PAZ - Blogue luso-brasileiro
Domingo, 26 de Junho de 2011
LAURENTINO SABROSA - AINDA A RESPEITO DAS VOZES DOS ANIMAIS ( Continuação)

 

 

 

Prosseguindo neste assunto, iniciado há algumas semanas, agradeço ao leitor que tenha presente aquilo que foi dito.

Pode notar que tal como a voz humana muda de nome conforme o tom com que é dita, também a voz de certos animais muda de nome conforme o som emitido nas diversas circunstâncias: o cão, por exemplo, umas vezes ladra, outras vezes rosna, outras vezes gane; os pintaínhos mais pequeninos, fazem quiquiriqui, mais tarde começam a piar, mais tarde ainda, se for galinha, põe-se a cacarejar e se for galo põe-se a cantar ou, também se diz, a cucuritar. Na poesia transcrita no último artigo, diz-se que geme a rola inocentinha, mas a verdade que às rolas e aos pombos é mais próprio aplicar o verbo arrulhar.

Também se verifica que o mesmo verbo imitativo, nem sempre onomatopaico, pode ser, por vezes, aplicado a animais diferentes. Piar tanto se aplica aos pintos como aos mochos. Chiar aplica-se a pardais, ratos, doninhas, macacos e lebres. Na referida poesia, diz-se que palrar tanto se aplica à pega como ao papagaio e que berrar se aplica ao touro, mas há outros animais que também berram, por exemplo, as cabras  Ao touro também se poderá aplicar o verbo mugir, termo onomatopaico, derivado da onomatopeia múúú, que podemos assim escrever para exprimir melhor o prolongamento habitual do mugido do animal. O autor da poesia aplica o verbo grasnar à rã, mas a verdade é que grasnar se aplica mais aos patos, aos corvos e às gralhas: para a rã, o verbo que representa melhor a sua voz é coaxar. Continuando com as vozes de animais, e para encerrar este tema, devo dizer ao leitor que apesar de já terem sido citadas muitas palavras referentes a vozes e ruídos, a lista está longe de estar completa. Consegui encontrar mais algumas, que vou apresentar, principalmente por não serem muito conhecidas:

atitar refere-se ao gavião e outras aves, principalmente quando estão embravecidas; arensar – é próprio dos cisnes ;  barrir – é próprio dos elefantes ;  arruar – pode referir-se  à voz do javali, do touro ou do boi ; barregar – é próprio das ovelhas e das cabras;  blaterar – é próprio dos camelos ; chirrear – é próprio das corujas ; garrir –  é próprio dos perus, embora gluglulejar ou grugulejar seja onomatopaicamente mais perfeito;  gloterar  - é próprio das cegonhas ;  grinfar – é próprio das andorinhas ;  nitrir  é sinónimo de  relinchar, dos cavalos;  trinar - é próprio dos canários de outras aves canoras; pupilar – é próprio do pavão ; trinfar – é próprio das andorinhas; trissar -  também é próprio das andorinhas e de outras aves como as calhandras.

A maioria dos termos que exprimem ruídos ou vozes de animais são onomatopaicos e só de os ler ou ouvir quase que já sabemos o que querem dizer. Aliás, eu penso, numa filosofia de linguagem, talvez pouco erudita, que coisa semelhante se passa com muitos outros termos, falando agora de assunto fora das onomatopeias. O termo cacofonia designa uma palavra de som áspero e desagradável ou, pelo menos, inconveniente. Como exemplo, posso apresentar a palavra CHICAGO, nome duma cidade norte-americana: cacofonia, dentro da nossa linguagem, em virtude das duas sílabas finais. Pois eu considero o termo cacofonia, como sendo ele próprio uma cacofonia, palavra sem beleza e até com aspereza. Ao leitor não lhe parece que a palavra corriqueiro é mesmo corriqueira, ou seja, sem valor, sem beleza? Será que a palavra corriqueiro, pode aparecer em poesias dum poeta que se preze? A mim me custa aceitar que sim. Ao leitor não lhe parece que as palavras mostrengo, brutamontes, abantesma, mastodonte, ódio, canalha,  exprimem bem aquilo que significam? Se não lhe conhecermos o significado, “sentimos” que só pode ser coisa feia e antipática. Adivinhamos logo que não pode ser nome de anjo ou de príncipe. Em sentido oposto, atentemos bem nas palavras amor, encanto, doçura, beleza, ternura. Eu creio que também elas mostram bem aquilo que querem dizer. Quando pronunciamos a palavra beijo, até parece que discretamente damos aos lábios o jeito de beijar. A palavra encanto é cheia de encanto e a palavra ternura é cheia de ternura. Aplicando estas ideias aos termos onomatopaicos referentes a vozes de animais, a mim me parece que o termo zurrar, está mesmo bem aplicado a quem é aplicado e quase nos faz ouvir o som desagradável que representa; por outro lado, repare o leitor como são ternas as palavras arrulhar, turturinar, balir, além de outras. Dir-se-ia que muitas palavras têm uma aura que mostra a sua individualidade e nos faz adivinhar e sentir o que significam. O leitor não está de acordo? Pois então diga-mo, exprima a sua opinião e os seus conhecimentos. É salutar e interessante o debate de ideias e a troca de opiniões.

 

 

LAURENTINO SABROSA   -  Economista e escritor,Senhora da Hora, Portugal



publicado por Luso-brasileiro às 17:45
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