PAZ - Blogue luso-brasileiro
Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011
HUMBERTO PINHO DA SILVA - O PORTO JÁ NÃO É O QUE ERA

 

 

 

                  Em anos de juventude o meu passatempo favorito era peregrinar pelo velho burgo portuense: subir íngremes calçadas lajeadas a granito; descer estreitas escadinhas, entaladas em prédios centenários; calcorrear as tortuosas vielas da Sé e antigas ruas bafientas da Vitória.

                  Não ia só. Como companheiro tinha guapo rapaz: baixo, esbelto e imparável conversador, que informava-me da genealogia das tradicionais famílias tripeiras e seus perdidos ramos em terras do Minho e além Marão.

                   De companheiro de escola, passou a amigo e confidente, e muitas vezes era ele que me convidava a essas incursões.

                  Nessa recuada época passear pela cidade era prazer que se cultivava. Os cafés permaneciam abertos até altas horas e os cinemas transbordavam. Os mais remediados, que se declaravam da classe média, recreavam-se deambulando pela baixa (era o passeio dos tristes), observando vitrinas. Chegava-se a convidar amigos e parentes para esses passeios noctívagos.

                 Caminhava-se seguro e os guardas eram garantes da tranquilidade.

                 Ora, como disse, na companhia amiga de Manel Alpendurada, em regra após o almoço, realizava essas visitas de estudo. Era nesse tempo perito em história da cidade. Lia muito Magalhães Basto e Conde d’Aurora.

                 Lembrei-me, hoje, da nossa curiosidade juvenil, ao atravessar o tabuleiro inferior de D. Luís I e topar que a Ribeira renasceu.

                 Agora está cheia de restaurantes típicos, repletos de turistas; mas então o espaço animava-se de: vendedeiras de peixe, fruta, flores e pano. Sob os arcos haviam mercearias e tasquinhas. Mercava-se: azeitonas, castanha, batata, cerejas de saco e na época própria, o sável era tanto que se oferecia a cinco tostões, peixão capaz de alimentar regimento.

                Na velha rua de S. João – quantas vezes a subi com o Manel ! -  nesse tempo haviam fortes armazéns. Fardos de bacalhau, sacos de arroz e batata saiam de camionetas, aos ombros de pujantes carrejões.

                Todo esse frenético movimento morreu. Os prédios permanecem degradados e o pouco comércio que sobrevive não consegue quebrar o marasmo.

               Neste meu recordar tempos que já não são, subi até largo de S. Domingos e entrei na rua das Flores.

               Quando era jovem abundavam casas de ferragens e pichelarias. Haviam grandes armazéns e muito oiro. Tudo desapareceu; até a queijaria do Nunes, onde minha mãe adquiria o flamengo, e a Casa do Chã, onde meu pai comprava cem gramas de Ceilão, fecharam.

               E sempre ao longo do passeio que realizei para reviver tempos idos, deparei casas delapidadas, abandonadas, desventradas. A baixa portuense encontra-se em ruínas, salvam-se os rés-do-chãos. Alindados pelas lojas, muitas ocupadas por chineses e indianos.

               Onde estão os famosos estabelecimentos de outrora? A Casa Forte, a Lãmaria, Armazéns dos Anjos, Singer, Confiança,Supermercados Vilares, Sapataria Atlas, Simões Lopes e as livrarias Figueirinhas, Tavares Martins e Internacional, onde meu pai permanecia tardes ao redor dos escaparates?

              Tudo desapareceu. Tudo se alterou. Outrora a minha cidade era calma, tranquila e acolhedora; ora, violenta, perigosa, deserta, após as vinte horas; sem cinemas, sem cafés, sem movimento e quase sem polícia.

              Quem hoje se aventura percorrer o velho Porto? Quem tem coragem de sair após o jantar? Quem ainda conserva o costume do passeio dos tristes?

               A minha cidade está moribunda. O Porto da minha juventude, de bicicletas, ardinas, peixeiras, padeiras, leiteiras e rasgado de alegres pregões  -  "Olha o bom rebuçado da Régua!"; "Compre! compre! É barato! Esticadores para colarinhos! Seis, dez tostões"; "Oitenta anedotas de Bogage, apenas por dez tostões! É um fartar de riso, apenas por dez tostões!"; "Merca Chapéus!";"Quem quer limões ó zalhos!..."; "Merca  cruzetas, bancos, apanhadores e caixões de lavar!... "Janeiro!...Comércio!...ó Notícias!...; "Olha o Norte!" -  já não existe.

               Ah que saudade tenho! Saudade do tempo em que o Porto era tipicamente tripeiro!

 

 

HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal



publicado por Luso-brasileiro às 11:49
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3 comentários:
De bellobar a 6 de Dezembro de 2011 às 12:39
Interessante a sua visão do Porto, pois quando aí vou, e a última vez foi em 2010, sinto exatamente o oposto. Ando tranquilo pelas ruas apreciando a bela paisagem da ribeira. Mas está claro que é a tranquilidade dos incautos, talvez a mesma de vocês quando passeiam em Copacabana com suas máquinas fotográficas à vista.
Fiquei encantado com a sua descrição sobre a cidade em outros tempos, lembrando que também a minha mudou muito desde a infância. Senti falta da lojinha que vendia azeitonas, ali na Ribeira, que agora mais parece uma botique de modas, deixando apenas alguns tonéis com azeitonas mas sem o mesmo charme de antigamente. Gosto muito de sua cidade e do povo tripeiro a quem aprendi a apreciar e respeitar.Conheci as marteladas em São João e compreendi que representam desejo de boa sorte, bem característico desse povo amável e acolhedor. Fico por aqui na esperança de novos contatos, talvez para comentar sobre seu interesse em apicultura que li em artigo de Antonio da Cunha.


