Sylvio do Amaral. Lembrei-me com carinho e saudades de seu irmão José Eduardo.

Precocemente falecido, desde então ficamos privados das gostosas comemorações do aniversário de Antonio Cláudio, que reuniam boa parte da “família forense”. Fazem falta, principalmente porque “Festa é coisa séria”, reconhece o cronista. Crônicas antológicas mereceriam figurar nos melhores acervos dessa tão difícil arte.

Saliento “Os Engraxates”, “O Tempo e as Idades do Homem”, “Cadeira de Balanço”, “O Bonde” e a insuperável “A História dos Sem História”, que consolidou minha intenção de retratar meu pai, em 2015, quando completaria um centenário. Muito bem vindo, Antonio Cláudio Mariz de Oliveira. Continue a propiciar momentos de encanto com os retalhos de sua vida, tão bem costurados por sua generosa memória.

 

 



JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br. Visite o blog no endereço: http://renatonalini.wordpress.com e dê sua opinião sobre seus artigos.



publicado por Luso-brasileiro às 15:21
link do post | comentar | favorito

BEATRIZ W. DE KITTIGSTEIN - JUSTIÇA E LIBERDADE

 

http://www.eluniversal.com/opinion/140415/justicia-y-libertad

 

O Pessaj (Páscoa judaica) comemora a libertação do povo judeu da submissão ao Egito.

 

Moisés fazendo as águas do Mar Vermelho se abrirem para dar passagem ao povo judeu escravizado no Egito

 

 

 

            Ao longo destes dias, o povo judeu está a celebrar a festividade do Pessaj ou Páscoa judaica, e apesar dos fatos que são comemorados terem ocorrido a cerca de 3.300 anos, na atualidade, o formidável esforço pelo triunfo da liberdade e da justiça, dois valores intimamente vinculados entre si, está em plena vigência.

            A liberdade e a justiça são as bases do sistema democrático que, embora exercido com maiores erros e acertos pelos diferentes países que o adotam como regime político, é o que proporciona maiores possibilidades de desenvolvimento civilizacional e está profundamente relacionado com a natureza do ser humano. A democracia se materializa pela pluralidade, reconhecimento e respeito pelo contraditório e pela opinião das pessoas desde que emitidas de boa fé e com caráter construtivo dentro dos valores culturais judaico-cristãos. A justiça e a liberdade individual são as garantias de uma convivência social mais harmoniosa e produtiva para o bem-estar das pessoas e dos povos.

            O Pessaj comemora a libertação do povo judeu do jugo egípcio, relatada na Bíblia, no Livro do Êxodo: Moisés resgata seu povo e o guia até a “Terra Prometida”, a terra de Canaã. Assim, a cada ano, os judeus rememoram o nascimento da pátria judaica e é a ocasião em que esta celebração ocorre como sendo uma continuação, fazendo com que esse povo "renasça" ao longo das suas gerações.

            O grande ensinamento do Pessaj e a sua importância para o futuro é a esperança de que qualquer conflito possa vir a ser vencido pelo provo judeu. Um tirano, como o faraó e uma nação tão poderosa como Egito, na época, foram derrotados pela fé e pela palavra de Deus. Os escravos puderam se tornar homens livres e superar as sequelas de tão longo cativeiro.

            A história do Pessaj, do conjunto daqueles acontecimentos que constitui o passado coletivo do povo judeu, é a que deu ênfase à responsabilidade da memória. Humildemente, os judeus se recordam, ano após ano, que foram mantidos como escravos no Egito e que a liberdade que conquistaram há milênios significa um compromisso eterno do judaísmo pata com o resto da humanidade, compromisso esses que os judeus sentem que têm que estar a cimentar e fortalecer a cada dia que nos é concedido por Deus.

