PAZ - Blogue luso-brasileiro
Domingo, 20 de Setembro de 2015
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - APRENDIZES DE LOBO

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

Tenho facilidade em me irritar e considero que não é uma virtude. Gostaria demais de ser mansa, humilde e doce de coração em todos os acontecimentos e tratá-los com equilíbrio, em lugar de explodir. As reflexões à luz da Palavra de Deus e as preces ao amanhecer me ajudam, mas nem sempre me contenho.
Escrevo zangada esta crônica.   Mais uma vez, trata-se de assunto relativo à pedofilia. Abusos acontecidos num pacto de segredo com a vítima, por certo de ameaça, e com a oferta de guloseimas e outros presentinhos, introduzindo-a ou introduzindo-as nos descaminhos do comércio do sexo e das compulsões.  Gente considerada do bem por diversos segmentos da sociedade. Gente que demonstrava beber água viva, ofertada por Jesus à samaritana, mas que, de fato, mata a sede na água parada dos pântanos. Após anos, ou quem sabe décadas, a verdade veio à tona e com ela os aprendizes de lobo: os omissos e os que procuram não uma explicação na área da saúde, mas sim um novo disfarce, com o propósito de defender aparentemente o que é indefensável.
Recordei-me de dois contos infantis: “Chapeuzinho Vermelho” dos Irmãos Grimm e “Os Três Porquinhos”. Os dois lobos têm fome. O lobo mau da segunda história é menos pernicioso: apresenta-se como ele é e diz o que irá fazer: assoprar as palhas e a madeira das casas, para comer os porquinhos. O da  Chapeuzinho Vermelho mente, muda a voz, se mascara como sendo a vovozinha, não revela sua intenções e dificulta a prudência.
Os omissos se recolhem, despreocupados com as dores e as consequências para as crianças. Agem como se nada tivesse acontecido.
Os aprendizes de lobo, em troca de dinheiro, investem em estratégias que protejam o pedófilo. Exploram a vulnerabilidade social das famílias das vítimas, que contabilizam perdas e mais perdas, propõem trocas, simulam respaldo e chegam até mesmo a procurar alguém para atestar que é fantasia, fruto da imaginação da criança. E uma das meninas, em consulta médica, ao comunicarem que, para o exame, necessitaria se despir, pergunta de imediato sobre o que ganharia em troca. Tudo isso é muito perverso! De que modo quebrar o covil dos lobos?
Conforme relata São Mateus em seu Evangelho (7, 15), Jesus, com precisão, advertiu: “Guardai-vos dos falsos profetas. Eles vêm disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos arrebatadores”
 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.



publicado por Luso-brasileiro às 18:41
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CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - SÓ O AMOR NÃO ENVELHECE

 

 

 

 

 

 

 

 

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            Há treze anos, sem que eu tivesse planejado isso, acabei levando um cachorro para casa. Na época, fazia mais de dez anos que eu não tinha cães. Depois que eu perdi um grande companheiro da minha infância, após 14 anos de convivência, eu havia me jurado que não passaria por aquilo de novo, por aquela dor de me despedir de uma criatura não humana, mas que eu chamava, sem hesitar, de amigo.

            A vida, contudo, é exímia pregadora de peças e não cansa de nos surpreender. Justamente eu, que sempre gostara da vira-latas, acabei, em um impulso, diante da solidão de um cãozinho poodle, voltando para casa, em uma viagem de quase quatrocentos quilômetros, com a incumbência de arrumar um amigo para ele. Mal sabia eu o que viria pela frente...

            Irritadiço e arredio, o Floquinho estava também anoréxico e após ouvir o diagnóstico do veterinário, acabei convencida de que ele precisava de companhia canina, o que logo tratei de providenciar. Em menos de dois dias, além dele, eu recebi em casa o Peteco, um filhote de dachshund, “vulgo salsicha”, que fora abandonado pela tutora. Meu papel seria fazer com que os dois interagissem e, na sequência, leva-los para minha mãe, com quem ficariam. Lá se vão 13 anos desde aquele dia, e, por óbvio, nunca levei nenhum deles para lugar algum no qual eu não fosse também.

            Não foi o Floquinho que arrumou um amigo, mas fui eu que ganhei dois. Inseparáveis, os dois formam uma dupla e tanto e, diante da vitalidade deles, mesmo estando ambos com quase 13 e 14 anos, eu costumava dizer que eles são velhinhos, mas como ninguém nunca disse isso a eles, prosseguiam sem saber, ignorando os reflexos do tempo. De fato, ambos são capazes de longas caminhadas, comem muito bem e, no geral, sequer aparentam ter a idade que tem. Se fossem humanos, seriam o que chamamos de velhinhos enxutos!

            No meu desejo de vê-los eternos, comecei a me iludir, pensando que para sempre seríamos nós, até que, nessa semana, por acaso, descobrimos um tumor na boca do Floquinho. Ainda não sabemos o que é, o que será necessário fazer ao todo, mas os gastos já começaram, bem como o cuidado de ministrar remédios, os quais preciso esconder dentro de guloseimas, além de outras providências. Sei que vem um cirurgia por aí também e, em um repente, eu notei meus olhos cheios de lágrimas. Como assim? Foi ontem que eu o trouxe para casa...

            Embora eu soubesse, precisei reconhecer, em todos os sentidos, que estou com dois velhinhos agora e que, um dia desses, quando eu menos desejar, se é que isso é possível, eles não estarão mais por aqui. Se a ordem das coisas desse mundo seguir seu curso, haverá despedidas e eu sei que elas não serão fáceis, mas, seja lá o que nos espera, seja lá o que for, não me arrependo em nenhum único momento, de ter escolhido estar com eles.

            Nessas horas, sobretudo, fico pensando nas pessoas que abandonam seus animais de estimação e que, em um ato de puro egoísmo e covardia, fazem isso quando eles mais precisam: na velhice. A velhice de um cão é mais feliz do que a velhice humana, creio eu, sob o ponto de vista de que eles não tem essa consciência, mas pode ser infinitamente mais dolorosa se o abandono é a paga que recebem pelos anos de amor incondicional. Infelizmente não são poucos os casos de animais largados à própria sorte porque ficaram doentes, porque fazem as necessidades em lugar errado ou porque não são mais engraçadinhos.

