PAZ - Blogue luso-brasileiro
Domingo, 19 de Julho de 2015
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - ÁGUA COM VIDA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma amiga me fez portadora de um lindo macacão quentinho de azul intenso para um bebê que está chegando, filho da periferia. Deus juntou a necessidade da mãe, que não possui roupas de frio para a criança, com a percepção de minha amiga. A irmã, de sete anos, quis registrar o fato em bilhete de agradecimento. Escreveu assim: “A minha mãe adorou a roupa do meu irmãozinho. Quando ela colocou em cima da barriga, o nenê fez uma onda enorme, que você nem imagina”.

Comove-me o entendimento da moça sobre a importância de respeitar aquele que no momento cresce em suas entranhas e de acarinhá-lo, até mesmo com os presentes que recebe. Seus recursos financeiros são reduzidos, contudo se empenha para que os filhos se desenvolvam com dignidade.

Recordei-me de movimentos que marcham em favor da legalização do aborto provocado. Justificam que a criminalização não impede que as pessoas continuem abortando e comprometendo sua saúde, no caso as mulheres pobres, que o realizam em clínicas sem estrutura, diferentemente das que têm condições financeiras. Dentre eles se encontra a chamada “Marcha das Vadias”, que pede a realização do aborto pelo Sistema Único de Saúde -SUS- , como oportunidade para os que desejarem remover o filho de seu ventre.

Argumento algum me convence que possa ser um direito da mulher e do homem provocar um aborto, pois aquele que ocupa o útero é outro ser, um indivíduo distinto. Caso não possa ou não deseje criá-lo, há filas para adoção. Considero incoerência interceder pelos direitos de menores fragilizados por sua história e ser adepto de destruir um pequenino que ainda não tem possibilidade alguma de se defender. Repito: a mulher e o homem, pois quem fecunda um óvulo é tão responsável quanto quem o agasalha com sua placenta. Li um comentário, não me recordo onde, sobre o direito da mulher em extirpar o seu útero e do homem as suas glândulas sexuais, mas uma pessoinha em desenvolvimento de modo algum.

Voltando ao bebê que pela ternura fez uma “onda enorme”, em relato emocionado da menina: navega em água com vida, onde paira o Espírito de Deus. O líquido amniótico lhe fala da viagem próxima para os braços maternos. Indica um porto seguro em que gente miúda é reverenciada.

Que pena existir bolsa amniótica que interrompe de propósito o velejar para a luz e vaza água de pântano!

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:50
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ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - DOIS BELÌSSIMOS GUIAS TURÌSTICOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sou, por inveterado hábito, crítico implacável dos guias turísticos, que costumam ser superficiais e, com frequência, transmitem informações errôneas e contribuem para a perpetuação de erros históricos elementares.

Essa minha crítica se refere, sobretudo, às pessoas que servem de guia em locais históricos, mas se entende também aos guias turísticos impressos, sejam eles livros, sejam opúsculos ou simples folhetos.

Quanta bobagem não ouvi, por exemplo, dos guias turísticos que, nas cidades históricas de Minas Gerais, apresentam aos visitantes as maravilhas da arte barroca mineira! Lembro de um, na cidade de Tiradentes (antiga São José d´El Rei) que afirmava, com ares professorais, que algumas igrejas eram construídas com apenas uma torre para pagarem menos impostos à Coroa portuguesa que explorava o Brasil! Outro, numa igreja de São João d´El Rei, fazia uma confusão infernal na identificação dos santos, sem o menor conhecimento dos atributos que tradicionalmente a imagética conferia a cada um deles. Assim, a imagem de um santo com tiara e báculo pontifício, que era obviamente São Pedro, “virava” São Paulo, ou São Bento. Um santo com hábito franciscano, com o cordão e os três nós, “virava” São Bento ou São Bernardo. Qualquer santo negro imediatamente era identificado como sendo São Benedito, embora o hábito branco, dominicano, indicasse tratar-se, sem a menor sombra de dúvida, de São Martinho de Porres. E assim por diante...

Infelizmente, fazem falta no Brasil guias turísticos como existem em muitos locais da Europa, precisos e profundos, com formação superior, verdadeiros especialistas na matéria que expõem, capazes de interessar o grande público visitante, mas capazes, também, de conversar de igual para igual com visitantes que já conhecem em profundidade o assunto que está sendo mostrado.

No que diz respeito a guias turísticos impressos, também estendo a eles minha prevenção. Neles, de um modo geral, se encontram menos erros históricos do que nas exposições orais dos cicerones, mas o que os caracteriza é, via de regra, a superficialidade.

Sendo tão preconceituoso – no sentido etimológico do termo – em relação ao gênero, foi com agradável surpresa que tomei conhecimento de dois belíssimos guias turísticos que recebi de Portugal, como presente do Dr. António Carlos de Azeredo, velho e querido amigo e companheiro de lutas desde os remotos tempos de nossa mocidade.

