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Quarta-feira, 19 de Novembro de 2014
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - ANÍBAL: DIZIMADOR DAS LEGIÕES ROMANAS ?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma amiga que diz acompanhar semanalmente meus artigos na Tribuna Piracicabana relata ter estranhado a afirmação, feita em um programa de televisão, de que o general cartaginês Aníbal dizimou as legiões romanas na Segunda Guerra Púnica, travada em fins do século III a.C. Ela não ignorava, naturalmente, que Aníbal foi o grande chefe militar cartaginês nessa guerra. Sua estranheza provinha da utilização do verbo dizimar. Ela queria saber se estava correto ou não.

Dizimar, em sentido próprio e original, era o castigo imposto na Antiguidade – especialmente no mundo romano – para certas tropas que haviam procedido mal, por se terem portado covardemente num combate, por se terem revoltado ou descumprido ordens etc. Consistia em executar um de cada 10 integrantes da tropa punida, escolhidos um tanto aleatoriamente. Era uma punição terrível, do ponto de vista psicológico, pois humilhava e corrigia eficazmente.

O filme “The fall of the Roman Empire”, obra clássica do cinema norte-americano, produzido em 1964, no qual figuram grandes atores, como Alec Guinness, Christopher Plummer e Sofia Loren, apresenta uma impressionante cena de dizimação de um corpo de legionários. Penso que todos os que assistiram a esse filme não podem esquecer a imagem, realmente chocante e trágica, de muitas centenas de legionários serem enfileirados à beira de um precipício, todos desarmados e passivamente resignados à sua sorte, e por trás, percorrendo a longa fila, um executor que ia contando os legionários, e, a cada múltiplo de 10, lanceava o designado pelas costas, derrubando-o no precipício.

Por extensão, também se usa o verbo dizimar (que provém do latim decimare) no sentido de destruir, devastar, causar a morte a um grande número de pessoas. (cfr. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1ª. ed, s/d, verbete “dizimar”). Neste sentido extensivo, pode-se, sim, dizer que Aníbal dizimou as legiões romanas, durante sua campanha militar na península itálica, entre 218 a.C. e 209 a.C., de modo muito especial nas batalhas do Lago de Trasímene e de Cannae, nas quais venceu espetacularmente as tropas romanas.

Aníbal foi, sem dúvida, um dos maiores e mais brilhantes chefes militares de toda a História. Sua inesperada e ousada invasão da Itália pelo Norte, através dos Alpes, com seus famosos elefantes, desnorteou profundamente as lideranças romanas, que até então se julgavam seguras na sua península, semeando entre elas o pânico e o terror. Se Aníbal tivesse recebido mais apoio de Cartago e, sobretudo, se tivesse mantido o ritmo de sua invasão, sem se deter nas funestas “delícias emolientes de Cápua”, teria por certo tomado a cidade de Roma e assegurado a hegemonia cartaginesa em toda a Bacia do Mediterrâneo. A História teria seguido um rumo muito diverso. Os norte-americanos apreciam muito o gênero historiográfico chamado “contra-fatual”, exercício literário e ficcional que consiste em estudar como a História poderia ter sido, não como ela realmente foi. Esse gênero é muito objetável, de muitos pontos de vista. Mas não é desprovido de utilidade, já que, como disse o britânico Hobsbawm, o “se” não faz história, mas ajuda muito a fazer.

A fraqueza de Aníbal não estava nos campos de batalha; ela estava nos interregnos entre os combates. Isso compreendeu muito bem seu antagonista, o general romano Quinto Fábio Máximo, que foi criticado por ser contemporizador (daí sua designação histórica de Fabius Cunctator, ou seja, Fábio, o contemporizador, o procrastinador) e evitar batalhas frontais e decisivas, nas quais Aníbal teria inegável superioridade. Fábio, seguindo sua política contemporizadora, salvou Roma.

Dois mil anos depois, a mesma estratégia contemporizadora salvou o Império russo. Em 1812, quando este foi invadido por um poderosíssimo exército comandado pelo até então invencível Napoleão Bonaparte, o General Kotusov, que comandava as tropas russas, sabia não tinha a menor possibilidade de vencer o invasor em combate. Preferiu contemporizar, recuando e cortando as linhas de abastecimento do inimigo. No sistema de combate napoleônico, a rapidez da movimentação era elemento fundamental; em vez de retardar a marcha, transportando provimentos para a alimentação da tropa, Napoleão tinha por hábito abastecer-se com os recursos locais das áreas pelas quais passava. Assim procedera desde o início da sua carreira meteórica, assim esperava proceder na Rússia. O exército napoleônico foi avançando cada vez mais, na esperança de chegar a Moscou e se abastecer fartamente.

Mas, quando chegou a Moscou na euforia da vitória, encontrou uma cidade esvaziada e em chamas. E o “General Inverno” estava chegando, para ajudar os russos. O final da história, todos conhecem.

