PAZ - Blogue luso-brasileiro
Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - DESCENDO PARA BELÉM

                    

 

 

 

Quando chega o Natal, vem-me forte a imagem dela. Neste ano, contudo, se  agigantou no Advento e no sentido do nascimento de Jesus Cristo.

Conheci-a na década de 80, um pouco depois do início da Pastoral da Mulher. Viera de outro Estado, de bordel em bordel, de cabine em cabine de caminhão, a fim de romper os grilhões de violência sexual do padrasto. Aconteceu ao completar 12 anos e não se esquecia do nojo do corpo dela e do dele. Necessitava se sentir criatura de Deus para uma atitude contrária à que fora empurrada pelo marido da mãe. Apegou-se ao Deus da salvação, através da Pastoral, e, com facilidade, conseguiu emprego como margarida. Ainda em fase de experiência na varrição de rua, detectou-se que um tumor crescera além dos limites da cirurgia. A radioterapia foi ineficaz. Em sua última semana de Advento, o médico propôs que passasse em casa com a filha pequenina. Foi comigo. Morava no morro em município próximo. As pessoas em situação de penúria e os barracos todos em um pequeno vale, dentre três elevações. Recordo-me como se fosse hoje: final de tarde de 24 de dezembro. Em silêncio, ela contemplou o entorno. No ar, um quê de melancolia e pureza imensa. Em seguida, prendeu os olhos ao azul do céu. Imaginei, por um instante, que regressávamos no tempo e que, em algumas horas, Maria e José chegariam ao cômodo de madeira tosca, onde o Menino nasceria. Supus, também, que pela encosta do morro, desceriam Gaspar, Melchior e Baltazar. Voltou ao hospital no dia 26 e, antes da virada do ano, partiu. Naquela época, experimentei a forte impressão do quanto o Menino estava em meio aos pobres e, neste ano, compreendi, com clareza, porque aquele acontecimento sobrevive no meu coração e na memória.

Há poucas semanas, a priora do Carmelo São José, Irmã Madalena, partilhou comigo um livro que lera: “O Caminho da Imperfeição – A Santidade dos Pobres” do Padre André Daigneault, nascido no Quebec, Canadá. Essa profunda reflexão sobre Deus, que recolhe os destroços, me levou de volta ao pequeno vale de pobreza extrema. O Evangelho é o mundo ao contrário. É Deus que desce cada vez mais baixo para salvar o ser humano. Desce em Belém numa manjedoura; desce no Egito no caminho do exílio; desce em Nazaré por 30 anos no anonimato; desce para as ovelhas perdidas da Casa de Israel. Desce das profundezas do batismo do Jordão às profundezas de seu batismo nas águas da morte na cruz... O mais belo rosto de Deus é o do lava-pés, segundo o autor. Jesus de joelhos diante dos seus discípulos. A onipotência de Deus se manifesta na descida, no mais baixo. Encontra-se Deus pela descida, pela genuflexão do lava-pés.

Aquela mulher extraviada pelo instinto incontrolável de um homem que deveria protegê-la e que a tornara remanescente dos cais da vida enxergava muito mais o Menino, Maria e José do que eu. Inclinava-se, repleta de dores, perante a miséria de sua realidade, para abraçar a filha e se despedir. Em sua fraqueza desarmada, a cada momento repetia: “Meu Deus!” E eu ali, no elevado do meu ego, comovida, mas sem aterrissar de mim mesma, sem o estado de renúncia, sem o toque nas chagas das misérias do mundo, para ficar com Jesus, pobre e pequeno, que descera do céu, na gruta escura e humilhante de Belém. E eu ali, em meu orgulho espiritual, com o brilho das vitrinas no pensamento e a me entreter com laços de fita, inconsciente de que, da moça - jamais ouvi dela uma palavra de revolta -, recebia muito mais que lhe oferecera: o ensinamento que para dar um passo para Deus, a direção vertical é proibida, como afirma o Padre Daigneault. Mas se chamamos embaixo, então, Deus desce e nos ergue.

Feliz Natal, minhas queridas e meus queridos! Que seja este um Natal de descida a Belém, de transfiguração!

 

Maria Cristina Castilho de Andrade

É educadora e coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher/ Magdala



publicado por Luso-brasileiro às 11:39
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