PAZ - Blogue luso-brasileiro
Domingo, 19 de Março de 2017
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - NA PONTA DOS PÉS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cinthya Nunes Vieira da Silva.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

             Como já mencionei algumas vezes em minhas crônicas, embora a cidade de São Paulo tenha, infelizmente, vários pontos negativos, todos causados pelas mãos e gestões humanas, registre-se, há aqui nesse lugar uma singularidade de coisas, pessoas, espaços e acontecimentos que fazem dessa cidade um espetáculo (ainda que controverso) à parte. Nesse sentido, nessa semana, uma cena em especifico chamou a minha atenção.

            Enquanto eu aguardava nas proximidades da entrada de uma estação de metrô, já no comecinho da noite, que fossem me buscar, fiquei observando as pessoas que por ali passavam, bem como os imóveis dos arredores, aliás, em um exercício ao qual sempre me dedico, sobretudo à procura de inspiração. Dei-me conta, de repente, que uma melodia invadia o lugar como se fosse uma delicada trilha sonora, bem delicada e ao fundo. Instintiva e curiosamente eu comecei a procurar a origem do som, uma doce música clássica, dessas que são usadas nas caixinhas de música.

            Depois de alguns minutos correndo os olhos por todos os lugares notei que, em esquina próxima, encima de um bar, havia uma sala na qual bailarinas ensaiavam os seus passos, embaladas por aquele som que, em meio à loucura do que ocorria nos arredores, fazia parecer que lá dentro o tempo seguia em ritmo diverso, alheio a tudo.

            Durante os vinte minutos que ali permaneci, restei embevecida com a cena que se descortinava diante dos meus olhos. Era possível ver os movimentos dos braços e parte dos troncos das bailarinas, todas bem jovens, compenetradas e embaladas pela música, como se vivessem em um Universo paralelo, como se fossem, elas mesmas, criaturas de outro mundo. Pensei que, de algum modo, ao menos naqueles momentos, de fato pertencessem a um plano distinto, no qual os movimentos humanos são ditados por alguma deusa inspirada.

            Lembrei-me de que eu mesma, em determinado momento da vida, fiz uma pequena incursão pela dança. Lamentavelmente, desde sempre faltou-me a coordenação motora adequada para tal tarefa, mas nunca deixei de me sentir conduzida pelo poder da música, pela força motriz e até espiritual que belas melodias são capazes de provocar.

            De uma forma geral as artes tem essa capacidade de transportar as pessoas para lugares muito além dos espaços comuns, seja pela contemplação ou seja pela prática. Música, pintura, teatro, dança e outras expressões de arte podem ser formas de transcender, de ultrapassar a mesmice das coisas e foi essa a exata sensação que tive ao ver as bailarinas aquele dia, alheias ao barulhos dos carros, ônibus e transeuntes que por ali circulavam, como se, naquele momento, o sagrado, o delicado da vida pedisse passagem ou exigisse uma pausa.

            Fiquei pensando que às vezes é preciso andar mesmo na ponta dos pés, seja para não deixarmos, no coração dos outros, pegadas mais pesadas do que gostaríamos ou que deveríamos, seja para sermos capazes de evitar mais eficazmente as pedras que enfrentamos pelos caminhos. Quantas são as vezes nas quais nos falta não apenas a delicadeza das bailarinas, como também a disciplina necessária para nos movermos como se fossemos mais leves do que a vida nos tornou?

            Vivemos tão abarrotados de inutilidades, de preocupações, de receios e de pesos desnecessários que vamos perdendo pelo trajeto a capacidade de sermos mais do que somos, no melhor dos sentidos. Naquele dia, inspirada pelas meninas do balé, apaguei as luzes do meu quarto e coloquei uma música delicada para ouvir enquanto relaxava por uns minutos na minha cama. Por alguns mágicos instantes eu estava também na ponta dos pés, deslizando e rodopiando nos labirintos da minha mente e do meu coração.

            Resta o desejo de que todos sempre sejamos capazes, quando nos for necessária a ausência daquilo que nos faz mal, de resgatar em nossas memórias o que nos permite a lembrança de que sempre haverá um oásis para onde fugir, para onde nos refugiarmos, seja fora ou dentro de nós. Para mim, inevitavelmente, haverá a imagem de uma bailarina, delicada, na ponta dos pés, sobre uma caixinha de música...

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.  -  cinthyanvs@gmail.com

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:12
link do post | comentar | favorito