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS  é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.



publicado por Luso-brasileiro às 11:31
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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - FACE ACENTUADA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No início da semana, estive com a moça. Destacava-se, em suas mãos, uma pequena sandália de plástico. Ao me aproximar, percebi a tira partida e os desenhos infantis desbotados. Brinquei que não caberia em seus pés. Disse-me que a encontrara na sarjeta e, de imediato, verificou que serviria na filha de um ano e meio. Examinava a sandália por diversos ângulos, o rosto contraído e o olhar distante. Do hospital, no dia da alta, a bebê foi transferida para um abrigo pelos desvarios dos pais e pelos avós ignorados. Ela e o companheiro, usuários de drogas e moradores de rua, de atalhos sem destino, sabiam sobre a impossibilidade de trazê-la nos braços. Tentam não pensar sobre os nove meses em que a nova vida pulsava nas entranhas da mulher. Ao sangrar essa ausência, de imediato se embriagam e se batem. É uma contradição: o sonho dela de maternidade e a “acomodação” nos desajustes. Foram-lhe feitas diversas propostas para acertar o prumo, porém os becos escuros e as marquises com espectros da noite grudaram nela.

Assustou-se com a cadeia, após um furto. O medo maior era, no tempo de cárcere, perder de vista o parceiro que partilha as formas de “acalmar” seus fantasmas. Espancada por ele, na gravidez, retirou a queixa, após duas semanas, para não perder a companhia.

Há uma colocação de Santo Agostinho, em seu Sermão 32, 3, a respeito de Davi e Golias (I Samuel, 17), que retrata o ser humano em seus diferentes rostos Somos caleidoscópio. Conclui, Agostinho, que “Golias contou somente consigo mesmo, com sua própria força. Como todas as pessoas vaidosas, o orgulho mostrava-se em suas faces; e foi nessa face que a pedra atirada por Davi o atingiu e derrubou”. Davi reconhecia sua pequenez e contou com a graça do Senhor.

Constato que a história da moça tem a ver com a colocação de Santo Agostinho: a miséria humana e suas consequências avançaram no lado que ela não transformou. E só ela sabe os motivos desse desabrigo, dessa fraqueza. Por que não se manteve em casa? Por que deixou os estudos? Por que se estabeleceu nas ruas, com tantos perigos e desconfortos? Não me cabe julgá-la. Sensibiliza-me seu estado de pessoa em pedaços.

 

Voltando a Santo Agostinho: eu também tenho que tomar cuidado com as faces que carrego, a fim de não permitir que se acentuem aquelas que me fazem menos criatura de Deus.

 

 

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:25
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Terça-feira, 18 de Novembro de 2014
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - MEUS TIPOS INESQUECIVEIS - PARTE 3

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

            Há duas semanas iniciei uma série de textos sobre meus tipos inesquecíveis, sobre aquelas pessoas que marcaram minha vida, pelas mais diversas razões e em diversos momentos. Hoje, pensando ainda sobre o assunto, tive que escolher um, entre tantos, para ilustrar essa página.

            Dentre muitos seres humanos incríveis que conheci, há um deles que especialmente se destaca. O Aparício era o padrinho do meu pai e, desde sempre eu me lembro dele na casa da minha avó, convivendo conosco e fazendo parte do nosso núcleo familiar. Era como se a família fosse formada de netos, filhos, pais, tios, avós e o Aparício. Nós, as crianças, nunca precisamos de explicações sobre quem ele seria, além do que ele de fato já era: querido por todos nós.

            O Aparício era uma pessoa especial, repleto de mistérios. Era uma espécie de benzedor, mas daqueles que não apenas afirmam, como também demonstram que possuem conexões com o divino, com o que não se explica ou se entende facilmente. Lembro-me de que eram comuns as conversas no sentido de “fala para o Aparício fazer uma oração especial”, ou “o Aparício dá um jeito nisso, pois conhece uma simpatia boa”.

            Ele morava sozinho e eu adorava quando íamos a casa dele, pois era lá que ele fazia suas orações e entrava em contato com “o lado de lá”. Mas não era só essa a razão. Ele tinha algumas cristaleiras repletas de jogos de chá em miniatura e eu os namorava sempre que podia, imaginando a festa que eu poderia dar para todas as minhas bonecas. Além do mais, minha avó dizia que o Aparício lhe confidenciara que escondia pequenos tesouros pela casa, dentro de colchões, em buracos na parede e em outros lugares secretos.

            Nunca soube se era verdade, mas jamais deixei de imaginar, quando lá estava, que tipo de coisa poderia ser encontrada e que incrível era poder estar em uma casa com tantos mistérios e segredos. Eu sentia sempre uma espécie de calafrios quando pensava nisso, mas hoje estou certa de que já era minha louca imaginação desejando que o mundo fosse mais do que tudo que se pode explicar.

            O Aparício, também chamado de “Pereirinha”, fazia deliciosos cajuzinhos, aqueles doces feitos com castanha de caju. Todas as semanas ele chegava com um prato repleto deles e, mesmo antes que fossem parar na vitrine da padaria dos meus avós, eu corria para surrupiar um, cujo gosto posso sentir agora, como se o estivesse degustando nesse momento.

            O Aparício, hoje sei, era mais do que possa parecer nesse texto, no nosso contexto familiar. Ele não foi um agregado da família, mas um agregador. Foi amigo de meus avós, padrinho de meu pai, foi os ouvidos, os olhos e a oração de outros tantos, sempre que necessitavam dele.

