PAZ - Blogue luso-brasileiro
Segunda-feira, 7 de Novembro de 2011
LAURENTINO SABROSA - A VELHICE

 

 

 

 

 

                             (A PROPÓSITO DA QUINZENA DO IDOSO, OCORRIDA NO MÊS DE OUTUBRO)

 

Da parte das instituições que têm por missão apoiar os idosos e lhes prestar a devida assistência, há uma grande dedicação e respeito por esta fase da vida, cuja população tem tendência a aumentar. O mesmo se observa na TV e na Imprensa em geral. Enaltecem-se os idosos pelo muito que trabalharam e sofreram, pelo muito que sofreram e muito amaram. Então, diz-se ou dá-se a entender, devemos rodear o idoso o mais possível de carinhos e bem-estar, para o compensar de debilidades e tristezas, para lhe manter o ânimo de vida e da vida lhe conservar a dignidade. Na realidade, se os idosos não têm nesses seus anos de velhice, em que predominam múltiplas carências de saúde e afectivas, se não têm agora carinho e bem-estar, quando os hão-de ter? E se nós, os mais válidos e menos idosos, não lhos dermos, quem lhos há-de dar?

No entanto, será que socialmente e sem hipocrisias, o idoso é devidamente considerado? Muito se enaltece a experiência profissional dos mais velhos, mas o que se verifica é que, só porque já não se é propriamente jovem, uma pessoa é afastada do seu trabalho por critérios economicistas, talvez errados, e, por esses critérios, é preterida e não aceite em candidaturas de emprego; fala-se muito da respeitabilidade que a um velho devemos dispensar, mas nos transportes públicos e em várias circunstâncias se pode verificar que raras vezes o velho, melhor dizendo, o idoso, recebe a respeitabilidade que em teoria dizem merecer; fala-se muito da sabedoria dos idosos, mas essa sabedoria de préstimo e de bom senso só tem valor na teoria dos manuais de Moral. Parece que só na sabedoria bíblica, a experiência é o título de glória dos velhos. E essa indiferença ou falta de consideração não vem apenas da juventude, irrequieta e desatenta. Os seniores, os da fase intermédia entre a juventude e a velhice, são os primeiros a dar o mau exemplo, a não “corrigir os que erram”, não educando assim os mais novos, esquecidos que parecem estar de que um dia também serão idosos e combalidos, velhos que nessa altura não podem receber o tratamento que gostariam, por agora não o ensinarem nem o praticarem. A Educação das pessoas não depende só da família e da escola, depende também muito do ambiente social, da cultura e da espiritualidade da sociedade. E, no entanto, até perante o Concílio Vaticano II, os velhos merecem tudo: “não só o necessário, mas também faze-los participar, com equidade, dos frutos do progresso económico.” –  Decreto O APOSTOLADO DOS LEIGOS, nº.11. Segundo os Provérbios, da Sabedoria de Salomão, “os cabelos brancos de um velho são uma coroa de glória” (Prov.16,31).

Por outro lado, temos de reconhecer que envelhecer é uma arte, nada fácil de realizar com beleza, que deve ser pensada e preparada desde os tempos da maturidade, se não antes. Quem, por exemplo, não prepara os seus tempos pós-reforma, quando se vir na situação de reformado, ao fim de pouco tempo surgem-lhe o tédio e a sensação de inutilidade na vida. Deverá ter o que anteriormente devia ter pensado: uma ocupação qualquer que lhe preencha o tempo, o mais possível com proveito familiar ou social, que, pelo menos, lhe retarde atrofias e escleroses múltiplas. Se o não conseguir, sobrevém a ruína na saúde, na mente, no espírito. Para uma velhice com sabedoria e dignidade, o labor mental e intelectual que cada qual se ministra, acompanhado de uma suficiente actividade física, é fundamental. Cada ser humano deve evitar ser velho, muito menos ser gebo, deve porfiar por que os seus neurónios se não degenerem a ponto de lhe roubar a lucidez e fazer dele um trengo, ou seja, deve ser um ancião, em toda a beleza da palavra. Costuma-se dizer que “velhos são os trapos”, mas os próprios trapos só são velhos se estiverem sujos e não servirem para nada. Tal como os trapos, as pessoas só serão velhas se estiverem sujas e não servirem para nada, e se esquecerem de que mais velhos que os trapos velhos são os trapos novos que cheirem a sulfato de sebo ou nitrato de mijo. A devida preparação da velhice, que devia ser a preocupação de todos, dá beleza e até nobreza a essa fase da vida, atrasa a perda da memória e o assalto das neuroses e das artroses.

