PAZ - Blogue luso-brasileiro
Segunda-feira, 26 de Novembro de 2012
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - VILIPÊNDIO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

            Para minha tristeza, há cerca de uma semana eu passei a engrossar uma desagradável estatística: a dos ex-proprietários de carros. Levaram meu carro, a meu total contra gosto, sem que eu tivesse qualquer chance de me defender ou de defender meu pobre carrinho, comprado a duras penas do meu sagrado suor de trabalhadora.

 

            Eu bem que gostaria de estar a figurar nas estatísticas dos felizes ganhadores da loteria, ou dos contemplados no sorteio de uma Mercedes Benz, mas, ao invés disso, faço, oficialmente, parte do nada seleto grupo dos donos (ou ex-donos?) de carros furtados. Claro que poderia ser bem pior: eu poderia fazer parte dos atingidos pela violência e por tantos lamentáveis outros males.

 

            É óbvio, assim, portanto, que racionalmente eu esteja conformada, até pelo mal que não se fez maior e definitivo, mas os sentimentos não são tão simples assim. Fica a dor moral, aquela que faz com que a gente se sinta com uma bola vermelha no nariz. Fica a revolta por ver que há gentinha que prefere não trabalhar e tirar dos outros o fruto alheio. Fica a frustração de não poder sequer defender o próprio patrimônio. Fica a certeza de que estamos à mercê da bandidagem. Fica a insegurança e o medo de usufruir do mínimo, de um mínimo que foi conquistado na labuta do dia-a-dia.

 

            Bastaram poucos minutos e vimos outra pessoa saindo com meu carro, pura e simplesmente, como se lhe pertencesse por direito. Eu confesso, sem medo de sofrer qualquer tipo de crítica, porque simplesmente não vou dar a menor importância a elas, que minha tolerância a certo tipo de crime é zero. Jamais eu poderia ter um porte de arma e jamais irei buscar isso, pois eu me tornaria uma assassina circunstancial sem muita dificuldade.

 

            Naquela hora, vendo meu patrimônio ser levado, sem que haja nesse mundo qualquer justificativa para isso, a não ser as babaquices de praxe, como a suposta vitimização e injustiça social, eu teria, de cabeça quente e coração frio, se armada, atirado na criatura que profanava algo que era meu. Só que não sou uma assassina e não quero, na escala da dignidade, rebaixar-me diante do pouco que consegui me soerguer.

 

            Senti-me vilipendiada. Essa a palavra que melhor exprime o meu inconformismo, aquele que não cede mesmo diante da consciência de que, como tenho seguro, não ficarei a ver navios e que tudo poderia ser finitamente pior. Vilipêndio é desrespeito, desonra, desprezo e é como me sinto por ora.

            Sei que o tempo haverá de me recompensar, mas o que conforta quem perde um ente querido?  Está mais do que na hora dos homens e mulheres de bem fazerem valer a Justiça nesse país. Creio que o crime sempre fará parte da sociedade, mas ele não pode dominá-la, tampouco ficar impune e banal. O que mais me incomda, agora, não é pelo meu carro que se foi, mas pelo que ainda pode me atingir e atingir as pessoas que amo e mesmo aqueles que me são estranhos, mas que são pessoas que fazem valer o pão de cada dia.

 

            Eu me entristeço por me sentir assim, desprotegida enquanto cidadã, mais valorizada enquanto porcentagem, do que qualquer outra coisa. Enquanto todos não nos tornarmos alguma espécie de estatística, tudo ficará sem resposta, pois o mal que não se sente na carne, parece ser o mal que não existe.

 

            Passou da hora de tomarmos alguma providência em prol da vida e da segurança...

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.

 



publicado por Luso-brasileiro às 12:03
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1 comentário:
De emerson monteiro a 26 de Novembro de 2012 às 14:51
Cinthya,

Suas palavras me tocaram em profundidade. Cruze com grandeza o momento e dias melhores lhe virão. As razões da imprevisibilidade alimentam o sonho das novas esperanças.

www.monteiroemerson.blogspot.com

Abraço amigo.


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