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Domingo, 20 de Novembro de 2016
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - MEDO DO ESCURO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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            E todas as noites era a mesma coisa. A mãe acabava de contar a estorinha e ele começava a fazer mil perguntas, querendo saber quem escreveu aquele livro, o que acontecia com a mocinha depois que ela era salva, quantos anos os três porquinhos tinham e mais tudo o que lhe viesse pela cabeça. De início a mãe pensou que talvez ele pudesse crescer e se tornar um escritor, mas não demorou a descobrir que tudo era um expediente para que ela ficasse com ele mais tempo, tudo para que não ficasse sozinho em seu quarto.

            O menino se perguntava como é que as pessoas davam conta de crescer, pois era preciso, antes de mais nada, sobreviver aos monstros que habitavam os armários e que se rastejavam embaixo da cama e que, pior de tudo, apenas davam as caras medonhas quando tudo estava escuro, sem algum adulto por perto. Muitas coisas eram necessárias para escapar ileso. O primo, por exemplo, tinha conseguido resolver esse problema, pois convenceu o pai a trocar de lugar com ele. Para isso, é claro, foi preciso muita birra, pesadelos e lágrimas. Mas dera certo! Agora com ele a coisa era diferente: os pais eram jogo duro. Ele bem que tentou, mas antes que as broncas virassem um castigo mais sério, resolveu que seria preciso criar estratégias.

            Por algum tempo, desse modo, ele enganou a mãe. Fazia as tarefas correndo e reservada ao menos uma hora para dar uma olhada no livro que pediria para ser contado à noite, já tentando antecipar as perguntas que poderia fazer. Não dava para ser amador. Ele tinha que convencer a mãe de que tinha dúvidas, curiosidades e inquietações sobre os enredos dos pequenos livretos que ela lia para ele. Não que ele não gostasse das estórias, mas é que quando elas se aproximavam do final ele começava a ficar com tanto pavor que perdia o fio da meada e, suando frio, ficava incapaz de formular qualquer pergunta com sentido.

            Quando a mãe se deu conta das verdadeiras motivações dele, estabeleceu, um tanto desapontada, que continuaria com o ritual de contar estórias, mas que tão logo acabasse, apagaria a luz e todos iriam dormir! Como se ele pudesse!! Quisera ele tudo fosse tão simples como a mãe desejava. Será que ela não fora criança? Ou será que naquele tempo os monstros ainda não haviam invadido os quartos? Tudo o que ele sabia era que bastava estar sozinho no escuro que as coisas começavam a ficar diferentes.

            Ele até já conhecia alguns dos monstros, o que não significava que gostasse ou fosse amigos deles. Era apenas uma questão de reconhecimento. Tinha o peludo que morava no guarda-roupa e que adorava ficar grudado nos casacos de frio, só para não ser encontrado quando acendiam as luzes. O que mais dava medo nele eram os esquisitos que ficavam embaixo da cama. Por causa deles ele era obrigado a não deixar nenhuma ponta dos pés para fora da cama, de preferência deixando-os cobertos, mesmo no calor de lascar. Tudo o que rolava lá para baixo ficava perdido para todo sempre, pois ele que não era louco de enfiar suas mãos lá debaixo. Quando fez isso uma vez, o dedo saiu furado, com uma gotinha de sangue. De nada adiantou gritar para que a mãe o socorresse, porque tudo que ela fez foi dar risada dele, mostrando que ele se machucara em um espinho, provavelmente trazido pelo próprio sapato dele.

            Alguma coisa deveria acontecer com os adultos, ele pensava. Deveriam ficar cegos para muitas coisas. Só podia. A mãe dizia que isso era até verdade de certa forma, mas que não incluía deixar de ver monstros. Ao contrário, dizia ela, quando ele se tornasse adulto, veria que os monstros são bem piores do que ele achava, mas que não eram do tipo que ele tinha medo. Ele não entendia como a mãe achava que isso poderia deixa-lo mais calmo, porque ele não queria mais era ver monstros de nenhuma espécie, embora a mãe dissesse que isso não era possível.

            Um dia, depois que mãe disse boa noite, ele resolveu que iria enfrentar o que fosse. Que viessem o peludo e os esquisitos! Ele não iria mais ser um prisioneiro no seu próprio quarto. Assim que as luzes se apagaram ele pulou da cama, armado de um crucifixo e de uma espada de brinquedo, resolvido a matar ou a morrer, ainda que de susto. Quem sabe assim alguém lhe desse ouvidos? Levantou de repente, para ter o elemento surpresa e acendeu as luzes. Com o coração aos pulos, olhou para todos os lados e, assim que conseguiu se mexer, constatou que era apenas um quarto vazio. Deveria mesmo tudo ser uma imensa bobagem da parte dele. Respirou fundo e deitou-se novamente, agora com a rebeldia de deixar os pés para fora, atirando a espada para debaixo da cama.

            Poucos segundos depois, estava dormindo profundamente e sequer pode escutar as vozes que, no escuro, desejaram a ele boa noite, dando adeus à infância que um dia vivera naquele quarto....