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - CLUBE DA LADY

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2vl2knt.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Quando as queridas ladies, Sandra e Juna, em janeiro, me comunicaram que fora uma das escolhidas, ao lado da benemérita Da. Wilmaleda Lourenção, para homenagem do “Dia Internacional da Mulher”, surpreendi-me. O Clube da Lady, que tem como presidente a professora, escritora e advogada Lúcia Helena Andrade Gomes – tratada carinhosamente por Lucinha, uma doçura de pessoa -, é uma entidade de esteio para afazeres solidários no município e, portanto, as integrantes que deveriam receber essa honra.
Confesso-lhes que me sinto um pouco constrangida com homenagens. Houve um tempo em que me deixavam eufórica, mas, na atualidade, possuo plena consciência de que um trabalho em destaque é resultado da ação de Deus e do compromisso de um grupo. Policio-me para não buscar aplausos e não me envaidecer. Sou apenas uma parte disto ou daquilo. E há mais uma coisa: um projeto somente acontece se a população envolvida disser sim. Destaco, portanto, para essa homenagem pelo desempenho da Associação Maria de Magdala, em seus 21 anos, que atua junto a mulheres em situação de vulnerabilidade social: os colaboradores, as pessoas que executaram ou executam alguma tarefa e as integrantes, filhas da pobreza, filhas da miséria ligada à promiscuidade sexual, filhas do abuso sexual infantojuvenil, filhas da drogadição... Destaco as mulheres de infância aviltada que, ainda meninas, deixaram sua terra distante em busca do paraíso perdido e, espremidas nas periferias das cidades grandes, se tornaram objeto de consumo e as que foram a leilão. Destaco mulheres que passaram pouco ou não passaram pela escola e, hoje, procuram aprender, na entidade, o traçado que traduz o letreiro do ônibus dos bairros onde residem.
Fortalece-me e acaricia o coração a consciência de que este clube de serviço, de mulheres que são da alegria, se confraternizam e escolhem o bem, não distanciam o olhar das que vagam pelas sarjetas do mundo.
Assim que fui avisada sobre a data e o horário da homenagem, informei que não seria possível comparecer. A presidente, Lucinha, no entanto, me escreveu que manteriam a homenagem e as ladies, posteriormente, viriam até mim. Considerei de delicadeza singular e me emocionei.
Gratidão imensa a cada uma, gente da compaixão, que transborda claridade, beleza e ternura por onde passa e observa as pessoas com olhos de girassol.

 

 

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE -

 Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.


 



publicado por Luso-brasileiro às 18:09
link do post | comentar | favorito

RENATA IACOVINO - ESCREVER POR EXTENSO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

            "Na sociedade contemporânea, nada é feito para durar", afirmou Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, recém-falecido e tido por muitos como um pessimista.

            Sua teoria sobre a sociedade líquida, esta em que, para ele, vivemos hoje, nos torna indivíduos voltados para a rapidez em que tudo flui, não nos importando criar ou manter algo sólido.

            Essa liquidez é o que rega nosso sentimento, então? Um sentimento cujo objetivo é seu avesso?

            Há disputas acirradas em se tentar não sentir, em sepultar emoções ou, o que é muito comum nesse universo virtual em que habitamos, fazer de conta que sentimos o que nem de longe passa por nós.

            Casamento perfeito: eu me relaciono com as pessoas sem me relacionar. Ou pelo menos fabrico esta ilusão.

            Bem, estas são minhas impressões, não palavras dele. Sua tese leva-me a estas reflexões. Que me levam igualmente a pensar sobre a colocação do filósofo Cortella em uma de suas recentes palestras.

            Dizia ele que a comunicação que praticamos hoje nos carrega de volta à era das cavernas, pois a troca verbal está cada dia mais se resumindo a símbolos. A forma menos comum de nos comunicarmos é a verbal. Aquela em que há um diálogo, ou quando ao nos dirigirmos ao outro, o fazemos com uma frase, com início, meio e fim, sem abreviações e/ou símbolos e, especialmente, com sentimento.

            Adaptamo-nos a escrever uma letra em substituição a uma palavra. E quando não queremos nos comunicar muito, ou temos tanta pressa para nada que precisamos resumir ainda mais nossa escrita, colocamos um símbolo, desses de que dispomos tão facilmente no whatsapp. Para que perder tempo em escrever, principalmente se o que sinto é tão líquido?...

            Marcar encontros com amigos (quando eles ainda existirem em sua vida) é um exercício hercúleo. E como a tal contemporaneidade nos exige pouco esforço nesse quesito, o melhor é deixar pra lá. Afinal, pra quê?

            Melhor nos encontrarmos por acaso, no acaso, ao acaso, porque é o que temos de tão certo neste momento, o indefinido, ou como diziam na minha época "qualquer nota".

            Hoje preferimos viver de palavras que morrem em si e de imagens que projetam o irreal.

            De forma objetiva, como diz Bauman, a maneira de nos relacionarmos se resume a "basta apertar um botão e pronto. Acabou!". Somos números necessitando nos escrever por extenso.

            Ponto final.

 

 

 

RENATA IACOVINO, escritora e cantora / www.facebook.com/oficialrenataiacovino/

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:05
link do post | comentar | favorito

SONIA CINTRA - MULHER E NATUREZA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sonia.png

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                                                             

 

            No Dia Internacional da Mulher comemora-se, também, o aniversário de 34 anos de Tombamento da Serra do Japi, pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), presidido na época pelo Prof. Aziz Ab’Sáber, a quem devemos eterna gratidão. Conforme aprendemos com o Professor, a região é um raro remanescente da Mata Atlântica no interior do Estado de São Paulo. As belezas naturais constituídas de matas secundárias em solo de quartzo, são dignas de preservação como fatores de equilíbrio ecológico e climático.

Declarada Reserva da Biosfera pela Unesco, em 1992, muitos têm sido os projetos e as ações que visam à continuidade e ao aprimoramento da preservação, conservação e recuperação de suas áreas e de seu entorno. Em Educação Ambiental, por exemplo, um dos pioneiros foi o livro de poesia inspirado no Japi, de autoria dos alunos do Colégio Leonardo da Vinci, com apoio de professores, pais, funcionários e diretoria.

Na sede da Reserva Biológica da Serra, encontram-se informações sobre conformação geológica, formação vegetal e povoação animal, que remontam a Eras passadas e constituem bem vital ao planeta. Historicamente, as primeiras iniciativas de proteção surgiram em Jundiaí, com a aquisição de áreas pelo serviço de águas e esgoto, no início do século 20. Posteriormente, nos anos de 50, foram ampliadas pelo prefeito Vasco Venchiarutti. Com os movimentos ecológicos dos 70, a área de preservação foi expandida, e dia 8 de março de 1993, tombada como Monumento Natural.