            O abandono é um ato de crueldade sempre, seja como for, mas desamparar um animal idoso é condená-lo, no mais das vezes, à tristeza e a à morte. A idade os coloca novamente frágeis, mas não da forma que os filhotes o são. É a fragilidade do andar, do enxergar, do ouvir e tudo isso embalado por uma aparência não raras vezes sem atrativos. Por dentro, contudo, continuam sendo nossos amigos, nossos companheiros, nossos irmãos. Ainda se alegram quando nos veem chegar e se não conseguem correr ou saltar, os seus corações são eternamente capazes disso.

            Que a morte é uma certeza, não tenho dúvidas, mas estou certa também de que, na história que me compete escrever, meus cães e eu seguiremos juntos até o final, cabendo apenas ao destino decidir quem irá primeiro. Se tudo nesse mundo envelhece, o amor, 

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.



publicado por Luso-brasileiro às 18:37
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FELIPE AQUINO - O AMOR DE JESUS PARA COM AS MULHERES
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 


Nos encontros de Jesus com algumas mulheres, narrados nos Evangelhos, vemos como Ele as amava, sobretudo as pecadoras. Madalena, a quem expulsou sete demônios; a mulher adultera (João 8,10ss); a samaritana (João 4) e aquela que lavou seus pés com suas lágrimas.

Que página encantadora esta da vida de Jesus, diante daquela pecadora que seria apedrejada! Revela a Sua profunda misericórdia pelos pecadores. “Eu vim buscar o que estava perdido”. Aquela mulher estava literalmente perdida; foi flagrada em adultério, e a Lei mosaica determinava a morte por apedrejamento. Foi um desígnio de misericórdia de Jesus para com ela que a salvou de uma morte terrivelmente dolorosa.

 

Os fariseus e escribas a levaram a Jesus, para ver se ele desobedeceria a Lei, e então, poderiam incrimina-lo. “Mestre, esta mulher foi pega em adultério, a Lei manda mata-la apedrejada, o que o dizes?”. Jesus, que lia o que estava nos corações, resiste em analisar o caso, e continua escrevendo na areia. Alguns interpretes acham que ali Ele estava escrevendo os nomes daqueles que queriam apedrejá-la.

Mestre, insistem eles, “não vai dizer nada?”

Jesus apenas diz: “Quem não tiver pecado atire a primeira pedra”. Houve silencio; cada um se examina, e todos se acham pecadores, e vão se retirando aos poucos, a partir dos mais velhos, certamente os que pecaram mais. “A essas palavras, sentindo-se acusados pela sua própria consciência, eles se foram retirando um por um, até o último… de sorte que Jesus ficou sozinho, com a mulher diante dele. Então Ele se levantou – é interessante este gesto – e vendo ali apenas a mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou? Respondeu ela: Ninguém, Senhor. Disse-lhe então Jesus: Nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar”.

Que lição extraordinária! O único que não tinha pecado, portanto, o único que poderia executar a Lei e apedrejar aquela mulher, era Ele, mas Jesus a perdoa. “Vá em paz, e não peques mais”. Se Jesus teve misericórdia com ela, e a perdoou, quis nos ensinar até onde deve ir a nossa misericórdia para com os outros: não julgar ninguém, não condenar. Só Deus sabe o passado de cada um; só Ele conhece os corações, e tudo o que motivou cada ato de cada pessoa.

E Jesus mostra que a misericórdia não é também ser conivente com o mal e aceita-lo. Não. Ele exige a conversão da pecadora pública: “vai, e não peques mais”. Certamente aquela mulher mudou de vida e seguiu Jesus, pois Ele salvou a sua vida. A misericórdia para com o pecador é o melhor remédio para o seu pecado.

Outra pecadora foi perdoada por Jesus. Narra o evangelista são Lucas (7,37-48) que um fariseu convidou Jesus para comer com ele. Jesus entrou na casa dele e pôs-se à mesa. Uma mulher pecadora da cidade, quando soube que estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro cheio de perfume; e, estando a seus pés, por detrás dele, começou a chorar. Pouco depois suas lágrimas banhavam os pés do Senhor e ela os enxugava com os cabelos, beijava-os e os ungia com o perfume. Ao presenciar isto, o fariseu, que o tinha convidado, dizia consigo mesmo: “Se este homem fosse profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que o toca, pois é pecadora”.

 

 

Leia também: Por que as mulheres choram?

A Beleza e as dores da Mulher

 

 

Então Jesus lhe disse: Simão, tenho uma coisa a dizer-te. Um credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários e o outro, cinquenta. Não tendo eles com que pagar, perdoou a ambos a sua dívida. Qual deles o amará mais? Simão respondeu: A meu ver, aquele a quem ele mais perdoou. Jesus replicou-lhe: Julgaste bem. E voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para lavar os pés; mas esta, com as suas lágrimas, regou-me os pés e enxugou-os com os seus cabelos. Era um gesto de predileção, de acolhimento. Não me deste o ósculo; mas esta, desde que entrou, não cessou de beijar-me os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo; mas esta, com perfume, ungiu-me os pés. Por isso te digo: seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor. Mas ao que pouco se perdoa, pouco ama. E disse a ela: Perdoados te são os pecados. O amor encobre uma multidão de pecados, disse São Pedro.

A Bíblia de Jerusalém, diz em nota de roda pé, que esta mulher não deve ser identificada com Maria de Betânia e nem com Maria Madalena, era uma pecadora denunciada por Simão. E Jesus a perdoa pelas lágrimas que derramou lavando os pés de Jesus. Mesmo sendo pecadora reconheceu a grandeza do Mestre divino, lavou seus pés com suas lágrimas, os enxugou com seus cabelos e os ungia com seu perfume, e confiou na Sua misericórdia. Certamente aquele pobre coração pedia a misericórdia de Jesus e a alcançou; teve os seus pecados perdoados por seu gesto corajoso. A misericórdia de Jesus curou a sua alma pecadora. E cura a de qualquer pecador sinceramente arrependido.

