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Segunda-feira, 26 de Março de 2012
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - OS SETE PECADOS CAPITAIS. PARTE 5 : A PREGUIÇA

 

 

 

 

 

 

                O André, office-boy na empresa do Dr. Roberval e do Dr. Osmar, tinha a plena convicção de que devia ter alguma coisa errada com o mundo. Tudo girava muito rápido e isso o deixava nauseado, meio sem rumo. Ele tinha certeza de que não era um problema dele, mas do ritmo do mundo. Alguma coisa estava fora do lugar no universo...

                O horário dele na empresa era às 8 da manhã. Ele tinha que chegar lá antes que os patrões chegassem, mas por mais que ele se esforçasse, nunca conseguia esse feito. Quando o relógio tocava, alguma coisa conspirava contra ele, porque, sem que ele se desse conta, acabava desligando o dito cujo e era sugado para dentro de um sono com sonhos infindáveis. Assim que conseguia se libertar dos poderosos braços de Morpheus, sentia um entorpecimento que só podia ser causado por algo misterioso, algo que, já que não estava em seu controle, ele já tinha desistido de lutar contra.

                Não dava para sair e ir trabalhar sem tomar café ou banho e essas são coisas que não se pode fazer correndo, com pressa. Aliás, André não entendia o conceito de pressa. Se a Terra gira, na verdade nunca se chega a lugar nenhum, nunca vale a pena correr, não em círculos. Aos dezoito anos, ele estava certo de ser um sábio. Ainda desconhecido, era verdade, mas detentor de uma sabedoria que, um dia, poderia mudar o mundo, caso, é claro, ele tivesse tempo para tanto...

                Como todo jovem recém saído da adolescência, ele precisava cuidar do visual. Não dava para descuidar das madeixas negras que, repletas de redemoinhos, caiam em uma longa e rebelde franja. Era preciso ser paciente para se atingir a perfeição, ele costumava pensar e rir sozinho... Uma hora depois, sentia-se pronto para ir ao trabalho, mas já um pouco cansado. Ele estava certo de que somente não perdera o emprego porque as secretárias dos patrões, a Vandete e a Glória, sobretudo a gordinha, a Glória, seguravam as pontas para ele. Ele sabia que, no geral, fazia sucesso com as mulheres. Pena que esse não era, exatamente, o departamento dele, mas enfim...

                O fato era que as secretárias deixavam que ele ficasse usando o computador delas, na hora do almoço, em troca de atender aos telefones que tocavam. Tudo para que pudessem ir juntas almoçar. Ele achava bem bonita a amizade delas. Coisa rara nos dias atuais. Na verdade, ele nem ligava muito para o computador, mas mais era para sentar nas cadeiras confortáveis que elas tinham, até para descansar do estresse que era ser um Office boy. Elas nem faziam idéia, mas nem sempre, ou melhor, quase nunca, ele atendia aos telefones. Não se sentia disposto a falar com estranhos. Era algo desgastante, que despendia muita energia, que o deixava exaurido. Ele se limitava a tirar do gancho o aparelho, para que parecesse estar ocupado e não despertar a atenção dos chefes...

                O serviço do André era levar papéis de um lado para o outro, de um setor para o outro e de fazer serviço de banco. Ele ia, era verdade, mas no tempo dele, porque, na experiência de vida dele, nada, de verdade, era urgente. As pessoas é que adoravam colocar isso nos envelopes para provocar os mensageiros, mas ele sabia que não era assim que o mundo era e que ninguém morreria se não recebesse um documento ou pagasse uma conta no mesmo dia.

                Assim, o André sentia que cumpria seu papel na Terra. Ele existia, sem pressa, sem urgência. Dormia o quanto podia e o quanto seu corpo mandava. Trabalhava do jeito que lhe parecia correto, justo. Não precisava de gente colocando fogo no seu pé. Se ele fosse preguiçoso, tudo bem, mas isso, com certeza, ele sabia que não era... Preguiça era algo muito cansativo para ser vivido..

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo



publicado por Luso-brasileiro às 14:04
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