A Fundação Serra do Japi tem sido responsável pelo monitoramento, visitação e criação de novas trilhas, com supervisão técnica para conhecimento do território e necessidades de zelo. A atuação da Divisão Florestal da Guarda Municipal coíbe atividades e incêndios nas bordas. O pesquisador científico Afonso Peche Filho, arquitetos, urbanistas, ambientalistas, entre outros cidadãos, afirmam que tais medidas, guardadas as observações de lei e de fato, revigoram a esperança de que, assim como a nossa, gerações vindouras possam usufruir dos benefícios naturais, conforme não se cansava de dizer o saudoso engenheiro agrônomo Antônio Araújo Vieira.      

            Em consonância com o tema Biomas Brasileiros e Defesa da Vida, é bom refletir sobre como Cultivar e Guardar a Criação, pois, assim como a Mulher, também a Natureza é digna de respeito e cuidado, para garantir a beleza e a harmonia na Terra.

 

 

 

SONIA CINTRA    -    É doutora em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo. Pesquisadora da Cátedra José Bonifácio - IRI/USP e membro efetivo da UBE. Fundadora e mediadora do Clube de Leitura da Academia Paulista de Letras e do Clube de Leitura Jundiaiense. Ex-presidente da AJL, oradora da Aflaj e madrinha do Celmi. Pós-graduada em Educação Ambiental, ensaísta e articulista de jornais, revistas e blogs nacionais e internacionais. Tem 13 livros publicados com tradução para o italiano, francês e espanhol.



publicado por Luso-brasileiro às 18:01
link do post | comentar | favorito

Sábado, 18 de Março de 2017
FELIPE AQUINO - O QUE FAZER QUANDO TEMOS ARIDEZ ESPIRITUAL ?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como vencer esse estado de espírito onde parece que Deus está longe e que nos falta a fé?

Às vezes podemos passar por algum período de aridez espiritual, isto é, não temos vontade de rezar, torna-se difícil assistir a santa Missa, a reza do Terço fica pesada, etc. Até mesmo a sagrada Comunhão se torna um sacrifício diante das dúvidas que podem atingir a nossa alma. Parece que o céu sumiu…

a_vida_espiritual.png

 

Como vencer esse estado de espírito onde parece que Deus está longe e que nos falta a fé?

Primeiro é preciso verificar se esta situação não é tibieza, isto é, causada por nossa culpa em não perseverar no cuidado da vida espiritual, e, sobretudo, verificar se não há pecados graves em nossa alma, que possam estar afugentando dela a graça de Deus.

Se não houver pecados na alma, então, é preciso antes de tudo, calma, paciência e perseverança nos exercícios espirituais: oração, vida sacramental, caridade, penitência, etc. Mesmo sem vontade ou sem gosto, continuar sem jamais parar, os exercícios espirituais.

Deus às vezes permite essas provações para que aprendamos a “buscar mais o Deus das consolações do que as consolações de Deus”, como disse um santo. São João da Cruz, místico que tanto experimentou o que chamou de “noite escura da fé”, disse que “o progresso da pessoa é maior quando ela caminha às escuras e sem saber.”

Muitas vezes nos deleitamos nas orações gostosas, cheias de fervor sensível, como crianças quando comem doces. Mas quando vêm a luta, deixamos a oração.

 

Leia também: Como combater a preguiça espiritual?

5 maneiras de reativar sua vida de oração

Como manter acesa a chama da nossa fé?

Oração para pedir fortaleza espiritual

O inimigo da vida de oração

 

para_estar_com_deus.png

 

Vejamos o que diz o Apóstolo:

 “Filho meu, não desprezes a correção do Senhor. Não desanimes, quando repreendido por ele; pois o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho (Pr 3,11s). Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige?… Mas se permanecêsseis sem a correção que é comum a todos, seríeis bastardos e não filhos legítimos… Aliás, temos na terra nossos pais que nos corrigem e, no entanto, os olhamos com respeito. Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas, o qual nos dará a vida? Os primeiros nos educaram para pouco tempo, segundo a sua própria conveniência, ao passo que este o faz para nosso bem, para nos comunicar sua santidade”. (Hb 12,5-10) .

Deus nos quer santos, e é também algumas vezes pela provação e pela aridez espiritual que Ele arranca as ervas daninhas do jardim de nossas almas. Coragem alma querida de Deus! Jesus disse que Ele é a videira verdadeira, e Seu Pai o bom agricultor que podará todo ramo bom que der fruto, para que produza mais fruto (cf. Jo 15,1-2).

Não podemos querer apenas o açúcar do pão, e renegar o pão do sacrifício. Às vezes a meditação é difícil, a oração é penosa, distraída, surgem as noites e as trevas… Nesta hora é preciso silêncio, abandono, paciência. O Esposo há de voltar logo… Em breve vai raiar a aurora e os fantasmas vão sumir.

Quanto mais a noite fica escura, mais perto nos aproximamos da aurora. Deus sabe o que estamos passando, louvado seja o seu santo Nome! É hora de abandono em suas mãos paternas.

No meio das trevas alguns sentem o coração como se fosse de gelo, não sentem mais amor a Jesus, perdem a piedade, se sentem condenados. Que desoladora confusão espiritual!

