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Sábado, 31 de Agosto de 2019
JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI - UMA NAÇÃO QUE NÃO PRIORIZA EDUCAÇÃO, TRABALHO, SAÚDE E CULTURA, NÃO PODE SER CONSIDERADA INDEPENDENTE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Com muitas solenidades cívicas, celebra-se a sete de setembro o Dia da Independência no Brasil já antecedido por diversos festejos durante a Semana da Pátria. Sem dúvida alguma uma data histórica extremamente importante, cujo próprio significado traduz um processo ou uma condição a ser conquistada a cada dia. E aqui reside uma grande preocupação: efetivamente, uma nação que não investe prioritariamente em educação, trabalho, saúde e cultura, não pode ser considerada independente de fato e, assim, seu povo também não o será. Um indivíduo inculto não tem condições de se revelar num homem psicologicamente livre porque, incapaz de avaliar seus esforços, deixa-se sonegar pelas injustiças dos poderosos.

O Brasil tem sérios e profundos problemas que demandam soluções urgentes, estando na iminência de se instituir um verdadeiro caos social, onde o desrespeito às normas e às instituições se transforme numa abusiva constância. Grande parte dessa situação se origina da alienação e massificação que prevalecem até em pessoas que frequentam escolas em função da baixa formação que recebem. Tais circunstâncias geram egoísmo e comodismo levando ao embrutecimento espiritual e moral, tão bem produzidos por uma cultura consumista, embasada exclusivamente pelo poder econômico, muitas vezes, estritamente ligado à área política.

Para se combater problemas como a desigualdade social, a corrupção, a violência, a recessão e tantos outros, é necessário mais que a simples indignação. O percurso passa pela organização cada vez maior da sociedade civil e pelo exercício concreto da cidadania, também no cumprimento de se exigirem posturas compatíveis com as necessidades fundamentais da população, garantindo-lhe seus direitos básicos, sustentáculo da vida social.

Como já se disse, a solidariedade e a capacidade de reivindicar são armas poderosas e imprescindíveis, que nos outorgam a convicção de que, apesar das adversidades, somos e devemos ter capacidade de resistir a uma dominação que só privilegia poucos. A sociedade precisa se decidir de vez a cobrar menos improviso e mais planejamento de seus governantes e estes, ouvirem o clamor por mais eficácia.   Por outro lado, patriotismo não é só ufanismo em vitórias da seleção de futebol ou de vôlei, nem tão pouco só em momentos de comoção nacional. Ele principalmente se consolida com sentimento, ação, idealismo, bravura, abnegação e esforço. Mas é também realismo, lealdade, esforço, e concretiza-se no exato cumprimento do dever, na solidariedade e na responsabilidade.

Cada cidadão, por isso, precisa fazer a sua parte, privilegiando a ética nos seus próprios atos e cobrando o máximo de seriedade dos governantes e das instituições, de forma permanente e participativa. Entendemos que uma Nação só atuará com  determinação própria e com concreta independência, quando todos tiverem seus direitos assegurados, com livre acesso, sem quaisquer distinções ou restrições aos legítimos e inalienáveis instrumentos concernentes à dignidade humana, pondo-se fim à enorme exclusão social, à grande concentração de renda nas mãos de poucos e à privação para a maioria, dos bens mais primários.

                       

      DIA DA ALFABETIZAÇÃO

 

No dia oito de setembro, o mundo celebra o DIA INTERNACIONAL DA ALFABETIZAÇÃO, criado pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), cuja luta prioritária, é a educação para todos. Num momento em que evolução é sinônimo de conhecimento, em que se produz uma admirável revolução no campo das comunicações, é intolerável que tantos brasileiros continuem a ter seu acesso barrado ao mundo da cultura e da informação, apesar dos significativos avanços nos últimos tempos. Por isso não deve ser descurado o combate ao analfabetismo e quando o Estado não propicia condições para tanto, evidentemente que o voluntariado se faz cada vez mais necessário, já que o setor privado, preenchendo uma lacuna deixada pelo Poder Público, beneficiar-se-á das conquistas neste campo. Associar o desenvolvimento educacional ao desenvolvimento social é fundamental para que se obtenham resultados positivos verdadeiros no processo de alfabetização, principalmente no caso daqueles que perderam a chance de passar pela escolarização regular.

 

 

 

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, jornalista, escritor e professor da Faculdade de Direito do Centro Universitário Padre Anchieta de Jundiaí. Ex-presidente das Academias Jundiaienses de Letras e de Letras Jurídicas (martinelliadv@hotmail.com)



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ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - FADO, EXPRESSÃO DA ALMA PORTUGUESA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A cultura popular portuguesa é muito rica e variada, em todas as suas manifestações, na música, no canto, em matéria de danças, no artesanato, na culinária, na profusão de ditos e quadras populares recheados de sabedoria e bom senso acumulados ao longo dos séculos etc.

Recordo de memória, entre muitas outras, uma quadrinha popular lusitana, mais precisamente da Ilha da Madeira: “Que os homens são uns diabos / não há mulher que o negue, / mas todas andam à caça / de um diabo que as carregue!”. Por trás desses versinhos, quanto senso de humor, quanta capacidade de observação, quanta experiência de vida!

Em matéria musical, sem dúvida a grande expressão da alma lusitana é o fado. Suas origens perdem-se na noite dos tempos. De origem árabe supõem-no alguns. De origem mais recente, pretendem-no outros. Há quem sustente, mesmo em Portugal, que o fado teve origem no Brasil. Conheço três ou quatro fados que procuram explicar a origem do fado, evidentemente de modo poético e figurativo...

