PAZ - Blogue luso-brasileiro
Segunda-feira, 29 de Outubro de 2012
JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI - É PRECISO FORMAR PESSOAS VALORIZANDO A CIDADANIA

 

 

                                                 

 

 

 

 

Um indivíduo inculto não se pode revelar num homem psicologicamente livre porque, incapaz de avaliar seus esforços, deixa-se sonegar pelas injustiças dos poderosos. A educação é um direito inalienável de todos os homens, assegurado por nossa Constituição Federal, devendo repousar no desenvolvimento de seres humanos com uma razão crítica, com uma visão de mundo ético e humanista, com criatividade, senso estético e equilíbrio afetivo e psíquico.

 

 

            No século X, em 02 de novembro de cada ano, o monge francês Odilon Cluny iniciou uma série de rezas e festas sacras para os cristãos mortos, costume que se espalhou por outras religiões. Os indivíduos acreditavam que, rezando para os falecidos, nesse dia, os vivos diminuiriam os castigos das almas que pecaram durante a vida terrena. Após quatro séculos, a Igreja Católica oficializou a comemoração, instituindo o Dia de Finados ou Dias dos Mortos, que chegou ao Brasil pelos portugueses. Na ocasião, os templos e os cemitérios são visitados, os túmulos são decorados com flores e milhares de velas são acesas, aspectos que já se tornaram tradicionais. Assim, essa data leva-nos a refletir sobre a morte e infelizmente, concluímos que ela está sendo cada vez mais banalizada em nosso país, a ponto de se assistir pela TV, a centenas delas por dia, numa visível demonstração de abandalhamento de princípios, que rendem exclusivamente, altos índices de audiência. Apesar do Direito consagrar a vida como o mais valioso bem a ser protegido, efetivamente as pessoas ainda não tratam o óbito como um rito de passagem, como deveriam entendê-lo nos aspectos religioso e moral, nem lhe outorgam as condições de dignidade exigidas por sua concepção jurídica.

             Para mudarmos esse quadro, nossas esperanças se concentram na prevalência da ética, do valor da postura e da dimensão espiritual do homem e neste cenário, a educação se constitui no poderoso vetor energizante e impulsionador não a vislumbrando apenas em seu contexto escolar programático, mas também na sua dimensão criadora de uma mentalidade crítica e reflexiva. O problema não é simples. Melhores níveis de desenvolvimento intelectual e cultural significam menos influência da elite dominante, menos conformidade com a situação desigual, menos eleitores tolerantes ou apáticos. Mas é preciso tentar resolvê-lo. Faz-se necessário recuperar imediatamente a função social do ensino, integrando-o ao projeto de auto-realização de cada cidadão com o projeto de progresso da Nação. Nesta trilha, invoquemos a premissa de que um indivíduo inculto não se pode revelar num homem psicologicamente livre porque, incapaz de avaliar seus esforços, deixa-se sonegar pelas injustiças dos poderosos. A educação é um direito inalienável de todos os homens, assegurado por nossa Constituição Federal, embora a letra da Lei Maior manifestamente se distancie da realidade nacional.

Vale ressaltar, uma vez mais que, enquanto a educação permanecer  prerrogativa de reduzidos grupos sociais - como comprovadamente indicam as pesquisas atuais - afastando-se as massas populares por circunstâncias étnicas, econômicas, políticas, eleitoreiras ou por caprichos pessoais e meras disputas de forças unilaterais, dificilmente coexistirão moral pública, progresso material e vida familiar elevados, e que no entanto, são essenciais à consecução do bem comum e à satisfação das exigências humanas.

Por tais circunstâncias a maior parte da população está descambando ao amoralismo, caminho seguro do egoísmo, da insensibilidade, da indiferença, da derrubada dos escrúpulos e da falência dos valores. Precisamos promover, com urgência, o crescimento pessoal do cidadão como ser moral. A mudança de procedimento, portanto, depende quase que exclusivamente da educação, cuja finalidade é formar homens plenos em sua humanidade. A preocupação com essa questão preponderante deve nortear nossos governantes e envolver todos os setores da sociedade.

A educação não pode ser vista como responsabilidade apenas das escolas. Tudo na sociedade pode ser e é pedagógico, em sentido positivo ou negativo. Na família, no trabalho, nos meios de comunicação, na ação política, nos atos religiosos, em qualquer setor de atividade humana, estamos ensinando às novas gerações modelos e propostas de conteúdo técnico, político e moral. Isso é tanto mais verdade na sociedade moderna, em que a criança está em contato com o mundo pela televisão, pela Internet e pela interação intensa com os adultos. É visível a necessidade de empenho coletivo para que os reais objetivos educacionais sejam plenamente atingidos e o cerne da educação deve repousar no desenvolvimento de seres humanos com uma razão crítica, com uma visão de mundo ético e humanista, com criatividade, senso estético e equilíbrio afetivo e psíquico. Reiteramos que, por mais que isso contrarie muitos tecnicistas da educação, a família e a escola devem se preocupar tanto com valores como justiça, solidariedade, respeito ao próximo, patrimônio cultural e tradições, como com Matemática e Português.

 

 

 

 

 

 JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI  -    Advogado, jornalista, escritor e professor universitário. Prêmio Quality de Direitos Humanos de 2011.



publicado por Luso-brasileiro às 09:52
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