 

 

 

 BEATRIZ W. DE RITTIGSTEIN, para o jornal venezuelano ‘EL UNIVERSAL’

Tradução livre de Francisco Vianna

Terça feira, 15 de abril de 2014

bea.rwz@gmail.com

http://www.eluniversal.com/opinion/140415/justicia-y-libertad



publicado por Luso-brasileiro às 15:04
link do post | comentar | favorito

HUMBERTO PINHO DA SILVA - O MÉRITO VALE O QUE VALE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acabo de ouvir o nosso Primeiro-ministro elogiar o valor do mérito. Para ele e para muitos gestores, que dirigem o nosso país, o mérito está acima da antiguidade - que o velho Salazar tanto respeitava; e o grau académico, à dedicação e experiência.

 

Mas o mérito, sendo primordial para escolher trabalhadores, depende muito do parecer de quem avalia.

 

É do conhecimento geral, que, nas últimas décadas - penso que sempre assim foi, - os dirigentes, na maioria dos casos, são nomeados, consoante o cartão partidário, que possuem, mormente nas empresas públicas.

 

Basta observar apressa com que muitos universitários se inscrevem na juventude dos partidos políticos, em busca de cargo destacado e rendoso; e a ânsia com que alguns trabalhadores procuram entrar para o secretariado do sindicato ou, pelo menos, para secções ou núcleos de partidos, que existam na empresa.

 

É que deste modo, o acesso a promoções está mais facilitado ou quase garantido.

 

Além da política há outros “méritos”, que contribuem para conseguir vida profissional mais facilitada, como: pertencer a associações secretas… ou quase; tornar-se “intimo” amigo do chefe imediato, aquele que vai avaliar; ou obter o “apadrinhamento” de figura influente.

 

Tudo serve, principalmente para quem não tem escrúpulos, nem moral.

 

Durante os longos setenta anos de vida, muito vi e ouvi: Conheci jovem, trabalhador dedicado, que pelo Natal foi louvado pela competência e dedicação exemplar, e ainda não tinha chegado o Carnaval e já era afastado sem explicação aceitável… coisas misteriosas que acontece em nome da justiça e independência…

 

Outro, após ser promovido por mérito, foi arredado do cargo, por ser velho!…Tinha perto de sessenta anos…e ficou o resto da vida com reforma menor a que tinha direito…

 

Ambos tiveram mérito…mas perderam-no decorrido semanas…É o Carnaval da vida, ou a desdita de ser “vertical”, e não ser filho de “papá”.

 

Mas há quem só obtenha mérito meses antes de se aposentar… para usufruir reforma mais confortável…

 

Pedro de Moura e Sá, dizia que o mérito dependia, muitas vezes, da amizade e simpatia de quem avalia; e Cruz Malpique era de igual parecer, acrescentando “outras coisas mais…"como escreveu, e bem, certa vez, no “ Noticias de Guimarães”.

 

Poderia citar ainda Mário Gonçalves Viana, António Barreto, e muitos outros; mas todos reconhecemos que o mérito depende, quantas vezes, das ideias que se tem, da religião que se confessa e da moral que se possui. Dizia-me, num clube, em que fui assíduo frequentador, certa senhora, de grande cultura e inteligência, que quem manda, em regra, não quer “cabeças” mas “ pescoços “.

 

Para subir, ser alguém, ter nome respeitado, basta, na maioria das vezes, ser” pescoço” de quem triunfou.

 

Dito isto, termino, esperando que o leitor tire suas conclusões, baseando-se nos casos que conhece.

 

 

 

HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal

 

 

Sobre o assunto, leia:

 

 

http://www.jn.pt/PaginaInicial/Politica/Interior.aspx?content_id=3690030

 

http://beta.sicnoticias.sapo.pt/pais/2014-02-13-jobs-for-the-boys-analisados-em-estudo-universitario



publicado por Luso-brasileiro às 14:40
link do post | comentar | favorito

EUCLIDAS CAVACO - SEMANA SANTA
 
 
 
 
 
SEMANA SANTA É o poema para esta semana que embora não seja um poema novo está no entanto de acordo com o espírito desta semana especial. Veja e ouça Semana Santa em PS, no PPS anexo ou aqui neste link:
 

http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Semana_Santa/index.htm

Desejos duma semana muito especial e duma PASCOA MUITO FELIZ.
 