Possui ele uma editora especializada em guias turísticos de alto nível, a Caminhos Romanos. Os livros que publica, ele próprio os escreve, depois de pesquisa exaustiva e feita com acurado senso crítico, e ele próprio os ilustra e edita, com apurado senso artístico. Sua formação é jurídica, mas ele é profundo conhecedor da história de Portugal e pertence a uma família em que são numerosos os arquitetos, especializados em monumentos históricos de Portugal. Isso o aparelha a produzir livros turísticos excelentes, da mais alta utilidade para quem visite Portugal. Tanto o turista comum, sem conhecimentos especializados, como o mais exigente e crítico, todos podem ler com gosto e proveito seus magníficos guias.

Ele me enviou dois, o primeiro dos quais tem como título “Braga”. Nele é exposta a história, as origens, as tradições da cidade nortenha que, pelo grande número de igrejas, se tornou conhecida como “Roma Portuguesa”. Desde os tempos da velha Bracara Augusta dos romanos até os atuais, passando pelo período páleo-cristão, pelos tempos dos Suevos, dos Visigodos, da invasão maometana, da Reconquista medieval e, mais recentemente, pelos quase nove séculos de Portugal independente. Depois dessa visão de conjunto inicial da cidade, vêm expostos, em capítulos curtos, densos e bem escritos, os principais atrativos que, hoje em dia, ela tem para os turistas: igrejas, palácios, solares abertos à visitação, bibliotecas, museus etc. Especial destaque merecem as duas célebres igrejas de Braga, o Santuário do Bom Jesus do Monte, com sua lindíssima escadaria, verdadeira joia arquitetônica, e a Basílica do Sameiro, consagrada a Nossa Senhora da Conceição no século XIX, para celebrar a proclamação do dogma da Imaculada Conceição pelo Papa Beato Pio IX.

O segundo livro, intitulado “Coimbra, cidade do conhecimento”, segue o mesmo esquema do anterior, aplicado à cidade universitária por excelência de Portugal, situada junto ao rio Mondego. Durante séculos foi Coimbra sede da única universidade oficial, em todo o Reino de Portugal e seus domínios – o que não significava, aliás, que não houvesse em muitos outros lugares estudos de nível superior. Lembre-se, a propósito, que o Pe. Antônio Vieira, um dos maiores intelectuais de toda a Europa, no século XVII, realizou todos os seus estudos no Colégio da Bahia. Não ficava atrás o Colégio de Goa, igualmente reputado como formador de intelectuais de altíssimo nível.

De Coimbra, o livro de António Carlos de Azeredo evoca a história, destacando o papel eminente que teve na afirmação da independência lusa no século XII, quando foi escolhida pelo primeiro Rei, D. Afonso Henriques, para sua capital. Mostra em detalhes o gótico Mosteiro de Santa Cruz, onde quis ser sepultado o monarca; as duas catedrais da cidade, a Sé Velha e a Sé Nova; estende-se na exposição da Universidade, na lindíssima Biblioteca Joanina, na Sala dos Capelos, na Capela universitária etc. Passa, depois, para numerosos pontos de atração que a cidade oferece aos turistas. Entre muitos outros, a Quinta das Lágrimas, onde foi morta Inês de Castro, a amada do Príncipe D. Pedro, que depois foi o rei D. Pedro, chamado o Cruel pela vingança que tomou dos matadores da “linda Inês”, “que depois de morta foi Rainha”, como cantou Camões.

Esses esplêndidos guias, profusamente ilustrados, um brasileiro que visite Portugal não pode deixar de conhecer. Mesmo que não possa, de momento, deslocar-se até lá, a leitura deles vale por uma viagem. Podem ser comprados pelo e-mail caminhosromanos@gmail.com Garanto que vale a pena.

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:47
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VALDEREZ DE MELLO - VOVÓ E VOVÔ: ANJOS NA TERRA!

 

 

 

 

 

 

 

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Um toque de carinho nasce das mãos pintalgadas, olhares de meiguice abrolham do semblante sereno e amoroso, sorrisos sem enfeites de falsidade, surgem a cada momento: São os avós, anjos na Terra! Felizes das crianças que se aconchegam no colo macio e sempre pronto para o abraço! Felizes das famílias que podem se dar ao luxo de ter a presença dos idosos em seus lares! Uma casa onde logo de manhã exala o perfume do feijão a cozinhar, onde vasos de plantas enfeitam o ambiente, onde o cheiro do bolo de baunilha percorre sala e cozinha e sorrisos de carinho rodopiam pelos ares, certamente tem a presença dos avós a registrar a paz e união familiar. Na casa onde uma vovó caminha suave com seus chinelinhos de lã sempre atarefada a procura de afazeres para agradar a família é um lar abençoado! Os avós sempre estão a espera do abraço de quem chega cansado, não um abraço frio e sem calor, mas um abraço recheado de amor! Quando uma criança retorna ao lar e corre para os braços do vovô ou da vovó, recebe o maior e mais nutritivo alimento da vida: o acolhimento enfeitado de carinho!

