PAZ - Blogue luso-brasileiro
Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2015
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - POR QUEM OS SINOS DOBRAM ?

 

 

 

 

 

 

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            Por algumas razões que até já ousei pontuar em outros textos, escolhi a cidade de São Paulo como meu ponto de chegada. Aprendi que aqui as coisas não são necessariamente piores do que em outras cidades, mas ficam mais evidentes, no mínimo. Contudo, embora tenha aprendido a gostar muito desse lugar, há muitas coisas que me deixam sempre pensativa, oscilando entre a tristeza e a revolta.

            Uma das situações que mais me assusta é o descaso dos governantes e mesmo da população de um modo geral. Há sujeira e miséria para todo lado, sobretudo em algumas regiões. Trabalho no centro da cidade e não consigo deixar de me espantar com a quantidade de lixo que ocupa todas as calçadas, bueiros e ruas. As pessoas descartam seus papéis de bala, restos de alimentos, bitucas de cigarro e toda espécie de lixo, como se fosse a coisa mais normal do mundo. A cidade, assim, agoniza um pouco mais a cada dia, desamparada e moribunda.

            Assim, dia desses, como tento fazer todos os finais de ano desde que me mudei para cá, fui até o centro da cidade para comprar alguns artigos para a ceia de Natal, no Mercadão Municipal e, para isso, servi-me do metrô, seguindo a pé por outro tanto do caminho. Foi-me impossível não notar na sujeira das ruas e na inacreditável quantidade de desabrigados dormindo enrolados em papelão ou envoltos em cobertores puídos e encardidos.  A visão de tantas pessoas perdidas em meio à sujeira, às drogas e à criminalidade, entristece em muito meu coração. Sei que ali há gente de todo tipo e que, por certo, alguns se encontram em tal situação  por conta de escolhas equivocadas, mas mesmo assim eu não consigo achar normal a normalidade da classificação “gente de rua”...

          Segui o meu caminho, comprei o que precisava e fui até a igreja que fica no Mosteiro de São Bento, igualmente no centro da cidade. Para quem nunça esteve lá, além de uma construção belíssima, há, dentro do mosteiro, uma loja de iguarias da confeitaria, com a venda de pães, bolos e geleias feitas pelos monges. Cada bolo, por exemplo, além de elaborado a partir de ingredientes finos, vem em embalagens tão bem feitas e de bom gosto que tornam os produtos verdadeiras obras de arte, tanto visual como culinariamente.

          Há alguns anos eu costumo incluir ao menos um desses bolos entre as coisas que levo aos meus pais e irmãs para os comes de fim de ano. A questão é que, embora maravilhosos, os bolos não são baratos. Não digo que não valem o valor cobrado, mas não é algo acessível a todos. A grande maioria das pessoas que frequentam a igreja ou que vivem nos arredores, por exemplo, não tem condições de adquirir o que ali é vendido.

          Não estou afirmando que seja imoral os monges venderem coisas caras, ainda que seja comida, pois não sei qual o destino do dinheiro que resulta dessas vendas e que pode muito bem ser a caridade, mas eu não consigo deixar de achar que há algo errado em uma cidade, em um país, no qual alguns pedem esmola na frente da igreja e lá dentro se vende o que poucos podem comprar. Não dá para dizer que não há uma desigualdade social abissal...

         Comprei meu bolo de pistache e especiarias e, assim que saia da igreja, os sinos começaram a badalar. Por alguns minutos eles tocaram alegremente, abafando os ruídos da cidade. Pensei em como deveria ser há algumas décadas e se as árvores, rios e ausência dos odores do descaso seria capaz de acalmar não apenas o meu, mas os corações de quem por ali estivesse.

           Amo São Paulo e gostaria de vê-la menos suja e poluída. Gostaria que viver o suficiente para ver uma cidade mais bonita e com, no mínimo, um serviço social mais atuante, um governo que realmente se procurasse com os cidadãos que precisam de ajuda e não apenas em pintar ciclofaixas... Enquanto isso, sigo pensando em por quem os sinos dobram...

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.  -  cinthyanvs@gmail.com

 



publicado por Luso-brasileiro às 10:43
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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - PORTA SANTA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