Outra mulher que Jesus encontrou em seu caminho foi a samaritana (João 4,4-42). Jesus ia passando pela Samaria em direção a Judeia e chegou a uma localidade da Samaria, chamada Sicar, junto das terras que Jacó dera a seu filho José. Ali havia o poço de Jacó. E Jesus, cansado da viagem, sentou-se à beira do poço. Era por volta do meio-dia. Veio uma mulher da Samaria tirar água. Pediu-lhe Jesus que lhe desse de beber. Algo estranho, pois os judeus não falavam com os samaritanos, muito menos para lhes pedir um favor; mas Jesus tinha um propósito de misericórdia para com aquela mulher pecadora e sua gente.

Os os discípulos tinham ido à cidade comprar mantimentos. Ele queria ficar sozinho com ela, os discípulos não podiam estar perto, pois não permitiriam Ele conversar com ela. A mulher estranha: “Sendo tu judeu, como pedes de beber a mim, que sou samaritana!…” Jesus lhe diz: “Se conhecesses o dom de Deus, e quem é que te diz: Dá-me de beber, certamente lhe pedirias tu mesma e ele te daria uma água viva”. Jesus lhe anuncia a “água viva”, a graça de Deus que salva.

A mulher não entende e pergunta: “Senhor, não tens com que tirá-la, e o poço é fundo… donde tens, pois, essa água viva? És, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu e também os seus filhos e os seus rebanhos?” Jesus dá um passo a frente: “Todo aquele que beber desta água tornará a ter sede, mas o que beber da água que eu lhe der jamais terá sede. Mas a água que eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna”. A mulher começa a se interessar por aquela água diferente que aquele profeta está falando: “Senhor, dá-me desta água, para eu já não ter sede nem vir aqui tirá-la!” Que água é essa?

Então Jesus pede que ela chame o seu marido, mas já sabia que ele não existia. A mulher respondeu: “Não tenho marido”. Então Jesus começa a entrar na sua alma para ali lançar a Sua misericórdia: “Tens razão em dizer que não tens marido. Tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu. Nisto disseste a verdade”. A mulher leva um susto, pois Ele lhe revela o passado de pecados: “Senhor, vejo que és profeta!… Então a conversa se aprofunda… Deus é espírito, e os seus adoradores devem adorá-lo em espírito e verdade

Disse a samaritana: “Sei que deve vir o Messias, o Cristo; quando, pois, vier, ele nos fará conhecer todas as coisas. Então Jesus se revela: “Sou eu, quem fala contigo”

 

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Só depois disso os discípulos chegaram e maravilharam-se de que estivesse falando com uma mulher, mas nada lhe perguntaram. A samaritana, já dominada pela graça, deixou o seu cântaro e foi à cidade e disse aos homens: “Vinde e vede um homem que me contou tudo o que tenho feito. Não seria ele, porventura, o Cristo?” E eles foram ter com Jesus. E muitos foram os samaritanos de Sicar que creram em Jesus por causa da palavra da mulher. E pediram que Jesus ficasse com eles. Ele permaneceu ali dois dias. E muitos outros creram nele por causa das suas palavras. E diziam à mulher: “Já não é por causa da tua declaração que cremos, mas nós mesmos ouvimos e sabemos ser este verdadeiramente o Salvador do mundo”. É pela misericórdia que Jesus faz aceitarem a sua divindade.

Não só aquela mulher foi resgatada por Jesus, mas muitos naquela cidade. É o fruto doce da misericórdia que se compadece da miséria do outro. Foi Jesus é o cristianismo que resgataram no mundo a dignidade da mulher e lhe deu vida nova. Onde não chegou o cristianismo a mulher continua discriminada.

 

 

 

 

FELIPE AQUINO - Escritor católico. Prof. Doutor da Universidade de Lorena. Membro da Renovação Carismática Católica.

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:24
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JOSÉ RENATO NALINI - O CENTENÁRIO DE D. YOLANDA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hoje, exatamente hoje, 17 de setembro de 2015, Yolanda Pierruccini Martins completa seu centenário. Com saúde e sob assistência contínua e carinhosa de seu filho José Eduardo, o médico “Penaforte”, que vem a ser meu amigo, antes de ser meu cunhado, pois casado com minha irmã Raquel.

As conquistas da medicina propiciam evidente acréscimo na longevidade. Dentro em poucos anos, haverá muitos centenários comemorados em vida, e não como celebração pelos cem anos de alguém que já partiu.

À evidência, viver muito não oferece apenas alegrias. É assistir à partida de seres queridos. D. Yolanda perdeu o marido, José Penaforte Martins e também seu filho caçula, José Roberto, além de todos os irmãos: Renato, Renata, Alice, Pia. Perdeu sobrinhos: Armando e Elcio Guerrazzi. Perdeu amigas e amigos. Faz jus ao brocardo: “Viver muito é colecionar perdas!”.

Mas os desígnios da Providência são insondáveis. Alguns morrem cedo. Outros têm uma vida mais longa. Para os crentes, não há espaço para lamentações. Todos temos nossa missão e, enquanto vivermos, é preciso aguentar a cruz, o peso das atribulações, bendizer à Providência que nos concedeu o bem da vida e prosseguir. Enquanto há vida, há esperança.

Muita gente nasceu em 1915 e poucos conseguiram chegar a 2015 com vida. Meu pai, Baptista Nalini, nasceu em 26/11/1915. Mas partiu há muitos anos. Morreu em 1992, de tristeza por haver enterrado o filho caçula, João René, morto em 1989.

Famosos e anônimos nasceram em 1915. O Ministro José Geraldo Rodrigues de Alckmin, tio do governador Geraldo, a atriz Ingrid Bergman. Edith Piaf, Orson Welles, Goffredo da Silva Telles e tanta gente mais.

