PAZ - Blogue luso-brasileiro
Domingo, 23 de Outubro de 2011
JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI e ALEXANDRE BARROS CASTRO - DIA DE FINADOS

                        

 

 

 

                Morte, “a morada na qual se entra sem levar nada deste mundo, exceto o que se traz no coração” (Frei Beto)

 

         

 

Princípios como igualdade, fraternidade e liberdade dão lugar ao individualismo de uma cultura de sensações em que o ser humano perde sua identidade e na qual a morte está sendo abolida de nossas vidas. Ao aproximarmos do Dia de Finados, lembrando de nossa transitoriedade neste mundo, procuremos resgatar os verdadeiros valores do humanismo, evitando vulgarizar a morte, pois a sua banalização impossibilita que nos confrontemos com o limite de nossa permanência na Terra.

 

 

 

                “Ando um pouco de banda/ é que carrego meus mortos comigo” (Carlos Drummond de Andrade). Terça feira é comemorado o Dia de Todos os Santos e quarta, Finados. Essa segunda celebração, como ressaltou o grande poeta, deveria motivar uma natural reverência aos entes queridos já ingressados no reino onde se findam todos os mistérios. Ela também pode despertar à reflexão sobre a nossa transitoriedade neste mundo – pensamento muitas vezes desagradável e que preferimos deixar de lado. No entanto, a grande verdade é que a morte faz parte da vida. Segundo o biólogo José Mariano Amabis, do Departamento de Biologia do Instituto de Biociências das Universidades de São Paulo, “a morte é uma das maiores invenções que ocorreram no Universo. Sem ela, não teríamos vida. Esse é o princípio básico. Todos os seres vivos, para se manter, para, evoluir, para se modificar, precisam morrer. Os indivíduos morrem, mas a vida continua”.

 

                        Na atualidade, o que se observa infelizmente, é uma manifesta tendência de sua vulgarização e de inversão de padrões e preceitos, predominando um clima de indiferença e de relações individuais, onde os sujeitos passam a tratar os próximos como objetos. A máxima “rei morto, rei posto” vem se acentuado a cada dia e a preocupação básica das pessoas se volta exclusivamente aos interesses de ordem política, social ou financeira. Ignoram quase que totalmente a questão da efemeridade – um descaso injustificável, já que ela é absolutamente certa, embora insistamos em nos despistar dessa certeza. A solidez dessa concepção foi captada pelo consagrado poeta Jorge Luís Borges: “Há um verso de Verlaine, que nunca voltarei a recordar./ Há uma rua, próxima, que está vedada aos meus passos./ Há um espelho, que refletiu minha imagem pela última vez./ Há uma porta, que fechei até o fim do mundo./ Entre os livros de minha biblioteca (eu os vejo)./ Há alguns, que jamais abrirei de novo;/ Neste verão farei cinqüenta anos/ A morte me desgasta incessante...”.

 

                        Em entrevista ao jornal “O Globo”, o psicanalista carioca Jurandir Freire Costa, professor de Medicina Social da UERJ, afirmou que “os ideais democráticos da Revolução Francesa, que defendiam os conceitos de liberdade, fraternidade e igualdade, ideais que uniam o coletivo, estão sendo varridos para dar lugar ao individualismo de uma cultura de sensações, na qual a morte está sendo abolida de nossas vidas” (Cad. B – pág. 1 – 24/1/99). E prossegue o médico: “Se de fato existe uma ocultação da morte enquanto limite do eu, da consciência, compensamos isso por aquilo que pode ser chamado de banalização da morte. Ela é apresentada e velada, exposta e oculta”. Ou seja, somos expostos à morte todos os dias das formas drásticas, mais violentas, através da mídia e de nossos entorno, mas ao mesmo tempo, esse processo de banalização permite que não nos confrontemos com o limite de nossa permanência na Terra. A morte é sempre a dos outros, ela fica longe da nossa realidade, nos bastidores. Isso tudo, segundo Jurandir, é resultado do “domínio e predomínio” do econômico e material em nossas vidas, em detrimento dos valores éticos, morais e espirituais.

 

                        Precisamos constantemente rever as posições assumidas diante do período de convivência terrestre e resgatar a ameaçada estrutura humanista. A efetivação deste último objetivo inclui a busca do bem comum, no pleno respeito à dignidade humana e na garantia dos direitos que daí decorre. A morte realmente é uma circunstância normal do ciclo da vida, que não devemos temer, ao contrário, necessitamos acolhê-la com serenidade, requerendo-se para tanto, empenho no progresso de conversão pessoal e no testemunho de realizações fraternas e solidárias. E não adianta recusarmos a sua ocorrência, nem tentar desmistificá-la, pois a nossa passagem por este planeta é breve e exata. Nessa trilha e a título de meditação, transcrevemos aqui novamente, um texto do escritor Frei Beto: “A vida é o dom maior de Deus. Ninguém escolhe quando, onde e como fazer. É a loteria biológica. Injusto é uns nascerem em condições dignas de viver e outros, não. E isso não é culpa de Deus. É o resultado de nosso apego, de nossa ganância e, sobretudo, de nossa falta de memória de que dentro de poucos anos, seremos também lembrados no Dia dos Mortos – que habitam a morada na qual se entra sem levar nada deste mundo, exceto o que se traz no coração” (O Estado de São Paulo –  1/11/95 – pág. 2).

 

 

 

                (Extraído do livro “O Estado e o Cidadão, Um exercício da cidadania” de João Carlos José Martinelli e Alexandre Barros Castro – Ed. Litearte- 2002-  ps. 176/178)

 



publicado por Luso-brasileiro às 17:56
link do post | favorito

Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




mais sobre mim
arquivos

Novembro 2020

Outubro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

pesquisar
 
links