 

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.  -  cinthyanvs@gmail.com



publicado por Luso-brasileiro às 19:25
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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - CORDÃO VERMELHO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Fomos, em nove de novembro, ao Carmelo São José para dar graças a Deus pelos 34 anos da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena e 21 anos da Associação Maria de Magdala. Viver esse momento de gratidão, juntamente com as Monjas da Ordem da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, é sinal da misericórdia de Deus. As expectativas por esse dia vão além da percepção humana.  Chegamos lá com marcas da aridez do mundo, com as nódoas, dores e feridas que carregamos de nossa história pessoal, com os desenganos, as dúvidas e o ceticismo da sociedade - cada vez mais individualista e descrente em valores do Céu.   Fomos acolhidas pela singeleza e beleza dos lírios brancos e róseos, em meio aos ramos de oliveira, nos vasos da capela em festa. Sinais de pureza, meiguice e da entrada de Jesus Cristo em Jerusalém, em direção à cruz, que nos oferece o renascer.
Tudo tão lindo e do Altíssimo: a entrada na capela pelo corredor central, os cânticos, a Missa celebrada por nosso assessor espiritual Padre José Brombal, com a participação do Diácono Boanerges, a lembranças preparadas pelas Irmãs com Jesus Misericórdia, o encontro com elas no locutório, plenas de preces, sorrisos e olhares que acolhem e oferecem o ombro; o interesse delas por quem veio e a preocupação com quem não estava... O mundo, sem dúvida, tem dificuldade para compreender esse aproximar da santidade do Carmelo com quem a ele se submeteu ou ainda se submete, em algum momento, nas artimanhas do abuso sexual infantojuvenil, na promiscuidade e na  exploração do comércio do sexo, nas fugas através do álcool e das drogas, nos desvios tantos...
Lembrei-me muito de Raab, cuja história é narrada no Livro de Josué (2), a prostituta que reconheceu que o povo que chegava à terra de Canaã era de Deus.  Acolheu-os e pediu a salvação para ela e sua família. Foi-lhe indicado que, para ser reconhecida como mulher de fé, deveria colocar um cordão vermelho na janela de sua casa. Alcançou a salvação, bem como os seus. E Raab consta da genealogia de Jesus Cristo (Mt 1, 5).
No Carmelo, mulheres de Deus, filhas de Santa Teresa D’Ávila, cuja vida entregaram para glorificá-Lo e para a salvação da humanidade, tecem, a cada visita, com as mulheres da Pastoral, fios do cordão vermelho que marcará a construção/reconstrução de cada uma como imagem e semelhança do Senhor.
 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE -

 Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.



publicado por Luso-brasileiro às 19:22
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RENATA IACOVINO - AQUECENDO O CORAÇÃO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

           

            As estações mais frias sempre foram minhas preferidas. O outono, como um prenúncio de dias mais gélidos que virão logo adiante, com suas cores, a presença mágica de um sol que parece querer nos dizer algo, as flores e o tempero ideal de um clima que não é tão lá nem cá.

            Depois, vem ele, o tão temido inverno, que dizem nos desencorajar a sair de cama, de casa, a entrar e sair do chuveiro, a namorar, a sentir-se bem, por fim. Meu lado "do contra" fez desta estação minha melhor amiga. Nenhuma das tantas dificuldades apontados pelo time adversário me fez mudar de lado. A mim traz um conforto e uma sensação prazerosa, sentimento este que não consigo ter no verão...

            Digo isto do alto de minha privilegiada condição de vida, gozando de bons agasalhos, de equipamentos que podem me aquecer e de uma casa para me proteger.   Certamente não seria esta minha opinião caso não dispusesse de todo este aparato ou se vivesse em condições precárias, como tantas pessoas a perambular por ruas e calçadas, sem destino. Ou com apenas um destino certo: viver para morrer. Sim, todos nós vivemos para morrer, mas temos oportunidade de protelar essa sina, multiplicando nossa duração por aqui, enquanto que eles...

            Mas esse friozinho está atrelado, em minha memória, às festas juninas, ou quermesses, como preferir você, meu caro leitor.

            Esperava ansiosa pelo mês de junho! Quanto dançar quadrilha, receber correio elegante, tomar quentão, vinho quente e comer um pouco de tudo, até voltar pra casa abarrotada, como se não pudesse desfrutar nada daquilo no decorrer do ano.

            Meu discurso parece soar no sentido de que toda essa atmosfera não existe mais. Mas existe, as festas estão aí, e até se prolongam pelo mês de julho, agosto...

            Soltar balões é um ato que, com o passar do tempo, foi banido, devido ao seu perigo inerente. Creio que o único aspecto que, por vezes, não encontramos, em sua tradição, são as músicas. As inigualáveis composições de Mário Zan, Luiz Gonzaga, Lamartine Babo, Benedito Lacerda, Zé Dantas e outros, acabam sendo substituídas por um sertanejo que foge à sua própria raiz, ou ainda, pelo country.

            Porém, ainda assim, aqui e acolá, o autêntico espírito junino pode ser encontrado e desfrutado, em praticamente todos seus aspectos. Aproveitemos o que esta estação nos oferece de bom!

 

 

 

 

RENATA IACOVINO, escritora e cantora / www.facebook.com/oficialrenataiacovino/



publicado por Luso-brasileiro às 19:14
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JOSÉ RENATO NALINI - NÃO OUSE PREVER

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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O homem planeja e Deus sorri! Ou seja: vãs todas as pretensões humanas de prever o futuro. Voltemos a cinco anos atrás e imaginemos quais teriam sido as nossas previsões para 2016. Alguém teria pensado naquilo que aconteceu em nossa cidade, nosso País, nos Estados Unidos?

A eleição de Donald Trump não foi algo crível por uma considerável parcela da população mundial. Mas aconteceu. E um grande aprendizado pode ser extraído a partir do inesperado. Primeiro, venceu o “outsider”, um empreendedor, um comunicador, um milionário. Tudo, menos um político profissional, desses que são há muito tempo filiados a um partido e disputam todas as eleições.