Quem não se recorda da comida deliciosa preparada pela vovó? O manjar de coco, o pudim de queijo, a macarronada domingueira e o aroma do pão assando a perfumar manhãs inesquecíveis? Quem consegue esquecer as histórias contadas com alegria antes do beijo de boa noite? Quem não guarda a imagem do rosto delicado emoldurado pelos cabelos alvos em dias de natal, quando mãos trêmulas entregavam mimoso pacote com a lembrança preparada com carinho: um cachecol, um gorrinho de lã, ou uma delicada toalha de crochê? Quantos adultos conservam em suas gavetas, uma recordação da vovó, tal e qual tesouro maior da existência! Respeitar os idosos é construir o coração da infância, é o maior e mais grandioso gesto de demonstração do verdadeiro amor, pois a família que cuida de seus idosos, dá exemplo de fraternidade, reconhecimento e valorização da vida. Quando se educa através de exemplos, a palavra é de somenos importância! O silêncio é a voz da consciência, heráldica expressão de sentimentos humanos. É no silêncio do abraço que transmitimos a solidariedade e tal oração feita na solidão, quando podemos ouvir a voz de Deus, é o amor ao próximo: surge no silêncio da troca de olhares! Amparar os idosos é salvar a infância! Se os avós convivessem com os netos, a infância seria mais feliz, os jovens não seriam meros filhos das creches e certamente a violência pereceria! Vamos cuidar dos nossos idosos, antes que surja na mesa do almoço uma cadeira vazia?

 

 

 

VALDEREZ DE MELLO,é Advogada,Professora, Pedagoga e Psicopedagoga. Autora dos livros infantis: O Besourinho Edgard; O Grilinho Zebedeu; Sabidal, o Pardal Cantor; Kiko, o anjinho sem asas; Renata, a lagarta muito chata e Amarildo, o pulgão distraído!

 

(Vovó do Bruno e do Lucas)



publicado por Luso-brasileiro às 18:38
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LAURENTINO SABROSA - SABEDORIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                        Quem não sabe e sabe que não sabe, é humilde.  

                           Ensina-o.

                           Quem sabe e não sabe que sabe, está dormindo.

                           Acorda-o

                            Quem sabe e sabe que sabe, é um sábio.

                           Segue-o

                                                                               Provérbio árabe

 

Quem tomar muito à letra o provérbio, pode, ao menos por exclusão de partes, considerar que se situa na última categoria.

Porém, o que é a sabedoria? Como se adquire?

Querer ter sabedoria já é ter um pouco de sabedoria, mas é preciso subir mais alguns degraus para verdadeiramente se ter sabedoria. O único a ter Sabedoria em pleno, que é a própria Sabedoria, a fonte da Sabedoria, é Deus, e querer ter sabedoria é um tanto ousado por se querer aproximar muito de Deus. Mas se Deus nos disse “sede perfeitos como vosso Pai do Céu é perfeito”, então também nos convida a adquirir Sabedoria, porque será difícil lutar pela perfeição, se não houver sabedoria.

Ter sabedoria é procurar ser diligente e prudente para bem resolvermos os problemas da vida e bem lidarmos com as pessoas e com as coisas, para não nos termos de arrepender ou de nos censurar perante maus resultados; ter sabedoria é proceder segundo a consciência, depois de ter a sabedoria de a instruir e educar, para que ela não congemine teorias e opiniões subordinadas ao “politicamente correcto”, segundo o nosso lucro e conveniência, ou ao que é socialmente distinto, segundo a nossa vaidade ou prestígio.

A sabedoria é uma inteligência que dispensa memória, e é uma arte de viver que dispensa a facúndia de Calíope e o enciclopedismo de Latim e Filosofia ou de Física e Astronomia. A sabedoria nasce da Sabedoria e passa a ser a sua própria consequência, pelo que desde logo irriga a consciência de sãos princípios, a informa das virtudes e lhe concede um perfeito discernimento, para evitar o que lhe é contrário. Passa a ser ciência infusa, que promana da fonte divina, que concedeu a Salomão a grande e verdadeira Sabedoria, de que a nossa sabedoria, se a tivermos, deseja ter nem que seja uma pequena parte.

Ter sabedoria é saber mais do que a escola ensinou, é saber mais que Sócrates, que sabia apenas que nada sabia. Nestes tempos neotestamentários, para termos sabedoria é preciso saber e sentir que, perante quem concede a sabedoria, nada sabemos, nada valemos, nada podemos, nada merecemos. Desta sabedoria, nasce a sabedoria, que existe sem se sentir a si própria, de vivermos com fé, amor e alegria, aguardando serenamente a hora em que a morte de todos a todos e a Ele nos una.

 

 

 

LAURENTINO SABROSA - Senhora da Hora, Portugal

laurindo.barbosa@gmail.com



publicado por Luso-brasileiro às 18:30
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FELIPE AQUINO - ESTADO LAICO OU LAICISTA ?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fala-se hoje falsamente em nome da laicidade

 

 

Cristo ensinou “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, isto é, o Estado e a Igreja têm atividades diferentes e devem atuar conjuntamente para o bem do povo. O Estado é laico, quer dizer, não professa uma religião específica, mas deve incentivar o valor religioso, que faz parte da grandeza e da dignidade do homem.

