PAZ - Blogue luso-brasileiro
Sábado, 30 de Janeiro de 2010
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - TERRA DA GAROA ?

                 

 

            Desde criança eu ouvia alguns parentes que, ao se referirem à cidade de São Paulo, davam-lhe o apelido de “Terra da garoa”. A maior parte deles tinha passado por São Paulo nas décadas de 50 ou de 60 e tinham dela a lembrança de uma cidade de temperatura amena, chuvosa e romântica.

            De minha parte, contudo, eu não tinha a menor vontade de vir morar em São Paulo. As poucas vezes que por aqui tinha circulado, somente tinha visto miséria, favelas e, pela televisão, tudo o que eu conseguia ver era a violência.

            As contingências da vida acabaram me trazendo para cá no fim da década de noventa, para dar continuidade aos estudos depois da faculdade. Vim, mas vim morrendo de medo. Na primeira semana de aula, na minha estréia nos metrôs, sozinha, eu não somente me perdi, entrando em pânico quando não reconhecia absolutamente nada no lugar em que descera, como também fiquei com dores pelo corpo por mais de semanas, só por conta da tensão que eu passara, do medo de ser assaltada, violenta e morta em plena rua e luz do dia.

            Naquela oportunidade eu fiquei na cidade por dois anos e tudo em que eu pensava era em ir embora logo. Sentia falta da tranqüilidade do interior, do sol e do céu azul, bem como do silêncio que vinha a ausência das sirenes de polícia e ambulância. Novamente por conta das necessidades de trabalho, acabei voltando para São Paulo, mas foi como se uma nova cidade eu descobrisse.

            Engraçado como tudo depende mais do nosso olhar, do momento em que vivemos, do que qualquer outra coisa. Claro que a violência, infelizmente, ainda existe e muita, mas eu já posso conviver com ela com menos pavor, sendo mais realista. Hoje eu encontro o céu azul em muitos dias, e, ao contrário do que me levou daqui, não sei mais viver sem a agitação das pessoas que vão e vem a todo momento, da cidade que nunca para.

            São Paulo, agora, como, aliás, o são muitas outras cidades do Estado, não é mais da garoa, simplesmente. As chuvas vem caindo incessantes e impiedosas todos os dias e já nem tem muito um horário certo. Não dá para sair de casa sem uma sombrinha estrategicamente posicionada ou um guarda-chuva de prontidão. Nesse quesito, quanto mais o guarda-chuva se aproximar de uma tenda, tanto melhor.

            A chuva que dava um charme e clima especial à cidade, hoje a castiga fortemente. Muitas pessoas perderam suas casas, seus pertences e até mesmo suas vidas. A falta de trabalho, de esclarecimento e de políticas públicas adequadas faz com que áreas de risco ou de proteção ambiental sejam irregularmente ocupadas, o que só aumenta os números das tragédias anunciadas.

            Aos poucos, quem vive em São Paulo vai mudando de hábitos. Não dá para sair com hora marcada e o trânsito já nem é mais o único culpado. Muitas vezes vale ter em mente uma alternativa esquematizada para o caso de não se conseguir voltar para casa, ou de ficar ilhado sem ter o que comer ou como se locomover.

            Em que pese tudo disso, da cidade da garoa já quase poder ser apelidada de cidade do dilúvio, eu me sinto estranhamente em casa. Já ando até em comprar um barquinho ou esperar a próxima geração de carros anfíbios...

 

 CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo

           

 

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:00
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