O Papa Francisco iniciou, em oito de dezembro, o Ano Santo, centrado na misericórdia. Em “O rosto da Misericórdia’ (n. 25), afirmou: “Será, portanto, um Ano Santo Extraordinário para viver, na existência de cada dia, a misericórdia que o Pai, desde sempre, estende sobre nós. Neste Jubileu, deixemo-nos surpreender por Deus. Ele nunca cansa de escancarar a porta do Seu coração, para repetir que nos ama e deseja partilhar conosco a Sua vida”.
No dia seguinte, estava no caixa de uma farmácia, quando surgiu um egresso do antigo cadeião do Anhangabaú. Cumpriu a sentença no manicômio judiciário. Conversávamos bastante nas visitas da Pastoral Carcerária. Sem aproximação com os de sangue, tinha na Pastoral a sua família. Reencontrei-o um pouco depois de estar no regime aberto. Considerava-se bem. Conseguira um emprego como gari, conquistara uma companheira e participava de reuniões semanais para leitura da Bíblia.  Seguia à risca a prescrição médica e abrira mão da cachaça. Nas outras vezes que nos vimos, relatou-me seus progressos. Não tinha mais notícias dele até o dia da farmácia. Percebi-o alterado por seu jeito eufórico e ruidoso. Abraçou-me forte, colocou seu Ray-Ban na minha cabeça e repetia meu nome. Tive dificuldade para digitar a senha do cartão com ele puxando meu braço. A atendente observava com espanto. Ainda dentro do estabelecimento, pediu-me dinheiro para o ônibus. Neguei-lhe. E se utilizasse em droga? Condoído, ao concluir que me achava “falida”, tirou do bolso uma nota de cem reais e quis me presentear com ela. Insistiu, aos gritos, o máximo que pôde. Seguiu-me também no percurso ao carro, na tentativa de não me perder de vista.
 A cena foi triste, vergonhosa, inusitada e hilária. Coitado, perdeu novamente o controle sobre suas faculdades mentais. Estou convencida de que aquele que atua junto aos excluídos é para sempre, pois, aos nos avistarem, se aproximam em busca do olhar que acolhe.
O Senhor me mostrou que é dessa forma: ao vivenciar a caridade e anunciar o Evangelho às pessoas das margens, se nos deparamos com elas, tantas vezes em situação de ruínas, os seus desajustes podem escorrer em nós na busca por reconstrução, seja real ou miragem. 
Deus me surpreendeu, para me comprometer com a Porta Santa e discernir que devo ser, em todas as situações, acesso à misericórdia que socorre.

 

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE   -   Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil                                                                                                                                                

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 10:42
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Domingo, 20 de Dezembro de 2015
VALQUIRIA GESQUI MALAGOLI - CAÇA ÀS BRUXAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Isso não é privilégio de um bairro, infelizmente. Tampouco é ficção. Aliás, se já viram esse filme... qualquer semelhança não é mera coincidência – é maldade mesmo.

Moro no Jardim Bizarro, onde coisas bizarras acontecem. Pessoas “do bem”, aqui, matam gatos e vão à missa. Virei coadjuvante de uma paródia infeliz do cara que matou a família e foi ao cinema.

Isso é a evolução da espécie.

É a voz da impunidade.

É o ponto a que chegamos.

Mas agora nós resolvemos nos armar!

Nós, que respeitamos outras raças, além da própria. Nós, que alimentamos sim os animais abandonados, porque não fazê-lo é praticar igual abandono no tocante ao que nos é possível. Nós, que acreditamos em justiça. Nós, que, sobretudo, cremos em justiça divina. Nós, que nos cansamos de estar por pouco. Nós, que não vemos o gato como uma praga sujeita a nossos instintos exterminadores e de domínio, ao contrário – como criatura de Deus.

Nós, que, pecadores de marca maior, não ostentamos gloriosamente a falibilíssima condição, mas também não forjamos uma maldita fé que nos sustente enquanto intocáveis imagens de seres benévolos.

Nós, que não vociferamos amar o divino sem ter reconhecido no próximo e no diverso, os caminhos pelos quais chegar a Ele.

Nós, que não idolatramos o deus-conveniência, o deus-não-olhe-os-MEUS-pecados, o deus-salve-me-dos-MEUS-delitos-quando-for-a-hora, como se, por cumprir ritos, tivéssemos privilégios assegurados.

            Credo! Há gente demais – ainda – ocupada em executar as próprias sentenças e fazer a própria justiça, a título de justiça do alto.

Gente que age com vileza em benefício próprio imediato. No caso do gato, sobretudo o gato pelo qual supostamente ninguém reclamará, fazer o bem talvez, nessa interpretação superficial, signifique livrar-se dele.

Tristeza e indignação à parte, lágrimas e ladainhas não apagarão seus crimes.

Vamos, como eu disse, nos armar: de câmeras fotográficas e filmadoras.

Como quando se queimava gatos por supô-los bruxas, inverteremos o jogo e levaremos à fogueira, por meio de registros condenatórios, as bruxas reais, que sabemos quem são, e que por estúpida fé na raça ainda não apontamos.

 

 

 

 

VALQUÍRIA GESQUI MALAGOLI, escritora e poetisa,  vmalagoli@uol.com.br / www.valquiriamalagoli.com.br

 

 

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 19:28
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JOSÉ RENATO NALINI - QUEM CUIDARÁ DELAS ?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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O Brasil dos inúmeros contrastes é terreno fértil na constatação de injustiças. Proliferam situações bizarras e trágicas decorrentes da insensibilidade e do egoísmo, urtiga viçosa nos corações empedernidos.

A criança é um ser desprotegido, sobre o qual tanto se disserta, mas que nem sempre encontra proteção compatível com os discursos edificantes. Se isso acontece com infantes de todas as classes, o que não dizer com os filhos das encarceradas?

Infelizmente, é crescente o número de presas por inúmeros motivos. Em escala preocupante o envolvimento da mulher com o tráfico de drogas. Companheiro preso ou morto, ela assume o lugar na fatídica e suicida missão de satisfazer o vício.