Mas nasceu também Yolanda Pierruccini, que foi professora e educou gerações de jundiaienses. Viu Jundiaí crescer e se transformar. Os costumes se deteriorarem. A educação se vulgarizar. A cidade ficar menos civilizada. O centro perder sua feição nobre e se tornar mais padronizado e feio, como ocorreu com tantas outras cidades. Mas está viva, graças aos cuidados de seu filho médico, José Eduardo Martins, exemplo de respeito aos pais. Quando tantos preferem os asilos, ele mostra que é possível ter perto de si aqueles que nos deram a vida e aos quais devemos gratidão e afeto. Parabéns, D. Yolanda!

 

 

 

 

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.

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publicado por Luso-brasileiro às 18:12
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VALQUÍRIA GESQUI MALAGOLI - PEDRAS E NOVELOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

            Diz-se que com as pedras do caminho, melhor é a gente erguer um castelo...

            Lição assimilada, das mangas que me vieram bater nas calhas durante a ventania fiz uma musse.

            Entre vocês, a esta altura, já contam os de sempre a se perguntarem por que raios de novo eu lhes falo de mim.

            Será só de mim, por acaso, se tanto de similar têm nossos atormentados dias apressados, nossas sagradas horas corrediças, nossos pensamentos conflituosos entre si e com os demais?

            Identificação seria a mais adequada resposta, talvez. Afinal, só se fala sem meandros a quem (e por quem) algo nos liga. E, explícito ou incógnito, um motivo comum estende-se a cada novo artigo aqui modestamente escrito e carinhosamente lido.

            Estou de todo equivocada?

            – Misericórdia, porque me é necessário o espaço de dias para que eu lhes narre peripécias de meus filhos, entre outras aventuras. E estas são, decerto, como as suas, nas devidas particularidades, também cotidianas!

            É tempo demais e os assuntos se acumulam.

            – Obrigada, então, porque assim me domam os ímpetos, e provocam outras linhas, estas, versejadas pra variar.

            O que rabisco aqui e ali a esta gente interessa. Àquela não. Eis a vantagem dos periódicos, onde outros artigos e matérias cabem.

            Da minha parte, comprometo-me e com vocês também, a dizer a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade, encantada, porque vivida, e nada sobrevive à vida sem encantar-se.

Além disso, creiam, assaz importantes me são os relatos cá trazidos. Não trago à tona águas passadas, senão... para que passem. E para que, passando, não tenham sido passado apenas.

“Toda vez que boto/ As mangas de fora/ Para achar o sol/ Sem o qual desboto/ Logo adiante vejo/ As mangas de fora/ Ouço igual devoto/ Que a safra da hora/ Reza em si bemol/ Quando a dentro volto/ Adentra o desejo/ Das mangas de fora.”.

            Estas frutas de que lhes falo, agora, ou melhor, antecessoras suas, já foram o terror de moradores que, por nossa vez, nos antecederam aqui, forrando o chão do quintal, chamando formigas, exigindo vassoura e pá...

            Acho graça que me caiam graciosamente.

            Rio da desgraça alheia?

            Certamente que não.

O que venho lhes contar, é que simplesmente rimos à mesa, só porque a musse tinha tantos fiapos que acabamos por descobrir, juntos, como é que os gatos se sentem mastigando novelos de lã.

           

 

 

Valquíria Gesqui Malagoli, escritora e poetisa, vmalagoli@uol.com.br / www.valquiriamalagoli.com.br



publicado por Luso-brasileiro às 18:05
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PAULO R. LABEGALINI - ESPERO QUE VOCÊ POSSA...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PARTE 1:

 

Certa manhã, na redação da extinta Revista Manchete, o fundador Adolfo Bloch estava com sua equipe de fotógrafos olhando algumas imagens premiadas pelo mundo. Um dos profissionais comentou:

– Mas, também, o senhor tem que ver o equipamento deles! Só usam máquinas fotográficas de última geração – top de linha!

Bloch, então, respondeu:

– Ah, é? Você acha que a foto está boa por causa do equipamento?

E, tirando do bolso sua caneta Montblanc de ouro, disse:

– Toma, espero que você possa agora escrever um best-seller sem a ajuda de ninguém!

 

 

PARTE 2:

 

Em forma de poema, do Papa João Paulo II:

Espero que você possa aceitar as coisas como elas são, sem pensar que tudo conspira contra você, porque parte de nós é entendimento, mas a outra parte é aprendizado.

Que você possa ter força para vencer todos os seus medos e que, no final, possa alcançar todos os seus objetivos, porque parte de nós é cansaço, mas a outra parte é vontade.

Que tudo aquilo que você vê e escuta possa lhe trazer conhecimento, que essa escola possa ser longa e feliz, porque parte de nós é o que vivemos, mas a outra parte é o que esperamos.

Que você possa aprender a perder sem se sentir derrotado, que isso possa fazer você cada vez mais guerreiro, porque parte de nós é o que temos, mas a outra parte é sonho.

Que durante a sua vida você possa construir sentimentos verdadeiros, que você possa aceitar que só quem soube da sombra pode saber da luz, porque parte de nós é angústia, mas a outra parte é conforto.

Espero que você possa nunca deixar de acreditar, que nunca perca sua fé, porque parte de Deus é amor, e a outra parte também.”

 

 

PARTE 3:

 

 

Algumas mulheres muito bem vestidas almoçavam num bonito restaurante. Uma amiga dirigiu-se à mesa para cumprimentá-las e perguntou:

– É um almoço especial?

Uma delas respondeu:

– Estamos festejando o aniversário do meu bebê que hoje completa 2 aninhos.

– Mas, onde está ele? – questionou a amiga.

– Deixei-o na casa da minha mãe. Ela cuidará dele até a festa acabar. Não poderíamos nos divertir se ele estivesse por perto.

