PAZ - Blogue luso-brasileiro
Terça-feira, 24 de Abril de 2012
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - PORTAS E JANELAS ABERTAS

 

                                  

 

 

 

 

Indigno-me e me comovo com certa facilidade. Sou de sentimentos intensos que, às vezes, sangram por dentro. Neste mês de abril, dentre outros acontecimentos, chocou-me a fala do Dr. Marcos Carneiro Lima, delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo. Consultado a respeito da proposta da comissão do Senado de reforma do Código Penal, que prevê o fim de punições às cafetinas e cafetões, e sendo favorável à iniciativa, diz ele: “A atuação da prostituta acaba trazendo benefícios à sociedade. Como somos mamíferos e primatas, descarregamos no ato sexual aquela energia que poderia ser canalizada para coisas violentas”. E conclui que a maior parte das casas de prostituição existente hoje no Estado dá pouco trabalho à polícia porque seus donos tentam evitar que as garotas criem problemas.

Que coisa! Primeiro a colocação sobre o ser humano, algo como se um Pit Bull tiver, ao seu lado, uma cadela no cio, não atacará ninguém. Depois, um total desconhecimento sobre o que leva uma mulher pobre a se prostituir como a violência sexual infanto-juvenil, o contato desde menina com a promiscuidade sexual, a miséria, a falta de oportunidades. É raro uma escolha livre de comercialização do próprio corpo. De que forma os rufiões evitam que as garotas criem problemas?! Barateia o custo para o Estado confiná-las sob a exploração de alguém, expostas a situações de vulnerabilidade e violência, do que propiciar condições para que as personagens do submundo ascendam socialmente, recuperem a dignidade. Movimentos de mulheres em situação de prostituição, que se dizem favoráveis a essa proposta, costumam ter uma líder intelectual que, de alguma forma, se beneficiará com a descriminalização dos bordéis. E quem as protegerá, dentro dessas casas, do desrespeito, do constrangimento físico e psíquico, dos insultos, da morte? E quem lhes oferecerá tratamento médico apropriado nas doenças físicas e emocionais? Quem as amparará na decadência?

No lado oposto, emocionei-me com a via-sacra realizada pela Pastoral da Mulher/ Magdala, em nossa cidade, na noite de dois de abril. Tenho a convicção de que há algo nas pegadas das pessoas que permanecem.

As mulheres da pastoral, muitas delas com um tempo de prostituição no centro da cidade, quiseram voltar aos mesmos locais, dispostas a afastar os fantasmas do passado e a exorcizar as lembranças funestas. Colocaram, em cada um desses pontos, através de sua fé, gestos, anúncio do caminho sagrado, orações e cânticos, os santos passos do Senhor. E como as feridas se curam na coragem de pisar no mesmo chão com a alma renovada! Poucas conseguem retornar, de olhos na claridade da cruz, aos lugares em que sofreram muito, em que foram vitimadas pelo preconceito. Raras as pessoas que conseguem colocar a semente da ressurreição nos pontos de suas quedas.

Impressionou-as portas e janelas abertas para observá-las em prece. As lojas, ao término de expediente, que aguardaram que todas passassem para em seguida baixar as portas. As janelas que se abriram no Hospital São Vicente. Os olhares de respeito por elas. As pessoas desconhecidas que cessaram a caminhada para rezar em uma das estações da via-sacra e as que seguiram junto. As que fizeram o sinal da cruz ao constatar que era uma caminhada de amor a Deus. O mendigo alcoolizado que se aproximou em silêncio para rezar. As portas da Catedral abertas pelo Padre José Brombal e o Diácono Boanerges para acolhê-las na bênção final.

Legalizar o procedimento de quem isola as mulheres para explorar o comércio de corpos é rejeitar a honradez das criaturas de Deus; é contrariar a essência do ser humano que encontra a paz, a felicidade e o amor em portas e janelas abertas.

 

 

Maria Cristina Castilho de Andrade

 

É educadora e coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher/ Magdala, Jundiaí, Brasil

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:36
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