O fato é que o fado é profundamente identificado com Portugal e com a alma portuguesa como ela é, com suas qualidades e (manda a verdade que se diga) também com seus defeitos ─ qualidades e defeitos tão bem expressos e tão bem sintetizados pelo gênio de Eça de Queiroz na figura prototípica de Gonçalo Mendes Ramires.

Há fados de diversos tipos: os "corridinhos", de Lisboa, movimentados e por vezes até acompanhados em coro ou com palmas ritmadas pela plateia; os patrióticos, com um sentido mais épico que lírico; os religiosos, tendendo para o místico; os solenes de fundo lírico, do gênero mais conhecido como "fado de Coimbra", sempre ouvidos em respeitoso silêncio.

Em Lisboa, nas tradicionais “casas de fado”, sempre abertas para acolher os que vão ouvir o fado, mesmo que nada comam ou bebam, entre um fado e outro, come-se, bebe-se, fala-se, grita-se, ri-se, discute-se... Tudo é permitido. Mas, tão logo os primeiros acordes de uma nova música se fazem ouvir, faz-se completo silêncio.

Não se fala durante o fado. É quase profanação fazê-lo. Recordo do modo engraçado com que certo fadista chamou severamente a atenção de um grupo de rumorosos rapazes que haviam ousado perturbar o silêncio de rigor com algumas risadinhas mal abafadas:

- Ó meninos, vossas tias não vos ensinaram que o fado se ouve de bico calado?

Em Coimbra, nem se aplaude o fado à moda costumeira, batendo palmas. Isso seria falta de respeito. Por costume antigo, para significar que gostou do canto e de sua execução, o ouvinte limita-se a tossir. Ao fim do fado, põem-se todos a tossir... Num primeiro instante, isso causa estranheza. Mas quem ouve um fado de Coimbra, no contexto de Coimbra, logo se acostuma e acha muito natural.

Um tema exigiria longo espaço para ser desenvolvido: é mais apropriado dizer-se fado ou canção de Coimbra? Fado seria um gênero e o que se canta em Coimbra seria uma espécie? Ou a matriz do fado é precisamente a de Coimbra, e o que se canta e

Lisboa com o nome de fado seriam extensões, variantes, até deturpações da matriz que se teria conservado pura em Coimbra? O tema é polêmico, exigiria longas explanações e provavelmente nada concluiria. Pois ambos os tipos ou modalidades de fados (ou canções?) são tradicionais, envolventes e, cada qual à sua maneira, bem exprimem certas facetas da rica alma portuguesa.

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS   -    É licenciado em História e em Filosofia, doutor na área de Filosofia e Letras, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História.



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CINTHYA NUNES - SETEMBRO AMARELO

 

 

 

 

 

 

 

 

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            Novamente tenho a impressão de que os dias vem passando à revelia dos meus planos. Nunca dá tempo de fazer tudo o que planejo, mas estou convicta de que não sou nem de longe a única que se queixa disso. Talvez seja próprio da natureza humana, nascemos iludidos pela falsa ideia de que a eternidade nos pertence e quando o tempo avança sobre nossas expectativas, damos conta de temos muito menos dias a nossa frente.

            A morte, assim, é um fato que acontece em um dia qualquer. Não espera pelos nossos pontos finais e mesmo pelas nossas vírgulas. A morte quase sempre é exclamação, espanto.  Quando é calma, esperada, é irmã das reticências. Todos sabemos, inconsciente ou conscientemente, que esse é um encontro do qual não temos para onde fugir. O que mais assombra e entristece é quando a morte se faz procurada, quando é interrogação.

            Em Setembro ocorrem, desde 2015, eventos sobre a conscientização e prevenção ao suicídio. Confesso que não tinha ideia de que ocorrem tantos suicídios no Brasil e no mundo. Dados da OMS de 2015 estimam 800 mil mortes por suicídio ao ano, mundialmente. É muita gente desejando ir embora de si mesmo. Acredita-se que esse número, em verdade, seja muito maior, já que nem todos os  países enviam dados confiáveis. Seja como for, são muitas perdas.

            Não tenho qualquer conhecimento técnico que me habilite a escrever ou a falar sobre o assunto. Só tenho minhas impressões e sentimentos e indagações sobre essa delicada questão. Durante minha vida tive contato com alguns casos mais próximos de suicídio e todos me marcaram profundamente. É que fico me perguntando o que se passa na cabeça de alguém que decide colocar fim à própria vida, sobretudo em certas circunstâncias.

            Excluídas hipóteses de doenças mentais, as quais retiram da pessoa o seu discernimento, eu acredito que o suicídio não seja um ato de coragem, tampouco de covardia, mas sim de absoluto desespero. Talvez seja a única rota de fuga avistada por quem sente uma dor tão imensa, inexplicável e insuportável, física, mental ou espiritual.

            Ainda que várias religiões busquem explicar o que acontece com quem se suicida, creio que esse seja um mistério que nos pertença enquanto viventes. O mais difícil é compreender ou auxiliar quem fica, que resta diante do vazio, de uma ausência sem razão de ser. Resta a raiva, a saudade, a dor, a angústia de não conhecer as razões, além de algum senso (na imensa maioria das vezes indevido) de culpa por não ter feito algo para evitar a tragédia.

            Recentemente, há coisa de alguns meses, eu e outras colegas de trabalho estivemos diante de uma mulher jovem, bonita, talentosa, inteligente e culta, mas que nitidamente estava com algum desequilíbrio emocional. A situação na qual estávamos envolvidas, as quatro, não era agradável, mas a despeito disso percebemos que algo havia de errado com ela. Na oportunidade, uma de nós mencionou que ela talvez pudesse ser o tipo de pessoa que tiraria a própria vida. Três meses depois recebi a triste notícia de que isso realmente se deu.

