PAZ - Blogue luso-brasileiro
Sexta-feira, 15 de Julho de 2011
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - SORTE DE UNS, AZAR DE OUTROS...

 

                Por mais que eu tente, não consigo evitar alguns questionamentos de ordem religiosa e filosófica. Não sou uma pessoa de uma crença única. Ainda que isso possa chocar algumas pessoas, tenho muitos conflitos nessa área. Por natureza, sou questionadora. Não consigo, pura e simplesmente, aceitar as coisas sem me perguntar as razões, os por quês. Tá certo que essas perguntas quase nunca vem acompanhadas de respostas. No mais das vezes, eu só fico é mesmo com as perguntas e com um milhão e meio de dúvidas...

                Entre tantas questões que assolam meus pensamentos, fico me perguntando por que razão algumas pessoas tem muita sorte e outras, ao contrário, são condenadas à pura miséria. Questiono se tudo, na verdade, já é pré-determinado ou se vivemos em uma louca loteria, sem qualquer sentido ou justificativa. Não sei se importa, no fim das contas, o que a pessoa faz ou deixa de fazer, o que ela pensa ou a forma como vive, ou se, por outro lado, é um salve-se quem puder.

                Até no mundo animal, o destino é algo, no mínimo, estranho. Dia desses, lá em casa, nasceram dois filhotes de periquitos. Já disse e repito que não gosto de pássaros em gaiolas. Acontece que ganhei um casal e não tive destino a dar a eles, eis que soltá-los seria o equivalente a condená-los à morte. Assim, faço o que posso para dar a eles uma vida digna. Cuido para que tenham comida farta e variada, bem como condições de limpeza e ambiente, as melhores possíveis. Daí que o resultado disso foi o velho “crescei-vos e multiplicai-vos”.

                Então nasceram dois filhotinhos. Um, de um amarelo absoluto, de olhinhos vermelhos e penas brilhantes. O outro, verde como os pais, comum, sem nada de mais. Apaixonei-me pelos dois, mas o amarelinho ganhou minha predileção. Manso, eu o pegava e o aninhava nas mãos, fazendo o máximo de carinho que ele podia suportar. Já me penitenciava por não saber a quem os destinaria, eis que o espaço, para mais dois pássaros, acabaria ficando insuficiente, como se alguma gaiola no mundo pudesse ser apta a tanto.

                Um dia, para minha tristeza, encontrei o pobrezinho, que já ensaiava seus passos para fora do ninho, mortalmente machucado. Com a cabeça ensanguentada, tinha o bico praticamente arrancado. Após ultrapassada minha suspeita inicial de que pudesse ser mais uma obra de meu terrível e ciumento dachshund, descobri que a responsável pelo massacre tinha sido a própria mãe. Como bico ensanguentado, ela queria que os filhotes deixassem o ninho para que ela pudesse botar novamente.

                Depois de um dia de dor e muito sofrimento, com muito choro de minha parte, o coitadinho morreu. Fiz o que pude, mas foi pouco diante do que a mãe já fizera. Destinei o outro filhote para uma amiga, porque não podia permitir que o mesmo acontecesse a ele. Durante dois dias, antes dele partir, deixei-o aos cuidados do pai, que dele se incumbiu com afinco e sem violência, alimentando-o quando necessário.

                Dois filhotinhos, inocentes como só os animais podem ser, com dois destinos tão diferentes. Enquanto um foi vitimado pela própria mãe, o outro se transformou no alvo do amor de uma menininha de pouco mais de dois anos, que acorda mais cedo somente para dar bom dia ao novo amigo.Pergunto-me, sem qualquer indício de resposta, como isso pode fazer sentido, como pode se justificar...

                Nessas horas, volto meus pensamentos a nós, seres humanos, tão inocentes e tão culpados de tantas coisas. Olho para o céu, na esperança de descobrir alguma coisa que me faça não pensar em um jogo de dados...

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA- Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo



publicado por Luso-brasileiro às 22:10
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1 comentário:
De Henrique Sebastião a 16 de Julho de 2011 às 16:38
Para ti:

O Mistério de Deus é maior do que o nosso intelecto, maior do que nossas capacidades, maior do que nós mesmos. Por isso, nós não podemos compreender Deus e seus desígnios. Tudo o que o homem pode e deve fazer é buscar se moldar à Vontade Divina, e adorar seu Criador e Salvador, que o ama incondicionalmente.

(Pe. Luiz Paulo de Souza)

Do blog Voz da Igreja
www.vozdaigreja.blogspot.com


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