PAZ - Blogue luso-brasileiro
Domingo, 23 de Outubro de 2011
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - BLECAUTE

 

 

            A gente só percebe a falta de algumas coisas quando de fato elas faltam. Com os fósforos, por exemplo, é assim. Como ninguém em casa fuma, bem como o fogão é elétrico, em algum momento, que já nem me lembro quando, deixamos de ter fósforos disponíveis.

            Vira e mexe, embora morando em uma das maiores cidades do mundo, ficamos sem luz. Ou é a chuva, ou uma árvore ou sei lá eu mais o quê, mas por vezes ficamos no escuro. Nas primeiras vezes, sem velas ou sem fósforos, ou sem ambos, a coisa ficou feia. Simplesmente tínhamos que nos resignar e ficar no sofá, esperando pela Luzzzzzzz...

            Lanternas compradas, pensamos que o problema estava resolvido. Ao menos não ficamos no breu total. Na hora em que a luz acabou uma vez mais, percebemos que os fósforos ou um isqueiro eram igualmente necessários, pois sem eles não conseguíamos fazer o fogão funcionar e tínhamos que nos virar com comida crua e/ou gelada. Nesses momentos, anotamos a extrema precisão de fósforos. O problema é que, no dia seguinte, ou assim que a luz retorna, simplesmente nos esquecemos disso.

            Daí que hoje pela manhã, ao invés de levantar assim que o despertador tocou, resolvemos dormir um pouco mais. Infelizmente, tivermos uma noite insone, a segunda na mesma semana e, por isso, foi bem convidativa a idéia de permanecer com Morpheu por mais um tempo. Quando nos preparávamos para acordar, ouvimos uma explosão e, logo em seguida, constatamos, com pesar, que a luz acabara. Algo explodira nas redondezas...

            Toda preguiça será castigada! Fósforos!!! Ai, outra vez tínhamos esquecido deles... Resultado: nada de café da manhã. O que adianta, pensei, ter torradeira e cafeteira elétricas? Tivemos que nos contentar com um pedaço de bolo e iogurte. Sem televisão para conferir as notícias matinais, servimo-nos do jornal, certos de que, até a hora do banho, a dita cuja iria dar o ar da graça.

            Na rua, as vizinhas já estavam na calçada, reclamando. Uma delas, uma senhora idosa, gritava que a culpa era de uma árvore que fica a mais de 50 metros de onde a explosão aconteceu. “São esses galhos, essas folhas!” Já de início azedei o meu humor, pois a pobre da árvore, uma das poucas que não foram cortadas na rua, é refúgio de pássaros e dá uma sombra abençoada. Que raio de culpa ela tinha? Fiquei pensando em que ponto as pessoas se dissociaram tanto da natureza... Para não falar bobagem para “entendida em eletricidade”, voltei para a leitura do jornal.

            Em certa altura, constatei o quanto somos dependentes da eletricidade. Nada, absolutamente nada, em casa, funcionava. Eu queria adiantar serviços domésticos, mas a lavadora de roupas, a secadora e a lava-louças estavam mudas, sem reação. Conferi os aquários, para ver se os pobrezinhos dos meus peixes ainda estavam se agüentando ou se eu teria que fazer respiração boca a boca.

            Depois de três longas e primitivas horas sem eletricidade, já começávamos a pensar em alternativas para o banho. Por quanto tempo eu agüentaria, em um dia frio, tomar um banho eficaz? Nem dava para esquentar um pouco de água. Malditos fósforos!

            Prometi a mim mesma que, na próxima compra, ou, se fosse o caso, ainda hoje, eu sairia para comprar fósforos. Pilhas deles! Nunca mais ficaria nesse mato sem cachorro, ou melhor, sem fogo! Quando a luz voltou, cinco horas depois, comecei a ligar tudo e dei graças a Deus à modernidade. Tomei um banho quente, delicioso e quando saí de casa, fiquei com a estranha sensação de que eu tinha que me lembrar de providenciar alguma coisa... Ah, deixa pra lá...

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA- Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo



publicado por Luso-brasileiro às 18:21
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
arquivos

Novembro 2020

Outubro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

pesquisar
 
links