A amiga, indignada, falou:

Espero que você possa aprender com o erro que está cometendo hoje e não deixar Jesus de fora da nossa festa de Natal, quando estaremos comemorando o aniversário do nosso Senhor.

 

 

PARTE 4:

 

 

O psiquiatra Roberto Shinyashiki escreveu:

“São quatro as loucuras da  sociedade. A primeira é instituir que todos têm de ter sucesso, como se ele não tivesse  significados individuais. A segunda loucura é você ter de estar feliz todos os dias. A terceira é você ter que comprar tudo o que puder. Por fim, a quarta loucura: você tem de fazer as coisas do jeito certo. Jeito certo não existe!

Não há um caminho único para se fazer as coisas. As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade. Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito. Tem gente que diz que não será feliz enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento. Você pode ser feliz tomando sorvete, ficando em casa com a família ou amigos verdadeiros, levando os filhos para brincar ou indo à praia ou ao  cinema.

Quando era recém-formado em São Paulo, trabalhei em um hospital de pacientes terminais. Todos os dias morriam nove ou dez pessoas. Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte. A maior parte pega o médico pela  camisa e diz: ‘Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei a vida inteira, agora eu quero aproveitá-la e ser feliz’.

Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada. Ali aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas. Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis ou ações, mas sim de ter esperado muito tempo ou perdido várias oportunidades para aproveitar a vida.

Espero que você possa entender que ter problemas na vida é inevitável, mas ser derrotado por eles é  opcional.”

 

 

PARTE 5:

 

 

Juntando as partes anteriores, concluirei em poucas palavras, porque acredito que algumas mensagens do texto já tenham ficado claras. Então, resta dizer apenas que espero que você possa se aproximar de Deus a cada dia e não se entregar totalmente às coisas do mundo. Parte de você é pecado, mas a outra parte é amor. Somente uma das partes pode levá-lo ao Céu. Pense nisso!

 

 

 

PAULO ROBERTO LABEGALINI - Escritor católico. Vicentino de Itajubá - Minas Gerais - Brasil. Professor doutor do Instituto Federal Sul de Minas - Pouso Alegre

 



publicado por Luso-brasileiro às 17:53
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HUMBERTO PINHO DA SILVA - O ENFERMEIRO MARTINS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conta a “Arte de Furtar” que em certo lugar havia médico que tratava a ferida de um espinho, a que chamava apostema.

Como precisasse de ausentar-se, disse ao filho que continua-se a cura.

Para se mostrar mais destro, este, vendo o espinho, arrancou-o. O doente sarou imediatamente.

Regressou o pai. Virou-se para o jovem e disse: “ Não vias tu selvagem, que, enquanto se queixava das dores, continuavam as visitas e se acrescentavam as pagas. Secaste o leite à cabra que ordenhávamos.”

Ao ler esta história lembrei-me do Sr. Martins.

O Sr. Martins era enfermeiro do antigo Hospital da Misericórdia de Gaia. Tão entendido era que os invejosos chamavam-no de doutor Martins.

Certa ocasião uma mulher andava muito aflita, porque há meses tratava a dor aguda que tinha no calcanhar, sem resultados positivos.

Numa das visitas, como não houvesse médico disponível, lembraram-se de a levar ao enfermeiro Martins, para fazer o curativo.

Tirou-lhe a ligadura e examinou a ferida.

Pareceu-lhe ver, lá no fundo da chaga, ponto negro. Pegou na pinça esterilizada. Puxou. Saiu-lhe porção de vara de guarda-chuva!

Andara descalça. Sentiu forte dor no pé. Mais tarde teve dores e foi ao hospital.

O caso deu brado e o prestígio do enfermeiro cresceu paralelamente com a inveja.

Noutra ocasião andavam os clínicos atrapalhados. Costureira de profissão, espetara agulha no peito.

Examinanda a radiografia, ia-se lancetar, mas a agulha desaparecia misteriosamente…

Então o Sr. Martins teve ideia genial: Foi com a mulher e mais o médico, ao radiologista. No consultório deste, imediatamente após examinarem a “chapa” – jaz – abriu-se no local exato.

A agulha arrastada pelo sangue e pelos movimentos, mudava de lugar.

Para finalizar um caso que o comoveu:

Apareceu no posto de enfermagem, homem acompanhado por padre redentorista.

Verificou que tinha os joelhos em estado lastimoso, a escorrer sangue.

O que aconteceu?! O frade ouvira dizer que numa guerra cruel, já tinham morrido milhares de pessoas.

O religioso ao escutar a tragedia, foi para a cela, espalhou milho no chão e ajoelhou-se, para rezar o terço.

O sangue escorria-lhe pelas pernas, mas o monge continuava a rezar…

Mais tarde o Sr. Martins dizia a quem o queria ouvir: - “ Não sou crente nem descrente, mas ao ver o pobre homem, as lágrimas correram-me pela face. Ainda há gente boa! Sua fé fez-me pensar…”

Era assim o Sr. Martins, enfermeiro na antiga Misericórdia de Gaia.

 

 

 

HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal



publicado por Luso-brasileiro às 17:45
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EUCLIDES CAVACO - O DINHEIRO

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

Um tema de todos os dias visto sob o prisma poético, pois o sentido do dinheiro é isto mesmo. 
Veja o poema aqui neste link:

 



http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/O_Dinheiro/index.htm

 

 

 

EUCLIDES CAVACO - Director da Rádio Voz da Amizade , Canadá.

 

 

 

 

 

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publicado por Luso-brasileiro às 17:43
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Terça-feira, 15 de Setembro de 2015
JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI - DIA INTERNACIONAL DA PAZ

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Dia Internacional da Paz, 21 de setembro, foi instituído pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 1981 para “comemorar e fortalecer os ideais de paz em cada nação e cada povo entre elas”. Trata-se de uma data de manifesta relevância, já que objetiva despertar a solidariedade e a fraternidade entre os povos, sobrepondo-se ao egoísmo, ao unilateralismo e principalmente, as conseqüências de um capitalismo desenfreado, onde o lucro dá tônica às relações. Em todos os anos a ONU faz nesta ocasião, um apelo mundial pela não violência, pelo cessar fogo e pela ausência de lutas e quaisquer perturbações sociais.