            Não vou entrar em detalhes para não expor a família ou mesmo a memória da falecida. Só fico aqui lamentando o ocorrido e pensando o quanto devem estar sofrendo aqueles que a amavam. Havia tanto porvir naquela mulher e agora tudo é só suposição e saudade. Não conheço a fundo os fatos por detrás da decisão mais irreversível que ela pôde tomar, mas imagino que, de algum modo, tudo foi demais para ela.

            Às vezes as pessoas ao nosso redor estão passando por dores que não podemos sequer supor ou mensurar. Talvez nem tenhamos o poder de mudar uma decisão dessas, mas o mínimo que devemos fazer é olhar com mais acuro para os que nos rodeiam. Uma palavra, um abraço, uma esperança, um sorriso, nada disso nos custa. Se não pudermos evitar essas partidas náufragas, que ao menos não entreguemos as âncoras.

            Em memória dos que decidiram partir, exultemos a vida e a solidariedade...

 

 

 

 

CINTHYA NUNES   -   é jornalista e advogada   - cinthyanvs@gmail.com

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:28
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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - INFÂNCIA SUGADA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Possuo convivência com pessoas de infância sugada. Choro com elas e choro por elas.
São pessoas que conheço há anos e outras chegaram há menos tempo. Existe um ponto em comum que as une: a cratera da infância que lhes foi roubada.
Quantas situações expuseram ou expõem crianças ao abuso físico, psicológico e sexual. Há trabalho infantil no campo, nas ruas, em ambientes insalubres... Crianças que atuam na colheita de laranja, no corte de cana, na extração de sal, no comércio do sexo, no serviço doméstico em casas de família, como babás... A fiscalização deixa a desejar.
A desestrutura familiar, o abandono, a despreocupação em relação à escola para seus filhos, falta de cuidados, ausência afetiva, abuso sexual infantojuvenil, responsabilidade excessiva de pequenos em cuidar de irmãos menores também sugam a infância. Parecem-me causar uma exaustão emocional. Geram medos disso ou daquilo: de estranhos, de sons suspeitos, das noites com aves de mau agouro, das madrugadas na solidão, do peso de corpos adultos malditos sobre seus corpos tenros, da fome, das incapacidades, dos fantasmas que as rondam sem alguém que os espante.  É o ciclo perverso principalmente da miséria.
 A moça se encontrava com 28 anos. Imaginara ter conhecido alguém que a assumisse bem como os seus filhos. Antes de partir com ele para uma cidade próxima, onde residiriam em um sítio e ela se tornaria esposa sem as manchas do passado, ligou-me para pedir de Natal uma boneca para ela. Seus descompassos na época a saturaram. Viria para buscar o brinquedo no dia 24. Fez-se silêncio logo depois.  Recordo-me de que, aos oito anos, conforme me contara aos 13, encontrou um diário da mãe: declaração de amor ao amante. O pai, um homem dedicado, não merecia isso. A mãe comprou o seu silêncio com ameaças de um matador para ele. A adolescente se perdeu logo em seguida pelos caminhos das bebidas, do sexo e das drogas. No mês de janeiro, veio-me a notícia: o príncipe encantado se tornara o seu executor, por dívidas de droga.
Percebo que pessoas adultas e até mesmo idosas desse convívio que Deus me possibilitou, para desenvolver o olhar de compaixão, buscam no agora  bonecas, oferecem-lhes proteção e cantam músicas de ninar, com o propósito, creio eu, de assoprar as dores de um período de sonhos bonitos que lhes pertencia e lhes foi negado.

 

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE -

 Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.



publicado por Luso-brasileiro às 11:19
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VALQUÍRIA GESQUI MALAGOLI - DESCONECTADOS

 

 

 

 

 

 

 

 

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Espanta-me quando, pouquíssimas vezes, andando por aí, algum jovem desconhecido me cumprimenta.

Caso o faça formulando uma frase, tanto mais impressionada fico. Felizmente impressionada pelo gesto; infelizmente pelo mesmo tanto me impressionar.

A cada dia que passa, as novas gerações, tão conectadas!, mais se desconectam não apenas da cordialidade implícita nas relações humanas, na socialização em si, mas, no fazê-lo elaborando mais do que duas palavras. Sobretudo quando essas são de fato palavras e não o que delas se vem fazendo, seja pelo imediatismo seja pelo deslumbramento com a novidade.

Até pela raridade do cumprimento em si, já me alegro a um simples “e aí?”, que na verdade se escreve “e aeeeehhh?”. Isso quando escrever for inevitável, pois, escrever nos dias de hoje é... como direi? Nem sei como... fogem-me as palavras...

Fogem-nos as palavras na mesma medida em que fogem seus significados. E, nisso, sua utilidade. E sua diversidade. Pra que tanto variar, se tudo dá no oco.

Sim, no oco. Pois, ninguém – de qualquer geração – quer ouvir.

“As pessoas não querem ouvir a sua opinião. Elas querem ouvir a opinião delas saindo da sua boca.”. Essa frase facilmente “viraliza” na internet, mas, como tantos outros textos, mais se espalha do que propriamente contamina.

Palavras ainda há e muitas. No entanto, seu poder transformador... hummm... esse vem desaparecendo... desaparecen... desap...

