PAZ - Blogue luso-brasileiro
Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - FRÁGIL EXISTÊNCIA

 

 

 

 

 

 

 

 

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            Nunca deixo de me surpreender com o fato de que vivemos em completa ilusão sobre a natureza da existência humana. Talvez até por pura falta de opção, passamos nosso tempo nesse mundo certos de sermos feitos de algum material indestrutível, como se fosse aço e não pele, sangue e osso a compor nossa forma física.

            Penso também, por outro lado, que a falsa sensação de imortalidade decorra do fato de que, íntima e subconscientemente sabermos que nossa essência reside em nossa alma e essa sim é imortal. Quiçá seja esse reconhecimento que nos impulsione para frente, que nos dê a ilusão de que essa casca física é mais forte do que de fato é.

            Há algumas semanas eu andava por uma das lojas do Pão de Açúcar e abaixei-me para pegar uma caixa de aveia. Quando me levantei senti uma dor tão forte no alto da cabeça e percebi que havia batido em algo. Meio desacorçoada, demorei alguns instantes para entender o que me atingira. Havia um imenso monitor de TV, no qual propagandas da rede ficavam passando e que estava extremamente mal posicionado, representando um risco para os desavisados e distraídos como eu.

            A dor que senti foi tamanha que achei que fosse desmaiar. Passando a mão pela cabeça eu senti que um imenso galo se levantava pronto para cantoria. Sem saber o que fazer, peguei um pacote de um produto que ia comprar congelado e fiquei terminado de fazer as compras com ele na cabeça, enquanto lágrimas teimosas, de dor e raiva, desciam pelos meus olhos. Sinceramente, na hora nem me importei com o que os outros estariam pensando daquela cena, mas agora fico até curiosa.

            Fiquei pensando, enquanto andava por ali, que tudo muda em única segundo. Em como nosso corpo é frágil, quebrável mesmo. Se fosse algum idoso ou criança no meu lugar, o estrago seria feio. Lembrei-me de uma conhecida que, por uma tragédia, enquanto caminhava rumo à Aparecida do Norte, perdeu a vida após um imenso galho se soltar de uma árvore, atingindo-a. E ela só estava indo rezar, cumprir uma promessa.

            A gente fica achando que a morte manda avisos, mas ela não o faz. É tudo mesmo como se fôssemos uma simples fagulha. Qualquer brisa pode nos extinguir. Ter consciência disso não significa viver pensando na morte, contudo. Sabermos disso deveria provocar em nós os melhores sentimentos, principalmente o senso sobre o que e quem é realmente importante.

            Essa semana tive a notícia de que a filhinha de uma ex-aluna querida veio à óbito. Uma enfermidade a levou desse mundo com apenas seis anos de vida. Fico imaginando a dor, o vazio do impreenchível e que tudo muda em um piscar de olhos. É a máxima segundo a qual para morrer basta estar vivo e nada mais. Absolutamente nada mais se faz requisito.

            Sei que para tocarmos nossas vidas é necessário seguirmos adiante, destemidos, mas creio que vale a lembrança de que a vida é um frágil cristal e que todo tempo que nos é dado ou a quem amamos é uma dádiva ímpar. Vivamos com alegria, com gratidão. O final, inevitável, sempre nos alcançará, ainda que nos esqueçamos disso.

 

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada,professora universitária, membro da Academia Linense de Letras e escritora.  São Paulo-

 



publicado por Luso-brasileiro às 17:54
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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - RESÍDUOS DE EMOÇÕES

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A moça nasceu e permanece em lugar distante daqui. A sua cidade de origem se encontrava em expansão em meados da década de 60. Sua casa, no entanto, era de periferia da cidade grande. Os pequenos riachos, outrora espaço de folguedos, se transformaram em rede de esgoto a céu aberto, proliferando doenças. A falta de perspectivas de futuro da maioria de seus amigos, de infância e adolescência descuidadas, se transformou em violência. E esse assunto de falta de atenção para crianças é complexo: inúmeras vezes, a presença paterna é apenas um nome – isso quando assume – e a materna se faz de serviços transitórios para sustentar os seus pequenos. Escolas com período integral são poucas. Milhares de pequeninos, portanto, crescem ao acaso. 
Mal o corpo de moça tomou o lugar da criança, foi para o centro, distante das misérias de seu bairro, e lá conheceu as luzes das boates. Inseriu-se nos cabarés, como outras garotas com quem brincava de roda, de bonecas feitas com sabugo, de nadar nos riachos com esgoto... Envolveram com álcool as desesperanças e se tornaram cinderelas somente dos impulsos sexuais. Foi em um dos palcos que notou haver dentro dela uma palpitação diferente. Aceitou sem festa. Resultado de seu cotidiano.  Entregou para a mãe criar. E foi, assim, ao longo do tempo, guardando sentimentos cinza, descrenças, autoestima negativa, decepções... Do palco à sarjeta, o brilho e colorido se desfizeram. O sangue que pulsava em seu coração se tornara como os riachos das beiradas de seu berço. E por considerar que era sina, deixou tudo acumulado em seu íntimo. Para completar veio, recentemente, o diagnóstico da doença incurável que exige muito zelo. Fechou-se em seu cômodo, alimentando-se de “cigarro”. 
A filha foi vê-la. O entorno do cômodo sem sujeira, mas dentro o acúmulo de lixo de todos os tipos, o que produz e o que recolhe das ruas, e insetos e roedores em circulação. Esbravejou com a limpeza. Amaldiçoou quem removia o que era parte de seu mundo. Construíra sua história sobre detritos. Fora expulsa da vida de inúmeros e ali lhe restava o que conseguira. Além de possíveis desatinos, provocados pela doença, creio que o armazenamento de despejos era a imagem do que guardou pela vivência de misérias tantas, sem a possibilidade de se fortalecer e de um ombro que lhe dissesse de respeito e amor.