Vale meditar um pouco sobre o tema. Não podemos perder de vista que a paz é fruto da justiça, inclusive por indicação bíblica (cf. Is 32,17). Sem a sua prática não há harmonia nos relacionamentos entre as pessoas e até entre os povos. Dom Odilo P. Scherer, arcebispo de São Paulo, assim se expressou: “a injustiça é sempre uma violência contra os direitos da pessoa ou dos povos. Por isso a sua superação é condição para que haja verdadeira paz. Mas o mero cumprimento da justiça ainda não é suficiente para cultivar a paz: esta também requer o arrependimento das culpas, o perdão dado e recebido e a reparação das ofensas” (“O Estado de São Paulo” – 14/03/2009- p.A2).

Na mesma trilha, pode-se dizer que ela é uma conquista que deve ser permanentemente buscada, exigindo nossa indignação pelo desrespeito aos direitos humanos e nossa preocupação com a prevalência da concórdia entre todos, ainda que tais posicionamentos conflitem muitas vezes, com privilégios de muitos que os pretendem imutáveis.

Citado por Mário S. Cortella, vale lembrar o grande educador brasileiro Paulo Freire que, por propor uma educação apoiada no diálogo, foi entendido por alguns como alguém que identificava a paz como apaziguamento e anulação de conflitos já no presente. Ele, no entanto, ao receber o Prêmio Educação para a Paz da Unesco (Paris, 1986), deixou bem claro qual era sua convicção: “De anônimas gentes, sofridas gentes, exploradas gentes, aprendi sobretudo que a paz, é fundamental, indispensável, mas que a paz implica lutar por ela. A paz se cria, se constrói, na construção incessante da justiça social. Por isso, não creio em nenhum esforço chamado de educação para a paz que, em lugar de desvelar o mundo das injustiças , o torna opaco e tenta miopisar as suas vítimas” (“Família Cristã”- 01/1999- p.49).

Os embates sociais e a competitividade crescente em todos os campos colocam os países, as empresas e os indivíduos em constante posição de agressão/defesa. Determinadas nações lutam por conquistas territoriais, por ambição ou ideologia. As empresas, por exclusividade ou por uma fatia maior do mercado. Os indivíduos, por uma melhor posição no trabalho, na sociedade, ou contra o sufoco de imposições arbitrárias. Esquecemos assim, que a tranqüilidade pública pressupõe uma base em valores profundos e inabaláveis. Princípios alicerçados em Deus que, embora estejam presentes no íntimo de cada pessoa, continuam desconhecidos por tantos e, por isso, abafados em seu potencial de construção da paz, sempre ameaçada pelas desigualdades sociais, fontes de tensões e explosões de violência.

Somos responsáveis por esta infeliz realidade. Para vencer a injustiça social, é indispensável que cada um seja capaz de reconhecer a dignidade do próximo e se disponha a lutar por seus anseios fundamentais. Reportando novamente a Paulo Freire, podemos dizer que “a paz se cria, se constrói, na e pela superação de realidades sociais perversas. A paz se cria, se constrói, na construção incessante da justiça social.”

 

                                                                               Reflexão I

 

“Além da força que a superioridade bélica ou econômica possam ostentar, existem uma outra força, que não permite quantificação nem medida, mas que, quando se faz presente, se multiplica e é infinitamente superior às outras: é a força da paz que gera paz. Ela pode desarmar exército, desativar mísseis e bombas, segurar a mão do assassino ou a língua ferina antes que o outro seja atingido. É uma força que existe no interior de cada ser humano. Alguns utilizam-na em maior escala e destacam-se como seres carismáticos como, por exemplo,  o indiano Mahatma K. Gandhi, assassinado em 30.01.48 em Nova Delhi, o pastor negro americano Martin Luther King, assassinado em 04.04.68 em Memphis, o papa João XXIII, a madre Tereza de Calcutá e outros” (Orfila Verônica Gobbi- Família Cristã- 01/1989- p.6).

 

                                                                                  Reflexão II     

         

 “Na verdade para que ao homem seja assegurado o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à cultura, a desfrutar dos bens da civilização, à dignidade pessoal, é necessária a Paz. Onde quer que esta venha a perder o seu equilíbrio e a sua eficiência, os Direitos do Homem tornam-se precários e ficam comprometidos; onde não há paz, o direito perde o seu caráter humano. Mas onde não há respeito, defesa e promoção dos Direitos do Homem – quer dizer, onde se comete violência ou fraude contra as suas liberdades inalienáveis, onde se ignora ou se degrada a sua personalidade, onde  se observam discriminações, escravatura  e intolerância – aí não pode existir a verdadeira Paz. Porque Paz e Direito são reciprocamente causa e efeito entre si: a Paz favorece o Direito, e por sua vez, o Direito favorece a Paz” (Papa Paulo VI – 1.° de janeiro de 1969).

 

 

        

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, escritor,  jornalista, professor universitário. É presidente da Academia Jundiaiense de Letras (martinelliadv@hotmail.com)



publicado por Luso-brasileiro às 10:30
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Segunda-feira, 14 de Setembro de 2015
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - SOCIOLOGIA DOS NOMES PRÓPRIOS

 

 

 

 

 

 

 

      

 

 

 

 

 

 

 

Em 1959, Gilberto Freyre publicou “Ordem e Progresso”, um livro em que estuda a permanência do modelo patriarcal e agrário nas primeiras décadas do século XX, num Brasil que se tornava cada vez mais urbano e industrializado. É uma de suas obras mais importantes, constituindo um tríptico com “Casa Grande e Senzala” e “Sobrados e Mocambos.

Nela, Freyre traça, do ponto de vista sociológico, um retrato muito fiel das mentalidades e dos costumes vigentes nos últimos 20 anos da Monarquia e nas primeiras décadas republicanas. Essa faixa de perto de meio século, correspondente a uma fase importantíssima da nossa história, é marcada, sem dúvida, por uma grande ruptura de ordem política, mas também é assinalada, paradoxalmente, por sensíveis continuidades de âmbito cultural, social e psicológico.