Há um natural cansaço da política, embora ela seja tão importante. Ainda não se descobriu uma fórmula de coordenar o convívio, senão mediante delegação de poderes a um representante que passa a agir em nome dos representados.

Estes parecem não estar contentes com a espécie de representação que o sistema oferece. Daí a urgência de uma reforma política. Não só nos Estados Unidos, mas muito mais perto de nós.

Outra lição que resulta dessa eleição é que o “politicamente correto”, quando excessivo, causa fratura do material. Daí ter vencido quem prometeu cuidar primeiro de casa, para depois se interessar pelo quintal alheio.

Quem prometeu emprego. Quem prometeu infraestrutura, hospital, escola, mais soldados para garantir a segurança pública. Lembra o provérbio chinês : “quando você quiser reformar o mundo, dê primeiro três voltas dentro de sua própria casa”. A vocação de tutor da Democracia Universal, assumida por inúmeros governos, deixou os americanos à deriva, com os dolorosos vestígios da violenta crise de 2008, cujas cicatrizes não foram sanadas.

O que aconteceu em grande escala nos States pode ser interpretado como tendência mundial, até para o microcosmos do pequeno município.

Um prefeito, por exemplo, deve ser um bom síndico. Síndico atento do condomínio ampliado que é a comunidade citadina. O povo quer seriedade, trabalho, administração eficiente. Não é necessário grandes novidades. Os discursos grandiloquentes já não convencem. O arroz e feijão bem temperado já satisfaz quem está desgostoso com promessas irrealizáveis.

 

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 13/11/2016

 

 


JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.



publicado por Luso-brasileiro às 19:13
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FELIPE AQUINO - HOJE SE COMPLETA 1 MÊS DA CANONIZAÇÃO DO JOVEM MÁRTIR SÃO JOSÉ LUIS SÁNCHEZ DEL RIO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Suas últimas palavras antes de ser fuzilado foram: “Nos vemos no Céu. Viva Cristo Rei! Viva sua mãe, a Virgem de Guadalupe!”. José tinha apenas 13 anos.

 

No dia 16 de outubro de 2016, o Papa Francisco canonizou o menino São José Luis Sánchez del Río, o padroeiro dos adolescentes mexicanos, que morreu mártir aos 13 anos, quando deu a vida por sua fé na guerra dos Cristeros; suas últimas palavras foram: “Viva Cristo Rey e la Virgen de Guadalupe!”. É uma história real que muitos cristãos ainda não a conhecem.

Em 1925, o Papa Pio XI escreveu uma Encíclica sobre o reinado de Jesus, chamada “Quas Primas” e instituiu a festa de Cristo Rei do Universo no último domingo do Ano Litúrgico. O Papa queria abrir os olhos dos cristãos para que escolhessem a Jesus e não aos ditadores que surgiram nesta época, e escolhessem o Evangelho e não a essas ideologias.

Então, o século XX foi o que mais mártires gerou em toda a história da Igreja. E nisto convém recordar que o testemunho impressionante dos mártires do México de 1926 a 1929.

Logo após a independência do México, em 1855, desencadeou-se a revolução liberal maçônica com toda a sua virulência anticristã, quando chegou ao poder Benito Juárez (1855-72). Pela Constituição liberal de 1859, estabelecia-se a nacionalização dos bens eclesiásticos, a supressão das ordens religiosas, a secularização de cemitérios, hospitais e centros beneficentes etc. Seu governo também deu apoio a uma Igreja mexicana, precária tentativa de criar, em torno de um pobre padre, uma Igreja cismática.

O governo decidiu acabar com a fé católica no país, pois achava que o cristianismo era uma invenção dos homens e que se o povo respeitasse e obedecesse os padres, isso diminuiria o poder do governo. O pior presidente foi Plutarco Elías Calles; ele criou leis para fechar todas as igrejas, prender e matar os padres, freiras e até quem trouxesse no peito uma cruz, era a “lei Calles”.

Os católicos perderam seus direitos de ir ao cinema, usar transporte público, os professores perderam os empregos. O Papa Pio XI tentou negociar com o governo, mas de pouco adiantou. Ser Padre era considerado crime e a pena era a morte.

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Leia tambémSánchez del Río: um menino mártir na história do México

Os mártires da Revolução Mexicana

O que foi a Guerra Cristera?

 

Neste contexto, um garoto chamado José Sanchez del Rio, que era coroinha, viu os soldados comunistas entrarem a cavalo na sua igreja e enforcarem o velho sacerdote. O garoto procurou o movimento dos rebeldes católicos, os “Cristeros”. Eles estavam formando um exército para salvarem os padres, defenderem seu direito de participarem da Santa Missa e ter uma religião. A cristandade mexicana sustentou uma luta de três anos contra os Sem-Deus da época, que haviam imposto a liberdade para todos os cultos, exceto o culto católico, submetido ao controle restritivo do Estado, à venda dos bens da Igreja, à proibição dos votos religiosos, à supressão da Companhia de Jesus e, portanto, de seus colégios, ao juramento de todos os funcionários do Estado em favor destas medidas, à deportação e ao encarceramento dos bispos ou sacerdotes que protestassem. Pio IX condenou estas medidas, assim como Pio XI expressou sua admiração pelos Cristeros.