Nestas horas a única saída é fechar os olhos e dar as mãos a Jesus para ser guiado por Ele na fé; confiança e abandono irmão, só Ele sabe o caminho para sair deste matagal fechado e escuro.

combate_espiritual.png

 

Assista também: Como conciliar os cuidados de uma vida espiritual com a correria do dia-a-dia?

 

Deus nos prepara para a contemplação pelas provas passivas, ensinam os santos. Ele as produz e a alma apenas tem que aceitar. É o duro caminho dos que querem a perfeição. Ele está purificando a alma; o Cirurgião Celeste está nos operando a alma.

São João da Cruz fala da famosa “noite dos sentidos” cheia de aridez e de provação, um verdadeiro martírio para a alma. Segundo o santo doutor, é Jesus que chama a alma a caminhar com Ele no deserto, mesmo queimando os pés e sendo queimado pelo sol, para se santificar.

Calma alma querida de Deus, Ele faz isso porque te ama muito. O fogo bom não é aquele “fogo de palha”, alto e bonito, mas rápido, que logo se apaga; mas é o fogo baixo que pega na lenha grossa e permanece por muito tempo. O fogo de palha é só para começar…

É isso que está acontecendo; não se assuste; não se preocupe porque o gosto de rezar sumiu e se tornou um agora um sacrifício penoso… Fé não é sentimento e muito menos sentimentalismo; fé é adesão, com a mente, a Deus, às suas verdades e às suas determinações. Não se preocupe de estar ou não “sentindo” fé ou devoção; apenas viva-a; vá a Missa, ao grupo de oração, ao Terço, com ou sem vontade, com ou sem gosto, com ou sem sentir. Assim, temos mais méritos ainda diante de Deus.

Nesta situação talvez você precise de um diretor espiritual, especialmente na Confissão, para uma boa orientação.

 

Banner-fixo-a-espiritualidade-catolica.jpg

 

 

FELIPE AQUINO - Escritor católico. Prof. Doutor da Universidade de Lorena. Membro da Renovação Carismática Católica.

 

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 20:20
link do post | comentar | favorito

PAULO R. LABEGALINI - AS DUAS FACES DA MOEDA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Paulo Labegalini.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Você sabe quem é capaz de provocar inúmeras alterações na vida de algumas pessoas que têm com ele contato mais estreito? Pois bem, eis algumas dicas:

– Pode mudar completamente a filosofia de vida de alguém, pois reverte sua postura perante os outros. Há, ainda, aqueles que se tornam seus servos. Noutros, ele altera radicalmente o senso de justiça porque é, realmente, muito poderoso.

– Em cada país, veste-se com roupagem diferente e atende sob diversas denominações, mas em todo lugar tem seus adoradores. Aqueles que entendem o seu verdadeiro objetivo, o têm para promover a paz e o bem-estar social. Ele também mantém empregos, permite pesquisas científicas importantes, impulsiona a tecnologia, fomenta a educação e a saúde de muita gente.

E agora, você já sabe de quem é que estou falando? O dinheiro? Sim, é isso mesmo! O dinheiro, por si só, é neutro; o que faz a diferença é o valor que cada um lhe atribui. Sem dúvida, é um valioso recurso para servir de alavanca ao progresso da humanidade e não há nada de errado possuí-lo em abundância.

O que ocorre é que, quase sempre, o colocamos acima da promoção do ser humano. Salvo as honrosas exceções, o homem – que deveria ser o senhor – se submete a ele totalmente, tornando-se escravo por opção. Dispõe-se a servi-lo a qualquer custo e, muitas vezes, vende a honra, a dignidade, a fidelidade às leis e até a própria vida – como temos visto na política.

O cidadão insensato torna-se mesquinho e arrogante, negando até mesmo a existência de Deus e elegendo o dinheiro como o todo poderoso, ao qual presta reverências. Já o homem prudente, o usa para conquistar a liberdade na Terra e o descanso eterno no Céu. Como aplicar esse recurso, é apenas uma questão de escolha.

Mas, se no início deste artigo, você pensou que eu estava falando de Jesus, também acertou. Releia os três primeiros parágrafos e confirme que as afirmações podem se referir ao nosso Senhor. Quem O aceita, muda radicalmente de vida, passa a adorá-Lo e consegue promover a paz, concorda? Em cada lugar, O exaltam com denominações próprias: Cristo, Menino Jesus de Praga, Senhor do Bonfim, Ressuscitado, Salvador, Cordeiro de Deus, Rei dos Reis, Javé, Filho do Altíssimo, Espírito Santo etc.

Logicamente que ser servo de Jesus é bem diferente de ser escravo do dinheiro. Quem serve a Deus, sabe que os últimos serão os primeiros, enquanto que quem adora a fortuna, só se esforça para acumular riquezas aqui na Terra. E quem ama a Deus partilha; já quem ama demasiadamente o dinheiro, prefere esbanjá-lo sempre. Enfim, estar com Jesus só faz bem, mas o mesmo nem sempre acontece quando temos muito dinheiro.

Nem é novidade dizer que ser rico não é pecado, porém, o mal uso da riqueza pode nos fazer perder os valores espirituais que nos levariam à salvação. Por isso é que Jesus disse que dificilmente um rico entra no Reino do Céu. E para ficar mais claro tudo o que estou escrevendo, vamos refletir nesta história:

Três homens viajavam pelo deserto e, após duas semanas de caminhada, ficaram perdidos. O velho camelo que os levava também adoeceu e não podia suportar mais tempo sem tratamento. Desesperados, começaram a rezar e, no entardecer de mais um dia de sofrimento, avistaram um mercador montado num belo animal.