O método de pesquisa adotado foi singular. Ainda quando jovem, na década de 1930, dirigiu uma carta-circular a perto de mil brasileiros que haviam vivido naquele período estudado. Eram pessoas de todas as classes e condições (desde grandes políticos, intelectuais e fazendeiros, até pessoas pobres e modestas). A carta acompanhava um questionário minucioso, no qual se indagava de cada um o que se comentava, nos ambientes que frequentara no período estudado, sobre ideologia, economia, política, costumes, religiosidade, sexualidade, visão dos problemas internacionais e nacionais, dicotomia monarquiaXrepública, visão de grandes homens (D. Pedro II, Santos-Dumont, Ruy Barbosa) etc. etc. Freyre pediu a todos que escrevessem suas respostas, com total liberdade, garantindo que só faria uso das respostas muito tempo depois, quando presumivelmente já tivesse desaparecido a maior parte dos grandes personagens que haviam marcado aquela época.

A circular, mandada a perto de 1000 destinatários, obteve apenas 183 respostas.  Algumas eram sucintas e pontuais. Outras eram mais extensas, e algumas extensíssimas, pois seus autores, levados pelo dinamismo das recordações passadas por escrito, produziram verdadeiros livros de memórias extremamente ricos e interessantes.

Freyre guardou essa documentação preciosa durante quase 3 décadas, propositadamente, de modo que somente a utilizou em público quando a imensa maioria dos depoentes já havia falecido. Foi, como disse, quase exclusivamente com base nessa documentação primária que escreveu os dois alentados volumes de “Ordem e Progresso”.

São dois volumes de leitura muito prazerosa. São de uma vivacidade, de um senso realidade, de um interesse que se mantém desde a primeira linha até o final. Apenas à guisa de exemplo, destaco um único aspecto, entre incontáveis outros, que é muito interessante do ponto de vista cultural: a escolha dos nomes para os filhos. Numerosas influências e não poucos modismos interferem nessa escolha tão importante e fundamental.

Passo a transcrever o próprio Gilberto Freyre:

"Transcendendo os muitos depoimentos individuais, que conseguimos reunir, nosso fim, no estudo que se segue, é procurar captar, através deles, ou do seu resíduo, não só transpessoal como transregional, o que alguém já chamou o 'ser coletivo'? o ser coletivo mais característico do Brasil do fim do Império e do começo da República. O brasileiro-síntese ou o brasileiro médio dessa época, não no sentido estreito de classe (classe média), mas no de expressão social de um conjunto de espaços fundidos num conjunto de tempos; e formando, através dessa fusão, um sistema aparentemente único, embora complexo e até contraditório, de cultura e sobretudo de vida ou de existência ou de vivência: o que caracterizou o Brasil dos últimos dois decênios do Império e dos primeiros dois e meio ou três decênios da República.

"Era um ser que nascia em casa; e quase sempre sem que a mãe recebesse, ao pari-lo no lar patriarcal, outro socorro senão o da parteira ou o da 'curiosa', que se tornava comadre do casal.

"Já não estava muito em moda dar ao brasileirinho nome pomposamente clássico - Ulisses, Homero, Cícero, Horácio, Sólon, Aristóteles - mas romântico, de herói de novela ou mesmo de romancista ou de poeta atual ou exótico: Ceci, Peri, Graziela, Eurico, Milton, Victor Hugo, Paulo, Virgínia, Romeu, Julieta, Elvira, Evangelista, Edgar, Alfredo, Lamartine; ou, ainda, político ou cívico: Pedro de Alcântara, Garibaldi, Danton, Francisca, Washington, Lincoln, Franklin, Jefferson, Gladstone, Teresa Cristina, Isabel, Amélia, Gastão, Deodoro, Benjamin Constant, Ruy; ou piedoso, tomado a novas santas ou inspirado em nova devoções: Teresa, Luís Gonzaga, Vicente de Paulo, Maria de Lourdes, Maria do Carmo, Maria da Penha, Inocêncio, Pio. Havia, porém, rebeldes a essas convenções: pais talvez nietzschianos que davam aos filhos nomes rebarbativos: Nero, Napoleão, Júlio César, Átila. Um desses nietzschianos deu, no começo do século XX, a um dos filhos o nome de Lutero. Protestantes começaram a dar aos filhos nomes bíblicos ou de reformadores: inclusive Calvino. Os Positivistas, estes se esmeraram em dar aos filhos nomes inspirados na história 'científica' da Humanidade ou particular, da sua seita: Clotilde, Galileu, Paulo, Augusto, Newton" (op. cit., 3a. edição, José Olympio, Rio, 1974, 1. tomo, pp. CLIV-CLV).

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:58
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CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - FRANCISCOS DO BRASIL

 

 

 

 

 

 

 

 

Cinthya Nunes Vieira da Silva.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

            Na semana passada, um homem armado surpreendeu uma mulher que se encontrava dentro da Catedral da Sé, em pleno centro da cidade de São Paulo. Não sei bem ao certo, mas suponho que ela estivesse lá para fazer suas orações, mas o fato é o homem a tirou da igreja e, na negativa dela em entregar seus pertences, passou começou a levar coronhadas na cabeça.

            Diante da violência e covardia da cena, um outro homem, ao que se apurou depois, um morador de rua, no desejo de surpreender o assaltante e de salvar a mulher, aproximou-se do agressor e, pelas costas, atracou-se com ele. A mulher, tão logo se viu livre, correu para longe, salva por um estranho improvável. O lamentável, contudo, é que o homem não conseguiu salvar-se e, atingido por dois tiros, morreu ali mesmo nas escadarias da Catedral, no mesmo lugar que se descobriu ser a cama dele durante todo o último ano. A polícia, que já cercava o local, mas que não havia atirado no agressor pelo risco de ferir a mulher ou o seu salvador, acabou por matá-lo na sequência.