EUCLIDES CAVACO   -    Director da Rádio Voz da Amizade , Canadá
cavaco@sympatico.ca
***

 

CONVITE

 

 

A Academia Itajubense de História convida V. Sª e família para assistirem a palestra sobre “A vida e obra do Padre José Aquilino Machado”, a ser proferida pelo Prof. Paulo Roberto Labegalini.

 

Data: 26 de abril de 2014 (sábado)

Horário: 15h00

Local: Auditório Antônio Rodrigues de Oliveira (AARO)

 

Antecipadamente agradecemos a sua presença.



publicado por Luso-brasileiro às 14:36
link do post | comentar | favorito

Sexta-feira, 11 de Abril de 2014
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - INCÊNDIO NO LICEU DE ARTES E OFÍCIOS

 

 

 

 

 

 

 

 

Na primeira semana de fevereiro, os meios culturais de São Paulo e de todo o Brasil foram abalados pela triste notícia de que um incêndio destruíra o centro cultural do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, na Rua João Teodoro, na região central de São Paulo. Os bombeiros acorreram e rapidamente controlaram o sinistro, sem poder, entretanto, impedir danos materiais muito consideráveis, do ponto de vista cultural. Segundo a imprensa, quadros, esculturas, painéis fotográficos e móveis históricos produzidos no passado nas dependências do próprio Liceu foram danificados. Com toda a área interna do centro cultural atingida pelo fogo, o forro e o piso em parte foram destruídos pelas chamas, mas a rapidez da intervenção dos bombeiros, aliada ao cuidado especial que estes tomaram, para não causarem com os jatos de água danos ainda maiores, dão esperanças de que, pelo menos em parte, o acervo precioso possa ser restaurado.

 

O Liceu de Artes e Ofícios é uma das instituições culturais mais antigas e respeitáveis do nosso Estado. Foi fundado em 1873 por iniciativa pessoal de D. Pedro II (que se inspirou no Lycée d'Arts et Métiers, de Paris). Na mesma ocasião, a Princesa Isabel estava tomando os primeiros contatos com São João Bosco, para a vinda dos missionários Salesianos para o Brasil. Somente dez anos depois, em 1883, se concretizaria a vinda desses educadores italianos, que se estabeleceram inicialmente em Niterói e, depois, vieram para São Paulo e se espalharam por todo o Brasil.

 

Essas iniciativas do Imperador e de sua filha faziam parte de um projeto mais amplo, de proporcionar a jovens de poucos recursos e a descendentes de antigos escravos o que hoje em dia se chama "educação profissionalizante". Na ótica e nos planos da Princesa Isabel, essa educação era passo importante para a plena e condigna integração, na vida social e econômica brasileira, dos antigos escravos que nas décadas de 1870 e 1880 iam adquirindo, em número crescente, sua emancipação.

 

Em São Paulo, a iniciativa imperial encontrou boa acolhida em membros das elites cafeeiras, que se empenharam para que o Liceu se tornasse uma realidade.

 

Marcenaria, escultura, pintura, fundição de ferro e bronze, encadernação e cerâmica foram especialidades lecionadas no Liceu, que formou gerações de excelentes artesãos e cuja história registra a passagem de nomes como Victor Brecheret, Santos Dumont e Ramos de Azevedo.

 

Durante muito tempo, o mobiliário das melhores casas de São Paulo, sem falar em escritórios e edifícios públicos, foi produzido nos ateliês do Liceu. Mesas, sofás, armários, guarda-roupas, estantes, lustres, corrimãos, grades - tudo o Liceu produzia, com sua marca inconfundível de bom gosto e qualidade. Este artigo mesmo, que o leitor está tendo a paciência de ler, foi escrito numa escrivaninha de madeira de lei, produzida no Liceu há mais de 70 anos, por encomenda de um diretor de banco. Depois de ter servido a esse banqueiro e ter passado por um escritório de engenharia, acabou chegando às mãos deste modesto escrevinhador.