A promiscuidade garante prole à presa, pois ela já se encontrava em situação de vulnerabilidade antes da prisão. E o que acontece com o filho do presídio?
Pouca gente se interessa por essa questão, enfrentada com galhardia pelo Juiz goiano Fernando Augusto Chacha de Rezende, que desenvolve o Projeto “Amparando Filhos – Transformando Realidades com a Comunidade Solidária”.

A “Cartilha Amparando Filhos” é um convite a que outros brasileiros também reflitam sobre o problema que é da sociedade. Além do aspecto humanístico, previne-se a delinquência infantil que é cinco vezes mais recorrente nesse ambiente. O trabalho ancora-se nos princípios da intervenção precoce, proteção integral e melhor interesse da criança. Baseia-se nas “Regras Mínimas para Mulheres Presas”, estabelecidas em Bangkok, durante a 65ª Assembleia Geral da ONU. O encarceramento da mãe gera efeitos colaterais negativos em seus filhos, com intolerável intranscendência da pena diante da dupla penalização: mãe e filho.

O intuito é desenvolver as habilidades individuais, interpessoais, comunitárias, psicológicas e sociais dessas crianças, fortalecendo-as para a edificação de uma vida proativa e saudável, em que haja lugar para sonhos e metas e não se repita a história familiar estigmatizada pelo crime. Afinal, como consta da cartilha, ainda que se eliminem as flores, não existe motivo a que se aborte a primavera.
Vale a pena conhecer melhor o projeto do juiz Fernando Rezende, que pode ser contactado no endereço eletrônico facrezende@tjgo.jus.br.

 

 

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br

 

 

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Juiz Fernando Augusto Chacha de Rezende
Para ver mais imagens do projeto, clique aqui.

 

 

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 19:17
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FELIPE AQUINO - NÃO DEIXE JESUS SOZINHO !

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma das nossas maiores ingratidões para com Jesus é o abandono em que o deixamos em muitos dos nossos sacrários.

A Igreja o chama de “prisioneiro dos sacrários”.

Jesus eucarístico é o “amor dos amores”. Ele faz continuamente este milagre para poder cumprir a sua promessa:

“Eis que estarei convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 20,20).

Do sacrário Ele nos chama continuamente:

“Vinde a mim vós todos que estais cansados e Eu vos aliviarei” (Mt 11,28).

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 Ali Ele está, como no Céu, com os braços abertos e as mãos repletas de graças para aqueles que forem buscá-las com o coração aberto. São João Bosco dizia:

“Quereis que o Senhor vos dê muitas graças? Visitai-o muitas vezes. Quereis que Ele vos dê poucas graças? Visitai-o raramente. Quereis que o demônio vos assalte? Visitai raramente a Jesus Sacramentado. Quereis que o demônio fuja de vós ? Visitai a Jesus muitas vezes. Não omitais nunca a visita ao Santíssimo Sacramento, ainda que seja muito breve, mas contanto que seja constante”.

Santo Afonso de Ligorio disse:

“Os soberanos desta terra nem sempre, nem com facilidade concedem audiência; mas o Rei do céu, ao contrário, escondido debaixo dos véus eucarísticos, está pronto a receber qualquer um… Ficai certos de que de todos os instantes da vossa vida, o tempo que passardes diante do Divino Sacramento será o que vos dará mais força durante a vida, mais consolação na hora da morte e durante a eternidade”.

Diante do Senhor no Sacrário podemos repetir aquela oração reparadora que o Anjo, em pessoa, ensinou às crianças em Fátima, nas aparições de Nossa Senhora, em 1917:

“Ó Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eu vos adoro profundamente e vos ofereço o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido; e pelos méritos infinitos do seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-vos a conversão dos pobres pecadores.

 

Leia também: Visite Jesus Sacramentado

A Presença Real de Cristo na Eucaristia

Nossa atitude ante a presença eucarística de Jesus

Por que Cristo quis permanecer presente na Eucaristia?

 

Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos; peço-Vos perdão pelos que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam. Amém!                                                                                                                                 

                                                                                          paraestarmenor

Não deixe Jesus sozinho no Sacrário da igreja de sua comunidade ou paróquia. Organize uma adoração, a mais constante possível, ao Santíssimo. Chame as pessoas, faça uma escala, divida o tempo para cada um: meia hora, uma hora, o quanto for possível.Podemos ter certeza que as chuvas de bênçãos descerão sobre a comunidade! Os jovens serão preservados do mau caminho, os pecadores serão convertidos, o demônio afastado, as calamidades afugentadas. Não é disto que estamos precisando?

A Igreja, desde o seu início, quis manter Jesus nos Sacrários da terra para alí ele ser amado, louvado e derramar sobre nós as suas bênçãos, e poder ser levado aos doentes.

 

Assista também: Como devemos venerar corretamente o Senhor presente na Eucaristia?

 

Sempre foi ao pé do Sacrário que os homens e mulheres de Deus buscaram forças e luzes para a sua caminhada. Foi ali que São João Vianney, conquistou o coração dos seus fiéis e se tornou o grande “Cura D’Ars”. Quando, recém ordenado padre, ele chegou a Ars, e encontrou alí uma paróquia sem padre há muitos anos, e as pessoas longe de Deus; a primeira coisa que fez foi ajoelhar-se diante do Santíssimo durante horas, rezando o rosário. Assim ele revolucionou aquele pequeno lugar e fez tantos prodígios.