Laicidade, corretamente entendida, significa que o Estado deve proteger amplamente a liberdade religiosa tanto em sua dimensão pessoal como social, e não impor, por meio de leis e decretos, nenhuma verdade especificamente religiosa ou filosófica, mas elaborar as leis com base nas verdades morais naturais. O fundamento do direito à liberdade religiosa se encontra na própria dignidade da pessoa humana.

Infelizmente, mesmo em países de profundas raízes cristãs, como a Espanha, este laicismo radical e anticristão é notado com clareza. Um Estado que tenta impedir a vivência religiosa do povo, especialmente o Cristianismo, com uma ação hostil ao fenômeno religioso e a tentativa de encerrá-lo unicamente na esfera privada.

Tenta-se, assim, eliminar os símbolos religiosos mais tradicionais do povo, como que lhe arrancando as raízes. Ora, retirar, por exemplo, o crucifixo de nossos locais públicos, equivale a eliminar a nossa tradição cristã ocidental. Esse sinal sagrado é para nós o que há de mais importante, significa o respeito ao ser humano, a defesa da justiça, da honra, da caridade, da bondade, da pureza, da verdade, do amor. Quem pode ser contra isso? Que filosofia pode ir contra isso?

Como disse um dos personagens de Dostoiévski, em “Irmãos Karamazóvi”: “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Se Deus não existe, então, eu sou deus; essa é a mentalidade laicista que se pretende impor mesmo aos cristãos, baseados numa falsa concepção de que Deus não existe e de que não se pode provar a existência d’Ele.

 

 

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O Vaticano já chamou de “cristianofobia” a aversão ao Cristianismo, tanto no Ocidente quanto no Oriente. Esta expressão foi introduzida pela primeira vez no ano 2003 em uma resolução do Terceiro Comitê da 58ª Assembléia Geral da ONU, e que compreende os atos de violência e perseguição, intolerância e discriminação contra os cristãos, ou uma educação errônea ou a desinformação sobre essa religião [Cristianismo]. Por isso, hoje, em muitos países, os cristãos são vítimas de preconceitos, estereótipos e intolerâncias.

É uma ideologia racionalista e estimulada por poderosas instituições internacionais, como se pode constatar em uma breve consulta na internet. Algumas “fundações” no exterior destinam muitos recursos para esse fim.

Enfim, o laicismo que hoje vemos é o do Estado que caminha para se tornar um Estado com religião oficial e não um Estado laico: um Estado totalitário ateu, que quer eliminar Deus e a religião e que investe fortemente contra a liberdade religiosa. Um Estado cujo deus é o individualismo, o hedonismo, o prazer material e a “liberdade” para aprovar tudo que desejar, sem restrições morais.

No bojo do laicismo encontramos o que o nosso Papa Bento XVI tem chamado de “ditadura do relativismo”, que surge como uma consequência da “ditadura do racionalismo” ateu e materialista, e que elimina a verdade. Ora, a eliminação da verdade coloca o homem nas mãos do mais forte, do útil, da imoralidade.

Fala-se hoje falsamente em nome da laicidade, mas se pratica o laicismo para bloquear a vida e a atividade, especialmente da Igreja Católica, em sua realidade profunda e positiva.

 

 

 

FELIPE AQUINO - Escritor católico. Prof. Doutor da Universidade de Lorena. Membro da Renovação Carismática Católica.

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:23
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PAULO R. LABEGALINI - O TAMANHO DA VERDADEIRA CARIDADE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dizia Jesus às multidões: “Quando vedes uma nuvem levantar-se do poente, dizeis logo: ‘Vem lá a chuva’; e assim sucede. E quando sopra o vento sul, dizeis: ‘Vai haver muito calor’; e assim acontece. Hipócritas, sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu; como é que não sabeis reconhecer o tempo presente? Por que não julgais por vós mesmos o que é justo?” (Lc 12).

A natureza realmente nos dá lições maravilhosas e nos permite espelhar nossas vidas em acontecimentos marcantes! Muitos animais se ajudam a cada dia, possibilitando a sobrevivência da espécie e a realização do objetivo almejado. Os gansos, por exemplo, retratam bem a união de um grupo a ser imitado pelos humanos.

Embora a internet já tenha divulgado isso exaustivamente, você saberia dizer por que os gansos, quando voam, estabelecem uma formação em ‘V’? Vou recordar em alguns motivos:

1. À medida que cada ave bate as asas, cria uma área de sustentação para a espécie seguinte. Voando em ‘V’, o grupo inteiro consegue resistir pelo menos 71% a mais do que se cada ganso voasse isoladamente.

2. Quando o ganso líder se cansa, ele vai para a parte de trás da formação enquanto um outro assume a frente. E os gansos da retaguarda grasnam para encorajar o da frente a manter o ritmo e a velocidade.

3. Quando por qualquer motivo um fica para trás, dois outros saem da formação e seguem-no para protegê-lo. Eles o acompanham até que suas condições melhorem e, então, os três reiniciam a jornada, juntando-se a alguma formação mais próxima – até encontrarem o grupo original.