Comecei esse artigo citando jovens desconhecidos, porque os conhecidos naturalmente deveriam cumprimentar-se entre si e a nós, os mais velhos, por respeito, por hábito, por força do hábito.

Ocorre que se nem sequer os hábitos têm agora força... quem dirá esses outros substantivos aí... tão abstratos quanto abstraíveis. À falta de palavra que compreenda a força faltante às palavras que nos restam... criam-se novas. Quantos elas durarão... quem sabe?

Dia desses, durante minha corrida matinal diária, um rapazinho que eu nunca tinha visto, bastante suado, não conseguindo exprimir-se de outro modo – à falta de fôlego – levantou a mão direita, sorrindo. Eu pude ler “bom dia!”.

Só não pude, por minha vez, retribuir senão com um sorriso, identicamente pela falta de fôlego – de emoção!

 

 

 

Valquíria Gesqui Malagoli, escritora e poetisa, vmalagoli@uol.com.br



publicado por Luso-brasileiro às 11:14
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PÉRICLES CAPANEMA - CRISTANDADE E OCIDENTE

 

 

 

 

 

 

 

 

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A Cristandade tem inspiração e raiz longínqua no Império Romano, espaço de convivência civilizada do mundo antigo, do qual foi aperfeiçoamento. Tendo como objeto ser espaço da convivência virtuosa de povos sob a luz de Cristo, começou a surgir como forte realidade histórica com Carlos Magno (742-814), seu maior símbolo. Firmou-se muito tempo depois no Sacro Império Romano Alemão, a mais importante realização de tal ideal.

 

Território, direito e senso de governo marcaram o império sob Roma. O mesmo, proportione servata, valeu para a Cristandade. Agrupava as nações cristãs. O direito, muito variado, aperfeiçoava-se seguindo as trilhas do consuetudinário e do Direito Romano. O governo, via de regra, ▬ por longo período imerso em atmosfera pré e supranacional ▬ agia consoante o princípio de subsidiariedade, embora sua explicitação só viesse séculos depois. Georg Schmidt o chamou de Império-Estado complementário (poderia ser chamado de Império-Estado subsidiário). Enfim, a Cristandade foi realização valiosa, ainda que insuficiente e até em pontos defeituosa, da ordem temporal cristã. Infelizmente, sua luz foi se apagando, até que em 1806 se extinguiu. Deixou enorme saudade, restou fulgurando como ideal no horizonte da Europa cristã.

 

Anos atrás ouvi do prof. Plinio Corrêa de Oliveira frase que ficou: “Em relação à Igreja, eu sou como o judeu em relação ao Templo. Amo o Templo, amo as ruínas do Templo, e se essas ruínas se converterem em pó, amarei o pó que resultou dessas ruínas”. Analogamente, para um católico imbuído da convicção de como importa existir uma ordem temporal cristã, tais palavras se aplicam por inteiro à Cristandade. Até o pó dela merece amor. É também dele a proclamação: “"Quando ainda muito jovem, considerei enlevado as ruínas da Cristandade, a elas entreguei meu coração, voltei as costas ao meu futuro, e fiz daquele passado carregado de bênçãos, o meu porvir”.

 

Aqui vou levantar ponto essencial, sem o qual inexistiria a Cristandade. Os povos que a compunham tinham convicção de que seus interesses maiores eram a preservação e aperfeiçoamento daquele estado de coisas. Em segundo plano, vinham os interesses nacionais, regionais, corporativos, familiares, pessoais. Talvez o mais relevante exemplo de defesa da Cristandade tenha sido são Pio V (1504 – 1572), Papa a partir de 1566. Articulou enorme aliança militar destinada a formar a armada que derrotou os turcos em Lepanto em 1571, preservando uma Europa onde ainda eram vivos os restos da Cristandade. Em sentido contrário, tantas vezes os agredindo, temos o longo trajeto da chamada aliança franco-otomana, que começou em 1536 entre Francisco I e Solimão, o Magnífico. Começavam a prevalecer os interesses do Estado-nação, os da Cristandade iam para o fundo do palco.

 

No século 20 e 21, eco precioso, se quisermos ruinas veneráveis, da Cristandade foi o que se chamou o Ocidente cristão e, mais recentemente, apenas Ocidente. Nessa acepção de Ocidente, que não é geográfica, estão por exemplo, Japão, Coreia do Sul, Cingapura.

 

Escrevia cima, o Império Romano foi espaço de convivência do mundo civilizado. O Ocidente é o espaço de convivência de princípios básicos do que se poderia chamar a civilização cristã; se quisermos, da ordem temporal cristã. Nos dias presentes, vigência de liberdades na vida pública e privada, economia de mercado. E nesse sentido, hoje, um espírito bem formado deve colocar os interesses ocidentais, de momento enormemente ameaçados, na frente dos interesses de qualquer país, mesmo o seu. Adversárias dos princípios ocidentais no século 20 e 21 foram as potências totalitárias e coletivistas, entre outras, a Alemanha nazista, a Rússia soviética e agora a China comunista.

 

Fiz longa introdução para entrar fácil no assunto do artigo: no tratado de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul. É amazônico, inclui concorrência, serviços, investimentos, temas ambientais, desenvolvimento sustentável, compras de governo, propriedade intelectual. Muita coisa ainda. O governo brasileiro, estimativa inicial, prevê que em 15 anos as exportações brasileiras para a União Europeia terão um acréscimo de US$100 bilhões de dólares anuais. E haverá grande aumento de investimentos da UE no Brasil. O acordo trará ao Brasil prosperidade, maior renda, geração de empregos.

