PAZ - Blogue luso-brasileiro
Segunda-feira, 26 de Novembro de 2012
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - LUCILENE COLODO DO AMARAL FERREIRA

 

 

  

 

 

 

 

 

 

Despedi-me de minha amiga querida e parceira de tantos projetos, LUCILENE, no último dia 16 de novembro. Quando uma pessoa da qual a gente gosta muito parte para a morada do Pai, abre no coração uma fresta doída: a dor da distância, embora possamos enviar recados de saudade e de ternura através das preces. Deus se torna o intermediário de nossas conversas.  Sinto-me com hematoma no pulsar do coração.

A Lucilene, como todo ser humano, teve seus encontros e desencontros, porém era incrível.  Era da vitória e da ressurreição, pois no lugar de cada perda, quase de imediato, colocava uma nova conquista. E creio que isso se acentuou durante os 11 anos da doença.  Aperfeiçoava-se nos quitutes e trazia os mais próximos para refeições com pratos saborosos por ela preparados. Participava, anualmente, dos cursos da UNICAMP que diziam respeito à literatura e à redação para o vestibular, preocupada com os seus alunos.  Defendeu tese de doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada na USP, na qual foi aprovada com louvor, sobre a obra do poeta Mafra Carbonneri. Trouxe-o ao seu convívio, juntamente com a universalidade e a profundidade nos textos de José Renato Nalini e o lirismo de Paulo Bomfim, todos da Academia Paulista de Letras. E mantinha o diálogo com o Eterno. Dom Joaquim Justino Carreira lhe transmitiu a devoção a Nossa Senhora de Fátima. Visitou o Santuário em Portugal e, no avanço da doença, disse-me que o seu tempo se tornara de reza do terço, mais em intenção dos outros do que dela.  Ao relatar o seu medo da solidão da travessia, a  Dom Gil Antônio Moreira, que a visitou no último mês de agosto,  amigo que a fortalecia e iluminava, obteve dele a Palavra de consolo e coragem: “A alma do justo está nas mãos de Deus”. De Dom Vicente Costa recebeu, em seu velório, o reconhecimento pelo trabalho voluntário na Associação Maria de Magdala e aos familiares e amigos, a quem ela amava muito, o anúncio de que nos veremos.

Inúmeras vezes, ouvimos dela que não poderia pedir mais nada a Deus, pois o marido que Ele lhe dera, o Renato - homem bom, digno, de perseverança e sentimentos nobres – compensava os limites e as dores da enfermidade.

Ao perceber que a hora estava próxima, confiou à Rose Ormenesi que colocasse, antes de seu sepultamento, a música “Who Wants To Live Forever” (Quem quer viver para sempre) da banda Queen, e a mim que lesse aquilo que ela escrevera para o seu funeral. Partilho, como fecho desta crônica, o texto da Lu.

“Desde a primeira vez que ouvi esta música gostei dela. Não é uma música qualquer. Suas metáforas são perfeitas. ‘Toque meu mundo com a ponta de seus dedos’. Que construção digna de Manuel Bandeira.

Ninguém suportaria viver para sempre. A vida se tornaria insuportável. Estamos sempre em busca de algo novo. Queremos desvendar mistérios. E o mundo físico é pequeno e pouco para nós. Por isso, não estou triste. Vocês sim, pois não terão mais a minha companhia (que modesta, não?). Eu estarei um passo à frente de vocês, conhecendo coisas novas, um mundo novo. Lá, separada das coisas materiais, estarei apta a entender a verdade. Nesta terra, fui muito feliz, apesar da doença. Conheci a todos vocês. Tive uma palavra para todos. E isso é ser feliz. Foram instantes únicos.

Obrigada a todos por serem meus amigos.  E aos inimigos também, pois aprendi muito com eles.  Fui teimosa, brava, exigente. Mas fui feliz assim.

Que ninguém guarde mágoa de mim. Que vocês vivam felizes. Um pequeno momento de felicidade vale uma vida.  Eu estarei bem, prometo.  E, quando chegar a hora, nos reencontraremos.  Fiquem em paz. Eu estou nela.  O ‘para sempre’ é hoje”.

 

 

 

 

 

Maria Cristina Castilho de Andrade

Coord. Diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala, Jundiaí, Brasil.



publicado por Luso-brasileiro às 12:19
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