 

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE -

 Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.


 



publicado por Luso-brasileiro às 17:50
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JOSÉ RENATO NALINI - NÃO SE ESCOLHA NAUFRÁGIO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Você sabia que em 1820, a renda per capita brasileira era superior à da Austrália, Nova Zelândia e Grécia? E que o indicador, considerado importante avaliação do bem-estar, não era na Escandinávia e Canadá, muito superior ao brasileiro na mesma época? O que aconteceu com o Brasil desde então?

Deixamos de acumular capital humano. Negligenciamos tanto as habilidades cognitivas como aquilo que hoje se denomina de “competência socioemocional”. Ou seja: não levamos a sério a única ferramenta capaz de nos libertar do naufrágio certo: a educação.

No livro Roots of brazilian relative economic backwardness, do economista Alexandre Rands Barros, encontra-se uma percuciente análise da realidade brasileira. A disponibilidade de capital humano e físico – máquinas e equipamentos – responde por 90% das diferenças de renda per capita entre os países. Cotejados os dois fatores, o capital humano tem papel mais relevante.

A migração internacional de pessoas é mais lenta do que a migração de máquinas, equipamentos e tecnologia. Estes são alocados de acordo com a disponibilidade da força de trabalho mais qualificada. Por isso é que a escolaridade e a qualidade da educação dos trabalhadores são tão cruciais para o desenvolvimento de qualquer Nação.

O Brasil tem baixíssimo estoque de capital humano. Uma visão escravagista, patrimonialista e individualista impediu a adoção consistente de políticas propulsoras da acumulação de fatores pró-crescimento. A política arcaica e paroquial inibiu investimentos maciços em educação. O desenvolvimento brasileiro ainda é viável, mas se houver seriedade e enfrentamento daquilo que impulsione de maneira mais significativa a escolaridade e a qualidade da educação.

Há um nicho pensante no Brasil, que já ofereceu projetos para este ano emblemático. Uma “agenda setorial” consta do livro Retomada do crescimento. Diagnósticos e propostas, organizado por Fábio Giambiagi e Mansueto Facundo de Almeida Júnior. Ela contempla exatamente a educação, que soluciona ou ao menos atenua todos os demais problemas brasileiros. Saúde, pobreza, segurança, infraestrutura, desigualdade, meio ambiente. Educação que é dever de todos. Ninguém está excluído de libertar a população do véu de ignorância que acomete legiões, cada nicho imerso numa cegueira inconsciente ou deliberada. Olhar o outro com respeito e comiseração. Estender a mão para que o indigente saia da miséria, o desajustado consiga inclusão, o analfabeto – em sentido estrito ou funcional, o que é muito pior – consiga ler e compreender a realidade de seu universo.

O cenário otimista não deixa de considerar a imersão de milhões de brasileiros na era digital. Se quase todas as pessoas navegam nas redes sociais e se servem da tecnologia de informação e comunicação hoje disponível e a cada instante mais acessível, por que não se servir dessa ferramenta para esclarecer, para conscientizar, para desenvolver um sentido de responsabilidade que ficou escondido na onda fácil da profusão de direitos sem os respectivos deveres?

A infância tem desenvoltura que não se poderia imaginar há algumas décadas, para descobrir funcionalidades insuspeitas e para resolver problemas triviais, com os quais a sociedade convivia sem enxergá-los ou numa profunda inércia. Educação deve ser o compromisso permanente e o mais urgente, não só para o governo. Mas para a família – ou o que veio a substituí-la como núcleo afetivo sem o qual o ser humano não se desenvolve emocional e afetivamente – e para toda a sociedade.

Na era do fim do emprego, a qualificação formal é insuficiente para suprir o mercado das habilidades que o mundo reclama. Universidade, empresas, organizações, entidades e pensadores conscientes precisam investir em estruturas para identificar os potenciais exercentes daquelas atividades que são necessárias e que podem sequer ter um nome. Novas funções, novos negócios, novos afazeres exigem uma novíssima e contínua capacitação do enorme potencial de nossa mocidade. Fenômeno constatável por todos aqueles que vivenciam a experiência de oferecer instrumental tecnológico suficientemente sedutor para arejar a mentalidade nem sempre disponível na educação formal.

Uma janela de otimismo até que vai bem na era da incerteza e da incompreensão, em tempos tenebrosos que reclamam prudência e serenidade, além da invencível confiança na predestinação da espécie.

 

 

 

JOSÉ RENATO NALINI é secretário estadual de Educação e docente da Uninove



publicado por Luso-brasileiro às 17:43
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PÉRICLES CAPANEMA - O ARCEBISPO ESBOFETEIA IMPIEDOSAMENTE A VERDADE

 

 

 

 

 

 

 

 

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“Neste momento, os que melhor aplicam a doutrina social da Igreja são os chineses”. Chineses aqui são o Partido Comunista da China e o governo da China Popular. O autor da frase é o arcebispo dom Marcelo Sánchez Sorondo, chanceler da Pontifícia Academia das Ciências e da Pontifícia Academia de Ciências Sociais. Argentino como o Papa Francisco, é tido como conselheiro próximo do Pontífice.

 

Meses atrás o Prelado visitou rapidamente a China, foi recebido com salamaleques em visita controlada e agora, repentinamente, resolveu falar. Desembestou nas bajulações escandalosas: “Os chineses buscam o bem comum, subordinam as coisas ao bem geral. Encontrei uma China extraordinária, o que o pessoal não sabe é que o princípio central chinês é trabalho, trabalho, trabalho. Nada além, no fundo é como dizia são Paulo, quem não trabalha, que não coma. Não têm favelas, não têm drogas, os jovens não têm droga. Existe como que uma consciência nacional positiva”. Pequim “está defendendo a dignidade da pessoa, seguindo más que outros países a encíclica de Francisco ‘Laudato sì’”.