            Ele sempre dizia para meus avós que, no dia em que ele morresse, daria um jeito de avisar. Naquela manhã em que ele nos deixou, há muitas décadas já passadas, exatamente como ele disse que poderia ser, meus avós foram avisados, mesmo de qualquer comunicação formal, em mais uma demonstração de que, de fato, ele era alguém menos desse mundo e mais de outro.

            Seria preciso muito mais do que essas linhas para minimamente deixar claro, aos que não o conheceram, quem foi o Aparício. Aqueles que fizeram parte das mesmas lembranças, por outro lado, sabem que nem cheguei perto de contar os episódios mais interessantes ou mais surpreendentes que o envolveram.

            Por muito tempo eu sonhei com ele, com saudades. E sempre sonhos muito reais, que me faziam acordar com lágrimas nos olhos. Anos depois, quando meu avô também nos deixou, eu passei a recebê-los juntos, em minhas viagens noturnas pelo reino dos sonhos. Gosto de pensar que não eram apenas produto da minha imaginação...

            Sem sombra de dúvida, o Aparício foi e sempre será um dos meus tipos inesquecíveis, habitante das minhas mais vívidas e incríveis memórias.

 

 

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo. – cinthyanvs@gmail.com



publicado por Luso-brasileiro às 15:00
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FELIPE AQUINO - A BÊNÇÃO DE UM PEQUENINO

 

 

 

 

 

 

Deus valoriza muito as bênçãos, seja dos sacerdotes como dos pais. Toda Missa termina com a Bênção sacerdotal.

Quando Deus chamou Abraão – o pai de todos que creem – disse-lhe: “Farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome, e tu serás uma fonte de bênçãos” (Gen 2,2).

Abraão é como que a figura de todos os pais, “uma fonte de bênçãos” para os seus filhos. De modo muito significativo, o livro do Gênesis mostra a preocupação de Isaac em abençoar Esaú, antes de morrer.,

 

“Tu vês, estou velho e não sei quando vou morrer… Prepara-me o que gosto e traze-mo para que o coma e minha alma te abençoe antes que eu morra” (Gen 27,4).

Vemos em seguida todo o esforço de Rebeca para que a Benção do Patriarca seja dada a Jacó no lugar de Esaú. É porque esta benção era determinante: “Eu o abençoarei e ele será bendito” (Gen 27,33).

Esta palavra se aplica a cada pai que abençoa o seu filho em nome de Deus: “Eu o abençoarei e ele será bendito”. A benção dada pelos pais aos filhos é a própria benção de Deus, porque foi por meio deles que Deus os gerou. Urge portanto resgatar este santo costume: “A benção pai! A benção mãe!”

“Deus te abençoe meu filho!”

A Palavra de Deus diz: “Honra teu pai por teus atos, tuas palavras, tua paciência a fim de que ele te dê a sua bênção “… afim de que ele te dê a sua benção e que esta permaneça em ti até o teu último dia “ (Eclo 3,9-10).

Tenho para comigo que muitos filhos seriam livres de tantos perigos, no corpo e na alma, se sempre pedissem a benção de seus pais e dos sacerdotes. Diz o Eclesiástico que: “A benção do pai fortalece a casa de seus filhos, a maldição de uma mãe a arrasa até os alicerces” (3,11).

Gosto te pedir a Bênção, sobretudo aos bispos e padres, pois, pelo sacramento da Ordem, eles têm o poder de nos abençoar em nome de Cristo. No entanto, percebo, com tristeza, que alguns padres não correspondem com satisfação e fé quando os fiéis lhes pedem a bênção. Alguns simplesmente não respondem… e muito menos permitem que lhes beije a mão ungida pelo óleo santo.

 

 

benção-pai

 

 

Por outro lado, note que, sempre, quando dou uma esmola a um pequenino, mesmo sem lhe pedir, ele me diz: DEUS TE ABENÇOE! E eu acolho com alegria essa bênção em meu coração, pois o Espírito Santo diz: “Encerra a esmola no coração do pobre, e ela rogará por ti a fim de te preservar de todo mal” (Eclo 29,15). “Quem se apieda do pobre, empresta ao Senhor, que lhe restituirá o benefício” (Prov. 19,17). São Leão Magno dizia que “a mão do pobre é o banco de Deus”.

“Dá esmola de teus bens, e não te desvies de nenhum pobre, pois, assim fazendo, Deus tampouco se desviará de ti” (Tob 6,8).

É por isso que eu acolho com amor e gratidão as bênçãos que esses pequeninos me dão!

 

 

 

 

FELIPE AQUINO - Escritor católico. Prof. Doutor da Universidade de Lorena. Membro da Renovação Carismática Católica.

 



publicado por Luso-brasileiro às 14:52
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VALQUÍRIA GESQUI MALAGOLI - DE FIO A PAVIO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

            Quanto tempo para perceber que minha mãe não contava somente quarenta e cinco anos!

            Tarde dessas, lidava eu para colocar a linha na agulha. Traçado foi o fio temporal, em cuja primeira ponta lá estava ela lidando. E pensar que eu achava que ela fazia graça!

Como é que não enxergava tão nitidamente? Como é que eu precisava sempre intervir e numa tacada só passar pelo buraco o fiozinho? Como, se ela era a mulher que a vida toda me socorreu, conduziu, sarou?

