PAZ - Blogue luso-brasileiro
Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011
CIINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - CAIXINHAS DE NATAL

 

 

 

 

 

            Acho que acontece o mesmo para quase todo mundo, mas eu vou estranhando algumas mudanças da e na sociedade. É fato inconteste que as pessoas mudam, que os costumes se alteram e que cada nova geração acresce e deixa de lado aquilo que não se amolda ao seu tempo.

            Assim, há alguns anos, quando se falava em caixinhas de Natal, a imagem que se formava na minha mente era a de caixas coloridas, nas quais os presentes de fim de ano seriam acomodados. Hoje, sobretudo, parece-me, nesse ano, a expressão “caixinha de Natal” está longe de ter o mesmo significado.

            De repente, todo mundo resolveu enfeitar uma caixa ou uma lata e colocar no seu estabelecimento comercial, a título de caixinha de Natal. Da padaria ao veterinário, parece que esse se tornou uma espécie de enfeite de Natal. Então vejamos: no Natal, mais do que qualquer coisa, eu tenho que contribuir com um dinheirinho extra para qualquer um cujos serviços eu utilize. Se vou fazer as unhas, tem lá uma caixinha, se vou comprar pão, se levo meus cães para tomar banho, se vou ao mercado, à farmácia, em todo lugar tem uma das tais caixinhas, estrategicamente colocada, toda embrulhada em motivos natalinos, solicitando uma parcela do meu suado salário...

            Eu só queria era entender um pouco isso. Quase todo esse pessoal é assalariado, portanto, ganha 13° salário. Assim, falta-me talvez inteligência para entender por que razão eu tenho que repassar partes do meu para os outros. Não estou falando de ação de solidariedade, de ajuda a pessoas carentes, que fique bem claro. Refiro-me a pessoas que trabalham e que, não raras vezes, ganham até mais do que eu.

            Fico me perguntando: a quem pertence, por exemplo, a caixinha que fica na Padaria? Será dividida igualmente entre os funcionários ou o dono está querendo minimizar o dever dele de pagar aos empregados? Se eu colaborar, posso perguntar, será, a destinação?

            Outra coisa que me deixa louca no fim de ano são os entregadores. Até o carteiro me deixa um cartão pedindo caixinha! O lixeiro, que eu passo o ano todo sem ver, dá as caras todos os dias na última semana de Natal e fica varrendo a rua bem devagarzinho, tocando as campainhas e pedindo caixinhas. Minha revista Veja é sempre atirada varanda a dentro, algumas vezes atingindo em cheio meus vasos, mas, nos últimos dez dias do ano, o entregador prefere entregar pessoalmente, juntamente, é claro, com o pedido de praxe.

            A equação parece-me muito simples: se eu der “caixinha” para todo mundo, ficarei eu na condição de ter que fazer o mesmo. Como advogada, será que posso ligar para meus clientes pedindo uma colaboração? Posso até usar a frase que vem impressa em alguns dos “cartões” de Natal que tenho recebido: “por não termos 13° salário, peço encarecidamente a sua ajuda para fazer o meu Natal mais feliz”... Se não der certo, posso mandar uma cartinha aos meus alunos, solicitando, gentilmente, uma modesta contribuição natalina...

            Francamente, doa a quem doer, isso já virou uma palhaçada! Mais uma vez, o Natal vai perdendo sua razão de ser. Uma coisa é eu dar um valor a mais para minha faxineira, que me acompanha, com carinho, há mais de 4 anos, todas as semanas, a título de Boas Festas, de agradecimento. Fazer uma cesta de Natal para ajudar a quem precisa, colaborar com alguma causa, tudo isso tem o meu apoio, mas esse hábito de quase mendicância natalina, não ganha meu voto.

            Boa parte de minha família é gente humilde, e meus avós paternos, sobretudo, foram, em vários momentos da vida, pessoas muito pobres. A herança, contudo, que me deixaram, foi a de que é preciso trabalhar e garantir, honestamente, o pão de cada dia. Tenho vergonha de ver a quantidade de pessoas que espoliam, descaradamente, os cofres públicos, mas também me envergonho desse hábito de pedir por pedir, aproveitando-se de uma época na qual as pessoas estão mais sensíveis. Espero, sinceramente, que não estejamos nos tornando uma nação de mendigos de caráter e de ladrões do dinheiro alheio.

            Feliz Natal a todos, com desejo de que o verdadeiro espírito do Natal se faça presente em todos os lares...

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA- Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo

 



publicado por Luso-brasileiro às 14:45
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