PAZ - Blogue luso-brasileiro
Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - VERGONHA ALHEIA

 

 

 

 

            Mais do que nunca, nos últimos tempos venho sentindo muita vergonha alheia. Sinto repulsa, nojo, indignação, mas, sobretudo, vergonha quanto às atitudes de alguns seres humanos contra os animais. Afirmo que a vergonha é alheia por conta de que, em que pese faça parte da raça humana, não carrego entre meus defeitos ou pecados, a crueldade contra animais.

            Alguns episódios, sobretudo, causaram-me extrema tristeza, extrema dor. Não tenho vergonha, nem alheia, muito menos própria, de afirmar que deixei muitas lágrimas doloridas escorrerem-me pela face. Tenho alguns animais comigo e jamais, em toda minha vida, fui capaz de causar-lhes dor física, de machucá-los ou levá-los a sofrimento. Nunca tomo sequer café da manhã antes de alimentá-los, um a um.

            Assim, quando tive conhecimento pela mídia de que um homem arrastou por muitos metros, seu cão de estimação (estimação???) até que as patas do pobre bicho se desgastassem pelo atrito com o asfalto, não consegui, por mais que tentasse, imaginar uma motivação que fosse, à exceção de pura maldade. Mesmo sendo socorrido e submetido à tratamento, o cão teve uma das patas amputadas e faleceu dias depois.

            Quase na sequência, outro cretino enterrou vivo um filhote de cerca de quatro meses. Embaixo da terra por mais de doze horas, não sou capaz, sem ter vontade de partir para cima do algoz do infeliz cãozinho, de imaginar as agruras pelas quais o animal passou enterrado. Tão pequenino e só conheceu do mundo a maldade e a dor. No momento em que escrevo, mesmo tendo sido resgatado com vida, o animal está em estado crítico e não acredito que venha a sobreviver. Se conseguir, espero que encontre alguém que represente melhor a humanidade e que seja capaz de lhe dedicar amor.

            É claro que me condôo igualmente de toda maldade praticada contra seres humanos, essencialmente contra crianças. Todos os inocentes e indefesos desse mundo deveriam ser imunes à maldade do mundo. Nada de ruim poderia acontecer a quem sequer pode se defender. Infelizmente, isso não é o que ocorre, não nesse plano de vida, ao menos. Ao contrário, parece que o mundo tem se tornado um lugar mais perigoso, mais cruel. Ou as pessoas estão ficando loucas, ou perderam os valores, a noção de solidariedade, de amor ao próximo, de piedade e do que é razoável, permitido ou tolerável.

            De minha parte, simplesmente não sei e isso me deixa perplexa, confusa. Temo, eu mesma, a onda de fúria que me invade quando ouço, leio ou vejo situações como as que narrei acima. Sinto ânsias de submeter o agente causador às mesmas condições, só para ver o que ele acharia disso, se pediria clemência, se entenderia o que fez. Contudo, ato contínuo, tornar-me-ia igualmente criminosa, insana. Será, penso, que vamos repetindo alguma espécie de círculo vicioso? A violência, com certeza, não será a reposta para o fim dela mesma. Em algum momento, que Deus nos ajude e nos inspire, teremos que ser capazes de encontrar o início dessa meada, de desatar os nós nos quais estamos prendendo nossa dignidade e perdendo o lado bom de nossa humanidade.

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA- Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo



publicado por Luso-brasileiro às 11:22
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