            Nenhum dos meus filhos estava comigo enquanto eu cosia, mas a memória de mim, pequena e dona de si. Tanto mais porque minhas crianças cosem-na aqui no fundo dia a dia, num retrato próprio, bordado, paralelo e saudoso, pendente noutro extremo do fio que puxou há pouco a conversa presente.

            Eu “dava uns pontinhos” no vestido de formatura da caçula, que quer ser bióloga, ou queria, pelo menos até outro dia.

            No instante seguinte, não, ela não me ajudava como antigamente fazia esta que lhes fala em socorro à mãe. No instante seguinte... ela, a minha pequena, vestida para a festa, era uma mulher feita! Ok, ok... uma mocinha!

            É que, se por um lado pra nós, pais, os filhos serão eternamente crianças, ainda que cresçam; por outro lado – como crescem!

Vai ver não vemos, porque a vista vai embaçando rendada e rendida pelo tempo que passa. Afinal, essa força estranha, o tempo, sabe-se, pois a canção anuncia: “não para e no entanto nunca envelhece”; nós é que passamos, tão eternos quanto é possível durarmos, o que alguém também já previu.

            Quem não sabe que a vida é a Efemeridade em pessoa? Outrossim, quem é que sabe, se sem parar a gente a desperdiça? Se a gente a deixa escorrer pelos dedos igualzinho a linhazinha, fininha e afrontosa, em frente da vista toldada.

            E, aproveitando o tecido presente, regresso ao retrós para não perder o fio da meada que se estendeu no parágrafo primeiro...

            Foi tarde dessas que me vi surpreender pertinho dos quarenta e cinco também. Quão escandalosa uma revelação pode ser!!!

            Quase lá, reflito se sobreviverei a tudo, e se chegarei aos pés de minha mãe que ainda cose divinamente.

Reflitam comigo: só o tempo saberá dizer.

           

 

 

VALQUÍRIA GESQUI MALAGOLI    -    escritora e poetisa, vmalagoli@uol.com.br / www.valquiriamalagoli.com.br



publicado por Luso-brasileiro às 14:44
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PAULO ROBERTO LABEGALINI - CINCO MINUTOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um aluno de artes marciais estava tomando chá quando indagou o mestre:

– Eu tenho aprendido tudo o que tem me ensinado de defesa pessoal, mas desejo saber outra coisa agora. Gostaria que me explicasse os caminhos de Deus.

O professor, pegando a chaleira, começou a despejar chá na xícara do aluno. Logo transbordou e começou a entornar sobre o pires. O mestre continuou a despejar, o pires também se encheu e o chá começou a cair no chão. O aluno, vendo a sujeira aumentando, gritou:

– Pare, pare, não há mais lugar na xícara para o chá!

O mestre, aproveitando para censurar algumas atitudes na vida do discípulo, disse:

– Pois é, da mesma forma, quando você está cheio de interesses próprios, não há lugar em sua vida para mais nada e não poderá aprender sobre os caminhos de Deus até que se esvazie de si mesmo.

– Mas, até que ponto estou ocupando meu tempo com coisas fúteis deste mundo?

– Deus tem encontrado espaço em seu coração ou ele já está completamente preenchido com vaidades e interesses pessoais? Como o Senhor poderá entrar em sua vida para conduzir-lhe às veredas da felicidade se não lhe abre a porta? Como esperar as bênçãos de Deus se Ele está trancado do lado de fora?

O jovem seguiu preocupado para casa. No dia seguinte, voltou a procurar o mestre para conversar:

– Estive pensando e conclui que, realmente, quando estamos cheios de nós mesmos não existe lugar para Deus entrar. Quando nos esvaziamos de todo egoísmo e vaidade, não só permitimos a presença do nosso Salvador como deixamos que Ele organize toda a nossa vida, tornando-a plena de alegrias e vitórias. Mas, como foi que o senhor aprendeu isso, mestre? Alguém lhe ensinou?

– Sim, a vida me ensinou. Quando meu filho tinha seis anos, eu o levava ao parque para brincar. Enquanto se divertia, eu ficava olhando o relógio para não me atrasar nos compromissos que tinha naquele dia. E quando o chamava e ele me pedia mais cinco minutos de espera, eu nunca lhe concedi.

– Não entendo; o que isso tem a ver com a presença de Deus em nosso coração? – perguntou o aluno.

– Tem, sim, meu jovem. Hoje meu filho já se foi e eu morro de saudades dele. Queria tê-lo ao meu lado, pedindo mais cinco minutos do meu tempo. Eu esvaziaria o meu coração de coisas vãs para preenchê-lo com carinho e amor. Nada nessa vida se consegue sem amor no coração.

As palavras do mestre surpreenderam o discípulo. Ele não sabia que aquele homem tão bom havia aprendido uma importante lição convivendo com o filho. Por um instante, o aluno imaginou o arrependimento que o professor tinha dentro de si, e resolveu animá-lo:

– Mestre, Deus já lhe perdoou e um dia o senhor vai se encontrar com seu garoto de novo. Quantos cinco minutos eu já lhe pedi e o senhor nunca me negou! Hoje, seu coração está transbordando de amor.