Correram pra junto dele e pediram que os levasse, mas a resposta foi preocupante:

– Só vou levar um de vocês. Quando amanhecer, quem me pagar mais pela viagem, será transportado na traseira do meu camelo.

Cansados e assustados, começaram a preparar o local de pouso sem mais nada conversar. Assim que o sol apareceu, só dois homens estavam ali. Perceberam que o outro companheiro os roubou e seguiu viagem com o mercador. Começaram, então, a lamentar:

– Por que não tive a mesma ideia? Eu era o mais forte dos três e podia ter conseguido o dinheiro na hora!

– Mas eu é que tinha mais dinheiro no bolso! Se tivesse feito a oferta e pago ontem à noite, teria garantido o meu lugar.

Foi quando viram uma coberta enrolada na areia. Dentro, havia uma folha com o seguinte recado do mercador: ‘A atitude do amigo de vocês irá condená-lo ao fogo do inferno. Agora, cabe a vocês se salvarem, pedindo perdão dos pecados e confiando na graça de Deus’. E aqueles dois homens ainda se dividiram nas opiniões:

– Quem ele pensa que é para nos aconselhar? Se não fosse a sua proposta gananciosa, ainda teríamos alguma chance de sairmos daqui.

– Calma, companheiro! Vamos rezar e pedir a Deus que as pegadas na areia não se apaguem logo. Com certeza, aquele mercador foi enviado em resposta às nossas preces.

Em seguida, saíram caminhando: um atrás da vingança e o outro, quem sabe, buscando entrar novamente numa igreja. Naquele momento, o dinheiro no bolso não fazia nenhuma falta, mas o Espírito Santo no coração fazia toda a diferença.

 

 

 

PAULO ROBERTO LABEGALINI - Escritor católico. Vicentino de Itajubá - Minas Gerais - Brasil. Professor doutor do Instituto Federal Sul de Minas - Pouso Alegre.‘Autor do livro ‘Mensagens Infantis Educativas’ – Editora Cleofas.



publicado por Luso-brasileiro às 20:11
link do post | comentar | favorito

HUMBERTO PINHO DA SILVA - A PONTE SOBRE O TEJO E A DANÇA DAS PLACAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A inveja está interligada à política, como aliás a todas as áreas de cultura. Para denegrir o rival, ou possível rival, recorre-se, muitas vezes, à calúnia e à mentira.

Mentira espalhada por outros invejosos, que desejam alcançar benesses, que a maioria das vezes não merecem.

Quando há mudança de regime, logo surgem, impelidos pela inveja, ou ânsia de aproveitarem a oportunidade para ascenderem socialmente, indivíduos, que tentam colar-se aos vencedores, mesmo que tenham de renegar idiais, que acreditam, ou amesquinhar os que foram companheiros de “luta”.

Isso passa-se na política, mas acontece, infelizmente, na Igreja. Sim: até na Igreja; e quando falo na Igreja, não me refiro apenas à Católica, mas a todas as denominações.

Salazar – como bom estadista, e homem de grande saber, – conhecia, perfeitamente, a natureza humana.

Quando lhe disseram que a Ponte Sobre o Tejo iria ser batizada, em sua homenagem, logo retorquiu:

“ O meu nome ainda há-de ser retirado da ponte” e acrescentou (cito Pedro Mexia) “ Comentando também que as letras da placa deviam ser aparafusadas e não fundidas no bloco de bronze: “ Vão dar depois muito mais trabalho a arrancar.” Com efeito, em 1974, dias depois da Revolução, um comité revolucionário pintava inscrição a negro, martelou as lápides, segundo o mote” a arte fascista faz mal à vista”. Uns meses mais tarde, a ponte foi rebatizada “ 25 de Abril” – Pedro Mexia – “É uma Paisagem “ – “E” – A Revista do Expresso – 10/Set./2016.

No tempo da 1ª Republica, energúmenos, quebraram, à pedrada ou a camartelo, a coroa real, colocada em muitas obras realizadas no tempo da monarquia. Salvou-se, entre outras, a que ainda permanece no pilar de pedra da Ponte D. Luís I, no Porto. Salvou-se, por “ descuido” ou por milagre…

Também os nomes de ruas mudam, para apagar feitos do antigo regime, os “patriotas”, logo mudam as placas.

No Porto, é notável a Rua de Santo António, atual 31 de Janeiro; e no Brasil, apesar de muitos republicanos admirarem o Imperador, até terem colaborado com ele, não escapou à mudança de nomes: a Praça Dom Pedro II passou a ser de Marechal Deodoro; a Rua da Princesa, de Rui Barbosa, isto no Rio

Em Petrópolis, a Rua do Imperador, virou Avenida da República; mais tarde, tornou a ser do Imperador… para agradar aos turistas…

Lá, como cá, a inveja ou parvoíce, reina, mesmo em tempos democráticos…

A Ponte Salazar, que demorou apenas 45 meses a ser construída. Inaugurada a 6 de Agosto de 1966, na presença do Presidente da República, o Almirante Américo Tomás, e o Presidente do Conselho de Ministros, António Oliveira Salazar, foi, apesar das infrutíferas tentativas de muitos, rebatizada pelo povo, de: “ Ponte Sobre o Tejo”.