 

Para ficar completo o servilismo, não poderia faltar o ataque aos Estados Unidos: “A economia não domina a política, como acontece nos Estados Unidos. Como é possível que as multinacionais do petróleo manipulem o Trump? O pensamento liberal liquidou o conceito de bem comum. Em sentido contrário, os chineses propõem trabalho e bem comum”.

 

Abaixo lembrarei pontos de doutrina. Antes, fatos. Afirmei acima, repentinamente o Prelado resolveu falar. Em termos. Tais declarações não devem ser vistas no mínimo apenas como cadência trágica de covardias diante do tirano intimidador e prepotente. Além de eventuais consonâncias ideológicas ▬ sempre presente entre o Progressismo e o Comunismo (são delas tristes e frisantes exemplos frei Betto e o ex-frei Boff) ▬ essse rebaixamento degradante deve ser analisado no contexto da presente aproximação entre o Vaticano e o governo chinês.

 

As notícias a respeito das tratativas puseram em choque os católicos e bispos fieis a Roma, hoje na clandestinidade (a chamada Igreja subterrânea), preteridos por bispos e seguidores da Associação Patriótica Católica Chinesa, organismo estatal fundado em 1957 pelo governo para controlar os católicos do País (ela comanda a chamada Igreja oficial, subserviente a Pequim). A mencionada Associação, segundo texto dela, procura implementar “os princípios da independência e autonomia, autogestão e administração democrática” na Igreja Católica da China. Resumido, é organização fantoche do governo e do Partido Comunista. Alguns de seus membros nem se declaram católicos.

 

Emissários da Santa Sé tentam subordinar a ação pastoral de bispos leais a Roma aos bispos indicados por Pequi, subordinar a Igreja subterrânea à Igreja dita patriótica; em uma palavra, são entregues os perseguidos aos perseguidores. O cardeal dom Joseph Zen, arcebispo resignatário de Hong Kong tomou a defesa dos bispos e dos católicos leais a Roma, abrindo crise séria com a Santa Sé. Adverte o anterior cardeal de Hong Kong: “Nos últimos dias, irmãos e irmãs vivendo na China continental foram informados que o Vaticano está pronto para se render ao Partido Comunista da China”. Continua o Purpurado: “Percebendo que os bispos ilegítimos e excomungados vão ser legitimados e que os bispos legítimos serão obrigados a se demitir, é forçoso que os bispos legítimos e clandestinos estejam preocupados com seu destino. Quantas noites de sofrimento padres e leigos terão de passar pensando que, curvados, terão de obedecer bispos agora ilegítimos e excomungados, amanhã legitimados pela Santa Sé e apoiados pelo governo?” O cardeal dom Joseph Zen informou ainda que o Papa Francisco o advertiu, não quer um “novo caso Mindszenty”. O cardeal Mindszenty se opôs ao governo comunista húngaro e à política de aproximação de Paulo VI com o governo comunista húngaro.

 

Outros fatos. Dom Sánchez Sorondo garantiu, os chineses “não têm drogas, os jovens não têm droga”. Vai contrao que dizem os próprios chineses. A Comissão Nacional de Controle de Narcóticos, órgão do governo comunista chinês, em recente declaração oficial advertiu que o problema das drogas no país está “se disseminando com grande velocidade”. E a organização Human Rights Watch condena o “tratamento cruel, desumano e degradante” padecido pelos viciados e traficantes nas prisões chinesas. Uma parte, e não pequena, é fuzilada, outra é internada compulsoriamente em locais de reabilitação. A China, que não fornece dados, apavorantes certamente, é tida como o que mais fuzila condenados no mundo, milhares anualmente. Existência de favelas. Sonha dom Marcelo: a China “não tem favelas”. Pergunta o padre Bernardo Cervellera, missionário do Instituto Pontifício de Missões Exteriores (PIME) e diretor de AsiaNews. especialista em assuntos chineses: “Nosso bispo tentou ir ao sul de Pequim? Ali o governo está fazendo sem-tetos aos milhares, desalojando trabalhadores migrantes. Visitou a periferia de Shangai? Visitou as periferias das grandes megalópoles chinesas?” Claro, nada disso viu o apressado e louvaminheiro eclesiástico.

 

Agora, um ponto de doutrina. João XIII, na “Mater et Magistra” define o bem comum como o conjunto das condições da vida social que permite às pessoas, às famílias e aos grupos alcançarem de maneira mais fácil e plena a própria perfeição. Fica claro, o bem comum facilita a busca da perfeição nos mais variados campos. Começo pelo religioso. No caso, o bem comum deve facilitar a “salus animarum”, a salvação das almas. As gravíssimas advertências do cardeal-arcebispo resignatário de Hong Kong me dispensam de comentar qualquer coisa a respeito. Falei em liberdade religiosa. Recordo agora o ambiente favorável ao desenvolvimento das virtudes morais (alcançar mais facilmente a própria perfeição, ensina João XXIII). O governo chinês as favorece? Por exemplo, o fortalecimento da personalidade, com a consequente ampliação do âmbito da autonomia, é favorecido por governo totalitários? Seria um disparate afirmá-lo. Favorece o pleno desenvolvimento das famílias? E a política, agora oficialmente supressa pelo desastre monumental que ocasionou, de um filho por família? E a imposição dos abortos? Milhões e milhões de abortos impostos a cada ano. Poderia lembrar, sem fim, pontos apavorantes.

 

Foi título do artigo: O Arcebispo esbofeteia impiedosamente a verdade. Está bem, mas vou acrescentar um advérbio: O Arcebispo esbofeteia impune e impiedosamente a verdade. Deixando mais claro: Na subserviência escandalosa aos tiranos, o Arcebispo impune e impiedosamente o Arcebispo esbofeteia a verdade.