E assim termina mais esta história que adaptei para este artigo. A narração tem tudo a ver com a passagem bíblica: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo”. Este ensinamento de Jesus precisa ser revisto todos os dias até o aprendermos de verdade.

Nos últimos anos, eu não me lembro ter negado cinco minutos do meu tempo a alguém. E ‘cinco minutos’ pode ser apenas um instante ou algumas horas, dependendo do caso. Se estou trabalhando, atendo de imediato quem me procura; se estou em casa e o telefone toca, procuro saber o que precisam que eu faça; e se me encontro em viagem, o celular fica sempre ligado e dou retorno quando não posso atender.

Às vezes, tudo isso ainda é insignificante para quem precisa de ajuda, mas já é um começo. Se Deus me concede saúde, fé no coração e paz na família, tenho o dever cristão de disponibilizar amor ao próximo a cada dia. E aprendi que trabalhar numa só pastoral da Igreja é pouco para isso, então, atuo em mais movimentos para amar e ser mais amado.

Também pelo envolvimento com as coisas de Deus é que eu admiro a conduta de um sacerdote – renunciando muitos bens materiais para preencher a vida com alimentos espirituais. Se não fosse por eles, estaríamos perdidos neste mundo de injustiças sociais tão graves.

Portanto, por sermos cristãos e sabermos que a misericórdia de Deus é infinita, não devemos pautar nossa vida em arrependimentos ou falta de tempo. Podemos, com certeza, encher o coração de esperança e olhar para frente, seguindo o caminho que nos levará ao Céu. Retirando do peito o que nos faz sofrer, as oportunidades de ouvirmos os chamados do alto para a caridade serão maiores.

 

 

 

 

PAULO ROBERTO LABEGALINI - Escritor católico, Professor Doutor da Universidade Federal de Itajubá-MG. Pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária da UNIFEI.

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 14:41
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HUMBERTO PINHO DA SILVA - UMA ANEDOTA VERDADEIRA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Queixava-se, esta tarde, na cafetaria onde costumo merendar, meu amigo Silvério, que já não há gente honesta.

Para confirmar a asserção, ilustrou com o que lhe aconteceu há dias:

Comprara, há anos, apartamento à beira-mar, para férias.

Nessa época, toda a família passava o mês de Agosto, na praia.

Iam de automóvel, que colocava no aparcamento, que comprara.

As crianças esperavam ansiosas a época balnear. Divertiam-se imenso. Por vezes convidavam amiguinhos. A alegria transbordava.

O tempo passou. As crianças cresceram. Chegava Agosto e esquivavam-se: tinham que estudar; havia compromissos inadiáveis; que mais tarde iam com amigos…

Silvério envelheceu. Os filhos casaram. A mulher começou a sofrer de reumatismo…Meu companheiro de menininho foi deixando o carro esquecido na garagem.

Deslocavam-se de comboio. Ficava mais económico. O peso dos anos já não lhe permitia percorrer longas distâncias.

O aparcamento ficou vazio.

Como era ponto estratégico, começou a ser cobiçado por “ aventureiros”, que viram meio de usufruírem aparcamento gratuito.

Certa vez, o filho mais velho foi passar uma semana, na praia. Chegou e estacionou o carro.

Pela manhã encontrou bilhetinho:

 

Por favor, retire a viatura.

Este lugar é meu.

 

Desgostoso, Silvério, resolveu alugar o espaço. Colocou no quadro do condomínio, aviso.

Decorrido semanas toca o telemóvel. Era senhora a solicitar autorização para colocar o carro, enquanto não alugasse o espaço. Tinha dois carros e só possuía um aparcamento.

Estupefacto, declarou que o espaço era para arrendar, como certamente sabia, pelo anúncio.

Meses depois, o filho foi com a esposa passar fim-de-semana à casa de praia. Chegou ao entardecer. Estacionou o carro no aparcamento.

Pela manhã, do dia imediato, encontro, na viatura, o seguinte aviso:

 

Retire o carro deste lugar,

  Ou terei que chamar a polícia.

 

Parece anedota, mas infelizmente não é.

Assim vai o mundo… e a educação da nossa gente.

 

 

 

 

HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal



publicado por Luso-brasileiro às 14:32
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EUCLIDES CAVACO - MENSAGEIRA DO FADO
 
 
 
 
 
 
 
 
MENSAGEIRA DO FADO
 

É o poema feito fado , interpretado por Mena Leando com o qual saúdo esta
semana os meus amigos, ouvintes e leitores com um abraço de portugalidade.
Ouça e veja este tema  aqui neste link:


http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Mensageira_do_Fado/index.htm
 
 
 
 
EUCLIDES CAVACO - Director da Rádio Voz da Amizade , Canadá.
cavaco@sympatico.ca
 
 
***
 
 
 

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CONVITE

Ficaremos imensamente felizes com sua presença na Missa em Ação de Graças pelos 32 anos da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena e 19 anos da Associação Maria de Magdala da Diocese de Jundiaí – SP.

A Missa será celebrada por nosso Assessor Espiritual, o Reverendíssimo Padre José Brombal.

Data: 19 de novembro (4ª. feira).

Horário: 17h00.

