PAZ - Blogue luso-brasileiro
Terça-feira, 24 de Abril de 2012
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - OS SETE PECADOS CAPITAIS. PARTE 7: A LUXÚRIA

 

 

 

 

                A mulher do Roberval, a Salomé, entendia que, na vida, de alguns princípios morais, nunca se podia abrir mão. Ela, por exemplo, era uma pessoa temente a Deus, mãe devotada e esposa fiel. Não podia admitir certas coisas. Quando o filho mais velho pediu para levar a namorada para dormir em casa, ela não apenas proibiu, como se viu obrigada a explicar, uma vez mais, tudo o que um rapaz de família precisava ser. Sem dizer que, se a moça dormisse lá, teria que ser com ela e, jamais, em hipótese alguma, antes do casamento, em qualquer outro lugar fora do alcance dos olhos dela.

                Ela não se conformava como a juventude estava desviada dos caminhos. No tempo dela, quando namorava o Roberval, as coisas não eram desse jeito não. Não tinha essa permissividade moderna. Salomé se lembrava de que o Roberval tinha respeitado todas as regras impostas pelo pai dela. Nunca tinha tentado nada, nunca passara dos limites. Depois de casados, ele também tinha se portado com um cavalheiro, jamais sugerindo ou buscando “novidades”. E assim, ela sabia que estava segura, vivendo dentro da normalidade.

                Todos os dias pela manhã, a Salomé levava o marido para empresa. Ele sempre queria chegar mais cedo do que o sócio, o Roberval. Muitas vezes, quando os meninos demoravam um pouco mais para se arrumarem para escola e ela não conseguia sair no horário planejado pelo marido, as coisas ficavam tensas. Ela gostava de subir com ele até o 10º andar, onde a empresa funcionava e aproveitar para bater um papo com as secretárias, a Vandete e a Glória. Quando as encontrava, usava a oportunidade para dizer a elas que deviam se guardar para o casamento e não ficar por aí, namorando um e outro, sem compromisso. Ainda que percebesse que não era levada a sério, não podia deixá-las no caminho da luxúria, da perdição.

                Em uma dessas manhãs, a Salomé conheceu o André, o Office boy da empresa.  Assim que ele entrou na sala, com os cabelos escuros e grossos, molhados, de calça jeans e camiseta branca, foi impossível não sentir o perfume que exalava dele, de todo ele. Por alguns momentos, ela se perdeu naquela visão e sentiu um calor que, vindo dos pés, atravessou todo seu corpo. Ela se sentiu incendiar, literalmente. Com a visão meio turva, enfumaçada pelas chamas que a consumiram, Salomé teve uma espécie de mal-estar e sentiu que o chão aos poucos ia desaparecendo.

                Quando abriu os olhos novamente, estava rodeada pela Vandete e pela Glória, que, assustadas, não paravam de perguntar se ela estava bem. Demorou alguns minutos para se dar conta de que estava amparada pelos braços do André. Estremeceu quando uma gota d’água, vinda dos cabelos dele caiu e rolou por todo seu rosto. Tudo o que ela conseguia pensar é que deveria estar perdendo o juízo. Ela era uma mulher de família, uma mãe! Não podia ter esse tipo de pensamento, não do tipo que estava invadindo a mente dela.

                Como quem acorda de um transe, ela se aprumou, agradeceu polidamente ao rapaz e correu para casa, para um longo banho. Ela tinha que tirar aquilo tudo da cabeça. Eram pensamentos para moças fúteis como a Vandete e a Glória, gente que vivia de luxúria, de ideias pequenas e mundanas. No banho, queria que água quente lavasse a alma dela e não o corpo.

                Assim que o Roberval chegou, foi esperá-lo na porta, abraçando-o como de costume. Inspirou fundo e ficou tranquila por dele não exalar nada parecido com o que o André era e cheirava. Com o coração mais calmo, tratou de fazer as suas orações ao dormir. Sonhou, contudo, com o André e desse sonho jamais seria capaz de esquecer, embora nunca fosse se permitir, conscientemente, lembrar. Acordou encharcada em suor. Nem conseguia olhar para a cara do Roberval. Não para aquela cara sem sal ou açúcar.

                Dessa vez tomou um banho de água fria, gelada. Arrumou-se como nunca e, quando se deu conta, estava indo com o Roberval para a empresa, com o coração aos pulos. Ela sabia o tipo de mulher que era. Conhecia sua moral, seu valor. Iria até lá apenas para alertar as secretárias de que alguns sentimentos podem ser devastadores para mentes simplórias e corações sem fé. Provavelmente ela não encontraria o André, o que era bom. Contudo, se assim o fosse, ela poderia, ter certeza de que tudo não passara de uma tentação, de um incidente infeliz.

                Deixou o Roberval na sala dele e, não encontrando as secretárias, mas somente a pedante da Supervisora delas, resolveu sair logo de lá e se dirigiu ao elevador. Assim que a porta se abriu, lá estava o André. Antes da visão, ela o sentiu pelo olfato. Com as pernas bambas, deixou a porta se fechar atrás de ambos e começou a rezar...

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.



publicado por Luso-brasileiro às 11:27
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