 

O caminho até a implementação final será longo, cheio de obstáculos. Teremos muita discussão nos meios de divulgação e nos parlamentos dos 28 países que compõem a União Europeia (e também no Parlamento Europeu). Haverá debates nos países do Mercosul. Os assuntos devem ser tratados e resolvidos. Não são o foco de meu artigo.

 

Meu foco é outro. O Brasil está perigosamente dependente da China, vamos escorregando para a condição de efetivo, ainda que não confessado, protetorado chinês. Não só o Brasil, igualmente a Argentina, Uruguai, Paraguai. O acordo com a União Europeia, pelo menos em patê, nos tira de tal dependência, aumenta a efetividade de nossa independência e soberania. E das outras nações, acima mencionadas. Seria conveniente aproximação semelhante com os Estados Unidos e Japão. Estão em jogo gravíssimos interesses ocidentais.

 

Sintomas reveladores. A esquerda europeia está furiosa. A esquerda brasileira rosna (sempre silenciosa em relação à aproximação com a China). O candidato kirchnerista Alberto Fernández, saindo da visita a Lula, declarou que, se eleito, vai rediscutir o acordo. Querem de todo modo explodi-lo, apesar da pobreza que daí seguirá. Pelo que vi nos meios de divulgação, nem na Europa, nem aqui, ninguém sublinha que o mais importante do acordo é o fortalecimento dos interesses ocidentais. É.

 

 

 

 

 

PÉRICLES CAPANEMA - é engenheiro civil, UFMG, turma de 1970, autor do livro “Horizontes de Minas"

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:07
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FELIPE AQUINO - LIBERDADE OU LOUCURA ?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que é ser livre? É fazer tudo o que quero?

 

 

A maior aspiração do ser humano é a felicidade. E isto é consequência natural de termos sido criados à “imagem e semelhança” (Gen 1,26) de Deus, para participar de sua vida bem-aventurada. O Catecismo, no primeiro parágrafo, afirma:

“Deus, infinitamente Perfeito e Bem-aventurado em si mesmo, em um desígnio de pura bondade, criou livremente o homem para fazê-lo participar da sua vida bem-aventurada” (n.1).

“O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem a si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar” (n.27).

Já que ele foi feito por Deus, e para Deus, só conseguirá ser feliz em Deus. Todos os outros caminhos de felicidade serão frustrantes, e a fome de ser feliz não será saciada plenamente.

 

 

 

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Santo Agostinho (354-430), um dos maiores pensadores de todos os tempos, depois de buscar a felicidade nos prazeres do mundo, na retórica, na oratória, no maniqueísmo e em tantas outras estrepolias, somente saciou o seu coração quando encontrou o Evangelho. Logo no início das suas Confissões, diz:

 “Nos fizestes para Vós e o nosso coração não descansará enquanto não repousar em Vós”.

E adiante, lamenta ter demorado tanto para ter descoberto a verdadeira fonte da felicidade:

“Ó Jesus Cristo, amável Senhor, por que, em toda a minha vida amei, por que desejei outra coisa senão Vós?”

Sem Deus não há autêntica liberdade e felicidade.

 

 

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O Criador não quis para nós uma felicidade pequena, esta que se encontra entre as coisas do mundo: o prazer dos sentidos, o delírio das riquezas ou o fascínio do poder e do prestígio. Não. Isto é muito pouco para nós. Deus quis que a nossa felicidade fosse muito maior; quis que fosse Ele próprio. E isto é um grande ato de amor do Pai para conosco. O Pai, sempre quer “o melhor” para o filho. Daí se conclui que a fome de felicidade do homem é infinita e não pode ser saciada sem Deus, que é infinito. É fome de Deus.

Sem acolher Deus de coração aberto, que se revela pela criação, pela Bíblia, e por Jesus Cristo, que é a perfeita revelação do Pai (Hb 1,2), o homem jamais experimentará a autêntica felicidade. E isto não é uma mera conclusão religiosa, é um fato de vida. Experimente hoje dar a um jovem tudo o que ele quiser: dinheiro à vontade, prazer até não poder mais, “curtição” de toda natureza, e você verá que a sua “fome” de felicidade continuará insaciada. Não fosse isto verdade, não teríamos muitos jovens de famílias ricas, mas delinquentes, envolvidos com as drogras, crimes, etc. Por outro lado, vá à um mosteiro e pergunte a um monge, que abdicou de todos os prazeres do corpo e do espírito, para abraçar somente a Deus, se lhe falta algo para ele ser feliz. A resposta será não! Nada lhe falta, pois ele tem Tudo. Tem Deus.

 

Leia também: O que é o livre arbítrio?

Por que Deus nos fez livres, mas podendo pecar?

Deus e a liberdade humana

Onde mora a felicidade?

 

 

A Igreja, de maneira insistente, nos ensina que:

 

 

“O aspecto mais sublime da dignidade humana está nesta vocação do homem à comunhão com Deus… Pois se o homem existe, é porque Deus o criou por amor e, por amor, não cessa de dar-lhe o ser, e o homem só vive plenamente, segundo a verdade, se reconhecer livremente este amor e se entregar ao seu Criador” (Gaudium et Spes, 19).

Muitos pensam que abraçar a Deus e viver uma vida em obediência às suas leis de amor, significa “perder” a liberdade. Ao contrário, Deus é a verdadeira Liberdade e Verdade.

 

 

 

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É preciso distinguir entre liberdade e libertinagem, entre ser livre e ser libertino. Liberdade sem compromisso com a verdade e com a responsabilidade, torna-se libertinagem; e esta, jamais poderá gerar a felicidade, já que vai desembocar no pecado. E “o salário do pecado é a morte” (Rom 6,23).