Local: Capela do Carmelo São José (Av. Dom Pedro I, 531 (Anhangabaú).



publicado por Luso-brasileiro às 14:09
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Quarta-feira, 12 de Novembro de 2014
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - QUEM ACABOU COM O NOSSO PAU-BRASIL ?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Contrariamente ao que muita gente pensa, não foram os portugueses que praticamente extinguiram o pau-brasil da nossa mata atlântica. Nem foram eles que praticamente extinguiram essa mata. Os portugueses sempre tiveram uma preocupação preservacionista muito grande, com relação à natureza do Brasil. Foram, nessa matéria, verdadeiros precursores do moderno ambientalismo, numa época em que ninguém, absolutamente ninguém, tinha essa preocupação.

Os franceses levavam o pau-brasil, pagavam aos índios no sistema clássico dos espelhinhos e lantejoulas e voltavam para sua terra sem maiores preocupações ou escrúpulos de consciência.

Os portugueses, entretanto, agiam de forma bem diversa. Transcrevo trecho muito elucidativo a respeito, de artigo publicado no jornal “O Estado de S. Paulo” de 17-1-2007, pelo Prof. Evaristo Eduardo de Miranda, doutor em Ecologia e chefe geral da Embrapa Monitoramento por Satélite:

“Na maioria dos países, a defesa da natureza é fenômeno recente. No Brasil, vem de longa data. Desde o Século XVI, as Ordenações Manuelinas e Filipinas estabeleceram regras e limites para exploração de terras, águas e vegetação. Havia listas de árvores reais, protegidas por lei, o que deu origem à expressão madeira-de-lei. O Regimento do Pau Brasil, de 1600, estabeleceu o direito de uso sobre as árvores e não sobre as terras. As áreas consideradas reservas florestais da Coroa, não podiam ser destinadas à agricultura. Essa legislação garantiu a manutenção e a exploração sustentável das florestas de pau-brasil até 1875, quando entrou no mercado a anilina. Ao contrário do que muitos pensam e propagam, a exploração racional do pau-brasil manteve boa parte da Mata Atlântica até o final do Século XIX e não foi a causa do seu desmatamento, fato bem posterior”.

Numa conferência a que assisti, no Rio de Janeiro, o Prof. Miranda esclareceu que, quando o pau-brasil deixou de ser explorado, em 1875, com certeza havia mais árvores de pau-brasil em nosso território do que em 1500, porque se plantara mais do que se abatera.

Sei que essa idéia surpreende, porque vai na contra-mão do que todos imaginam e repetem, mas essa é a realidade.

No mesmo estudo, Miranda aponta outros documentos legais portugueses que revelam a preocupação ambiental. Em 1760, por exemplo, um alvará do rei D. José I procurou proteger os manguezais. Ainda no século XVIII, em 1797, várias cartas-régias do Príncipe Regente D. João (depois, rei D. João VI) consolidaram leis ambientais referentes às matas da costa. Foram, ainda, instituídos os Juízes Conservadores, encarregados de julgar e aplicar as penas em casos de atentados à vegetação. Eram severas as penas aplicadas aos infratores: multa, prisão, degredo e até, em caso de incêndios dolosos de florestas, pena de morte. Foi, ainda, promulgado um Regimento de Cortes de Madeira. No Império, a monarquia brasileira manteve essa mesma política preservacionista, conforme documenta Miranda em seu artigo, sustentando documentadamente que a política florestal adotada pelos Reis de Portugal e pelos Imperadores do Brasil conseguiu preservar a cobertura vegetal brasileira até à proclamação da República. Foi já no atual regime, mais precisamente ao longo do século XX, que se deu o triste fenômeno do desmatamento.

Vejo, com pasmo, a desinibição com que norte-americanos e europeus falam da nossa Amazônia como “patrimônio mundial”... Logo eles, que devastaram suas próprias florestas enquanto nós preservávamos muito das nossas! A esse respeito, passo novamente a palavra ao Prof. Miranda:

“Há 8 mil anos o Brasil possuía 9,8% das florestas mundiais. Hoje, o país detém 28,3%. Dos 64 milhões de km2 de florestas existentes antes da expansão demográfica e tecnológica dos humanos, restam menos de 15,5 milhões, cerca de 24%. Mais de 75% das florestas primárias já desapareceram. Com exceção de parte das Américas, todos continentes desmataram, e muito, segundo estudo da Embrapa Monitoramento por Satélite sobre a evolução das florestas mundiais. A Europa, sem a Rússia, detinha mais de 7% das florestas do planeta e hoje tem apenas 0,1%. A África possuía quase 11% e agora tem 3,4%. A Ásia já deteve quase um quarto das florestas mundiais (23,6%), agora possui 5,5% e segue desmatando. No sentido inverso, a América do Sul que detinha 18,2% das florestas, agora detém 41,4% e o grande responsável por esses remanescentes, cuja representatividade cresce ano a ano, é o Brasil”.

Assim sendo, apesar da devastação que nós próprios fizemos ao longo do século XX, o Brasil ainda pode ser considerado um bom exemplo mundial em matéria de preservação. Justamente o Brasil, agora tão acusado pelos verdadeiros campeões do desmatamento!

Quis recolher aqui essas informações porque são pouco divulgadas e têm o maior interesse. Recomendo vivamente que se leia na íntegra o próprio texto de Miranda, muito atual, aliás, neste momento em que nossa Amazônia é cobiçada por estrangeiros.