Para que a consideração e carinho pelos idosos sejam uma realidade social, cada qual deve lutar por isso, seguindo as mil maneiras de o fazer, começando por entrar na velhice com cuidado, tal como nos recomenda o seguinte soneto de Manuel Bastos Tigre, escritor, poeta e humorista brasileiro do século passado:

 

 

 

Entra pela velhice com cuidado 

pé ante pé, sem provocar rumores,

que despertem lembranças do passado,

sonhos de glória e ilusões de amores.

 

 

do que tiveres no pomar plantafdo,

apanha os frutos e recolhe as flores.

Mas lavra ainda, e planta o teu eirado,

que outros virão colher quanto te fores.

 

 

Não te seja a velhice enfermidade!

Alimenta do espírito a saúde

E luta contra as tibiezas da vontade!

 

 

Que a neve caia, mas que o teu ardor não mude!

Mantem-te jovem, não importa a idade!

Cada idade tem a sua juventude!  

                     

 

 

 

Em teoria, enaltece-se muito o valor da velhice e dignifica-se aquele que é velho. Mas na verdade, quem é velho deve procurar merecer respeito e honra, com pundonor e virtudes, na sua educação, nos seus sentimentos e nos seus procedimentos. Em algures da Bíblia se diz, por exemplo, que “um velho devasso é coisa abominável aos olhos de Deus”. E também se diz que “é uma maldição que não haja velhos numa família”. No entanto, subentende-se que esses velhos que, existindo, são a bênção de uma família, devem ter comportamento digno e congruente com a bênção que são. O mérito de ter filhos,  já expresso pelo Salmo 127, é, assim, confirmado: os pais, novos que sejam, passam a ser os velhos da família, sobre a qual eles lançam as suas bênçãos.

O Eclesiastes, no seu último capítulo, apresenta uma grande meditação sobre a inevitabilidade da velhice (Ecl, 12, 1-7). Na verdade, tomos sabemos por ser evidente, que, por muito que se lute medica e espiritualmente contra a velhice, ela não deixará de aparecer. Mas não é por se lhe diminuir a visão e se lhe debilitar o coração, por se ser meio mouco e muito rouco, que alguém perde a nobreza se estiver a ter “uma velhice venerável, que não consiste em longa vida nem se mede pelo número de anos. As cãs do homem são a prudência, e uma verdadeira velhice é uma vida imaculada –  Sab 4,8-9). Um velho que é mesmo velho por nada ter feito para não cair na senilidade, que não soube promover-se a ancião e não soube prestigiar-se a si e aos da sua classe, contribui para que a teoria de respeito e protecção por poucos seja respeitada. Na opinião da generalidade, ser velho assim é negritude e vergonha social, pelo que não inspira aos jovens o devido respeito e o afasta dele, aprofundando, assim, o conflito das gerações.

 

 

13 de Outubro de 2011  

                                                           

laurindo.barbosa@gmail.com

 

 

 LAURENTINO SABROSA   -   Economista, Senhora da Hora, Portugal



publicado por Luso-brasileiro às 13:07
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1 comentário:
De Canalizadores a 16 de Novembro de 2011 às 18:12
Idoso é sinonimo de experiência e vivência daremos o devido respeito!!!


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