No livro das suas Confissões, Santo Agostinho dá um testemunho marcante. Ele afirma que se converteu porque a sua mãe, Santa Mônica, entrava na igreja, três vezes por dia, e pedia a sua conversão a Jesus sacramentado.

Não há problema, qualquer que seja, que não possa ser resolvido diante do sacrário. Deus está ali. O que mais desejar?

Chiara Lubich disse certa vez que, enquanto houver a Eucaristia, o homem não caminhará sozinho, e enquanto houver um sacrário, não haverá solidão

Por que não devemos abandonar Jesus?

                                                                                   entraipelaportaestreita

 

 

Que grande riqueza a nossa, de podermos viver em um país católico, onde se pode encontrar com facilidade uma igreja, com as suas portas abertas, guardando no seu interior o Rei da Glória, que nos espera com as mãos cheias de graças!

 

 

 

Do livro, “Entrai pela Porta Estreita”. Ed. Cléofas.

 

 

 

FELIPE AQUINO - Escritor católico. Prof. Doutor da Universidade de Lorena. Membro da Renovação Carismática Católica

 

 

 

 

 

 

 

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:57
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PAULO R. LABEGALINI - É DANDO QUE SE RECEBE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alguns amigos convidaram Nadin para um piquenique. O bom humor imperava e o almoço sobre a relva era dos mais perfeitos, mas a animação do grupo foi interrompida por um incidente que fez todos correrem em direção ao rio. Um desconhecido tinha escorregado e estava dentro d’água – muito lodosa naquele local.

– Dê-me sua mão! Dê-me sua mão! – gritava Nadin.

Não houve reação do homem aflito, que não sabia nadar e continuava a engolir água. Estava a dois dedos de afogar-se quando o Sr. Abdala apareceu, reconheceu o sujeito no rio e disse:

– Afastem-se todos e deixem comigo!

Estendeu a mão direita para o homem que se debatia e falou:

– Pegue a minha mão! Pegue a minha mão!

Num rápido impulso, o desconhecido agarrou-se à mão de Abdala, que o tirou do rio. Em seguida, os curiosos perguntaram:

– Explique-nos, Sr. Abdala, por que ele não nos deu a mão, mas agarrou à sua imediatamente?

– É muito simples – respondeu. – Eu o conheço há muito tempo e sei que é um sujeito de avareza sórdida. Vocês nunca ouviram falar que os avarentos costumam tomar e nunca dar? Foi por isso que não lhe pedi que me desse a mão, como fez Nadin, mas que pegasse a minha.

Pois é, quanta gente só pensa em ter e não se importa com o ser, não é mesmo? Esta é a maior dificuldade do nosso trabalho aos pobres: poucas pessoas querendo repartir e, por consequência, não aceitando participar do Plano Divino de Salvação.

Nas Celebrações da Eucaristia, Jesus nos diz: “Eu vos dou a paz!”; e mais: dá-nos o Espírito Santo para santificar a nossa vida e de toda a Igreja. O Espírito de Deus tem a missão de nos iluminar para andarmos nas estradas de Jesus. Portando, tudo o que Cristo ensinou é inspirado pelo Espírito.

E quem não tem fé não entende como é possível Aquele que mais sofreu ser o mesmo que mais nos socorre e sempre nos perdoa. Meus olhos se extasiam diante dessa verdade, mas, infelizmente, muita gente é como São Tomé e insiste em não acreditar que é dando que se recebe. Isso tanto é verdade que Jesus continua sendo quem mais recebe amor e gratidão no mundo inteiro!

Quanto às ingratidões, que também são muitas, com certeza serão motivos de arrependimentos. Algumas pessoas terão saudades dos pobres pedindo um pedaço de pão à sua porta. Deus nos deu a vida e nos dá seu amor; deu-nos liberdade e nos dá sua Palavra; Ele nos deu a natureza farta e nos dá seu perdão; dotou-nos de inteligência e se oferece a nós com seu Corpo e Sangue! E o que fazemos com tudo isso? O que você oferece a Ele? Se é dando que se recebe, nossa resposta à tamanha misericórdia Divina deveria ser sempre: oração, justiça, serviço gratuito e caridade.

Jesus já venceu a morte e não precisa do nosso sangue derramado para agradá-lo, mas, através de simples gestos de amor, Ele permitirá entrarmos no Paraíso. Eu que, graças a Deus, tenho saúde, paz de espírito e fé no coração, valorizo cada suspiro do meu dia. Sirvo a Igreja Católica com alegria, tendo à frente a Virgem Maria, que Cristo nos deixou como Mãe. É a minha protetora de todas as horas e a amo imensamente!

Eu costumo dizer que havia quatro cruzes no Calvário: a primeira, de Cristo, até hoje representa a nossa salvação; a segunda, à direita de Jesus, estava o ‘bom ladrão’ Dimas, suplicando a misericórdia de Deus em remissão dos seus pecados; a terceira cruz suportou até o fim o peso do pecado, porque o ladrão que lá estava não usou da virtude do arrependimento para se salvar; e a quarta cruz foi ‘ocupada’ por Maria Santíssima, que suportou com firmeza o cruel e injusto sofrimento do seu Filho Santo.