Ser livre não é “fazer tudo o que eu quero”. Não. Muitas vezes isto é loucura. A verdade é o trilho da verdadeira liberdade. Liberdade sem verdade é loucura. Será liberdade assegurar que dois mais dois são cinco? Será liberdade desrespeitar o catálogo do seu aparelho de TV e, ao invés de ligá-lo em uma tomada de 120 volts, como manda, você teimar em ligá-lo em outra de 210 volts? Será liberdade, por exemplo, usar drogas, para sentir-se livre, mesmo destruindo a vida? Será liberdade, usar o sexo sem o compromisso do casamento, apenas por prazer, mesmo sabendo que ele poderá gerar uma gravidez despreparada, um aborto, um adultério? Não. Tudo isto não é liberdade; é loucura!

A liberdade que faz a felicidade, é alicerçada na verdade e na responsabilidade. Fora disso é loucura, libertinagem, irresponsabilidade… pecado, que vai gerar a dor, o sofrimento e as lágrimas. Não queira experimentá-la. É muito melhor aprender com o erro dos outros. Abra os olhos e tenha coragem de ver!

 “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo14,6).

Por mais duras que sejam as exigências do Sermão da Montanha (humildade total, mansidão, misericórdia, pureza de coração, castidade, jejum, esmola, oração, etc), é aí que temos o código da liberdade e da felicidade autênticas.

 

 

O Catecismo da Igreja garante que:

 

 

“As bem-aventuranças respondem ao desejo natural de felicidade” (n° 1718).

Santo Agostinho dizia:

“Meu corpo vive da minha alma e esta vive de Vós”.

São Tomás de Aquino conclui: “Só Deus satisfaz”.

Santa Teresa disse: “Só Deus basta”.

São Luiz de Montfort acrescenta: “Deus só”.

 

 

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É nas bem-aventuranças que o homem encontra o sentido e o objetivo da vida. A liberdade só atinge sua perfeição quando está ordenada para Deus, seu bem último. Quanto mais praticar o bem e a virtude, mais livre a pessoa será. Enquanto as paixões nos dominarem, não seremos livres e felizes. Enquanto o espírito do homem for escravo da sua carne e da sua sensibilidade, este ainda não será livre. Ainda viverá se arrastando pela vida.

“É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gal 5,1), nos ensina São Paulo; e esta liberdade custou o sangue do Cordeiro de Deus na cruz, para destruir a causa da nossa escravidão; isto é, o pecado. E o apóstolo diz:

“Ficai, portanto, firmes e não vos submetais outra vez ao jugo da escravidão” (Gl 5,1-2).

Aceitemos “morrer” para nós mesmos, pela cruz, a fim de que possamos ser livres em Jesus. Quando o Senhor manda tomar a nossa cruz, “a cada dia”, e segui-lo, é sinal inequívoco de que é esta cruz que nos salva. Todos os santos se santificaram pela cruz. Não há como abraçar o Cristo sem abraçar a cruz, mas também não se pode abraçar a cruz sem o Cristo. Se por um lado a cruz de cada dia nos liberta, por outro lado, sem o Cristo, esta cruz nos leva ao desespero. Não se pode separar Cristo da Cruz. Ambos nos são indispensáveis para a salvação.

A cruz de “cada dia” nos liberta de todas as más inclinações, “a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (1 Jo 2,16), e de todo o mal que há no interior dos corações: “maus pensamentos, devassidões, roubos, assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez” (Mc 7,21-23), e que torna o homem impuro.

Só a cruz e a “morte” do próprio eu, sobre ela, podem nos libertar das garras do pecado. É por isso que, pedagogicamente, o Senhor nos dá a “honra” de carregar, também nós, a sua cruz. E ninguém está dispensado desta missão sobre a terra. É por amor a Cristo que carregamos com Ele a cruz, seguindo-o, a cada dia, sem desespero, tristeza e lamúria.

São João da Cruz afirmava que “quem não busca a cruz de Cristo não busca a sua glória”.

Mas por que temos tanta repugnância da cruz? Porque resistimos à cruz de “cada dia”: as ofensas, as incompreensões, o cansaço, o trabalho, a doença, as contrariedades, os acidentes, a morte…? É porque ainda não experimentamos todo o seu poder salvífico. Aqueles que conheceram esse valor a desejaram como um verdadeiro dom de Deus.

A cruz nos desespera quando ela está sem o Cristo; isto é, sem a sua graça e sem a fé. É Ele que nos dá força, compreensão, alegria, paz, paciência e resignação para levar a cruz, a cada dia. Portanto, a grande lição da Paixão e Morte do Senhor, é a de que devemos amar e abraçar a cruz; mas não apenas a cruz de madeira que se ergue em cada lugar, mas “a minha cruz”, aquela que o Senhor dá “a cada dia”, para a minha santificação (Heb 12,10). O livro dos Provérbios nos ensina:

“Filho meu, não desprezes a correção do Senhor. Não desanimes quando repreendido por ele; pois o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho” (Prov. 3,11 s).

Dizemos ao Pai, todos os dias, na oração do Pai-Nosso: “Seja feita a Vossa vontade”; e no entanto, muitas vezes, quando Ele nos apresenta a cruz de cada dia, nos rebelamos, revoltamos e perdemos a paz. Esta atitude não está de acordo com nossa fé.

Aceitemos, na fé, toda a vontade de Deus.

 

 

 

 

 

FELIPE AQUINO Escritor católico. Prof. Doutor da Universidade de Lorena. Membro da Renovação Carismática Católica.