 

O trabalho de entalhe da porta da Catedral de São Paulo foi inteiramente executado no Liceu. Igualmente o foram as ferragens e lustres do Teatro Municipal. Também a estátua do Duque de Caxias, na Praça Princesa Isabel, foi modelada e fundida no Liceu, num laborioso trabalho que durou vários anos.

 

O Liceu é uma entidade privada, sem fins lucrativos, e nunca cobrou qualquer tipo de mensalidade dos alunos. Para manter o ensino profissionalizante gratuito, desde princípios do último século existe uma empresa comercial, a LAO Indústria, que tem como objetivo arrecadar fundos para o Liceu.

 

Essa empresa se tornou muito forte, especialmente na produção de hidrômetros e medidores de gás - artigos que passou a vender para todo o Brasil e para muitos países da América Latina. As esquadrias de sustentação do MASP, na Av. Paulista, foram produzidas pela LAO, assim como o revestimento de aço do edifício-sede da Petrobrás, no Rio de Janeiro, e muitas peças metálicas do Metrô de São Paulo e dos aeroportos do Rio e de Guarulhos. Quiosques de caixas eletrônicos de bancos também fazem parte da linha de produção da empresa.

 

As atividades da LAO Indústria garantiram ao Liceu décadas de estabilidade econômica, com o que os cursos gratuitos puderam ser tranquilamente mantidos.

 

Nas últimas décadas, entretanto, uma sucessão de fatores contrários abalou essa estabilidade. De início, a globalização da economia, com a decorrente invasão do mercado por produtos chineses baratíssimos e de péssima qualidade, prejudicou a venda de alguns produtos da LAO. Depois, a mudança de política do Governo no tocante à isenção de impostos para empresas sem fins lucrativos, também repercutiu de modo muito negativo nas finanças do Liceu, levando-o, alguns anos atrás, a uma situação próxima da falência.

 

Atualmente, a empresa procura conter os gastos, encerrando atividades menos lucrativas e deitando maior empenho nos produtos mais rentáveis, de modo a assegurar ao Liceu a continuidade de sua missão primordial, que é ministrar gratuitamente educação profissional de excelente nível. Esperemos que o incêndio provoque, nas autoridades e no empresariado, um susto salutar e os anime a colaborar efetivamente para que uma instituição tão antiga e venerável resista às provações e continue atuante.

 

 

 

 

 

 ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS   -    é historiador, jornalista profissional e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:47
link do post | comentar | favorito

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - FACE DESCONTRAÍDA E FACES REFEITAS

 

 

 

 

 

 

 

Aguardava para confessar na Igreja São João Batista. Aliás, gosto muito de me confessar. É um momento ímpar em que testemunho omissões, pensamentos e atos contrários à escolha de Deus que fiz. Escolha essa sem imposição, mas por perceber, ainda adolescente, um olhar que comoveu minha alma e fez o coração bater além das fronteiras humanas. Na confissão, encontro-me com Pai do filho pródigo, que me abraça, acalenta e faz festa por Lhe pedir perdão, reconhecendo as nódoas que escorrem em mim e danificam a Sua imagem e semelhança, impressas em toda a criatura humana. Nomeio o que apaga a caridade e me desvia do Céu. E quanta claridade me vem das mãos ungidas que se elevam em sinal de absolvição.

Creio com firmeza que o Sacerdote, em nome de Deus e da Igreja, tem o poder de absolver os pecados, através do Sacramento da Penitência, instituído por Jesus Cristo (Jo 20, 22-23).

 

Ao meu lado, uma mãezinha com filha de quatro ou cinco anos no colo. A menina cuidava de sua boneca de cabelos longos. Ajeitava-lhe os fios rebeldes de um lado para outro. Prendia-os com elásticos e diminutas fivelas coloridas. Observava o rosto e não ficava satisfeita. Havia algo destoante da versão original.  Era com paciência que tentava devolver à boneca a aparência anterior.