Ela presenciou de pé a maior maldade humana da história sobre uma só Criatura. Deus a escolheu para estar naquela cruz porque sabia que nela podia confiar. E foi também confiando em Deus que Maria se tornou, com o seu exemplo, modelo de fé, de pureza, de amor e de fidelidade cristã. Com ela aprendemos que não existe sofrimento capaz de nos desviar das estradas de Jesus. À nossa frente, ela pisa na cabeça da serpente infernal e nos conduz, como filhos queridos, à cruz da salvação.

Neste Natal, peça a Nossa Senhora para livrar você da cruz da condenação e sempre curar as tristezas do seu coração. A cada dia, sempre que a sua cruz de pecador se tornar mais leve, lembre-se de agradecer: ‘Obrigado, minha Mãe querida! Eu lhe dei meus problemas e recebi favores do seu Imaculado Coração’.

Por amor ao Menino Jesus, sempre é dando que se recebe!

 

 

 

PAULO ROBERTO LABEGALINI - Escritor católico. Vicentino de Itajubá - Minas Gerais - Brasil. Professor doutor do Instituto Federal Sul de Minas - Pouso Alegre.‘Autor do livro ‘Mensagens Infantis Educativas’ – Editora Cleofas.

 

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:50
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HUMBERTO PINHO DA SILVA - O PUDOR DAS CRIANÇAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Recostada na cadeira de trabalho, em contraluz, diante da mesinha, revestida de toalha cor de canela, que tapa a braseira de cobre – onde, em frias tardes de Inverno, ardem brasas rubras, – a zelosa mãe, de agulha na mão, acerta os calções vermelhos, da filha amada.

Pelas extensas vidraças, viradas para a cidadela, penetra leve claridade, que envolve, a pequena salinha, em doce e deliciosa paz.

Luz desmaiada de fim de tarde de Verão. Lá fora, o céu azul profundo, acarmina- se, esmorecendo lentamente, em violeta – sanguínea e em luminosa poalha de oiro em fogo.

Silêncio.

A pequena salita, adormece lentamente em doce penumbra. Tudo se desvanece num misterioso encantamento: o aparelho de TV; o armário, pintado de branco, arrimado ao fundo; a toalhinha cor de canela, a mãe; os calções encarnados…Tudo se esvanece, esfuma-se, perdido na misteriosa luz acolhedora, de entardecer calmoso.

Vem da cozinha, intensamente iluminada, leve tilintar de vidros e metais; e pairam, no ar morno, adocicados e deliciosos odores a chocolate e açúcar acaramelado.

 É a filha mais velha que tem o bolo no forno.

De súbito, o repousante silêncio – convidativo à sonolência, – é rasgado por harmoniosa voz juvenil:

-“ Mãe!!! … Como se faz chantilly?”

Um sorriso de bondade aflora nos lábios finos da progenitora.

Depõe os calções encarnados, mais a agulha, sobre a mesa, e lançando meigo olhar para a filha – que de mangas arregaçadas, no limiar da porta, aguarda a esperada resposta, – diz:

- “Mistura manteiga com açúcar e bate muito bem…muito bem…muito bem…Depois, junta-lhe um cibinho de…”

Afobada, de braços balanceando, boca a transbordar sorrisos chilreantes, olhos vivos, espertos, luzindo de felicidade, entra a caçulinha, em grande estardalhaço.

Beija de fugida a mãe; abraça-a infectuosamente, como querendo dizer: - “ Gosto muito de ti! …”

Espicaçada pela curiosidade, aos saltinhos, quase pardalita travessa, a menininha interroga, ansiosamente a mana querida:

- “O que estás a fazer?!”

Ninguém lhe responde….

Amuada, despeitada, triste, de olhos fixos no vácuo, fica pensativa, a folhear velho caderno escolar, de capa azul, de folhas enodoadas, por muito ter sido manuseado.

Pela escancarada porta de vidro da varanda, entra, trazido pela brisa fresca de fim de tarde calmosa, à mistura com ruídos da rua: guinchos infantis e risos festivos de crianças. São os filhos do doutor ou do Major?

Ao longe, muito ao longe, galos de voz esganiçada, anunciam que começam a ser horas de recolher….

Agora, na salinha, tudo é quase trevas. Na semi-escuridão reluz apenas, na carinha morena, os luminosos olhos castanhos da meiga garotinha, que permanecem parados, tristes e meditativos.

Por sortilégio, quiçá de boa fada, de repente, tudo ganha brilhos e rebrilhos e nítidos contornos.

 Foi a mãe, que vindo da cozinha, acendeu as lâmpadas.

-“ Vamos provar?” – Diz, como se a convidasse

Nesse comenos, toca a campainha.

 Quem será?!

É a D. Flora, professora, amiga da dona de casa.

Dá repenicados beijinhos à menina e à mãe, e atira, com quatro dedos rechonchudos, beijos à que anda à volta com o bolo de chocolate, que rescende.

Conta novidades: casamento da Néné; maroteiras do filho do Dr. Bento; a lotaria premiada, vendida na Praça da Sé…

- “Vem menina! …Vem provar!” – Insiste, mais uma vez, a mãe, explicando, à visita, que vão a banhos para Foz de Arelho.