 



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PAULO R. LABEGALINI - ALGUNS TIPOS DE LEALDADE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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O imperador romano, Júlio César, confiava cegamente em Brutus - eles compartilhavam grandes ideias e segredos. Um dia, por volta do ano 44 antes de Cristo, César entrou no prédio do senado romano e foi surpreendido por assassinos. Enfrentava bravamente os conspiradores quando viu aproximar-se seu amigo Brutus – de adaga em punho e pronto para golpeá-lo.

Ferido pela traição, César abandonou a resistência, puxou a toga sobre a cabeça, pronunciou a memorável frase: ‘Até tu Brutus?’; e sem mais protestar, foi ao encontro da morte. Ali terminava a confiança, a lealdade e a transparente amizade entre dois seres humanos da nossa história.

Desde então, milhares de outros fatos foram narrados enfocando verdadeiras e falsas amizades na face da Terra. Eis uma história comovente de lealdade:

Em 1864, em Edinburgh, na Escócia, vivia um velho homem chamado Jock. Durante toda sua vida tinha sido um fiel pastor de ovelhas, enfrentando bravamente perigos e intempéries para defender o rebanho. Com quase setenta anos, ainda conservava o coração e a habilidade de um bom pastor, mas não a saúde necessária.

Suas pernas já não podiam escalar as pedras para resgatar uma ovelha ou para espantar um predador e, embora a família para quem trabalhava gostasse muito dele, as finanças iam mal e não podiam conservá-lo. Assim, mancando por fora e magoado por dentro, partiu de trem, deixando sua terra natal rumo a um novo lar na cidade.

Jock fazia um pouco de tudo e ganhou muitos amigos num lugar de mercadores. Eles gostavam do velho pelo seu sorriso simpático e por suas habilidades nos mais variados trabalhos, mas, apesar disso, sua família se constituía apenas dele e de um cachorrinho Fox Terrier que ele adotou com o nome de Bobby.

Eram inseparáveis e estavam sempre juntos na rotina de passar pelas lojas em busca de serviços. Todos os dias eles começavam pelo restaurante local, onde recebiam o que comer em troca de trabalho; depois, continuavam de porta em porta até que, à noite, os dois voltavam para um porão que lhes servia de morada.

Dizem que muitas pessoas pressentem quando o tempo de morrer está próximo e foi assim com Jock. Um dia, ao amanhecer, quase um ano após chegar à cidade, ao invés de levantar-se, o velho puxou sua cama para perto da janelinha do quarto e lá ficou olhando as montanhas distantes de sua amada Escócia. ‘Bobby – disse ele afagando o pelo escuro e denso do cachorro, com a mão que agora só tinha a força do amor –, é tempo de eu ir para casa. Eles não conseguirão me afastar de minha terra novamente. Sinto muito, camarada, mas você vai ter de se cuidar sozinho daqui por diante.’

E Jock foi enterrado no dia seguinte num lugar pouco comum para pobres. Por causa da necessidade de ser sepultado rapidamente, seus restos mortais foram colocados num dos cemitérios mais nobres de Edinburgh – o Greyfriar. Assim, entre os grandes e mais nobres homens da Escócia, foi enterrado um homem muito simples. E é aqui que a melhor parte da história começa.

Na manhã seguinte, o pequeno Bobby apareceu no mesmo restaurante em que ele e Jock visitavam a cada dia e, a seguir, fez também a ronda das lojas. Isso aconteceu dia após dia, mas, à noite, o cachorrinho sumia e somente reaparecia no dia seguinte.

Amigos do velho Jock sempre perguntavam onde o animal teria ido dormir, até que o mistério foi revelado. Cada noite, Bobby não ia à procura de um lugar quente para descansar, nem mesmo de um abrigo para protegê-lo do frio e da chuva constantes da Escócia. Ele ia até o cemitério Greyfriar e tomava posição ao lado de seu dono.

O vigia do cemitério o tocava de lá cada vez que o via, afinal, existia uma ordem expressa proibindo cachorros de entrarem em cemitérios. O homem tentou consertar a cerca, pôs armadilhas para caçá-lo, até que, finalmente, com a ajuda do chefe de polícia, o pequeno Bobby foi capturado e preso por não ter uma licença. E, uma vez que ninguém se apresentou como seu legítimo dono, parecia que Bobby seria morto.

Chegou o dia em que o caso passaria pela alta corte de Edinburgh. Seria quase um milagre salvar a vida de Bobby e conceder ao cão fiel o destino de continuar perto do túmulo de seu amigo, mas, num ato sem precedentes na história da Escócia, foi exatamente o que aconteceu.

Antes que o juiz pudesse dar a sentença, uma turma de crianças entrou na sala de audiência e, moeda por moeda, apresentaram a quantia necessária para a licença de Bobby. O oficial da corte ficou tão impressionado pela afeição das crianças pelo animal que concedeu a ele um título especial, tornando-o propriedade da cidade – com uma coleira declarando o fato pendurada em seu pescoço.

Bobby pôde, então, correr livremente com as crianças durante o dia e, a cada noite – durante quatorze anos até a data em que morreu, 1879 –, manteve guarda silenciosa no cemitério de Greyfriar, bem ao lado de seu dono. Se algum dia você for para Edinburgh, poderá ver a estátua de Bobby naquele cemitério – 140 anos desde sua morte.

E assim, um cachorrinho demonstrou uma característica que gostaríamos de encontrar em todos os seres humanos: lealdade. Quem a tem, permanece ao lado da cama do amigo doente, ouve os seus problemas horas sem fim, reza por ele e lhe presta todos os tipos de caridade até mesmo em domingos e feriados.