Concluindo, um ganso sozinho possivelmente não chegaria ao destino sem a ajuda do grupo. Também Jesus ensinou isso aos discípulos: ajudem-se mutuamente; o considerado maior sempre sirva o menor; unam-se para realizar uma missão com sucesso; não caminhem sozinhos etc. Como Deus fez a natureza e também instruiu os discípulos, só há coerência nisso tudo, concorda?

O foco é a caridade – esse dom maior que recebemos no Batismo e que, às vezes, fica adormecido por algum tempo. Quem não demonstra que ama o irmão, acaba dando espaço ao egoísmo e cai em muitas tentações no cotidiano. É preciso, então, orar e agir segundo os ensinamentos de Jesus – que também estão presentes na natureza.

Mas, para facilitar a nossa busca, como todo bom ensinamento está contido nos Evangelhos, recordo as palavras de Jesus aos discípulos: “Esta pobre viúva deu mais do que todos os outros que ofereceram esmolas. Todos deram do que tinham de sobra, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu tudo aquilo que possuía para viver” (Mc 12,43-44). Ele se referiu às grandes ofertas feitas no templo pelos ricos, enquanto a viúva depositou apenas duas moedas no cofre.

Algumas pessoas sabem que a verdadeira caridade é aquela que brota do coração. Aliás, acho que todos sabem, mas poucos praticam. Um simples gesto de amor por parte de cada cidadão já seria o suficiente para alegrar e alimentar todo o planeta. Os ricos doariam dinheiro; os políticos zelariam pela justiça; os religiosos levariam a Palavra; os pobres retribuiriam com sorrisos; e os mansos de coração selariam a paz!

Não parece muito simples esta combinação? E é simples realmente! O problema é que muita gente não dá valor ao Reino de Deus e prefere prestar culto ao egoísmo e à ambição. Esses, de corações fechados à caridade, não entenderiam nem a mensagem desta história:

Dois irmãozinhos maltrapilhos iam pedindo um pouco de comida pelas casas da rua que beira um morro. Estavam famintos e ouviam por diversas vezes: ‘Aqui não há nada, moleque’. Por fim, uma senhora humilde disse-lhes: ‘Vou ver se tenho alguma coisa para vocês, coitadinhos!’. Como também era pobre, voltou com uma pequena latinha de leite.

Que festa! Ambos se sentaram na calçada e o menorzinho disse para o de dez anos: ‘Você é mais velho, tome primeiro’. Então, o maior levou a lata à boca e, fazendo gesto de beber, apertou fortemente os lábios para que não penetrasse uma só gota de leite. Depois, estendendo a lata, disse ao irmãozinho: ‘Pronto, agora é sua vez. Só um pouco, hein!’. E o irmãozinho, dando um grande gole, exclamou: ‘Que gostoso!’.

Isso se repetiu várias vezes, até que o menorzinho bebeu todo o leite sozinho. E o detalhe mais importante: o mais velho começou a cantar, a sambar, a jogar futebol com a lata de leite... de estômago vazio, mas com o coração trasbordante de alegria. Quem viu a cena aprendeu esta grande lição: ‘Aquele que dá é mais feliz do que aquele que recebe!’. E quem não viu e veio saber depois, será que também aprendeu alguma coisa?

Da mesma forma, muitos não seguem Jesus porque não viram de perto o sofrimento Dele por nós. Infelizmente, se não mudarem, nem O verão no Céu.

 

 

 

PAULO ROBERTO LABEGALINI - Escritor católico. Vicentino de Itajubá - Minas Gerais - Brasil. Professor doutor do Instituto Federal Sul de Minas - Pouso Alegre

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:17
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HUMBERTO PINHO DA SILVA - LIBERDADE DE OPINIÃO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Perguntava-me amigo: - Para que serve a liberdade de expressão, se vivemos numa sociedade em que a maioria apenas repete – sem pensar, – o que escuta e vê?

Imitam o que se usa, o que está na moda. Repetem a opinião dominante. Compram o que a publicidade sugere. Viajam para os mesmos destinos e frequentam os mesmos lugares.

Poucos são capazes de raciocinar. De terem pareceres próprios, baseados na observação cuidadosa de factos e comportamentos.

Pretendem ser politicamente corretos, para não parecerem retrógrados ou ignorantes. Seguem o que o líder do partido ou presidente do clube, recomenda. Leem os livros que lhe dizem ser bons ou que todos compram. Veem os filmes que a crítica ou amigos recomendam.

São comandados pela pequena elite pensante. Elite que controla a mass-media e impõe suas ideias.

A Internet, com blogues, sites, redes sociais, onde se publica o que se quer, é boa tribuna para expor ideias, – ainda que, na maioria das vezes, sejam lidos apenas por amigos e conhecidos… por vezes nem isso.

Em regra – infelizmente, – o que se encontra em sites e blogues, são assuntos pessoais ou ecos surdos do que se diz…

A maioria é massa amorfa. Rebanho, manada, que não se dá ao trabalho de pensar; já não digo: refletir.

Escreveu Fulton Sheen: quando  encontram homem de cabeça entre mãos, a meditar, perguntam-lhe -  se tem dores de cabeça.