 

 

 

PÉRICLES CAPANEMA - é engenheiro civil, UFMG, turma de 1970, autor do livro “Horizontes de Minas"

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 17:34
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FELIPE AQUINO - POR QUE A QUARESMA ?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desde os primórdios do Cristianismo a “Quaresma marcou para os cristãos um tempo de graça, oração, penitência e jejum, afim de obter a conversão”. Ela nos faz lembrar as palavras do Mestre divino: “Se não fizerdes penitência, todos perecereis” (Lc 13,3).

 

 

Esses quarenta dias que precedem a Semana Santa, são colocados pela Igreja para que cada um de nós se prepare para a maior de todas as Solenidades litúrgicas do ano, a Páscoa, a grande celebração da Ressurreição de Jesus, a vitória Dele e nossa sobre o Mal, sobre o pecado, sobre a morte e sobre o inferno.

A Carta apostólica do Papa Paulo VI, aprovando as Normas Universais do Ano 0 Litúrgico e o novo Calendário Romano geral, diz, no n. 28: “O tempo da Quaresma vai de Quarta-feira de Cinzas até a Missa na Ceia do Senhor (Quinta-feira santa, à tarde), inclusive”.

A celebração litúrgica não é mera lembrança do passado, algo que aconteceu com Jesus e passou, não. Jesus esta? presente na Liturgia. O Catecismo diz que: “Pela liturgia, Cristo, nosso redentor e sumo sacerdote, continua em sua Igreja, com ela e por ela, a obra de nossa redenção.” (§1069). Isto é, pela Liturgia da Igreja Ele continua a nos salvar, especialmente pelos Sacramentos, e faz tornar presente a nossa redenção.

Mas, para que o cristão possa se beneficiar dessa celebração precisa estar preparado, com a alma purificada e o coração sedento de Deus. A Igreja recomenda sobretudo que vivamos aquilo que ela chama de “remédios contra o pecado” (jejum, esmola e oração), que Jesus recomendou no Sermão da Montanha (Mt 6, 1-8) e que a Igreja nos coloca diante dos olhos logo na Quarta-feira de Cinzas, na abertura da Quaresma.

A meta da Quaresma é a expiação dos pecados; pois eles são a lepra da alma. Não existe nada pior do que o pecado para o homem, a Igreja e o mundo.

 

 

Leia também: O jejum quaresmal

Quaresma, tempo de voltar para Deus

Quais os símbolos e sinais da Quaresma?

Qual é a origem da Quaresma?

A Penitência da Quaresma

Como viver a Quaresma?

 

 

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Todos os exercícios de piedade e de mortificação têm com objetivo de livrar-nos do pecado. O jejum fortalece o espírito e a vontade para que as paixões desordenadas, especialmente aquelas que se referem ao corpo (gula, luxúria, preguiça), não dominem a nossa vida e a nossa conduta. A esmola socorre o pobre necessitado e produz em nós o desapego e o despojamento dos bens terrenos; isto nos ajuda a vencer a ganância e o apego ao dinheiro. A oração fortalece a alma no combate contra o pecado. Jesus recomendou na noite de sua agonia: “Vigiai e orai, o espírito é forte mas a carne é fraca”. A Palavra de Deus nos ensina: “É boa a oração acompanhada do jejum e dar esmola vale mais do que juntar tesouros de ouro, porque a esmola livra da morte, e é a que apaga os pecados, e faz encontrar a misericórdia e a vida eterna” (Tb 12, 8-9).

“A água apaga o fogo ardente, e a esmola resiste aos pecados” (Eclo 3,33). “Encerra a esmola no seio do pobre, e ela rogará por ti para te livrar de todo o mal” (Eclo 29,15).

Jesus ensinou: “É necessário orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo” (Lc 18,1b); “Vigiai e orai para que não entreis em tentação” (Mt 26,41a); “Pedi a se vos dará” (Mt 7,7). E São Paulo recomendou: “Orai sem cessar” (I Ts 5,17).

Quaresma é pois tempo de rompimento total com o pecado. Alguns pensam que não têm pecado, se julgam irrepreensíveis, como aquele fariseu da parábola que desprezava o pobre publicano (Lc 18,10 ss); mas na verdade, muitas vezes não percebem os próprios pecados por causa de uma consciência mal formada que acaba encobrindo-os. Para não cairmos neste erro temos de comparar a nossa vida com aqueles que foram os modelos de santidade: Cristo e os Santos.

 

 

Assista também: Por que devemos jejuar na Quaresma?

Como viver a quaresma com um verdadeiro espírito penitencial?

A importância dos exercícios quaresmais

 

 

Assim podemos nos preparar para o Banquete pascal glorioso, encontrando-se com o Senhor ressuscitado e glorioso com a alma renovada no seu amor.

No Brasil, a CNBB incorporou à Quaresma a Campanha da Fraternidade, para aproveitar esse tempo forte de espiritualidade para o exercício da caridade e também da cidadania. Neste ano o tema é “Escolhe pois a vida”; a luta contra todo desrespeito à vida humana, sobretudo o aborto, eutanásia, inseminação artificial, manipulação de embriões, uso da “camisinha”, da pílula abortiva do dia seguinte, etc.

É uma grande oportunidade que Deus nos dá para lutarmos especialmente contra o aborto que ronda e ameaça ser legalizado em toda a América Latina. Nenhum católico pode se calar neste momento. O silêncio dos bons não pode permitir que a audácia dos maus sobressaia e implante o terrível crime em nosso país. O chão sagrado desta Terra de Santa Cruz, não pode ser manchado com o sangue inocente de tantas crianças assassinadas no ventre de suas mães. Nem as cobras fazem isso!