Já que não é de Salazar, seja, então, do Tejo…

 

 

 

HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal



publicado por Luso-brasileiro às 19:56
link do post | comentar | favorito

EUCLIDES CAVACO - FADO E SAUDADE
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Acabados de regressar recordamos com alguma saudade os bons momentos que preencheram as nossas férias, onde predominaram algumas extasiantes noites de fado.
Por isso aqui deixo hoje este tema FADO E SAUDADE, que poderão ver e ouvir aqui neste link:
 


http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Fado_e_Saudade/index.htm
 
 
 
 
 

 



publicado por Luso-brasileiro às 19:49
link do post | comentar | favorito

Domingo, 12 de Março de 2017
JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI - MARÇO, MÊS DAS ÁGUAS, CONSIDERADAS " VEIAS DA TERRA"

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O DIA MUNDIAL DA ÁGUA, 22 de março foi estabelecido pela ONU - Organização das Nações Unidas em 1992, durante a Agenda 21 da Conferência Rio/92 sobre Ecologia. Os principais objetivos desta celebração são destacar, entre outros, a importância da água, vital à sobrevivência humana e a toda atividade econômica e social; a necessidade de economizá-la para evitar a sua completa escassez, o que provocaria uma situação manifestamente grave; a busca de soluções às questões decorrentes deste quadro e o interesse nas autoridades dos países em geral, pelo seu acesso a todas as pessoas do mundo. Para nós, efetivamente, é ao mesmo tempo, um direito fundamental do ser humano e também um recurso natural com valor econômico, já que quando usada para produção agrícola, industrial e comercial, deve ser cobrada, situação disposta no Brasil pela Lei das Águas (Lei n.9.433/97).

         Nada se faz sem água, desde a administração de uma simples residência até o funcionamento de equipamentos industriais que impulsionam o setor produtivo. Por isso a ONU definiu que em 2017 as discussões serão sobre Água Residual, aquela resultante de algum processo, como o industrial, e que geralmente pode ser reutilizada para fins que demandem menos qualidade (resfriamento de equipamentos, por exemplo). Em 2018, o tema do Dia Mundial da Água será Soluções Naturais para a Água.

         Por outro lado, ela representa 66% do peso de todos os seres humanos.  Tais razões evidenciam o seu grande valor, cuja ausência impossibilitaria abastecer as necessidades das populações em todos os setores vitais, como saneamento básico e sua utilização potável.

         E apesar do enorme volume que muitos países possuem, é preciso muita responsabilidade na sua gestão, de extrema precisão ao nosso desenvolvimento,  principalmente por parte das Administrações Públicas em geral. Desta forma, deve ser preservada e as pessoas que felizmente são por ela abastecidas, precisam evitar desperdícios. O seu consumo consciente é uma preocupação que deve ser constante, uma cultura que deve ser firmemente incutida no comportamento social, até mesmo como atitude preventiva contra um colapso de abastecimento que a cada dia se mostra mais factível.

É preciso levar em conta ainda que, intimamente ligada ao equilíbrio ambiental e à proteção da natureza, a sua manutenção também depende da conservação de matas ciliares e da vegetação, nas nascentes e ao longo dos rios e de outras fontes, entre as quais, a manutenção de sua qualidade. Impõe-se, assim, uma política rígida de controle do meio ambiente e de gestão de recursos hídricos já que esse é o melhor caminho para se evitar problemas futuros e não enfrentarmos  racionamentos de energia elétrica. Por outro lado, a instituição de um plano de investimentos para aprimorar a fiscalização de nossos mananciais é outra meta a ser alcançada, bem como estudos e projetos devem ser desenvolvidos pelo Poder Público objetivando solucionar problemas no abastecimento e na produção de energia em todas as nações.

Em homenagem a data que se aproxima, um texto de Florêncio de Carvalho: “As águas para mim são sublimes. São o ‘espírito da Terra’. Eu comparo a terra com o corpo humano. O que o corpo humano possui? Ele tem as pequenas veias que vão alimentando o coração. Como as águas fazem? Têm as pequenas vertentes que vão para os igarapés. São as veias da Terra”.

 

 

 

 

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, escritor, jornalista e professor do Centro Universitário Padre Anchieta de Jundiaí. É presidente da Academia Jundiaiense de Letras (martinelliadv@hotmail.com)



publicado por Luso-brasileiro às 17:20
link do post | comentar | favorito

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - PROSA SESQUIPEDAL, TROPOS SAFADOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Carlos Maximiliano Pimenta de Laet, o jornalista e polemista católico e monárquico, meu patrono no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, era terrível... Seus adversários o temiam porque era mestre na arte de esgrimir argumentos. Desde a primeira polêmica que travou, sendo ainda bem jovem, com o já consagrado Camilo Castelo Branco, até a última, em que terçou armas com Jackson de Figueiredo, nunca resistiu à tentação de se meter numa boa polêmica. Argumentava com vigor e tinha um especial talento para colocar seus adversários em posição ridícula, atraindo para si as simpatias dos incontáveis leitores que gostavam de rir.

Laet não é nome francês e não se pronuncia à moda francesa, como geralmente se pensa, mas é nome holandês e deve ser pronunciado mais ou menos como La-â-te – segundo me explicou, certa ocasião, um erudito conhecedor desse idioma. De fato, Laet descendia remotamente de holandeses. Nasceu no Rio de Janeiro, em 1847, falecendo na mesma cidade, no ano de 1927. Fez seus estudos no Colégio Pedro II, onde se bacharelou em Letras, e depois cursou a Escola Central (atual Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro), nela se graduando como engenheiro.