Dizia-me então amigo – e com carradas de razão, – para que serve a liberdade, se apenas se repete, como papagaio palrador, o que se usa e o que está na moda. Amigo brasileiro, após haver lido e pesquisado episódios da História do seu País, disse-me desiludido:

“ Como andava enganado com as arolas que me ensinaram na escola! …”

E como lhe dissesse que o mesmo acontecia em Portugal, acrescentou:

- “ E eu que afirmava, a pés juntos, que os portugueses eram analfabetos, assim e assado… e afinal nem tudo era como nos contaram…Andávamos enganado!” ….

Os noticiários são ou podem ser manipulados: pelo governo, pelo capital, pelos partidos políticos, associações secretas…e até publicitários.

Certa vez “ La Croix”, jornal católico, recomendou que as crianças, que iam fazer a comunhão solene, não deviam ir vestidas como se fossem para desfile de moda.

Foi o bastante para costureiros parisienses, retirarem a habitual publicidade, como represália…O jornal teve enorme prejuízo, por ter dado o conselho…

Que o digam responsáveis por gazetas locais, o que lhes custa publicar certas notícias e opiniões…Perdem, quantas vezes, subsídios, anunciantes, e até assinantes. Raras vezes lucram em serem independentes e verticais.

 

 

 

HUMBERTO PINHO DA SILVA - Porto, Portugal



publicado por Luso-brasileiro às 18:09
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EUCLIDES CAVACO - O SOL NA MINHA MÃO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O SOL NA MINHA MÃO - Poema e voz de Euclides Cavaco.
Daqui ainda do Algarve, região onde o SOL parece estar mais perto, desejo partilhá-lo convosco neste poema declamado. Vejam e ouçam aqui:

 


http://www.euclidescavaco.com/…/O_Sol_na_Minha_Mao/index.htm

 

 

 

EUCLIDES CAVACO - Director da Rádio Voz da Amizade , Canadá.



publicado por Luso-brasileiro às 18:04
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Domingo, 12 de Julho de 2015
JOSÉ RENATO NALINI - LINCHAMENTO VIRTUAL

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A humanidade é cruel. Mas a crueldade pode se intensificar e ganhar requintes quando propagada pelas redes sociais. O mundo virtual desinibe, estimula o exercício da crítica e da ofensa. A ausência do alvo, uma pessoa física longe dos olhos do ofensor, faz com que este abuse. Exagere e perca o controle.

Os “linchamentos virtuais” passaram a ser um exercício comum nas redes. É o apedrejamento da antiguidade, a fogueira da Inquisição medieval. A avalanche de mensagens hostis na internet oprime, aterroriza e ocasiona o assassinato social.

Já me posicionei a favor da comunicação virtual, inclusive para propor que ela servisse à aferição imediata e sem custos da opinião da maioria. Pode ser um instrumento de implementação da Democracia direta. Substitui com vantagens a consulta formal, convencional, o exercício do sufrágio mediante comparecimento físico do eleitor ao local onde exteriorizará a sua opinião. Mas para o lado mau, a multidão já está a desempenhar o seu terrível poder.

A perseguição de algumas vítimas nas redes é desproporcional. Expõe a pessoa a um público de dimensões ignoradas, não observa o contraditório, que caracteriza o devido processo legal e, pior ainda, as informações são indestrutíveis.

A punição é praticamente eterna. Ultrapassa o prazo vitalício. Incentiva o chamado “viés de grupo”, ou seja, a tendência que se tem de temer ou odiar os que não enxergamos como semelhantes. É o fenômeno que Richard Sennet, autor de “Juntos”, chama de tribalização: um impulso natural, animalesco, de solidariedade em relação aos parecidos e agressão contra os diferentes.

Mas será que a internet nos torna mais rancorosos, mais maldosos e insensíveis? Não. Já somos assim. A internet não muda a nossa humanidade, não nos torna mais cruéis, mas permite que expressemos nosso ódio em maior escala. É o que afirma Nicholas Christakis, diretor do laboratório da natureza humana de Yale. Já a escritora Jennifer Jacquet, em seu livro “Is Shame Necessary?” (A vergonha é necessária?), enxerga um aspecto positivo: “A punição pela exposição pública age não apenas para desestimular um indivíduo a repetir comportamentos, mas para sinalizar à sociedade que uma conduta não é apropriada”. Quem sofre o linchamento moral pela internet já não consegue pensar da mesma maneira.

 

 

 

 

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

 

 

 

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 19:25
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JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI - DIA MUNDIAL DA LEI

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Normas justas para consolidar a ordem social

                      

 

 

 

 

 

Comemorou-se a 10 de julho, o DIA MUNDIAL DA LEI, que surgiu com a intenção de lembrar a importância do cumprimento do Direito, em 1965, quando muitas nações adotaram a ideia do então presidente dos Estados Unidos da América, Dwight D. Eisenhower, que, em 1958, instituiu o 1º de maio como Dia da Lei no país.  Do verbo latino ligare, que significa aquilo que liga, ou legere, que significa aquilo que se lê, a palavra lei significa, de acordo com o site Wikipedia uma norma ou conjunto de normas jurídicas criadas através dos processos próprios do ato normativo e estabelecidas pelas autoridades competentes para o efeito.