 

Refleti que ali estávamos em situação parecida.  No Sacramento da Penitência, é Deus que vem ao encontro do ser humano para nele restaurar Sua imagem e semelhança. Que sinal imenso de misericórdia!

 

Jesus Cristo, em nome do Pai, se desfigurou.  No livro do Profeta Isaías (cap. 53), encontramos: “Não tinha beleza nem atrativo para O olharmos, não tinha aparência que nos agradasse. Era desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos; passando por Ele, tapávamos o rosto; tão desprezível era, não fazíamos caso. (...) Foi maltratado e submeteu-se, não abriu a boca; como cordeiro levado ao matadouro ou como ovelha diante dos que o tosquiam. Foi atormentado pela angústia e foi condenado”.

 

Pesaram sobre Ele os açoites, a cruz, o corpo coberto de sangue, a coroa de espinhos, a fraqueza, a dor emocional, o abatimento, a vestes sorteadas, os pregos de ferro que lhe rasgaram a carne, dilacerando mãos e pés...

 

Enquanto a face de Cristo era desconstruída por nossos pecados, individuais e sociais, nosso rosto era reconfigurado pela misericórdia, que vai além de nosso discernimento.

 

É tempo de meditação.  É tempo de se refazer.

 

 

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - É coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.

 

 

 

 

 

NB: Participe conosco da Via-Sacra pelo centro da cidade, nesta segunda-feira, dia 14, a partir das 18h30, saindo da sede da Associação Maria de Magdala (Rua Senador Fonseca, 517) em direção à Praça Rui Barbosa e prosseguindo por todas as praças centrais, com o término no interior da Catedral NSD. Vamos rezar, dentre outras intenções, para que o Senhor restaure a face das vítimas do tráfico humano e para que o tráfico humano seja banido da face da terra.



publicado por Luso-brasileiro às 11:38
link do post | comentar | favorito

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI - TIRADENTES E A " LIBERDADE, AINDA QUE TARDIA "

 

 

 

 

 

 

 

 

 

           A data de 21 de abril tem uma grande importância à história da Nação; nela se presta homenagem a JOAQUIM JOSÉ DA SILVA XAVIER, o TIRADENTES, revolucionário de 1789 e que foi enforcado pela repressão portuguesa, no reinado de D. Maria I, a “Rainha Louca”. Para muitos historiadores, o caso de Tiradentes é relevante por ele ter participado de uma conspiração, junto com figuras proeminentes da vida econômica e cultural da sociedade mineira e que pretendiam realizar a independência do país, ou melhor, de Minas Gerais e capitanias vizinhas.

 

       A razão mais forte do movimento era a constatação da decadência em que se encontravam as finanças públicas e a política fiscal extorsiva do Governo português, ameaçadora de devassas e arbítrios para o recebimento de tributos. Os conspiradores tinham inúmeros planos: pretendiam criar um exército brasileiro, montarem indústrias e fundarem uma universidade. Fizeram até uma bandeira, com os dizeres, “LIBERDADE, AINDA QUE TARDIA”.

 

         Com a delação do grupo por um de seus integrantes, Joaquim Silvério dos Reis, os bravos patriotas – poetas, magistrados, sacerdotes, advogados, militares – foram tidos como subversivos e condenados por tentarem livrar o Brasil do jugo português. Sofreram sérias sanções, como as deportações de José Álvares Manuel para Angola e Tomaz Antonio Gonzaga para Moçambique, constituindo-se na pior punição, no entanto, a que recaiu sobre Tiradentes: foi enforcado e seu corpo esquartejado.

 

 

 

 

 

         Apesar dos atos inibitórios e repressivos dos portugueses, as idéias libertárias prosperaram, ganharam novos adeptos e se estenderam por quase todo o território nacional, até que em 1822 foi proclamada a independência do país.

 

          O mártir da Inconfidência queria não somente libertar o País do domínio colonial, como alinhá-lo com as nações desenvolvidas do seu tempo. Tiradentes será sempre o profeta daquele Brasil com que sonham todos os brasileiros, não apenas uma nação livre e soberana, como uma sociedade capaz de construir-se a si mesma a partir de suas próprias forças.