Em Guadalajara, no dia 3 de Agosto de 1926, cerca de 400 católicos armados encerraram-se na igreja de Nossa Senhora de Guadalupe. Eles gritavam: “Viva Cristo Rey e la Virgen de Guadalupe!”. Iniciou-se assim o movimento revolucionário por iniciativa do povo, em defesa de sua fé, que ficou conhecido como “Cristiada” [1926-1931]. José Sanches era um deles. Disse: “Quem é você se não se levanta e se põe de pé, para defender o que acredita?!”

 

Assista também: Conheça Sánchez del Río, novo santo mexicano

 

Por ser o menor, José ia a frente dos revolucionários com um estandarte com a imagem da Virgem de Guadalupe. Muitos cristãos morreram em combate. José escreveu à sua mãe: “Nunca foi tão fácil ganhar o Céu.”

Numa dessas lutas, o general dos Cristeros perdeu o cavalo e ia ser capturado. José lhe disse: “Meu general, aqui está meu cavalo, salve-se o senhor, mesmo que me matem! Eu não faço falta, o senhor sim”. Foi dessa forma corajosa que José foi capturado.

Da prisão escreveu à mãe: “Minha querida mãe, fui feito prisioneiro em combate neste dia. Creio que nos momentos atuais vou morrer, mas não importa, nada importa, mãe. Resigna-te à vontade de Deus; eu morro muito feliz porque no fim de tudo isto, morro ao lado de Nosso Senhor. Não te aflijas pela minha morte, que é o que me mortifica. Antes, diz aos meus outros irmãos que sigam o exemplo do mais pequeno, e tu faça a vontade do nosso Deus. Tem coragem e manda-me a tua bênção juntamente com a de meu pai. Saúda a todos pela última vez e receba pela última vez o coração do teu filho que tanto te quer e tanto desejava ver-te antes de morrer”.

Chegaram a chicotear os pés de José e o obrigaram a caminhar por uma estrada de pedras para que renunciasse sua fé, mas o menino permaneceu firme. Enfim foi condenado a morte, suas últimas palavras antes de ser fuzilado foram: “Nos vemos no Céu. Viva Cristo Rei! Viva sua mãe, a Virgem de Guadalupe!”. José tinha só 13 anos quando morreu em 10 de fevereiro de 1928.

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Quando o Papa Pio XI soube de José e o que os cristãos estavam sofrendo no México, escreveu: “Queridos irmãos, entre aqueles adolescentes e jovens existem alguns – e eu não consigo segurar as lágrimas ao recordá-los – que, levando nas mãos o rosário e aclamando Cristo Rei, sofrem espontaneamente a morte.”

José Sanchez del Rio foi beatificado em 2005 e o Papa Emérito, Bento XVI, esteve rezando junto as suas relíquias. É um extraordinário exemplo de fé e amor a Jesus Cristo, Rei do Universo. Que neste dia o eco de suas palavras nos faça pensar: Quem sou eu se não me levanto e não me ponho de pé, para defender o que acredito?!

São José Sanchez del Rio, mártir de Cristo Rei, rogai por nós!

 

 

 

FELIPE AQUINO Escritor católico. Prof. Doutor da Universidade de Lorena. Membro da Renovação Carismática Católica.



publicado por Luso-brasileiro às 18:44
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PAULO R. LABEGALINI - TUDO DEPENDE DE NÓS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Era uma vez um lugar chamado ‘Cidade dos Resmungos’, onde todos resmungavam, resmungavam e resmungavam. No verão, reclamavam que estava muito quente; no inverno, que estava frio; quando chovia, as crianças choramingavam porque não podiam sair; se fazia sol, queixavam que não tinham o que fazer.

Os vizinhos se estranhavam, os pais brigavam com os filhos, e os irmãos batiam nas irmãs. Todos tinham algum problema e reclamavam que alguém deveria fazer alguma coisa. Um dia, chegou na cidade um mascate carregando um enorme cesto às costas. Uma semana depois, ao perceber toda aquela inquietação e choradeira, pôs o cesto no chão da praça e gritou:

– Ó cidadãos! Os campos estão abarrotados de trigo e os pomares carregados de frutas. As cordilheiras são cobertas de florestas espessas e os vales banhados por rios profundos. Jamais vi um lugar abençoado por tamanha abundância! Por que tanta insatisfação? Aproximem-se e lhes mostrarei o caminho da felicidade.

Ora, a camisa do mascate estava rasgada e poluída. Havia remendos nas calças e buracos nos sapatos. As pessoas riam ao pensar que alguém como ele pudesse mostrar-lhes como ser feliz; mas, enquanto riam, ele puxou uma corda do cesto e a esticou entre dois postes na praça da cidade. Então, segurando o cesto diante de si, gritou:

– Aqueles que estiverem insatisfeitos escrevam seus problemas num pedaço de papel e ponham aqui dentro. Trocarei seus aborrecimentos por felicidade!

A multidão se aglomerou ao seu redor e ninguém hesitou diante da chance de se livrar dos problemas. Todo homem, mulher e criança da vila, rabiscaram suas queixas e as jogaram no cesto. Em seguida, observaram o mascate pegar cada problema e pendurá-lo na corda, de um extremo a outro. Então ele disse:

– Agora, cada um deve retirar desta linha mágica o menor problema que puder encontrar.

E todos correram para examinar as anotações. Procuraram, manusearam os pedaços de papel e ponderaram, cada qual tentando escolher o menor problema. Depois de algum tempo, a corda estava vazia.