Preferiu, entretanto, dedicar-se ao jornalismo e ao magistério. Desde 1873 lecionou no Colégio Pedro II, como Professor Catedrático de Português, Geografia e Aritmética. É curioso que três disciplinas tão díspares estivessem, na época, reunidas sob a alçada de um único docente.

No jornalismo, deixou milhares de artigos dispersos por jornais cariocas, muitos deles escritos sob pseudônimos variados. Publicou relativamente poucos livros em vida, mas sua obra, se reunida, encheria dezenas de volumes. Infelizmente a imensa maioria da produção intelectual de Laet ficou dispersa pela imprensa. Algumas coletâneas se fizeram, mas incompletas e insuficientes. Na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, pude compulsar a mais completa das coleções de artigos de Laet existente, resultado, segundo me informaram, da junção de três coleções privadas laboriosamente constituídas, as do Pe. Leopoldo Aires, de Mons. Deusdedit de Araújo e do Prof. Alexandre Correia.

Foi eleito deputado à Assembleia Geral, nas últimas eleições realizadas no Império, pelo Partido Liberal, mas não chegou a tomar posse. Já na República, foi demitido da condição de professor catedrático do Colégio Pedro II, por haver protestado contra a mudança do nome dessa escola. O Governo Provisório, pelo Decreto n° 9, de 21-11-1889, pretendeu denominá-lo "Instituto Nacional de Educação Secundária".

Laet era catedrático do Pedro II desde 1873, tendo prestado duas vezes concurso para essa função, e em ambas obtido o primeiro lugar. Mas somente em 1915, por decreto do Presidente Venceslau Brás, pôde retornar à atividade docente no Pedro II ─ que já então havia retomado o nome tradicional que conserva até hoje ─ e a partir de 1917 assumiu o cargo de Diretor do Colégio, até 1925, quando se aposentou. Era membro-fundador da Academia Brasileira de Letras e recebeu do Papa São Pio X, em 1913, o título de Conde, por seus méritos como ativo líder católico e Presidente do Círculo Católico da Mocidade.

Até morrer, em 1927, com 80 anos de idade, manteve-se fiel aos mesmos princípios religiosos e políticos, sendo muito temido pelos adversários do trono e do altar por sua polêmica cerrada e por seu fino humorismo. É precisamente o cunho humorístico dos seus escritos que pretendo focalizar neste artigo.

 

Laet, sendo adversário implacável dos modernismos literários, opôs-se desde o primeiro momento aos poetas futuristas. Certa ocasião, zombando de Graça Aranha, publicou o seguinte soneto em estilo modernista:

“Noite. Calor. Concerto nos telhados. / Cubos esferoidais. Gatas e gatos. / Vênus. Graças. Aranhas. Carrapatos. / Melindrosas. Poetas assanhados. /            Rabanetes azuis. Sóis encarnados. / Comida no alguidar. Cuspo nos pratos. / Três rondas a cavalo. Mil boatos. / Prosa sesquipedal. Tropos safados. / Avenida deserta. Bondes. Grama. / Chopes Fidalga. Leite. Pão-de-ló. / Carros de irrigação. Salpicos. Lama. /          Vacas magras. Esfinge. Triste. Só. / Tumor mole. São Paulo. Telegrama. / Dois secretas. Cubismo. Xilindró.”

O saboroso desse soneto está não só em ter imitado o estilo “futurista” de Graça Aranha, mas na alusão a um episódio ridículo que então todo o público conhecia: Graça Aranha, que estava envolvido numa conspiração contra o governo, passara a um seu correligionário, de São Paulo, um telegrama em termos cifrados, anunciando que rebentaria naquela noite um levante. Assim rezava o telegrama: "Tumor mole rebentará esta noite". A polícia, que rastreava a correspondência dos adversários do governo, não teve qualquer dificuldade para decifrar a mensagem e “dois secretas” trancafiaram a tempo, num “xilindró”, o malogrado conspirador político. O impagável Laet comentou:

─ Esse Aranha publicou um livro simbolista, “Canaã”, e ninguém compreendeu nada... Agora, envia um telegrama secreto, e todo mundo entendeu tudo... Que estilista fantástico!

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOSé historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

 



publicado por Luso-brasileiro às 17:15
link do post | comentar | favorito

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - CRER NO AMANHÃ

           

 

 

 

 

 

 

 

 

Cinthya Nunes Vieira da Silva.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

            Provavelmente pelo fato de ser professora universitária e tendo contato com tantos alunos que se aproximam do término da faculdade é que constantemente sou abordada por jovens que, diante do inesperado, do futuro que se avisa incerto, ficam à procura de conselhos, de uma orientação sobre o que e como fazer para começar a vida profissional.

            Inevitavelmente, nessas horas, lembro-me da recém-formada que também fui e de como a incerteza diante do porvir me deixava ansiosa, temerosa e, vez ou outra, até desanimada diante das portas que pareciam estar sempre trancadas, intransponíveis para mim. De fato, não é fácil começar, sobretudo quando se é jovem, inseguro e sem experiência. Em verdade, mesmo quando os cabelos branqueiam, quando os anos se avolumam sobre nossas costas, mudando não apenas nossa silhueta, mas também nossos pensamentos e convicções, continuamos suscetíveis ao medo diante do incerto.

            Assim, muitas vezes, diante os pedidos de conselhos, de ajuda, busco transmitir conforto e esperança, na tentativa de demonstrar que o Tempo é o Senhor de todas as coisas e que ele, mesmo diante das improbabilidades, sempre pode nos surpreender. É preciso ter coragem para enfrentar, fé para acreditar, paciência para esperar e iniciativa para começar, nem que seja uma de cada vez, a tirar as pedras que enfeitam ou atrapalham a quase totalidade dos caminhos a seguir.