 

            Aproveitemos a data para uma reflexão: o Brasil necessita procurar a sua identidade, cultuar os seus heróis como Tiradentes e banir os inúmeros traidores que impedem o seu progresso, por interesses pessoais ou de grupos que ainda não admitem uma vida digna para todos e lutam contra o pleno Estado de Direito, tão almejado à consolidação da verdadeira democracia. Está mais do que na hora de separarmos o joio do trigo (ou os traidores dos heróis).

 

 

 

 

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, jornalista, escritor, professor universitário e autor de vários livros, entre os quais “O Sentimento de Justiça”(Ed. Litearte- 2000)e “O Direito de Envelhecer Num País Ainda Jovem, em 4ª. ed., Ed. In House).



publicado por Luso-brasileiro às 11:29
link do post | comentar | favorito

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - PALAVRA DADA

 

 

 

 

 

 

  Muitas vezes eu me surpreendo verificando o quanto me aproximo de me tornar alguém a cada dia mais parecido com meus pais e mesmo com meus avós. Na verdade, algumas coisas somente se tornam claras com o tempo, com a vivência, com certa dose de maturidade. O difícil é que, antes disso, não temos como saber que não temos como saber antes o que só conseguiremos saber depois! “Simples” assim! Rs...

 

            Seja como for, várias são as vezes nas quais me vejo reproduzindo frases como “no meu tempo” era diferente. Nesses instantes, internamente eu me repreendo por esquecer que o tempo no qual estou viva sempre será meu tempo e, do mesmo modo, concluo que, se eu tiver sorte, quase metade da areia dos meus dias já fugiu da ampulheta do tempo. Inclusive, esse pensamento me ocorre novamente agora, já que, creio, muita gente sequer sabe o que é uma ampulheta, mas isso fica para outro texto, se eu me lembrar...

 

            Ocorre que, ao meu sentir, há realmente muita coisa que mudou desde que eu era criança, por exemplo. Até aí, estranho e lamentável seria se não fosse dessa forma. O progresso vem para tornar a vida de todos mais fácil e melhor. Não fosse o espírito de adaptação e de mudança dos seres humanos, ainda estaríamos nas cavernas, com medo do escuro, do novo, do desconhecido.

 

            Por outro lado, nem sempre é necessário ou salutar mudar tudo, sobretudo aquilo que é bom, que permite à vida em sociedade ser mais palatável. Assim, por exemplo, entre tantas coisas, o hábito de cumprir com a palavra empenhada. Valores como ética e honra, que levam alguém a seguir à risca o que falou ou ao que se obrigou, parecem estar caminhando para o desuso. Muitas pessoas mudam as versões dos fatos de acordo com o que lhes convém e quantas vezes forem necessárias.

 

            Desalentador viver assim, sem a esperança de que as pessoas honrem com a palavra que deram, que cumpram sua promessas. Isso se encaixa tanto na vida pública quanto na privada. Triste assim que alguém minta e desaponte um coração, bem como que um político quase nunca cumpra como as promessas de campanha. E o pior é que me parece que as pessoas já se acostumaram a isso, como se fosse um desdobramento natural e não uma conduta diversa, não desejada ou não tolerada.

 

            Nesse ponto, saudosismo ou não, concluo que estamos nos tornando piores como sociedade. Aprendemos mais sobre a impunidade do que sobre honra e, mensurando os riscos, a balança começa a pender para o pior lado. Diante de certas posturas, ficamos sem saber se o ideal é ser ingênuo ou desconfiado, se assumimos que o risco de sermos passados para traz é maior do que a chance de que as pessoas sejam sinceras.

 

            Difícil saber, no fim das contas, mas tudo o que podemos fazer é dar o exemplo e, mesmo em meio às turbulências, mantermos nossa palavra, doa a quem doer.

 

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA -  Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora   -  São Paulo.