Eis que muitos seguravam os próprios problemas que haviam colocado no cesto, julgando serem os menores na corda. Daí por diante, o povo daquela cidade deixou de resmungar o tempo todo. Sempre que alguém sentia o desejo de reclamar, pensava no mascate, percebia que o seu problema era o menor daquela cidade e que só dependia de si mesmo para resolvê-lo, tornar-se mais feliz, inclusive ajudando a resolver os problemas dos outros.

E para melhor caracterizar o quanto cada um de nós pode ajudar a si e ao próximo, eis outra história:

Um monge peregrino e de poucas palavras foi ao encontro de um homem que estava com baixa autoestima e, portanto, em profunda depressão. Logo que o avistou no bosque, percebeu que ele abaixou a cabeça e evitou mostrar sua tristeza. O religioso, então, puxou conversa:

– O que faz aqui sozinho?

– Sou um ex-criminoso, perdi o afeto dos meus amigos e não tenho esperança de sair da lama em que me encontro.

– Podemos caminhar um pouco para conversar?

– Não quero. Sei que ninguém pode me ajudar. Vou morrer aqui neste lugar!

– Mas eu preciso da sua ajuda, meu senhor. Pode ao menos segurar esta corda para eu descer até o riacho e beber um pouco d’água?

Depois de algum tempo lá embaixo, o monge gritou:

– Já bebi bastante. Pode puxar!

Com toda a força, o homem tentou erguê-lo, mas não conseguiu. Tentou novamente, e nada! Foi quando viu que o monge segurava-se numa pequena árvore e evitava ser içado. Então, meio bravo, o robusto homem, mesmo deprimido, desabafou em alta voz:

– Que brincadeira boba é essa? Eu tentando ajudá-lo e você propositalmente resistindo?

Lá de baixo, o monge respondeu:

– Só estou retribuindo o que o senhor tem feito com todos que tentam ajudá-lo!

Pois é, tudo depende de você, leitor. Tudo também depende de você, leitora. Se desejam mudar qualquer tipo de situação, é necessário se desprenderem das ideias negativas que os impedem enxergar os melhores caminhos – da verdade, da justiça e do amor.

Lembrem-se que situações caóticas sempre abrem espaço para questionamentos, aprendizados e, como há várias maneiras de ajudarmos a melhorar determinados problemas, podemos também nos unir em favor de ações nobres que promovam a vida.

Sabemos que há centenas de voluntários que buscam amenizar a dor e devolver dignidade e esperança a muitos seres humanos. São pessoas abençoadas que ouvem apelos de carinho ecoando a todo instante. E essa legião pode aumentar se continuarmos aceitando os convites que Jesus nos faz. Não resistam a isso e sempre será Páscoa para nós!

 

 

 

PAULO ROBERTO LABEGALINI - Escritor católico. Vicentino de Itajubá - Minas Gerais - Brasil. Professor doutor do Instituto Federal Sul de Minas - Pouso Alegre.‘Autor do livro ‘Mensagens Infantis Educativas’ – Editora Cleofas.

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:34
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HUMBERTO PINHO DA SILVA - O PINTOR DA RIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conheci-o no matutino: “ O Primeiro de Janeiro”. Mais tarde, tive oportunidade e o prazer, de o visitar, na sua casa, no Porto, onde apreciei magníficos quadros, e assisti, encantado, às derradeiras pinceladas de aguarela, que representava interessante e curioso rincão da Ria de Aveiro

Daniel Constant, era pintor, mas era, igualmente: jornalista notável e cronista excecional.

Ganhou celebridade e tornou-se conhecido, por ter usado técnica peculiar e inimitável, que lhe permitia fazer aguarelas magníficas.

Seus lírios, apesar de serem apenas aguadas, disformes e esfumadas, tinham vida, e beleza invulgar, que os tornavam inconfundíveis.

Aprendera a técnica com artistas japoneses, que lhe permitia obter a humidificação do papel, durante o tempo necessário para ultimar a aguarela.

No pincel, apenas existia a tinta, tal qual saia da bisnaga; a água estava no papel, que ficava de molho a noite inteira, mergulhado numa solução, cuja formula nunca me revelou.

Numa tarde quente de Maio, teve a amabilidade de me receber, na sua bela residência. Na ocasião, interroguei-o: -” Por que não expõe no estrangeiro?!; em Paris, por exemplo, como fizeram, e ainda fazem, os artistas de nomeada?!”

Encarou-me de frente, sorrindo, e respondeu-me deste jeito: - “ Se fosse mais jovem, talvez; agora: não! Os quadros vendem-se facilmente e por bom preço, mesmo sem sair da minha cidade…”

 

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Nasceu o artista, em Matosinhos, no ano de 1907; mas desde os seis anos, conviveu com a Ria, por ter vivido em S. Jacinto. Dai a paixão pela Ria e pelos barcos moliceiros.

Em 11 de Junho de 1992, foi homenageado pela Câmara Municipal de Ovar. Informaram-no que seria atribuído, o seu nome, a rua da cidade.

Daniel Constant, viveu no Porto, na Rua do Bolhão, na companhia da esposa, a Senhora D. Adelina Conceição Ludovico Constant.

Como a mulher era algarvia, passava o tempo de férias, junto do Promontório de Sagres, onde possuía casa.

Com ele iam as sobrinhas. - O aguarelista gostava de se divertir com as crianças: contava-lhes histórias e jogavam jogos tradicionais.