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS  – Jornalista profissional, historiador e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.



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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - ALTERNATIVAS E ESPERANÇA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Preocupa-me a menina de quase dez anos, que decompõe os vínculos. Abraça sem se entregar à meiguice do instante e desacredita na ternura.

Seus olhos amendoados, embora brilhem como os de outras crianças sofridas, parecem-me transbordar impossibilidades. Não caminham para outras paisagens. São olhos que se detiveram, talvez por questões pessoais estéreis sufocarem as que florescem.

Existe nela um oco com eco. O eco suplica por coisas. Pede para levar com ela uma peça de dominó, um sapatinho de boneca, um copo descartável... Caso lhe perguntem o que fará com aquilo, emudece. Penso que seja para acalmar o grito do vazio que não sabe tratar. É um mecanismo de compensação por se sentir descartável. Pertences distanciam dos anseios mais profundos do ser humano. Qual o caminho para ajudá-la a desenvolver, apesar de pequenina, a lucidez e conseguir compor amarras bonitas? Quais os riscos de seu emocional machucado produzir danos no cérebro?

A menina já se deparou com muitos desajustes de adultos que a cercam. Pisam há anos em sua infância, porque também pisotearam na deles, habitantes das margens. A partir disso, prosseguem dobrados entre a tristeza e a euforia. Recordo-me de uma frase de Clarice Lispector no livro “A paixão segundo G.H.”, citada em “As Palavras”, com curadoria de Roberto Corrêa dos Santos – Editora Rocco -: “Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem querer precisar me procurar”. Concluo que a muitos carece essa “terceira perna” de gente que cuida, revigora e ajuda na tomada de passos do coração. No momento, incontáveis vezes, é ela que estabelece o papel de maternagem com os irmãos menores.

Amedronta-me a possibilidade de sabê-la um dia nos cárceres. Inúmeras detentas, que me contam a sua história, enfatizam os desleixos nos primeiros anos. Se o eco de seu oco sem sementes perdurar, poderá tentar calá-lo em corpos sem alma e comunhão de amor, nas drogas, nos diversos tipos de violência...

Por hora, no entanto, está por perto. É preciso, na esperança, manter a chance de buscar onde mora a claridade, em seu interior, com o intuito de ajudá-la a trazer luz aos seus caminhos.

 

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.



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Terça-feira, 11 de Novembro de 2014
JOÃO CARLOS MARTINELLI - INTELERÂNCIA RELIGIOSA CAUSA PERSEGUIÇÕES

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Dia Internacional para a Tolerância foi instituído pela Organização das Nações Unidas como sendo dezesseis de novembro de cada ano, em reconhecimento à Declaração de Paris, assinada no dia 12 deste mês, em 1995, tendo 185 países como signatários e que criou a UNESCO. Nesta ocasião, os estados participantes reafirmaram a "fé nos Direitos Humanos fundamentais" e ainda na dignidade e valor da pessoa humana, além de poupar sucessivas gerações das guerras por questões culturais, para tanto devendo ser incentivada a prática da tolerância para convivência pacífica entre os povos vizinhos. Relembraram, ainda, preceitos da Declaração dos Direitos Humanos, entre os quais: 1.Todas as pessoas têm direito à liberdade de pensamento, consciência e religião (artigo 18); 2. Todos têm direito à liberdade de opinião e expressão (artigo 19) e 3. A educação deve promover a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações, grupos raciais e religiosos (artigo 26).

Efetivamente, o debate em torno da tolerância relacionada aos comportamentos traz questões relevantes e atuais. Nesta época de desafios é preciso refletir e pensar o passado, chamando atenção para os grandes erros que a nossa história, seja pessoal ou coletiva, produziu. Um desses equívocos parece que veio para ficar, o que quer dizer que se fixou como base de boa parte de nossa conduta. Trata-se da nossa incapacidade de conviver com o diferente e as formas encontradas para solucionar os problemas de convívio social onde o que menos importa parece ser o diálogo, a comunicação direta e honesta, sem truques, golpes, violências, onde o respeito pela vida do outro e sua forma específica de manifestação e expressão, fosse considerado.

Sabemos que a lista de tipos sociais que são alvos de discriminação e exclusão que nossa sociedade construiu é grande. Mas, por outro lado, também reconhecemos já estar ficando cada vez mais difícil exterminarmos simbólica ou fisicamente algumas formas de expressão da vida em função de conquistas históricas importantes: é o caso das mulheres, homossexuais, pobres, índios, negros, portadores do HIV, crianças, do pessoal da melhor idade entre tantos outros. No entanto, um novo quadro surge na atualidade: a intolerância religiosa que se tornou uma das principais causas de perseguições das minorias no mundo, segundo informações da organização não governamental Minority Right Groups International(MRG).

Segundo a ONG, o aumento do nacionalismo religioso, a marginalização econômica e os abusos derivados das leis antiterroristas estabeleceram uma pauta crescente nesta área, fazendo frente regularmente a ataques, detenções, torturas e restrições de suas liberdades fundamentais em todos os continentes. “A intolerância religiosa é o novo racismo”, declarou Mark Lattimer, diretor da MGR. “Muitas comunidades que enfrentaram discriminações raciais durante décadas são agora perseguidas por causa de sua religião”, acrescentou.