De Antonio J. C. da Cunha a 28 de Abril de 2012 às 13:47
Prezado amigo. Surpreendeu a citação e mui gostaria de reler o artigo citado. Não me lembro não consta de meus arquivos. Talvez pelos continuados problemas em meu computador que decidiu implica comigo, de tão teimoso que é.
Há entre nós uma incompatibilidade que nos leva a brigas constantes.
Receba o meu abraço e os agradecimentos pela presença constante em minha caixa de e mails.
No "Maria da Fonte" sou assíduo leitor de seus artigos.
Antônio J. C. da Cunha - Duque de Caxias - Brasil


De Humberto Pinho da Silva a 1 de Maio de 2012 às 11:05
O leitor refere-se a este texto:

Segunda-feira, 26 de Julho de 2010

ANTÔNIO J. C. DA CUNHA - BENDITO O MEL DAS ABELHAS


Ao receber matéria sobre os benefícios medicinais do uso do mel das abelhas que me fora enviada pelo amigo Humberto Pinho da Silva, editor do Blog "PAZ" http :/ solpaz.blogs.sapo.pt / , figura presente em vários jornais, especialmente nas páginas quinzenais do “Maria da Fonte”, da região norte de Portugal, lembrei-me de pronto das histórias que minha mãe me contava sobre seu Tio, o Padre e apicultor. JOSÉ CARLOS VALLE REGO.

O Tio padre fora um homem que, embora um religioso, não abdicara das origens, onde o cultivo da terra era a atividade principal dos que o antecederam bem como de seus pais, Francisco Morgado e Laurinda, explorando-a de todas as maneiras, tornando-se inventor de vários equipamentos que facilitavam o trabalho da lavoura e da irrigação da terra.

A criação das abelhas e o cultivo do mel não escaparam ao seu interesse, vindo a tornar-se autor de livro, cujo comentário me foi dedicado por outro amigo já falecido e também articulista do Jornal Maria da Fonte, o CREMILDO PEREIRA.

Em carta que ele me escreveu com data de 20 de fevereiro de 1987 publicada no “Maria da Fonte” edição Nº 2995 (20.02.1987), assim falou:

“ .... O Morgado de Trástola , do seu casamento com Laurinda, teve alguns filhos, entre os quais o padre José Carlos Valle Rego ........ Se os meus prezados leitores se recordam, nos meus comentário de 19 de julho de 1985, dava conta da personalidade do padre José Carlos, considerando-o como “um homem para além do seu tempo a propósito de um artigo que tinha publicado em 24 de maio anterior, apresentando-o como “o padre de Gerás. a> , apicultor.

Posto isto, nada mais poderia acrescentar, se não tivesse registrado uma circunstância em condições muito curiosa. Um velho amigo, residente na África do Sul, que me visita sempre, .... além de sua atividades profissionais, dedica-se a muitas outras ... Contou-me da última vez que esteve comigo que quando viveu nos arrabaldes de Joanesburgo, numa habitação que dispunha de um bom quintal, dedicou-se à apicultura, fazendo muitas experiências quanto à seleção de abelhas e ao apuramento de méis de várias qualidades

Sendo uma ocupação bem diferente da sua formação acadêmica , perguntei-lhe como tinha obtido os conhecimentos necessários. Qual o meu espanto, quando me disse que a conselho de amigos agricultores sul-africanos, se tinha orientado por um livro do Padre José Carlos Valle Rego, a obra que goza do maior crédito naquelas paragens. Seria possível que o trabalho do abade duma aldeia minhota, publicado em 1905, tivesse tanto valor, cerca de 80 anos depois e nuns pais em que a apicultura está avançada.

Ninguém me soube dizer como o livrinho tinha surgido por lá e de se fizeram traduções das partes mais interessantes nas línguas africanense e inglesa.

Durante as pesquisas que faço na Biblioteca Nacional de Lisboa, lembrei-me de procurar a obra do abade de Gerás. a> . Encontrei-a”. Tem o título de ÐOIS ANOS DE APICULTURA” e contem uma interessante mensagem “ao leitor”, com data de 9 de novembro de 1904. Foi impressa na Tipografia A. F. Vasconcellos , Suc ., em 1905, instalada na Rua de Sá Noronha, 51, no Porto.

Evidente que muito gostaria de possuir um exemplar.

A obra aparece citada em longo trabalho que trata da relação do homem com a abelha melífera assinado por Teresa Soeiro, “EM BUSCA DO DOCE SABOR”. http :/ ler.letras.up.pt uploads /ficheiros 5669.pdf - REGO, Jose Carlos Valle , como obra consultada, em entre outras.

Agradeço ao amigo Humberto Pinho da Silva por ter-me despertado para rever esta matéria, muito mais longa, mas ora apresento em resumo, para curiosidade de muitos amigos e parentes, principalmente primos e primas residentes em França e Portugal.

Antônio J. C. da Cunha – Duque de Caxias.Natural da Freguesia de Geraz do Minho (Portugal)


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