Diante do mar azul e imenso: pintava, pescava e passeava, com a mulher. Deste modo decorriam, de jeito simples, as férias algarvias.

Como jornalista do periódico: “ O Primeiro de Janeiro”, foi encarregado, durante anos, da secção: “ Turismo & Gastronomia”.

Era excelente cozinheiro e autor de vários livros de culinária. Chegou a cozinhar, na residência de amigo, saboroso almoço, para o Senhor D. Duarte, pai do actual Duque de Bragança.

Normalmente exponha, periodicamente, na cidade do Porto; em regra, na galeria do jornal onde trabalhava.

As aguarelas, de rara beleza, “ voavam” em poucos dias; e eram disputadíssimas pelos mais conhecidos colecionadores de Arte.

Os temas retratados eram quase sempre: flores, Aveiro e a formosa Ria. Ricos em cambiantes, largas pinceladas, de luminosidade fascinante, que a todos encantava.

 

 

 

HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal



publicado por Luso-brasileiro às 18:30
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EUCLIDES CAVACO - BALADA DA CHUVA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hoje amanheceu chuvoso e parece ir manter-se assim. Veja e ouça aqui este poema declamado inspirado na chuva:

 

 


http://www.euclidescavaco.com/Poe…/Balada_da_Chuva/index.htm

 

 

 

EUCLIDES CAVACO - Director da Rádio Voz da Amizade , Canadá.

 

 

 ***

 

 

 Horário das missas em, Jundiai ( Brasil):

 

http://www.horariodemissa.com.br/search.php?opcoes=cidade_opcoes&uf=SP&cidade=Jundiai&bairro&submit=73349812

 

 

 Horário da missas em São Paulo:


http://www.horariodemissa.com.br/search.php?uf=SP&cidade=S%C3%A3o+Paulo&bairro&opcoes=cidade_opcoes&submit=12345678&p=12&todas=0

 

http://www.horariodemissa.com.br/search.php?uf=SP&cidade=S%C3%A3o+Paulo&bairro&opcoes=cidade_opcoes&submit=5a348042&p=4&todas=0

 

 

 Horário das missas na Diocese do Porto( Portugal):

 

http://www.diocese-porto.pt/index.php?option=com_paroquias&view=pesquisarmap&Itemid=163

 

 

 

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publicado por Luso-brasileiro às 18:24
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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2016
JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI - 15 DE NOVEMBRO. PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA DO BRASIL

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No próximo dia 15 de novembro comemoraremos mais um aniversário da Proclamação da República no Brasil, que instituiu um sistema de governo integrado por representantes eleitos pelo povo, sobrepondo-se à monarquia, já que até 1889, todas as decisões giravam em torno do Imperador Dom Pedro II. A palavra “República” vem do latim “res publica” e significa “coisa pública”, o que por si só já revela a importância desse sistema que permite ao povo (governados) uma efetiva participação no processo de formação da vontade pública (governo), revelado pelo exercício da democracia. Por isso, dispõe a Constituição: “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente”.

Trata-se da mais importante estrutura que uma nação pode adotar, já que ela auto limita o poder do Estado ao cumprimento das leis que a todos subordinam, priorizando o preceito de “o poder das leis está acima das leis do Poder” (Ruy Barbosa) e o princípio da permanente supremacia da Carta Magna (Constituição), tida como Lei Maior, em torno da qual gravitam todas as demais normas legais.

Pela proximidade da data solene, vale refletirmos e até mesmo conhecermos alguns dos principais aspectos da República Federativa do Brasil, cujos fundamentos, previstos na Constituição Federal são: soberania (poder máximo de que está dotado o Estado para fazer valer sas decisões e autoridade dentro de seu território; cidadania (qualidade do cidadão caracterizada pelo livre exercício dos direitos e deveres políticos e civis); dignidade da pessoa humana; os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e pluralismo político (existência de mais de um partido ou associação disputando o poder político).

Por outro lado, constituem seus objetivos primordiais: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais, além de promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação, propósitos também expressamente previstos na Constituição.

O Brasil deve relacionar-se com os demais países, orientando-se pelos seguintes preceitos constitucionais: independência nacional; respeito pelos direitos humanos (o Brasil é um dos signatários da Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada pela ONU, em 1948); autodeterminação dos povos (cada nação deve conduzir seu próprio destino); não-intervenção (nenhum Estado tem o direito de interferir nos assuntos internos de outro); igualdade entre os Estados (todo Estado tem direito à igualdade jurídica perante outros Estados, isto é, igualdade de tratamento perante as normas internacionais); defesa de paz; solução pacífica dos conflitos; repúdio ao terrorismo e ao racismo; cooperação entre os povos para o progresso da humanidade e concessão de asilo político (recolhimento de cidadãos estrangeiros que fogem de perseguições políticas).

Da simples leitura, percebe-se quão longa e difícil é a tarefa de todos na perseguição e consecução destes objetivos, notadamente o da consolidação dos fatores que aprimorem o respeito à dignidade humana, princípio que situa as pessoas no vértice de todo o ordenamento jurídico, pois o Direito só se justifica em função do ser humano, que deve ser tratado como um fim e nunca um meio, estendendo sua proteção a todas as pessoas, independentemente de idade, condição social, capacidade de entendimento e autodeterminação ou ‘status jurídico’.

