PAZ - Blogue luso-brasileiro
Terça-feira, 27 de Março de 2012
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - RETRATO DE UM VICIADO

 

                                              

 

 

 

 

 

O livro autobiográfico de Bill Clegg, “Retrato de um Viciado quando Jovem”, lançado no Brasil em 2011, pela Companhia das Letras, traduz o que se passa por dentro de um dependente químico de crack. Bill é um agente literário em Nova York bem sucedido, que, através das drogas, desceu a um mundo tenebroso, em que a angústia do instante era tratada com a fumaça do cachimbo de crack. Raras as situações, no viver em sociedade, em que se sentia melhor, com uma dobra de seu interior desamassada.

O crack o tirou do trato íntimo com aqueles que amava e da sociedade em geral. Escondia-se cada vez mais dentro de si. Primeiramente, foi a bebida em excesso, com destaque para a vodka. Depois veio o crack. Após o uso, a cama e o chão ficavam repletos de migalhas. Acabadas as pedras, ajoelhava-se atrás dessas migalhas ou raspava o cachimbo para tentar mais uma tragada.  Considerava que as verdades sombrias e preocupantes, que rugiam alto ao seu redor, desapareciam na cortina de fumaça. Trocou a angústia existencial, as questões mal resolvidas na infância pela agonia da dependência química. Mais de 20 minutos sem fumo era o seu limite. Para o pânico ir embora, entre as tragadas, bebia vodka. Fazia queimaduras feias nas mãos devido às intensas tragadas. Chegava a preparar três cachimbos ao mesmo tempo, a fim de que não precisasse esperar que um esfriasse para fumar a próxima pedra. O medo voltava, na ausência da fumaça. Não conseguia parar de telefonar aos traficantes. A paranoia e o nervosismo o afetavam cada vez mais. Confortava-se, apenas, momentaneamente, com a quantia de crack que possuía.  Encarava as pessoas, com quem estabelecera uma relação afetiva, como se estivesse dentro de um trem deixando a estação, vendo um estranho parado na plataforma. Convivia com elas planejando mentiras. Considerava-se estar em lugar algum e não pertencer a nenhum lugar.  Procurava um local onde não se lembrasse de si mesmo e a volta à consciência era sempre um choque. Em sua paranoia, observava alguns homens e imaginava que eram policiais disfarçados, que viriam prendê-lo. Temia as sórdidas prisões por posse de drogas. Em meio à multidão, era como se as pessoas estivessem se afastando, evitando-o. Rezava por um enfarte fulminante. Desejou, em inúmeras horas, que a mistura da bebida com as tragadas lhe desse a morte.  “Enxergo-me como uma marionete que já vi centenas de vezes e que jamais pensei ser. Sou apenas madeira, fios e espasmos. Sem dinheiro. Sem amor. Sem carreira. Sem reputação. Sem amigos. Sem esperança. Sem compaixão. Sem utilidade. Sem segundas chances”, testemunha em um dos capítulos.

Após um tratamento de desintoxicação, constatou os danos que provocara às pessoas de seu entorno e experimentou a liberdade de não mais procurar desculpas e estratagemas para o dia seguinte. De não se preocupar em ser uma fraude ou em ser desmascarado como em todos aqueles anos. Optou por ser ele e o que salva o ser humano é a sinceridade, o olhar de frente as vitórias e os fracassos de sua descendência e de sua história, sem horror ao amanhecer.

 

 

 

Maria Cristina Castilho de Andrade

É educadora e coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher/ Magdala, Jundiaí, Brasil

 



publicado por Luso-brasileiro às 12:04
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
arquivos

Novembro 2020

Outubro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

pesquisar
 
links