 

 

 

FELIPE AQUINO - Escritor católico. Prof. Doutor da Universidade de Lorena. Membro da Renovação Carismática Católica.



publicado por Luso-brasileiro às 17:23
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PAULO R. LABEGALINI - AS QUATRO CRUZES DO CALVÁRIO

 

 

 

 

 

 

 

 

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É de triste lembrança pra muita gente a paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas as lições de vida que Ele nos deixou merecem continuar sendo analisadas a cada dia. Imagine as cruzes que estavam de pé no Calvário...

A primeira, a cruz de Cristo, ao centro, até hoje representa a nossa salvação. Mesmo aqueles que são injustiçados pela cobiça que há no mundo, conseguem entrar na vida eterna se carregarem as suas cruzes com dignidade cristã.

Na segunda cruz, à direita de Jesus, estava o ‘bom ladrão’ Dimas, suplicando a misericórdia de Deus em remissão dos seus pecados. Que ‘sorte’ teve São Dimas em poder se confessar com o Filho de Deus antes de sua morte! A sua cruz representa o perdão.

A terceira cruz suportou até o fim o peso do pecado. O ladrão, que lá estava, não usou da virtude do arrependimento para se salvar e morreu na cruz da condenação.

E a quarta cruz, quem estava nela? Quem mereceu estar na cruz da pureza? Essa cruz foi ‘ocupada’ por Maria Santíssima, a Virgem Mãe que suportou com firmeza o cruel e injusto sofrimento do seu Filho Santo. Ela presenciou, de pé, a maior maldade humana da história sobre uma só Criatura.

Deus a escolheu para estar naquela cruz porque sabia que nela podia confiar. E foi também confiando em Deus que Maria se tornou, com o seu exemplo, modelo de fé, modelo de amor e modelo de fidelidade cristã.

Hoje, graças a Deus, Maria é a nossa Mãe e a Mãe da Igreja. Com ela aprendemos que não existe sofrimento capaz de nos desviar das estradas de Jesus. À nossa frente, ela pisa na cabeça da serpente infernal e nos conduz, como filhos queridos, à cruz da salvação.

Peça a Nossa Senhora para livrar você da cruz da condenação e sempre curar as agonias de seu coração; e, a cada dia, sempre que a sua cruz de pecador se tornar mais leve, lembre-se de agradecer: ‘Obrigado, Mãe querida!’

           

 

 

PAULO ROBERTO LABEGALINI Escritor católico. Vicentino de Itajubá - Minas Gerais - Brasil. Professor Doutor do Instituto Federal Sul de Minas - Pouso Alegre.‘Autor do livro ‘Mensagens Infantis Educativas’ – Editora Cleofas.



publicado por Luso-brasileiro às 17:17
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Sábado, 17 de Fevereiro de 2018
HUMBERTO PINHO DA SILVA - O QUE ESTÁ NA MODA: VINHO BRANCO OU TINTO ?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Havia, na Rua de Santa Catarina, no Porto, importante armazém, que primava pela elegância e bom gosto.

A cafetaria era frequentada pelas senhoras da alta sociedade portuense, que ao fim da tarde, tomavam chá com torradas… Só que o bule de porcelana, continha vinho branco, em lugar do Ceilão, servido em finas e delicadas chávenas.

O estratagema servia, maravilhosamente, para quem deambulasse pela loja, não descobrisse que as tais senhoras, da “ boa” sociedade, bebiam vinho…

Ora, durante o almoço de beirões, que participei, um deles, contou o seguinte:

A mulher possuía quinta no Douro. A vinha era quase toda de uva preta, que vendia a cooperativa vinícola.

Após a Revolução de Abril, a direção da Cooperativa – como sucedeu a muitos, – foi tomada por revolucionários “ inteligentes”, que convocaram reunião extraordinária. Entre várias recomendações, aconselharam os sócios, arrancarem as cepas, que produziam uva preta, por branca.

Asseveravam, que: após Abril de 1974, os portugueses, mais evoluídos e enriquecidos, deixariam de beber o “ carrascão”, nas tabernas, e passariam a imitar os empresários e as “ madames”, e beberiam vinho branco, de preferência de boa qualidade.

Muitos agricultores, ingénuos, acreditaram, e começaram a tarefa de substituir as cepas.

Quem me contou, não o fez, segundo declarou, e fez bem, já que, presentemente, o tinto é mais preferido.

Até as senhoras, que outrora bebiam vinho branco, em chávenas, passaram a usar copos, que são enchidos com vinho tinto do Dão ou de óptimas cepas da Mealhada.

Dizem-me, agora, que se torna elegante, em São Paulo, oferecer vinho branco.

A ser verdade, creio que o é, se não for habilidade de vinícolas – para escoarem abundância de vinho branco, – a moda, pode ser semelhante, à que escutei, anos atrás, num almoço de amigos beirões, na cidade do Porto.

O gosto e a elegância, depende da moda, e a moda da publicidade, e dos interesses de minorias, que, dissimuladamente, influenciam a coletividade, de forma tão subtil, que, gostos e modos de pensar, se alteram, não porque queremos, mas porque eles querem.

 

 

 

HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal



publicado por Luso-brasileiro às 19:50
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EUCLIDES CAVACO - AZINHAGA DA SAUDADE - FADO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
Autor: Euclides Cavaco - Intérprete: João Balças.Mais um fado inspirado nos recantos nostálgicos do nosso Portugal, que nos trazem à lembrança memórias que nunca morrem. Vejam este video 
elaborado por Gracinda Coelho.

 



https://www.youtube.com/watch?v=EXvzsZQiTWc&feature=youtu.be

 

 

EUCLIDES CAVACO  -   Director da Rádio Voz da Amizade , Canadá.