Num mundo onde o humanismo parece ceder espaços cada vez maiores para o materialismo, prevalecendo uma cultura extremamente consumista, muitas dessas aspirações permanecem abstratas, distantes do mundo real, reconhecendo-se direitos, sem efetivá-los na prática, o que frustra e contraria a base da Justiça, fomentando ainda mais, os extensos e predominantes critérios de desigualdade social, tornando desacreditadas algumas de nossas instituições e desesperançada grande parcela da população. 

Na realidade, o amadurecimento institucional da República Federativa do Brasil ainda requer desenvolvimento cultural e educacional, fortalecimento da cidadania com a inclusão dos excluídos (reforma agrária justa e legal, habitação social, saneamento, saúde) e exige um grande esforço de restauração do respeito à lei, com provimento eficiente de justiça e segurança pública.

 

 

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, jornalista, escritor e professor universitário . Presidente da Academia Jundiaiense de Letras  (martinelliadv@hotmail.com)



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ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - BRASIL DE MONTAIGNE - 2

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Prossigamos o comentário, iniciado na semana passada, do instigante ensaio “O Brasil de Montaigne”, que o Prof. Frank Lestringant, da Sorbonne, publicou em 2006 na “Revista de Antropologia”, da USP.

Lestringant analisa o pensamento do filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592) sobre a América em dois momentos distintos. No primeiro, Montaigne trata do Brasil e considera os habitantes primitivos de nossa terra de modo um tanto idílico e idealizado, por certo influenciado por mitos como o Paraíso Perdido e o Mundo sem Males, a terra em que o Pecado Original não fizera suas devastações. Essa concepção se insere dentro da ótica amplamente exposta por Sérgio Buarque de Holanda no clássico livro Visão do Paraíso.  É uma ótica que trabalha largamente com dois conceitos, o de mito e o de utopia.

Lestringant sustenta que o Brasil, embora descoberto oficialmente por Cabral oito anos depois de Colombo ter chegado à América, e embora não tivesse em seu território impérios organizados e ricos como os existentes na América Espanhola, marcou muito mais o imaginário da cultura europeia, de tal forma que nela “chegou antes”. É o que ele designa como “tupinambização”.

Num segundo momento, Montaigne analisa os impérios organizados dos Astecas e dos Incas, que, num processo de “romanização”, assimila ao antigo Império Romano; e, fortemente influenciado pelos escritos de Bartolomé de las Casas, critica acerbamente a obra colonizadora dos espanhóis.

Os conceitos de “tupinambização” e de “romanização”, usados por Lestringant, são muito importantes na estrutura do seu artigo, e devem ser bem entendidos.

“Tupinambização” é como ele designa a generalização, a todos os habitantes do Novo Mundo, da idealização dos “toupinambas”, feita a partir das amostras físicas de algumas dezenas de índios transportados de barco à França e lá exibidos na corte, e sobretudo a partir dos relatos de viagem que, lidos e relidos, eram alimentados e exagerados por toda a carga emocional inerente aos mitos e às utopias a que já me referi. Da França, essa generalização idealizada, e necessariamente muito distante da realidade, passou para outros países europeus e permeou toda a cultura europeia, que nas suas representações iconográficas passou a incorporar elementos de indígenas brasileiros até mesmo para figurar índios seminus na Cordilheira dos Andes ou no inverno norte-americano...

“Romanização” é o como ele designa a idealização das chamadas “civilizações avançadas” da América, notadamente os impérios dos Astecas, no México, e dos Incas, na América do Sul. Profundamente influenciado pela cultura clássica greco-romana e pelos modelos humanos figurados nos varões de Plutarco, e impressionado pelo gigantismo das obras arquitetônicas verdadeiramente notáveis desses dois impérios, insensivelmente projetou para o Novo Mundo muitos elementos da cultura e da civilização clássica que jamais estiveram presentes, nem poderiam estar, entre Astecas e Incas.

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS, é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

 



publicado por Luso-brasileiro às 12:06
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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - ALÉM DO SEMBLANTE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A moça me enviou, via WhatsApp, fotos com panelas grandes de arroz, feijão e inúmeras bandejas de salada, arrumadas com esmero. E ela, em uma das imagens, de avental, touca, escumadeira e sorriso imenso. Escreveu como legenda: “Para você que acreditou em mim”. Comovi-me.
Conheci-a faz onze anos. Naquela época, não conseguia acertar o ritmo de sua vida. Entrou e saiu, duas ou três vezes, de uma clínica de recuperação para dependentes químicos. Havia nela uma espécie de pororoca. Bem assim: ondas violentas no encontro de sensações contraditórias. Ora desejava assumir com determinação seus compromissos de mãe e filha, ora um sentimento amargo a arrastava para os becos escuros de seu eu. E do beco, a pedra suicida. O crack, sem dúvida, é uma pedra assassina e suicida, que submete o organismo a seus efeitos, refletindo-se na ausência de hábitos básicos de higiene e cuidados com a aparência, em problemas respiratórios, no aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, na degeneração dos músculos esqueléticos, nas oscilações do humor, nas lesões no cérebro, em prejuízos cognitivos, em paranóias, em alucinações, na exposição temerária à violência e a situações de perigo. O crack era o “remédio” de segundos que aliviava seu desespero, porém a estrangulava.
Uma dessas ondas impetuosas a empurrou para as esquinas com fluxo maior de veículos, onde pedia uma moeda. Cabelos embaraçados, rosto com nódoas de sol a pino, sujeira das ruas nas roupas, fala em soluços, olhar perdido no nada.
 Abordei-a por inúmeras vezes. Tentei levá-la de volta para casa. Uma tristeza imensa a estagnava em coisa alguma.
Veio a cadeia, a audiência, o alvará de soltura, as palavras de reflexão, mas permaneceu aprisionada ao vício que insistia em submergi-la. Veio a noite com o susto pela dívida, que a machucou e sacudiu. Veio a consciência, se bem que embaçada, pelos fracassos e riscos de morte prematura. Recomeçou, passo a passo, dia por dia. Refez-se, sem perder a clareza de que, esporadicamente, como acontece, o passado a amedrontaria. Aprendeu a soprar as angústias que derrubam e dar lugar à prece que a aproxima de Deus. Recuperou o colo que os filhos buscavam e luta para que não passem por pegadas suas de outrora.
Jamais perdi, realmente, a fé em sua transformação, pois transbordavam, de seus olhos, lágrimas com alma.