            Assim que eu soube dos fatos, amplamente noticiado pelas mais variadas mídias, percebi que muitos pontos chamavam minha atenção. O primeiro deles foi ouvir algumas pessoas reclamando da ação da polícia, que não teria observado os protocolos adequados e não deveria ter matado o homem. Eu não sou especialista em protocolos de nenhuma natureza, mas não tenho a menor dúvida de que, diante de alguém que agredia sem pudor, em plena luz do dia, brutal e covardemente, alguém indefeso, simplesmente para tomar-lhe bens pessoais e que matou outra pessoa, sem pestanejar, não havia muito mais o que fazer, sob pena de se colocar mais vidas em perigo.

            Outra questão que para mim sempre foi crucial é a denominação “morador de rua”. Choca-me ver como as pessoas se habituaram a dizer isso, tal como se fosse uma forma de dizer estrangeiro, por exemplo. No fim das contas, talvez seja isso mesmo, mas não literalmente. São estrangeiros dentro de seu próprio país, já que a maior parte desse contingente ainda é formado por brasileiros. São párias sociais, excluídos da dignidade e de tantos outros direitos fundamentais, constitucionalmente garantidos.

            Em meio à imensa população de pessoas que não tem onde morar, é possível encontrar bandidos, vagabundos, drogados e desemparados. Toda sorte de pessoas e pessoas de todo tipo de sorte, bem como da falta dela. O curioso é que, em geral, é muito mais fácil achar gente disposta a dar abrigo, refúgio, aos imigrantes, vindos de outros países, do que aos próprios brasileiros. Certa feita, cometi a ingenuidade de ir até o centro de São Paulo em pleno domingo e a cena que vi, a “cidade alternativa”, que quase ninguém vê ou conhece, formada por, creio, quase uma centena de pessoas em seus colchões ou barracas, é algo verdadeiramente assustador. É um dos retratos da falência de mais um setor nesse país, o da Assistência Social. Da verdadeira, é claro. Não a populista barata e angariadora de votos!

            Bom, daí que o homem que acabou dando a própria vida para salvar a mulher, uma estranha, alguém que provavelmente jamais faria o mesmo por ele, era uma dessas pessoas que vivem à margem da sociedade. Francisco, 61 anos, sobrevivia, há mais de um ano, dormindo na escadaria da igreja e, com certeza, já estava habituado à indiferença das pessoas. Morto, virou herói, como se a morte, por si só, tivesse o condão de transformar tudo. Parece-me que ele também tinha ficha policial, um pouco mais curta do que a do seu assassino, mas inegavelmente não era um santo, ainda que tivesse nome de um.

            Antes, enquanto ele era um anônimo, pouco importava aos demais que ele não tivesse onde dormir ou o que comer, porque as pessoas parecem estar indiferentes a muitas das mazelas sociais, sobretudo quando não lhe afeta diretamente. Foi preciso morrer para que se dessem conta e mesmo que ele fosse alguém com ficha criminal, é inegável que foi capaz de mais do que muita gente seria, ou seja, arriscar-se pelo próximo.

            O incidente da semana passada, ao menos para mim, serviu de múltiplas reflexões e eu fico pensando se eu mesma seria capaz de algo parecido e o quanto eu estou atenta ao meu próximo, seja ele quem for. Humanos que somos, temos conceitos pré-concebidos e, anestesiados pela vida, seguimos indiferentes aos Franciscos, às Marias, ao bem que poderíamos fazer e até mesmo nos redimir...

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.

 

 

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:40
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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - ROSTO DA MISERICÓRDIA

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 


Acabo de ler, do Papa Francisco, a Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia: “Misericordiae Vultus – O rosto da misericórdia”. Fantástico! O Ano Santo se abrirá em oito de dezembro próximo. É um momento favorável a mudar de vida, para quem se encontra dentro ou distante da Igreja e, ainda, não tem consciência do quanto Deus é misericordioso, do quanto necessitamos de Sua misericórdia, do pouco que a praticamos em relação a quem nos incomoda e de que ninguém pode pôr limites à misericórdia divina, porque suas portas estão sempre abertas.
Na perspectiva de que a Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus e Jesus Cristo é o rosto misericordioso do Pai, afirma o Santo Padre “que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa, sem excluir ninguém”, com olhos abertos para as periferias existenciais, para as situações de precariedade e sofrimento presentes no mundo atual, para as feridas gravadas, pela indiferença, na carne de muitos. E convida, também, à conversão, aqueles que estão longe da graça de Deus pela sua conduta de vida: homens e mulheres, por exemplo, que pertencem a um grupo criminoso, seja ele qual for, às pessoas fautoras ou cúmplices de corrupção...
Durante a leitura, refleti sobre os caminhos pelos quais Deus veio à minha vida para se revelar o Misericordioso, diante do tanto que haviam me ensinado sobre ser Ele condenação e do quanto me tornara do julgamento. Como escreve o Papa Francisco: “Tudo n’Ele fala de misericórdia. N’Ele nada há que seja desprovido de compaixão”.
Recordo-me de acontecimentos na vida de marginalizados. Em meio a eles, o adeus da moça criada em orfanato, porque a mãe não a quis.  Nas as ruas, aos 18 anos, sem ilusões, se tornou do comércio do corpo. 15 anos dessa forma.  Sete anos posteriores na sede de ouvir mais a Palavra de Deus, de proteger as pessoas do maligno e de realizar sonhos bonitos, interrompidos pela infecção viral. Os que se fizeram de seu entorno, nos últimos tempos, decidiram, em sua partida, pelo caixão branco.
Deus é mesmo assim: sacode os que se imaginam melhores ao resgatar os afundados em misérias. Como afirma o Papa: Deus não se dá por vencido, enquanto não tiver dissolvido o pecado e superada a recusa com a compaixão e a misericórdia.
Deus tudo pode e realiza através do Amor.

 

 

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.
 



publicado por Luso-brasileiro às 11:32
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