 

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:22
link do post | comentar | favorito

PAULO ROBERTO LABEGALINI - FRUTOS DO AMOR DE DEUS

 

 

 

 

 

 

Paulo (ou Saulo), um dos maiores apóstolos da Igreja, nasceu em Tarso por volta do ano 8 e faleceu decapitado pelo imperador Nero no ano 67, na mesma perseguição em que São Pedro foi crucificado de cabeça para baixo. Convertido após o encontro com o Senhor no caminho de Damasco, no ano 39 São Paulo se encontrou com Pedro e Tiago em Jerusalém (Gal 1,18) e depois voltou para Tarso (At 9,26-30), um tanto decepcionado com o fracasso do seu trabalho.

 

Certamente ali, Paulo repensou toda a sua vida e ouviu a voz do Senhor com mais clareza. Depois de 5 anos, seu primo Barnabé, que era discípulo de São Pedro em Antioquia, o levou para lá. Então, em 44, Paulo e Barnabé foram encarregados pela comunidade para levar ajuda financeira aos irmãos pobres de Jerusalém. E uma nova missão teve início.

 

Há hoje uma certa frieza no zelo apostólico e, mesmo dentro da Igreja, há um pouco de acomodamento no sentido de não levar o Evangelho a todos os povos da Terra, deixando que os mesmos se salvem em suas próprias crenças, dentro de uma mentalidade perigosa de que a salvação está em todas as religiões. É o relativismo religioso que condenamos insistentemente.

 

Nada mais oposto ao Evangelho, aceitar isso seria trair radicalmente Jesus Cristo, que instituiu a Igreja para levar a única salvação a todos os povos – “E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado” (At 16, 15-16).

 

O rigor paterno e a ternura materna têm obrigação de mostrar às suas descendências o amor da Virgem Maria e a misericórdia do Coração de Jesus. Assim começa a igreja doméstica, que produz frutos maravilhosos em todo o mundo, como nesta história contada por quem a viveu:

 

Lá estava eu com minha família em férias, num acampamento isolado e com o carro enguiçado. Tentava dar a partida no veículo, e nada! Caminhei para fora do acampamento e, felizmente, meus palavrões foram abafados pelo barulho do riacho. Minha mulher concluiu que éramos vítimas de uma bateria arriada.

 

Sem alternativa, decidi voltar a pé até a vila mais próxima e procurar ajuda. Depois de uma hora e um tornozelo torcido, cheguei a um posto de gasolina. Ao me aproximar, lembrei que era domingo e, é claro, o lugar estava fechado. Por sorte, havia um telefone público e uma lista telefônica com as folhas em frangalhos.

 

Consegui ligar para a única companhia de auto socorro que encontrei na lista, localizada a cerca de 30 km dali.

 

– Não tem problema – disse a pessoa do outro lado da linha. – Normalmente estou fechado aos domingos, mas posso chegar aí em mais ou menos meia hora.

 

Fiquei aliviado e, ao mesmo tempo, consciente das implicações financeiras que essa oferta de ajuda me causaria. E logo seguíamos, eu e o Zé, no seu reluzente caminhão-guincho em direção ao acampamento.

 

Quando saí do caminhão, observei com espanto o Zé descer com aparelhos na perna e a ajuda de muletas para se locomover. Ele era paraplégico! Enquanto se movimentava, comecei novamente minha ginástica mental para calcular o preço da sua ajuda.

 

– É só bateria descarregada. Uma pequena carga elétrica e vocês poderão seguir viagem – disse ele.                                                                                                                                                                          

 

O homem era impressionante; enquanto a bateria carregava, distraiu meu filho com truques de mágica e chegou a tirar uma moeda da orelha, presenteando o garoto. Depois de algum tempo, quando ele colocava os cabos de volta no caminhão, perguntei quanto lhe devia.

 

– Absolutamente nada – respondeu, para minha surpresa.

 

– Tenho que lhe pagar alguma coisa – insisti.