Trata-se também de uma ocasião para divulgar e valorizar a sua importância ao Direito e sua eficiência como instrumento regulador da ordem coletiva. Inspira-nos também momentos de grandes reflexões, pois vivemos num país onde os escândalos são tão freqüentes quanto à impunidade de quem os comete e onde deparamos com uma forte degenerescência moral. Esse quadro talvez persiste pelo fato de que pouco se trabalha a consciência humana, do qual dependem as transformações gerais. Com efeito, já se disse que as soluções dos problemas da humanidade precisam de normas justas, mas a sua força de atuação virá, sobretudo, da consciência das pessoas, verdadeiramente imbuídas de caráter e retidão.

Num regime democrático é louvável que indivíduos com interesses comuns se unam para pressionar pelo reconhecimento de seus anseios e, se possível, assegurá-los na legislação. No caso de demandas sociais, isso foi e continua sendo importante na luta pela diminuição das desigualdades sócio-econômicas. Nesta trilha, também só conseguiremos conceber uma nação coerente, com a efetiva participação de todos nos seus procedimentos estruturais. Tal noção corresponde ao estágio civilizatório das democracias “em que o poder das leis está acima das leis do Poder”.

            Concretamente, ao vivermos em coletividade devemos observar certas regras de conduta, de tal sorte que convivamos ordeira e pacificamente. O desrespeito às mesmas, impõe medidas punitivas que visam restabelecer a permanente busca do bem comum. Assim, emanado pelo Estado, com caráter de generalidade e de obrigatoriedade, o conjunto de leis constitui a base do Direito que é aplicado de acordo com suas disposições, reveladoras de fatos dimensionados pelos valores do momento em que são verificados e que impulsionam a ciência jurídica.

            Desta forma, enquanto determinados diplomas legais continuarem a beneficiar apenas algumas pessoas e os detentores dos Poderes não se decidirem em favor da vida, as contradições continuarão aflorando. As leis devem ser sociais e, em seu sentido mais amplo, são relações necessárias que derivam da natureza, das coisas e, nesta esteira, todos os seres têm suas leis; a divindade, o mundo material, os animais e evidentemente, os homens. Esta é a lição de MONTESQUIEU, no seu consagrado “Do Espírito das Leis”. No entanto, todas as manifestações repousam na premissa de que estas normas legais em seus mundos reflitam a consciência do justo; pois, reitere-se, justiça é instinto e sentimento; não pode ser concebida apenas como conceito.

 

 

                                              

 JOÂO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, escritor, jornalista e professor universitário. Presidente da Academia Jundiaiense de Letras (martinelliadv@hotmail.com).



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CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - FRÁGIL EQUILIBRIO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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            Sou uma pessoa de hábitos. Em geral, assim, gosto de comer, no dia a dia, nos lugares que já conheço, bem como costumo comprar produtos com os quais já tenha familiaridade. Na escolha dos caminhos, prefiro os já trilhados por mim e já testados. Gosto, igualmente, de acordar e manter uma mesma rotina, organizando-me nas tarefas diárias cujo tempo de execução já tenho tem mente. Isso não significa que não aprecie mudanças, mas prefiro aquelas que eu mesma escolho, encarando como desafios aquelas das quais não posso fugir.

            Perto do trabalho, assim, há anos venho almoçando nos mesmos lugares e já é comum que as pessoas conheçam até mesmo minhas preferências. Em um desses lugares, inclusive, sequer preciso pedir o suco. Basta que eu me sente e o pessoal que já me conhece logo o traz para a mesa, em um curioso acordo tácito. Semelhante situação se dá em outro desses lugares, no qual a própria dona estranha quando mudo muito o horário de almoço ou mesmo quando opto por não tomar meu suco gaseificado de sempre.

            Assim, dia desses, lá ia eu uma vez almoçar nesse lugar. É um restaurante muito pequeno, acanhado mesmo e simples. Trata-se daqueles lugares que ninguém entra sem que outra pessoa o tenha recomendado. Os proprietários, um casal de chineses, falam um português sofrido, mas trabalham de sol a sol e servem uma comida magnífica. Em porções generosas de comida bem temperada e bem-feita, há uma grande variedade de comida chinesa, especificamente taiwanesa. Além de muito saborosos, os pratos também são baratos. O lugar vive cheio e as poucas mesas são muitas vezes divididas por pessoas que sequer se conhecem, tudo em nome de um bom almoço.

            Conheci o lugar há oito anos, quando um grupo de amigos lá marcou uma comemoração de final de ano. Descobri que eram amigos do dono, o Antônio, chinês de sorriso largo e fácil, que até mesmo participava das brincadeiras, como um amigo secreto que fizemos lá certa feita. Algum tempo depois fui trabalhar muito próximo deles, no bairro da Liberdade, em pleno centro de São Paulo e almoçar por lá ao menos uma vez na semana virou um de meus hábitos, uma rotina da programação semanal. Perdi a conta, inclusive, de para quantas pessoas fiz propaganda desse local tão peculiar e escondido atrás de duas pequenas portas de madeira e vidro.