 

 

 

 

 

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 Palavra do Pastor, com Dom Vicente Costa, 

bispo diocesano de Jundiaí

1º Domingo do Tempo da Quaresma

 

 https://youtu.be/3mFHcDPjrcY

 

 

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publicado por Luso-brasileiro às 19:20
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Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2018
JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI - A POESIA PROPICIA ENCANTO E ATÉ ROMANTISMO AO CARNAVAL

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

        Em “O outro carnaval”,  Carlos Drummond de Andrade assim se expressou: “Fantasia,/ que é fantasia, por favor?/ Roupa-estardalhaço, maquilagem-loucura?/ Ou antes, e principalmente,/ brinquedo sigiloso, tão íntimo,/ tão do meu sangue e nervos e eu oculto em mim,/ que ninguém percebe, e todos os dias/ exibo na passarela sem espectadores?”. Nessa trilha, o consagrado compositor Aldir Blanc indicou: “Custei a compreender que a fantasia/ É um troço que o cara tira no carnaval/ E usa nos outros dias por toda a vida”.

         O brilhantismo desses escritos revela a grandiosidade que o carnaval despertava nas pessoas anos atrás, a tal ponto de confundirem realidade com fantasia, interligando-os por aspirações e desejos. Ainda é um período no qual se evidenciam ilusões, alguma irreverência, mas desprovida da intensidade de anos atrás.

         A poesia, no entanto, faz parte integrante de sua estrutura, não só nas composições típicas, mas também nas inspirações dos autores. Efetivamente nossos poetas exaltam, analisam, comparam, criticam e reverenciam os dias carnavalescos. No entanto, mantém em suas obras o encanto que provocavam muito mais no passado do que hoje. As pessoas se despiam de seus pudores, de suas posturas sérias e de posições frustrantes e tentavam superá-las pelo menos nos momentos de alegria, de desafios, de atrevimento, mas principalmente de brincadeiras sadias e busca por paixões passageiras, sendo que muitas se consolidavam na permanência. Vinicius de Moraes em seu “Soneto de Carnaval” já dispunha: “E vivemos partindo, ela de mim/ E eu dela, enquanto breves vão-se os anos/ Para a grande partida que há no fim”. 

         Certamente os versos não se distanciam dos festejos, embora os coloque até como retratos de momentos não tão felizes, às vezes pela rapidez de sua duração, mas o que vale é o estado de espírito de cada folião, carnavalesco, sambista ou daquele que só o assiste, em participação discreta, variando cada qual da empolgação à emoção, da frieza à malícia, do desprendimento ao total envolvimento. “No delírio, porém ,da febre ardente/ Da ventura fugaz e transitória/ O peito rompe a capa tormentória/ Para sorrindo palpitar contente” (“A Máscara” de Augusto dos Anjos).

         Pessoalmente sempre gostei do Carnaval. Quando adolescente já curtia as matines e os bailes carnavalescos do Grêmio CP em Jundiaí - SP. Cheguei a integrar a escola de samba “Se Morrer Não Faz Mal”, com sócios dessa agremiação e saia nos desfiles de rua. Era outra época e sempre encontrávamos algum aspecto romântico que o deixava ainda melhor. Sem contar nas amizades que nasciam nos grupos enriquecidos com competições de melhores fantasias. Uma grande felicidade às vezes interrompida por alguns goles a mais, curados com os produtos  naturais contra a ressaca (suco de tomate, sopa de cebola e outros). Um clima de harmonia contagiava todos.

         Pena que atualmente tais circunstâncias são geralmente substituídas por músicas de baixo nível, muitos clubes nem enfeitam ou usam seus salões nessa ocasião e os indivíduos parecem estar trocando essas práticas espontâneas por um período de mero feriadão. Restam blocos de rua, populares em essência, ricos em tradição e dotados de pura alegria. Salvam o que de melhor tínhamos na área, a simplicidade e a ingenuidade das comemorações populares.

         E para saudosistas como eu, a certeza de que a poesia permanecerá  estritamente ligada ao período como foi outrora. Chorava toda terça-feira de Carnaval quando a Orquestra City Swing executava  no último baile de carnaval no Grêmio a inesquecível “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas” de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra da qual extraio os seguintes trechos: “Acabou nosso carnaval/ Ninguém ouve cantar canções/ Ninguém passa mais/ Brincando feliz/ E nos corações/ Saudades e cinzas/ Foi o que restou// Pelas ruas o que se vê/ É uma gente que nem se vê/ Que nem se sorri/ Se beija e se abraça/ E sai caminhando/ Dançando e cantando/ Cantigas de amor// E no entanto é preciso cantar/ Mais que nunca é preciso cantar/ É preciso cantar e alegrar a cidade// A tristeza que a gente tem/ Qualquer dia vai se acabar/ Todos vão sorrir/ Voltou a esperança/É o povo que dança/ Contente da vida/ Feliz a cantar...”.

 

 

 

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, jornalista, escritor e professor universitário. É presidente da Academia Jundiaiense de Letras (martinelliadv@hotmail.com)

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:41
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ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - REVOLUCIONÁRIO: HERÓI OU BANDIDO ?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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      O termo “revolucionário” é geralmente visto como elogioso, pela historiografia inspirada nos autores marxistas. Se considerarmos o curso da história como algo progressivo e inelutável, dentro da lógica de um sistema determinado por forças sociais que ultrapassam de muito o livre arbítrio dos homens individualmente considerados, revolucionários são aqueles que se antecipam ao processo e, por assim dizer, queimam as etapas do seu desenrolar. Apressam por seus atos, muitas vezes radicais, os entrechoques dialéticos que fazem a História avançar.

Dentro dessa ótica, que dos livros de teoria marxista passou para muitos livros didáticos e, mesmo, para a linguagem corrente de muita gente sem espírito crítico, os revolucionários têm sempre uma aura simpática, mesmo quando procedem às maiores barbaridades e aos genocídios mais espantosos. São sempre apresentados como heróis, como idealistas, como sublimes visionários dignos do maior respeito e de total compreensão, mesmo quando praticam as mais cruéis barbaridades. São apresentados sempre como modelos para a juventude... como um Che Guevara, para citar um único exemplo.