 

– Não – reiterou ele. – Há muitos anos, alguém me ajudou a sair de uma situação muito pior, quando perdi as minhas pernas. O sujeito que me socorreu simplesmente disse: ‘Sempre que tiver oportunidades, passe este favor adiante’.

 

Fiquei em silêncio por alguns instantes, sem reação, e o Zé ainda completou:

 

– Eis minha chance novamente; você não me deve nada! Apenas lembre-se: quando tiver uma oportunidade semelhante, faça o mesmo. Aprendi que somos anjos de uma asa só; precisamos nos abraçar para alçar voo ao Céu.

 

 

 

 

 

PAULO ROBERTO LABEGALINI -    Escritor católico, Professor Doutor da Universidade Federal de Itajubá-MG. Pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária da UNIFEI.

 

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:15
link do post | comentar | favorito

RENATA IACOVINO - PASTEL DE FEIRA

 

 

 

 

 

 

 

 

            A principal lembrança que tenho, ao falar sobre pastel de feira, é acompanhar minha avó e minha mãe às feiras livres de terça, no centro (morávamos na rua de baixo) e de sexta, na Vila Rio Branco.

 

            Adorava o ritual, logo cedo, desde o preparo para sair de casa até a chegada à feira, quando indo às bancas, entretinha-me com as conversas. E as paradas obrigatórias com as mesmas pessoas que cruzávamos naqueles dias.

 

            Talvez eu não tivesse noção do que diziam, mas era como se compreendesse tudo. Talvez o que me fizesse compreender fosse o gostar...

 

            E as conversas com os feirantes, já que elas tinham os lugares certos onde compravam.

 

            Adorava o momento de encontrar a banca de doces. Dali, quase sempre eu escolhia alguma guloseima, que minha avó comprava e levávamos para casa. Assim, eu sempre ficava com aquele gostinho de feira pairando enquanto desfrutava do que comia.

 

            Mas minha preferência era o pastel de queijo. Esse era sagrado. À época eu não me dava conta, mas minha avó talvez tivesse mais prazer em me proporcionar aquilo, do que eu tê-lo.

 

            Prazeres simples, infantis e bem distantes dos dias atuais.

 

            Creio que minha avó continuaria frequentando as feiras livres ao invés de um shopping. E penso, também, que isso dialogaria mais com minha natureza do que ir ao shopping.

 

            O contato com as pessoas, a troca de carinho e de, por que não dizer, vivências, era algo mais consistente ali, naquele ambiente.

 

            Depois... depois parece que tudo foi ficando mais distante.

 

            Mas ainda com relação ao pastel, eu fui crescendo, e mudei o período e o horário de estudo. Já não podia ir à feira.

 

            E não é que o pastel vinha até mim?

 

            Elas saíam bem cedinho de casa (hoje calculo que mais cedo ainda) para que quando voltassem, eu, iniciando o café da manhã, pudesse saborear o tal pastel de queijo. É, em pleno café da manhã, e ainda um pouco quentinho.

 

            São sabores de infância, lembranças que se perpetuam a uma memória.

 

            Hoje, quando às vezes, às sextas-feiras, ando dois quarteirões para almoçar dois pastéis na feira próxima ao trabalho, são essas reminiscências que me vêm à mente. O sabor certamente não é o mesmo, afinal o sabor das coisas que nos dão prazer, guardam algo especial e ímpar na sua fonte.

 

            Porém, de certa forma, isso contribui para me situar, ainda, em quem sou eu.

 

 

 

 

Renata Iacovino, escritora e cantora / reiacovino.blog.uol.com.br / reval.nafoto.net / reiacovino@uol.com.br



publicado por Luso-brasileiro às 11:10
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
arquivos

Junho 2022

Maio 2022

Abril 2022

Março 2022

Fevereiro 2022

Janeiro 2022

Dezembro 2021

Novembro 2021

Outubro 2021

Setembro 2021

Julho 2021

Junho 2021

Maio 2021

Abril 2021

Março 2021

Fevereiro 2021

Janeiro 2021

Dezembro 2020

Novembro 2020

Outubro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

pesquisar
 
links