Encolhida, envergonhada, enleada, de faces rosadas, avizinha-se; e esta sem reparar no rosto anacarado de acanhamento, levanta-lhe a saia rodada, deixando as calcinhas, cor-de-rosa, à vista, e a perna nua.

Constrangida, humilhada, por se ver descomposta diante de estranhos, a pequenita fica a balancear: a brincar com os dedos das mãos…Com os dedos dos pés…Acariciando os macios cabelos castanhos de reflexos doirados…; mas as maçãzinhas do rosto, enrubescem-se de pejo…

A mãe é mãe. Não é “gente”. Despir-se diante dela, é normal…;mas na frente de visitas…

Indiferente ao comportamento da filha, nem repara no acanhamento, e continua a conversar – num cavaquear de amigas.

Este quadro familiar, tão simples, tão singelo, tão sem importância, não seria merecedor de registo, senão fosse o embaraço da mocinha.

Os pais, por vezes, esquecem-se que os filhos cresceram…Deixaram de ser garotinhos.

Há mães que pedem a empregadas para darem banho aos filhos, e vestem-nos diante de amigas. Olvidando que o pudor das crianças deve ser respeitado.

 A cena que vos trago, ocorreu há muito e muitos anos, quando os meninos e meninas eram recatados.

Agora, o pudor, parece estar a desaparecer…

O “progresso” deve-se, em parte, ao: ensino misto, à liberdade paterna e mormente à nefasta influência do cinema e TV.

Essa á vontade, por si, não é má nem boa. Mau é quando descamba em libertinagem e desrespeito pelo corpo.     

 

 

 

 

HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal  

 

 

 

                                                                                                



publicado por Luso-brasileiro às 18:49
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EUCLIDES CAVACO - NATAL DA MINHA TERRA
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Mais um poema de Natal que partilho com os meus amigos que embora não seja exactamente um poema novo , está sempre actualizado em cada Natal que passa. Ouça e veja o poema  aqui neste link:
 
 

http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Natal_da_Minha_Terra/index.htm
 


Desejos de BOAS FESTAS

 
 
 
EUCLIDES CAVACO - Director da Rádio Voz da Amizade , Canadá.
 
 
 
 
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publicado por Luso-brasileiro às 18:17
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Domingo, 13 de Dezembro de 2015
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - EM 2015, O SEGUNDO CENTENÁRIO DE DOM BOSCO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No presente ano de 2015 comemorou-se o segundo centenário do nascimento de Dom Bosco. “Dom” é o tratamento corrente usado na Itália para os sacerdotes, os anciãos e outras pessoas dignas de especial respeito. Vem do latim “dominus”, que significa senhor. Mesmo depois de canonizado São João Bosco, os membros da Congregação Salesiana, que ele fundou, continuam a se referir a ele, carinhosamente, como “Dom Bosco”, da mesma forma como o chamavam enquanto estava vivo. 

Nascido em Turim, em 1815, e falecido na mesma cidade em 1888, Dom Bosco foi um verdadeiro amigo da juventude, à qual consagrou o melhor de sua longa e fecunda existência. Dotado de carismas extraordinários, desenvolveu um sistema pedagógico inovador e conseguiu reunir em torno de si um prodigioso movimento de apostolado. Tinha frequentes sonhos de caráter sobrenatural, nos quais recebia luzes sobre o estado de alma de seus alunos e sobre acontecimentos do seu tempo e futuros. Embora sem recursos econômicos, com força de vontade e, sobretudo, com uma inabalável confiança em Maria Auxiliadora, conseguiu executar projetos apostólicos grandiosos em várias nações. Fundou duas congregações religiosas e um grande número de colégios, para a educação de meninos pobres. Foi precursor do ensino profissionalizante, modelo que depois se generalizou em vários países.

No início do século XIX, o processo de industrialização da Europa atraía para os maiores centros urbanos muitas famílias provenientes do meio rural. Ali, desenraizadas e sem formação religiosa e cultural adequada, viviam em condições precárias. Os homens trabalhavam em fábricas, com turnos de trabalho pesadíssimos, e muitas vezes gastavam em bebidas, nas tabernas, boa parte do que ganhavam. As mulheres cuidavam como podiam das casas e dos filhos menores, enquanto os mais crescidos, sem escolas nem formação adequada, andavam pelas ruas, aprendendo o que não deviam. O resultado é que assim se constituía o caldo de cultura ideal para desajustes sociais e vícios de todos os tipos. A criminalidade era crescente e tendia a escapar ao controle das autoridades.

Esse era o quadro geral das cidades maiores e mais industrializadas. Em Turim, capital do Reino do Piemonte, no Norte da Itália, era o que presenciava o jovem sacerdote João Bosco. As ruas viviam cheias de meninos de rua, abandonados e entregues ao léu. Para esses meninos, que no dialeto piemontês eram designados como “birichini”, Dom Bosco passou a proporcionar boa formação religiosa, cultural e profissionalizante. Reunia-os em grandes concentrações, denominadas “oratórios”, e ali lhes ministrava aulas de formação, ao mesmo tempo que jogos e diversões. Daqueles candidatos a futuros marginais, conseguia extrair todo o potencial humano que possuíam. Deles fazia ótimos pais de família, trabalhadores honestos e eficientes e encaminhava os mais dotados para os estudos superiores e as profissões liberais. Entre eles, também recrutava seminaristas e futuros sacerdotes.