Lembro de ter lido a idealização perfeita desse revolucionário no romance “Os miseráveis”, de Victor Hugo. Ele descreve um personagem de nome Enjolras, um jovem terrorista que lutou e morreu lutando nas barricadas de uma revolta, na Paris de 1832. Ele é apresentado como o revolucionário ideal. É frio, é duro, é implacável, mas é sublime no seu radicalismo. É uma visão cem anos avançada, do Che Guevara, assassino cruel “sin perder la ternura” (sic!), como se isso fosse possível!

Pessoalmente, recuso essa lógica e recuso essa terminologia. Para mim, o revolucionário é quase sempre (note-se o advérbio restritivo quase) um bandido, que utiliza meios ruins para atingir fins ainda piores. Revolucionário provém, como é evidente, do latim “revolvere”, que é revolver. Revolucionário é quem sente necessidade de destruir para melhorar. Conservador, pelo contrário, é quem, diante de uma situação imperfeita e injusta, procura sempre que possível, alternativas razoáveis para melhorá-la, corrigi-la, aprimorá-la, sem a compulsão irresistível de destruir para começar tudo de novo.

O que faz o médico diante de um organismo doente é sempre um tratamento conservador. Procura afastar as causas das doenças, destruir os focos em que ela produziu no doente, vitalizar o que ainda há de bom no seu organismo e deixar que o tempo faça a sua obra e traga de volta a saúde. Há horas em que, sem dúvida, deve-se destruir, deve-se cortar com decisão, até mesmo, se indispensável, a sangue frio. Há horas em que é preciso recomeçar tudo da estaca zero. Mas essas são soluções extremas que não devem constituir regra geral, são antes exceções que somente têm cabimento quando não há outra solução menos traumática.

A velha e sempre citada imagem de que a revolução é um meio fecundo para assegurar o progresso, porque é revolvendo a terra que ela desperta sua força criativa e germinativa, até isso a evidência dos fatos hoje nega. Hoje sabe-se perfeitamente que o sistema de revolver a terra favorece a erosão e o empobrecimento dos solos, e que o sistema pioneiro do plantio direto, aperfeiçoado por técnicos de nosso país, que propõe replantar sobre o solo não revolvido, revolucionou (agora estou usando a palavra no bom sentido) a agricultura brasileira, que produz muito mais, com menos adubo e com menor agressão ao ecossistema.

Assim também, transformações lentas, graduais, seguras e pacíficas nas sociedades, sem os desgastes e os inconvenientes das revoluções radicais, servem para assegurar melhor o progresso e o bem-estar dos povos. É inegável que o capitalismo aplicado na primeira fase da Revolução Industrial era abusivo e gravemente injusto; situações como a das minas de carvão da Inglaterra, em que crianças puxavam pesadas cargas em túneis estreitos, com arreios amarrados ao corpo, eram inadmissíveis e não podiam ser toleradas.

No Ocidente, as sociedades burguesas mantiveram o sistema capitalista, mas souberam pouco a pouco ir corrigindo seus excessos e desequilíbrios. Os operários foram progressivamente melhorando suas condições de vida, enquanto as sociedades comunistas fizeram a revolução social, instalaram a pior ditadura de todos os tempos, nunca foram capazes de assegurar a prometida e quimérica igualdade (basta lembrar a famosa Nomenklatura, as luxuosas dachas do Mar Negro etc.) e somente produziram miséria. No total no total, a sociedade ocidental foi muito mais benéfica para o seu operariado do que a comunista.

Isso mostra que a destruição da "ordem burguesa" não era indispensável para o estabelecimento da justiça social, como supunha Marx. E tinham razão o Papa Leão XIII, autor da célebre encíclica “Rerum Novarum”, e intelectuais como o Prof. Charles Perin (1815-1905), de Louvain, ensinando que eram falaciosas as ideias socialistas e que o operariado mais sofreria do que lucraria com o triunfo eventual de tais ideias. A justiça social se realiza mais plena e seguramente pelo equilíbrio harmônico entre classes sociais, e pela busca da compreensão mútua, nas vias da justiça e da caridade, do que numa quimérica igualdade instalada a partir do antagonismo irremediável entre elas.

 

 

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS, é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História.



publicado por Luso-brasileiro às 18:34
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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - VIVÊNCIAS DE ANGÚSTIAS SUICIDAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Vivências de angústias suicidas parecem aumentar, bem como os casos de fato. Realidade cruel. Parece-me que, em grande parte dos casos, se encontra presente a depressão. E depressão é doença séria, que se caracteriza por uma tristeza profunda e duradoura, pior do que muitas feridas na pele, pois não se consegue assoprar.
Recordo-me de alguns suicídios. Dois deles com gente do meu sangue, antes de meu nascimento, mas sei das dores que sentiram e das sequelas que deixaram. E vieram outros: da moça que chorava intensamente amores enganosos; a amiga de escola que se vestiu de dourado, sapato com brilho, para receber, de suas próprias mãos, um tiro certeiro; o mocinho, que vira crescer a dívida com drogas e entre a morte com tortura externa e o chumbinho de rato no organismo, decidiu pelo segundo; o jovem que perdera, por razões íntimas, as perspectivas de futuro e se dependurou numa corda no caibro do quarto; a moça glamorosa, de história de aplausos, que mergulhou na escuridão... O suicídio de achegados e ignorados pesa em mim.
Não se sabe, no instante derradeiro, se desperta a lucidez e existe a tentativa de retornar. O do jovem da corda, suas mãos estavam nela, como se desejasse desatar o nó.
Para os do entorno,  a sensação de desamparo, de culpa às vezes – embora não exista – e aquele “se” de: “Se eu tivesse percebido os seus apelos silenciosos?”, “Se eu tivesse ficado mais próxima?”. E outros.