            Na realidade, em muitas dessas vezes, mais estou a me relembrar de tudo isso do que propriamente crente de que serei capaz de convencer o outro, porque sei, por experiência, que grande parte do viver só se aprende através da vida, por mais paradoxal que possa parecer. Feliz daquele capaz de aprender com a estrada que o outro trilhou, pois esse será um sábio. Em geral precisamos vivenciar nossas próprias dores, amores, dissabores e vitórias para que sejamos capazes de entender que sempre haverá um novo dia para se tentar novamente. Ao menos até que nossa história nesse plano esteja sendo escrita...

            Feliz ou infelizmente nossa vida é composta de altos e baixos. Fácil, assim, ser otimista quando tudo parece estar em seus devidos lugares, quando estamos desfrutando daquilo que consideramos o essencial para vivermos. Mais complicado, por outro lado, é sermos capazes de nos mantermos equilibrados quando as coisas saem do prumo, quando nossas estruturas são balançadas. Nessas horas é que precisamos conservar a crença de que a vida transcende e que é muito mais do que alguns momentos difíceis.

            Particularmente, a cada dia me exercito na missão de não me permitir o desânimo, porque a luta pela vida, mesmo tanto depois dos homens das cavernas, continua sendo diária, constante é indispensável. Viver, como alguém já disse, é fácil; difícil é conviver, já que, inevitavelmente as pessoas estão sujeitas a nos desapontar e vice-versa. É preciso que não apostemos nossas cartas todas sobre a conduta dos outros, até porque não somos capazes de prever as reações, o caráter e as emoções de nossos semelhantes.

            Desse modo, quando somos surpreendidos negativamente por pessoas com as quais convivemos é usual que isso nos traga dor e decepção, mas aprendi que não podemos medir os outros pela nossa régua, tampouco julga-los pelos nossos valores, mas que também não podemos igualar todos as pessoas com base naqueles que nos ofenderam ou que nos causaram tristeza.

            É preciso crer no amanhã. É preciso ter esperança de que tudo pode ser quando tem que ser e que mesmo a dor tem lições importantes para nos ensinar. Aprender as lições da vida faz parte do jogo, faz parte da existência humana nesse planeta. Creio que somos mais do que simples matéria e que, um dia, tudo haverá de fazer sentido, de valer a pena. No fim das contas, jovens ou nem tanto, somos todos aprendizes, todos crianças da Criação e o caminho que hoje nos é permitido ver é apenas uma trecho, uma início de algo que não somos capazes de entender.

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.  -  cinthyanvs@gmail.com

 



publicado por Luso-brasileiro às 17:09
link do post | comentar | favorito

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - CONVERSÃO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2vl2knt.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 
O tempo da Quaresma, todos os anos, me salva da entrega ao ter, ao ser, ao poder.  O ter ao colocar meus interesses como prioridade. O ser de acordo com minhas vantagens. O poder ao me considerar acima de tudo e de todos. E esse tempo é único, porque nele paira o Espírito Santo de Deus que é atual e me oferece conversão. Minhas nódoas se tornam mais visíveis. Necessito melhorar nisso ou naquilo. Em algumas coisas, com a graça de Deus, consegui me apurar um pouco, mas em outras... Não me concluo com frases como: sou assim, é a minha personalidade... No passado, justifiquei-me dessa forma. Para me burilar é preciso que me coloque, diante do Céu, desfeita de armaduras e razões e que permita, mesmo que sangre por dentro, que o Senhor aja. Dentre os meus anseios se encontra o de que Deus alargue de tal forma o meu coração, que os sentimentos ruins escorram e que eu carregue apenas os de luz, de misericórdia, de abraço, de aconchego, de perdão; sentimentos nobres em sua essência. Que meu coração se mova, nas horas diversas, ao encontro do próximo. Mas é tão difícil. Basta, às vezes, um grãozinho de areia, para que meu ego se agigante.
Recupero parte das reflexões, em homilias na Catedral NSD, que me marcaram. Logo no início do ano, na Festa da Epifania, o Padre José Brombal comentou que o Senhor continua a se manifestar, assim como aconteceu aos Reis Magos, basta querer ver, e citou, como exemplo, na visita a um doente. O rosto de Deus na face dos necessitados. Ainda em fevereiro, o Padre Leandro Megeto citava que Jesus saiu das letras da palavra escrita e entrou na vida. Conhecer a Palavra sim, mas negá-la, em atitudes, de nada adianta. E na Missa de Cinzas acrescentou sobre como desobstruir o coração e fazer tudo pelo Novo.
No seu convite à Quaresma, o Padre Milton Rogério Vicente falou sobre Deus colocado “nas prateleiras” da sociedade contemporânea, que O busca, como mercadoria, nos apertos. E nos convidou a perceber os posicionamentos em que nos colocamos como Deus e tudo aquilo que está tirando o lugar de Deus em nossa vida.
Há, ainda, uma reflexão do Papa Francisco, em seu “Devocional”, que me impressiona: não dialogar com Satanás; não dar asas à minhas tentações.
Essa Quaresma me desafia com o propósito de permitir que Deus restaure, nem que seja uma partícula, de Sua imagem e semelhança em mim.
 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE -

 Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil

 



publicado por Luso-brasileiro às 17:06
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
arquivos

Dezembro 2020

Novembro 2020

Outubro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

pesquisar
 
links