            Com o tempo acabei tendo mais contato com a esposa dele, de início um pouco mais séria, mas que passou não apenas a saber os pratos que eu e meu marido gostamos, mas também que costumamos pedir um para ser dividido em dois. Embora já tenhamos até mesmo perguntado como se fala determinada palavra em chinês, é bem verdade que após esses anos todos, nem ela sabe nosso nome e nem nós sabemos o dela. O Antônio, sempre por lá, trocando conosco sorrisos e cumprimentos.

            Ficamos espantados quando, no mês passado, ela nos disse que ficariam fechados por uns vinte dias. Meio órfãos de um de nossos lugares de almoço favoritos, ficamos rodando pela vizinhança, à caça de onde comer, contando os dias para que voltassem a abrir. Transcorridos os vinte dias, no entanto, isso não se deu e cheguei a pensar, com tristeza, que talvez tivessem fechado.

            Quando vimos que estava aberto, coisa de quase um mês fechado, lá fomos nós reclamar nosso espaço, até porque nossos estômagos já estavam reivindicando os direitos deles. Sentados à mesa, esperando nosso macarrão de massa de arroz servido com frango e curry, ouvimos o filho do Antônio, um moço que poucas vezes vimos por lá, mas muito parecido com o pai, informar a um outro casal que estava sentado próximo de nós, que o Antônio falecera, assim, em um repente.

            Naquele dia a comida perdeu o gosto e para todo o lado que olhávamos, a imagem dele estava por lá, sorrindo. Fomos dizer a ela que sentíamos muito e, constrangida, ela simplesmente não conseguiu dizer nada, saindo do local para chorar longe da clientela. Eu estou certa de que jamais me esquecerei dessa cena, tão singular e indescritível em palavras.

            Como escrevi no início desse texto, sou uma pessoa de hábitos. O maior deles, o mais difícil de desapegar é o hábito que tenho de querer nesse mundo todas as pessoas que conheço, das quais eu gosto. Ainda continuo indo almoçar lá, mas em algum lugar dentro de mim, estou desorientada, triste pelo frágil equilíbrio que tentamos manter a todo custo, tão delicado quanto cristal e tão indiferente aos nossos desejos...

 

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.



publicado por Luso-brasileiro às 19:08
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VALQUÍRIA GESQUI MALAGOLI - PROFISSIONAIS DA AMIZADE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Prefiro o desdém/ ao abraço falso./ Por um bom amigo/ sobre o fogo valso!/ Só que à maioria,/ bem mais apetece/ altíssimo engano/ que sincera prece!/ “Demasiado humano”,/ Nietzsche exclamaria!/ E, decerto, Freud/ isso explicaria.../ Jung o desmascara;/ basta lê-lo um pouco,/ mas... vaidade, ao homem,/ torna o pior louco!”.

Peco pelo amadorismo.

Como é possível enganarmo-nos tanto, repetidamente?

Credulidade exacerbada?, desejo do incrível?, carência de veracidade?, burrice?

Vivemos dias em que o verniz dá o tom das relações. Vencida sua validade e, esgotado, portanto, seu brilho... finito!

Mas, não há com que nos preocuparmos – dias piores virão!

Dias em que pagaremos com dinheiro vivo o preço dessa superficialidade.

Dias em que, em contrapartida, não mais sofreremos à custa das apunhaladas pelas costas, pois, ao contrário, teremos evoluído a ponto de desenvolver carapaças na medida do endurecimento do ser interior.

Quanto mais se me aproxima a elegância (não falo de moda nem de educação; falo de fino trato, mascaramento), mais a abomino.

Daqui em diante, enquanto a consciência da efemeridade e da morte vem fazendo cair fichas, quero só a simplicidade das coisas poucas... A fluência das coisinhas que passam quase invisíveis porque desataviadas, e que têm nesse desornar-se o cume de sua beleza... As coisas, enfim, mais absolutamente desimportantes, como o desamor e o desapego.

Tenho já, a essa altura, motivos para crer que o não-haver é o mor conteúdo. Sua outra-metade talvez venha a reboque.

Tenho ainda, a essa altura, ímpetos de obliterar-me, contradizendo a natural querença por ser objeto de lembrança post-mortem.

Tudo, de pessoas a coisas, é descartável.

Por isso dizia que peco pelo amadorismo: porque não me diplomei em fingir-me de amiga.

Mea culpa! Sou amadora porque amo de verdade.

Trocadilho ou não, lancei mão de dizê-lo, por ser o que me consola.

E mais, digo-o, inclusive, claro, por exercício catártico e de respiração em meio à falta de ar; depois, porque a você que sente o mesmo, creio, de algo servirá. Afinal, vivemos tempos em que as coisas devem ser úteis. E as pessoas também.

           

 

 

Valquíria Gesqui Malagoli, escritora e poetisa, vmalagoli@uol.com.br / www.valquiriamalagoli.com.br



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