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE  Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil



publicado por Luso-brasileiro às 12:02
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CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - JARDINS DA ALMA

 

 

 

 

 

 

 

 

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                Tenho uma especial atração por jardins e pelas variadas formas nas quais eles podem se apresentar. Admiro jardins imensos, trabalhados por profissionais, repletos de flores orquestradas para compor desenhos especiais. Gosto também daqueles jardins delicados, com cara de jardim de vó, com roseiras, margaridas, trevos de quatro folhas, hortelã e outras folhinhas cheirosas que podem acabar virando chá para gripe, tempero de carnes ou de doces.

                Da mesma forma, vivo a olhar para cima, para admirar os jardins que parecem querer expulsar o concreto das pequenas sacadas dos prédios. Em alguns casos, nem mesmo dá para enxergar o que há atrás da cortina verde que se forma nesses lugares. E eu acho isso simplesmente fantástico! Já me pego a imaginar que flores há lá, que pássaros foram atraídos e toda uma multidão de pequena fauna de insetos.

                Há ainda outros jardins possíveis, como aqueles verticais, que são plantados em muros, em telhados, dentro de floreiras, dentro de terrários, bem como em qualquer lugar no qual a criatividade humana ou as forças da natureza permitirem. Particularmente, adoro qualquer um deles, sejam como forem. Gosto de admirar as formas que as flores possuem, suas cores, seus aromas, assim também como tudo que vem junto com um jardim. Plante um jardim e as borboletas virão, como se diz. E é pura verdade...

                Moro em São Paulo e, embora seja uma casa, não há um mísero pedaço de terra no qual eu pudesse ter meu próprio jardim, mas nada que muitos vasos e um pouco de boa vontade não dessem jeito. Plantei muitas flores e até uma pequena horta. Nem tudo vai para frente, nem tudo vinga, mas já comi frutos nascidos lá e agora estou a namorar pequenos tomates que se vão formando. Resolvi, a par disso, tempos atrás, comprar um alimentador para beija-flores e tive o cuidado de comprar também um preparado especial para alimentá-los. Confesso que o fiz pelo desejo de que essas pequenas e maravilhosas aves pudessem me dar o prazer de sua presença, mas não acreditava muito que eles viriam, até porque ainda não tinha visto nenhum nesses mais de sete anos que estou na capital paulista.

                Enfim, comprei, montei e, um dia, apenas um dia depois, enquanto cuidava de algumas flores, eu o vi. Magnífico. Minúsculo. Uma joia alada. Verde oliva e roxo. Fiquei sem fôlego e inerte, temerosa de que um único respirar pudesse afastar aquela fada real. Mais alguns dias e vi que não era apenas um, mas eram quatro, dois casais de espécies distintas. Tornaram-se meus fregueses, meus mágicos visitantes diários. Posso dizer que agora meu jardim está perfeito, embora nunca esteja completo, pois para isso eu preciso do mundo. E posso dizer agora que tenho um beija-flor, da melhor forma que se pode ter um pássaro ou mesmo alguém, em liberdade e por amor...

                Fico pensando nos jardins que amo e é quase inevitável fazer uma relação com a vida das pessoas. Muitas vezes passamos tempo demais a reclamar que beija-flores e borboletas não vem até nós, mas nem nos damos conta de que sequer preparamos um jardim para isso e vamos nos amargurando ao olhar os jardins alheios, repletos de vida, ressentidos de nossa “pouca sorte”. Assim também muita gente passa a vida olhando para o alheio, para a alegria do outro, sequer tendo investido tempo, paciência e trabalho para que o mesmo pudesse lhe acontecer. Tristes pessoas sem jardins em seus olhos, em seus corações e em suas almas.

                Assim como os jardins de verdade, nem sempre tudo que plantamos irá florescer, mas nada irá florescer sem que haja ao menos um lugar preparado ou disponível para isso. Algumas vezes, inclusive, plantamos alguns sonhos e colhemos outros, outros que jamais imaginamos, trazidos em semente pelo bico de algum pássaro que atraímos sem saber.

                Os jardins da alma, também devem ser, do mesmo modo que os demais, objeto de cuidado constante. Há que se preparar a terra, o coração, mas há que se podar os galhos, cuidar dos sonhos, evitar as pragas e as desilusões, e,  quando forem inevitáveis, cuidar de começar a semear novamente, sementes ou sonhos.

                Não sei viver sem meus jardins, sem nenhum tipo deles. Às vezes, por descuido, eles se ressentem e me avisam que beija-flores, amigos e amores precisam ser cativados eternamente. Não dão garantias de permanência, mas podem encantar toda uma vida... Cuide bem de seu jardim. O resto vem...

 

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.  -  cinthyanvs@gmail.com

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:58
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