            O relatório sobre o “Estado das Minorias e Povos Indígenas no Mundo 2010” destaca que os muçulmanos nos Estados Unidos e na Europa são os grupos que mais sofreram com o aumento dos controles estatais e as campanhas celebradas por grupos de direita ou de extrema direita. Outro problema são as leis que, em número cada vez maior de países, obrigam os cidadãos a registrar sua religião. No Egito, por exemplo, o governo exige que todos os documentos de identidade tragam a afiliação religiosa do portador, mas só oferecem como alternativa as três reconhecidas oficialmente: muçulmana, cristã e judaica. O informe destaca que desde 2001 vários países, entre eles Bielorrússia, Sérvia e Uzbequistão, para citar apenas alguns, introduziram ou emendaram leis de registro religioso, o que para Lattimer representa uma forma de os Estados “vigiarem e controlarem as comunidades religiosas”.

Atualmente, há o avanço do Estado Islâmico que comete até atrocidades em função de conquistar espaços geográficos. Tratam-se de situações de manifesto retrocesso que precisam ser extintas em respeito aos princípios naturais de Direito. A opção religiosa das pessoas deve ser mais do que nunca garantida em pleno século XXI. Invoquemos o saudoso Papa João Paulo II, que por ocasião do dia mundial da paz de 1999, que assim se expressou: - "A liberdade religiosa constitui o coração dos direitos humanos. Essa é de tal maneira inviolável que exige que se reconheça às pessoas a liberdade de mudar de religião se assim sua consciência demandar. Cada qual, de fato, é obrigado a seguir sua consciência em todas as circunstâncias e não pode ser constrangido a agir em contraste com ela. Devido a esse direito inalienável, ninguém pode ser obrigado a aceitar pela força uma determinada religião, quaisquer que sejam as circunstâncias ou as motivações".

 

 

 

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, jornalista, escritor e professor universitário (martinelliadv@hotmail.com)



publicado por Luso-brasileiro às 18:51
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CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - MEUS TIPOS INESQUECIVEIS - PARTE 2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

            Semana passada comecei a escrever sobre as pessoas que, pelas mais diversas razões, marcaram minha vida, sendo meus tipos inesquecíveis. Todos eles, de algum modo, deixaram em mim impressões indeléveis, as quais levarei comigo enquanto me for dado andar nesse mundo.

            Assim, hoje, enquanto pensava no texto a ser escrito, ocorreu-me a lembrança da Dona Rita. Quando minha família se mudou para a pequena cidade de Clementina, no interior do Estado, houve uma dificuldade para acharmos uma casa para morarmos e, em função disso, meus pais acabaram comprando uma pequena chácara.

            Em frente a nossa casa, havia uma pequena casa, de madeira, bem castigada pelas intempéries, na qual nem energia elétrica chegava. Lá morava Dona Rita. Era uma senhora negra, já idosa, baixinha e gordinha, que era cega de um dos olhos. Solteira, não tinha filhos e, ao que me consta da lembrança hoje, deveria ter apenas uma irmã ou parente mais distantes.

            Logo que nos mudamos, nossa família se aproximou dela, que era a simpatia em pessoa. Ela era também benzedeira e sempre que possível, nós, as crianças, íamos até ela receber umas orações que ela fazia, falando baixinho e sacudindo uns raminhos em frente ao nosso rosto.

            Eu, particularmente, gostava de ir até a casa dela que, dentro, era ainda mais simples do que por fora. Tinha um cheiro todo peculiar, mas por mais que eu seja capaz de senti-lo agora, não consigo descrevê-lo com precisão. Era uma espécie de mistura de madeira, folhas recém arrancadas e especiarias. E aquele cheiro me enfeitiçava, pois me remetia a uma ideia de algo sobrenatural, fora daquele tempo e espaço.

            À noite, Dona Rita se valia de uma lamparina e, da nossa casa com energia elétrica, eu ficava admirando a pequena centelha de luz que vinha de lá, pensando em como deveria ser estar sozinha, no escuro, no meio do mato. Importante ressaltar que ela estava sempre bem-humorada, como se o fardo da vida, a despeito de tudo, fosse o justo, ou o possível talvez. Dos meus olhos de criança, assim parecia-me, ao menos, pois eu não via nela a amargura que já sabia encontrar em outras pessoas muito mais afortunadas.

            O que mais me levava até lá eram as histórias da Dona Rita. Ela jurava que havia visto um lobisomem quando ela era criança. Isso, para mim, já a tornava uma celebridade! Eu achava o máximo conhecer alguém que jurava ter visto um ser desses. Perdi as contas de quantas vezes pedi para que ela repetisse a história, em detalhes.

            A Dona Rita acabou se mudando de lá e mesmo nós, tempos depois, também o fizemos. Creio que ainda soube dela por mais alguns anos e creio que ela já deve ter partido desse mundo. Nas minhas lembranças, contudo, ela continua viva e eu, por causa dela, ainda penso que é possível topar com um lobisomem por aí. Dona Rita, sem dúvida, é mais um dos meus tipos inesquecíveis...

 

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.



publicado por Luso-brasileiro às 18:47
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