A obra de Dom Bosco começou modesta e foi, pouco a pouco, crescendo e assumindo vulto grandioso. Sofreu perseguições políticas, teve em seu encalço invejosos, mas a tudo venceu. Os últimos anos de sua vida foram cercados de respeito e consideração gerais, pois sua fama havia ultrapassado muito os limites do Piemonte. Embora visasse, acima de tudo, o trabalho de formação dos meninos pobres, acabou exercendo enorme influência na vida social e política da época, sendo conselheiro de reis, de homens públicos e de Papas.

Foi apóstolo da boa imprensa, não somente escrevendo mais de 140 livros e opúsculos, mas chegando a constituir uma editora pujante e até a fundar uma fábrica de papel. Seus livros – em geral escritos com vistas à formação da juventude – atingiam tiragens espantosas, mesmo para os padrões de hoje. A fama de Dom Bosco chegou ao Brasil, onde reinava D. Pedro II e onde a Princesa Isabel, herdeira do trono, defrontava-se com um sério problema. Ela estava determinada a abolir a escravidão, mas preocupava-se com o futuro dos escravos, depois de libertos. Temia que, abandonados pelos antigos senhores, vivessem sem eira nem beira, em condições precárias, formalmente livres, mas de fato presos a um sistema que lhes impedisse o acesso a condições melhores de existência.

A Princesa tinha uma visão muito “avançada” para sua época. Compreendeu que somente a formação profissionalizante, novidade que Dom Bosco havia lançado no Norte da Itália, poderia ser adequada para assegurar, aos libertos do cativeiro, uma adequada inserção na sociedade brasileira. E escreveu a Dom Bosco, pedindo que mandasse missionários para o Brasil e oferecendo-se para ajudar. Houve uma troca de cartas entre o santo italiano e a princesa brasileira. E efetivamente, em 1881, chegaram ao Brasil os primeiros missionários salesianos, instalando-se em Niterói, em terreno conseguido pela herdeira do Trono.

Tinha assim início a grandiosa obra educadora e missionária dos filhos espirituais de Dom Bosco no Brasil.

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:14
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JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI - A IMPORTÂNCIA DA FAMÍLIA NA FORMAÇÃO DOS INDIVÍDUOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comemorou-se a oito de dezembro último o DIA INTERNACIONAL DA FAMÍLIA, uma celebração que objetiva destacar a importância do instituto como o primeiro grupo social do qual desde o nascimento tomamos parte e como o mais antigo agrupamento humano, constituindo-se ainda no núcleo vital da coletividade.

Infelizmente, nos últimos anos vários fatores têm contribuído para enfraquecer a identidade da família brasileira, como as agressões de certos meios de comunicação social, de uma publicidade permissiva e da difusão do uso descartável da sexualidade. No entanto, precisamos lutar constantemente por sua estabilidade, em prol da própria ordem social.

Com efeito por mais inovações que se pretenda implantar em relação à família, por mais que se tente colocá-la em segundo,  terceiro ou até último plano na escala de importância, não há como negar seu caráter  indispensável na vida de quem quer que seja. É ela quem garante a sobrevivência do indivíduo e providencia para ele o sentido da sua identidade.

Às suas finalidades principais - a procriação e o amor recíproco - aparece a circunstância eminentemente social  que  a torna um centro de socialização, de formação da pessoa em todos os níveis, fazendo com que essa dependência não se esgote apenas no aspecto biológico, mas abranja, também, o moral, o psíquico, o espiritual, etc. Como afirmou Plinio Sampaio, “a família é que providencia para o ser humano o sentido da sua identidade, do seu ser-pessoa, da sua singularidade e particularidade no corpo social” ( revista “Família Cristã”- 03/1985 – pág. 8). E essa questão adquire mais seriedade na medida em que a sociedade passa a desempenhar um papel negativo, sendo massificadora, opressora, agente de desidentificação. O  que exige da família atitudes mais coerentes nesse processo de formação, em que a pessoa aprende  a sentir-se sujeito dos direitos e deveres, a se libertar do egoísmo; cresce na fé; se adestra, enfim, para contribuir ativamente na construção de um novo corpo social.

Vale reiterar que, partindo da concepção de que se situa na origem não só da existência, como também do desenvolvimento pessoal, estamos diante de uma entidade jurídica que não pode ser vista como algo descartável ou ultrapassado. Ao contrário, ela se insere numa realidade muito concreta, na qual lhe cabe o importante papel de participação na formação de indivíduos aptos a viverem em agremiação e contribuírem para seu aperfeiçoamento.