Recordo-me de quando li, pela primeira vez, os poemas de Florbela Espanca, escritora portuguesa, que faleceu aos 36 anos. Há dúvida sobre ter  ou não se suicidado. Existe em sua poesia uma angústia que dói em mim. O seu poema “Eu”, em “Livro de Mágoas”, é um deles. Ela escreve: “Eu sou a que no mundo anda perdida,/ Eu sou a que na vida não tem norte... (...) / Sombra de névoa tênue e esvaecida,/ E que o destino amargo, triste e forte,/ Impele brutalmente para a morte!/ Alma de luto sempre incompreendida!.../ Sou aquela que passa e ninguém vê.../ (...) Sou a que chora sem saber por quê... (...) Sou talvez a visão que Alguém sonhou,/ Alguém que veio ao mundo pra me ver/ E que nunca na vida me encontrou!” Creio que ela traduza, talvez em parte, a agonia dos deprimidos e dos que pensam em suicídio.

É preciso interpretar os sinais das dores emocionais e velar pelas pessoas que os carregam.

Peço a Deus, todos os dias, pela alma dos que partiram através do suicídio e por aqueles, conhecidos ou desconhecidos, que se encontram em risco.

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE -

 Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.



publicado por Luso-brasileiro às 18:29
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CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - SAMBA BRASIL

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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                 E mais uma vez é festa no país do carnaval. Assim, por alguns dias os problemas que assolam o país são deixados de lado e tudo vira brincadeira. Algo parecido com o botão de pause na programação da televisão e goste você ou não da festa, tem sua rotina alterada por ela. É preciso dizer, contudo, sob pena de parecer hipócrita, que eu também, quando era adolescente, lá na cidade de Lins, no interior de São Paulo, brinquei o Carnaval.

            Foram momentos de muita diversão, muitas brincadeiras, paqueras e boas histórias para contar. Não sou contra a festa em si. Além disso, confesso que o feriado estendido é um descanso bem-vindo. Não sou daquelas que defende que a vida seja só feita de momentos de seriedade, de trabalho, como se viver, de fato, fosse apenas uma tarefa a ser desincumbida, um tempo a ser regimentalmente cumprido.

            Muito pelo contrário, penso que é preciso não levar tudo a sério demais, ao menos não aquilo que não precisa ser levado a sério, afinal de contas, de um jeito ou de outro, vamos perder a batalha, vamos deixar esse plano em algum momento. Conosco, se assim o Universo permitir, apenas levaremos as sombras do que sentimos, o amor que vivemos e recebemos. No mais, tudo é tão somente ilusão e passageiro.

            Mas retomando o tema do Carnaval, embora hoje eu não tenha mais a menor vontade de curtir no Reino de Momo, não me cabe fazer qualquer crítica a quem o faz. Contudo, hoje, como adulta, há determinados pontos que me incomodam sobremaneira. O primeiro deles é que a festa em si não fica restrita aos seus dias oficiais. Sob o pretexto de pré e pós Carnaval, a festança acaba se estendendo por quase todo o mês, com o consequente fechamento de vias públicas e mesmo com a utilização de recursos públicos.

            No final de semana que antecedeu o Carnaval foi praticamente impossível transitar pela cidade de São Paulo em determinados locais, muitos deles vias importantes para a circulação, sem rotas alternativas de igual potencial. Ficamos parados no trânsito em pleno sábado de manhã, para que os blocos de pré-Carnaval pudessem circular livremente. Podem me criticar à vontade, mas isso não está certo.

            Muito mais sério do que isso é o uso de dinheiro público para financiar grande parte desses eventos. Sou contra quando há tanto a ser feito em áreas muito mais importantes e vitais, como saúde, educação, segurança. Qual o benefício que o Carnaval de rua traz para a cidade como um todo? Não estou convencida de que o retorno financeiro não seja restrito a determinados grupos apenas e que, como quase tudo nesse país, o picadeiro não esteja armado para que a platéia é que faça o papel dos palhaços, mesmo ignorando tal condição.

            Dia desses li uma notícia de que em um município brasileiro o prefeito cancelou o financiamento do Carnaval de rua e investiu em uma campanha de cirurgias de catarata para a população. Fico pensando aqui que é provável que tal prefeito ou prefeita, não me lembro, não ser reeleja nas próximas eleições, pois por certo a medida, muito embora louvável, não é popular. No fundo, parece-me muitas vezes, o povo gosta de ser enganado e de ganhar pequenas esmolas.

            Penso que tudo bem a gente se esquecer por alguns dias de que vivemos uma imensa e lamentável crise moral no país. Tudo o que vemos são dedos apontados uns para os outros, com todo o tipo de acusações possíveis. Está, inclusive, bem difícil de saber em quem e no que acreditar. Em verdade, estamos desacreditados até mesmo de que haja uma solução, uma salvação. Fingirmos, assim, por cinco dias que tudo está bem, no fim das contas, não faz muita diferença...

            O ponto é que, dada a pausa já programada e inevitável, é necessário abrirmos os olhos para o estado de coisas em que vivemos e, ao menos, pensarmos que faz algum sentido que enquanto se alardeia falta de recursos, sejam investidas quantias absurdas com festanças. Será que estamos, no fundo, fantasiando nossos problemas?

            Tudo bem fazermos piada com tudo, desde que tudo não vire somente piada de mau gosto e desde que, ao final, não nos reste apenas o choro dos desamparados. Bom Carnaval a todos...

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA -Advogada,professora universitária, membro da Academia Linense de Letras e escritora.  São Paulo-

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:23
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