Jesus Cristo é muito leal a todos os que o seguem e, a esses, peço a salvação eterna e dedico esta história. Assim seja!

 

 

 

PAULO ROBERTO LABEGALINI Escritor católico. Vicentino de Itajubá - Minas Gerais - Brasil. Professor Doutor do Instituto Federal Sul de Minas - Pouso Alegre.‘Autor do livro ‘Mensagens Infantis Educativas’ – Editora Cleofas.



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HUMBERTO PINHO DA SILVA - DEVANEIO EM MANHÃ DE VERÃO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caminho tranquilamente, passo a passo, para os oitenta anos, e estou numa esplanada, à beira-mar, olhando o manso ondear das águas, do imenso oceano.

Longe, vejo o mar verde – verde glauco, – beijando suavemente as areias morenas; e mais além: barcaça, embrulhada em alva e diáfana névoa, esfumando-se rumo ao horizonte.

Por cima de tudo, rebrilha, esplêndido céu azul; azul intenso e fresco.

A manhã é macia, quase sem brisa, convidativa a doce sonolência.

Lentamente…lentamente…muito lentamente, dentro de mim, languidamente, tudo se vai esvanecendo…

Apaga-se o leve murmúrio embalador do oceano; o sussurro alegre de vozes perdidas, e risos escangalhados de crianças brincando.

Fecho os olhos. Abre-se, na memória, saudoso recorte do passado. Estampado na retina, vejo: cândido rosto de menininha:

Tem faces trigueiras, cor de pão centeio, tostadinho; olhos fogosos e ternurosos; lábios vermelhinhos, cor de cereja, cheios de risos festivos; epiderme, acetinada, doirada, sedosa, fresca, cheia de Sol.

Era ela; a garotinha que abria a porta da casa, quando era menino e moço.

Lançava os frágeis bracitos, ao pescoço; circundava-me, a cinta, com as perninhas roliças e finas; e, com infantil gesto carinhoso, lambuzava-me, as faces, de doces beijinhos.

Beijinhos húmidos, salivados. Beijinhos acariciadores, imbuídos de palavrinhas ternas, de sincera e ingénua amizade.

Depois…depois, pelo sombrio corredor, corria, balanceando a farta cabeleira, apanhada em rabo-de-cavalo, avisando, alegremente, a minha inesperada visita.

A saudosa cena familiar, que aflorou, arrancada à gaveta da memória, nesta serena manhã de Verão, encheu-me, o coração de terna saudade; saudade do passado, que passou, de passado, para sempre, perdido…; mas, intensamente, ainda vive, dentro de mim.

 

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Numa tépida manhã de Maio, banhada de morna luz rosácea, parti…As lágrimas escorriam-me pelo rosto, mal escanhoado, e a voz, embargada de saudade, tremia, soluçando.

Acreditava que o amor platónico, não teria fim…Enganei-me. Até a conversa epistolar, extinguiu-se, como nuvem passageira…

Meio século, passou… Passou a juventude e as ilusões…e passou, também, a amizade…

Eu sei… eu sei (mas, queria não saber,) que a amizade, depende, quase sempre, da idade, e da posição social, que se ocupa, no tabuleiro do xadrez da vida…

Muitas vezes – para meu mal, – mergulho em melancólicos devaneios, recordando amorosos episódios do passado. Transformo-os, então, em letra de forma. Servem-me para refletir: nos enganos e desenganos, que tive ao longo da vida.

Sei, ao passa-los ao papel, que são motivo de riso e galhofa, para insensíveis, e para muitos e muitas, que conheci no meu triste peregrinar.

Revelar o que nos vai na alma, é puro desconchavo. É que quem não pensa com a maioria; de acordo com o desvario, que é moda, é: anátema ou bobo….

 

 

 

 

HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal



publicado por Luso-brasileiro às 09:58
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EUCLIDES CAVACO - TERNURA - Poema e récita de Euclides Cavaco
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


Partilho com os meus amigos e leitores este tema, que vale a pena ver e ouvir, não dará o seu tempo por perdido.

Video elaborado pelo talentoso amigo Afonso Brandão.
 
 
 
 
 


https://www.youtube.com/watch?v=FKgVwZYSfHw&feature=youtu.be
 
 
 
 
 
 

EUCLIDES CAVACO  -   Director da Rádio Voz da Amizade , Canadá.

 

 

 

***

 

 

NOTICIAS DA DIOCESE DO PORTO

 

 

 

 http://www.diocese-porto.pt/

 

 

NOTICIAS DA DIOCESE DE JUNDIAÍ - SP

 

 

 https://dj.org.br/

 

***

 

 

 

Leitura Recomendada:

 

 

 

 

 

Resultado de imagem para Jornal A Ordem

 

 

 

 

 

Jornal católico da cidade do Porto   -    Portugal

 

Opinião   -   Religião   -   Estrangeiro   -   Liturgia   -   Area Metropolitana   -   Igreja em Noticias   -   Nacional

 

 

https://www.jornalaordem.pt/

 

 

 

 

 

 

***

 

HORÁRIOS DAS MISSAS NO BRASIL

 

 

Site com horários de Missa, confissões, telefones e informações de Igrejas Católicas em todo o Brasil. O Portal Horário de Missas é um trabalho colaborativo onde você pode informar dados de sua paróquia, completar informações sobre Igrejas, corrigir horários de Missas e confisões.



https://www.horariodemissa.com.br/#cidade_opcoes 

 

***

 


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