 

 

 

 

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, jornalista, escritor e professor universitário. É presidente da Academia Jundiaiense de Letras.



publicado por Luso-brasileiro às 18:08
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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - ASSOPRAR AS DORES
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

O menino se sustenta em pernas franzinas. Às vezes, diante de sua silhueta, creio que um vento forte possa empurrá-lo à terra do Mágico de Oz. Sustenta sua infância, com direito a brincar, em gravetos que encontra pelo chão, em carrinhos simples de plástico. Enquanto se entretém nas rodinhas gastas, conversa, animado, com seu amigo imaginário. Há gente que o enxerga falando sozinho e diz que é de maluquices.  Eu o vejo em fuga dos momentos de abandono. Pode não saber o conceito da palavra solidão, contudo o sentimento que ela produz é perceptível desde a mais tenra idade, ou, talvez, a partir do útero materno.   E existe alguém que jamais usou de subterfúgios para afastar os desertos? Solidão por ausências dói demais. A escapatória é o amigo imaginário, com quem ri de gosto.

O pai do menino não está e com a mãe se encontra pouco. O jeito, portanto, é tomar conta de si mesmo, do modo que sabe. Quando lhe perguntam a idade, escancara uma das mãos. Cinco anos completos.

Um dia desses, caiu na calçada e arranhou o joelho. Não reclamou e nem chorou.  São manifestações para quem é ouvido.  Dobrou-se em direção da perna e começou, com a unha, a raspar as peles levantadas.  Sua maneira de proteger os ferimentos, procurando encobrir os sinais, quem sabe com o propósito de não o advertirem em casa pelo descuido.

Interrompi-o e lhe disse que faria um curativo. Continuou silente, mas veio comigo.  Limpei o local, passei o remédio e coloquei um Band-Aid. Não era preciso tanto, todavia, ao perceber a expressão do menino, enquanto tratava de seu joelho, me fez prolongar o cuidado. Ele olhava em direção ao alto, como se chamasse alguém a fim de verificar a preocupação com ele. Emocionei-me. Tão pouco para uma reação tão forte e terna! Veio-me o profeta Elias no monte Horeb (1 Reis, 19, 9-13). Aguardava que o Senhor passasse. Ele não estava no vento impetuoso, que desfazia as montanhas e quebrava os rochedos. Não estava no terremoto e no fogo. Ouvi-se, depois, o murmúrio de uma leve brisa.  Deus estava nela. Naqueles momentos, através do menino, na afetividade da alma, Deus passou, por mim. Quanto é maravilhoso a experiência da meiguice de Deus!

Compreendo que Deus se faz presença suave ao se assoprar a dores dos mais frágeis e emudece na indiferença e na rispidez.

 

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE   -    Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.



publicado por Luso-brasileiro às 18:03
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CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - CRISE ÉTICA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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            Acredito que o país esteja vivendo uma gigantesca crise ética. Não posso falar sobre períodos que não vivi, mas dentro da minha experiência de vida como cidadã consciente, parece-me uma das fases mais áridas em termos de transparência, integridade, confiança e esperança, seja no setor público ou seja na vida privada.

            As pessoas, de um modo geral, estão descrentes nas instituições, eis que a cada dia se descobre um novo esquema de lavagem de dinheiro, de falcatruas ou de outra série quase infindável de meios de “apoderamento do alheio”. Diante de tanta gente inidônea, sem escrúpulos, vai ficando difícil ter boa-fé, acreditar na palavra alheia, até por medo de ser feito de idiota.

            Ao contrário do que pode aparentar, essa crise ética não se restringe ao aspecto político, embora seja nessa área que a situação esteja mais visível. Particularmente, acredito que haja políticos probos, mas não consigo mais confiar no meu poder de separar o joio do trigo e, assim como grande parte dos brasileiros, estou enjoada de ler jornal, de assistir aos noticiários e, a cada momento, ter o desejo de acordar do pesadelo moral pelo qual nosso país passa.

            Está difícil saber em quem acreditar e no que acreditar. Cada um tem a sua versão e, em geral, as provas demonstram que os dois lados mentem ou ocultam pontos cruciais. Mais do que pontos de vista divergentes, temos somente versões falsas, distorcidas para favorecer interesses escusos. Tal como o personagem central da obra machadiana “O Alienista”, começo ter a sensação de que errados estão aqueles que honram com seus compromissos, sejam eles financeiros ou não.

            Ninguém e nada está a salvo. Saúde, educação, segurança, justiça, governo, tudo está na alça de mira e sendo objeto de investigação. Penso, no entanto, que a crise moral e ética está tão disseminada, que atinge a célula base da sociedade, que é a família. Ao contrário do que os mais conservadores podem supor, não me refiro às questões das novas configurações familiares. Refiro-me mesmo à falta de respeito, de cuidado e de amor. Quando a mão que balança o berço desincumbe-se, outras mãos se apoderam do sono dos inocentes.

            Confesso que temo pelo futuro do nosso país, pelas gerações que surgem em meio ao descaso de pais indiferentes ou sobrecarregados. Temo pela desesperança que nos assola, enquanto tributos “alternativos” vão sendo discutidos como panaceia para cobrir rombos de gente desonesta.

            Enquanto o verde louro da nossa bandeira vai encardindo pela sujeira que é excretada do Poder, o azul de nossos rios e mares vai ficando palidamente poluído. Enquanto a briga for por ser vermelho ou não, deixamos de pensar com transparência e, entre ações e omissões, vamos ferindo de morte a nossa pátria mãe gentil...

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.  -  cinthyanvs@gmail.com

 



publicado por Luso-brasileiro às 17:58
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