PAZ - Blogue luso-brasileiro
Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
FALTA DE TEMPO

 

 

 

 

Contava meu pai, no rol dos amigos, um frade franciscano: homem simples, urbano e extremamente conversador.

 

As tardes de sábado eram, em norma, passadas no conventinho, em amena e animada cavaqueira.

 

Assim foram anos a fio. Amizade alicerçada no forte amor que ambos devotavam ao santo da Porciúncula.

 

Vítima de erro clínico, meu pai foi forçado a recolher-se a casa de saúde.

 

Sobressaltado com a doença inesperada, confiava que os amigos, os mais íntimos, corressem a visitá-lo no leito hospitalar.

 

Cedo se decepcionou. Por falta de tempo e inadiáveis afazeres, raros foram os que apareceram, e o cenobita, companheiro das horas alegres, invocou frívolas razões para não aparecer.

 

Valeu-lhe a lealdade do primo Júlio, que não deixou de presenteá-lo com assídua presença, acompanhado de confortantes e amigas palavras.

 

O povo, que é mestre em relações interpessoais, usa dizer: é na dor, doença e desgraça, que se conhecem os amigos. Na verdade muitos são os que se banqueteam na mesa farta, mas poucos os que choram à cabeceira do enfermo, mormente se é velho, imprestável e pobre.

 

Lembro-me, que no meu tempo de menino  - e como vai longe! -  Cultivava-se a amizade. Grupo de senhoras, antigas colegas e companheiras de adolescência, visitavam-se mutuamente. Havia até quem tivesse dia e hora certa. Mas, essas cortesias, demonstrações de afecto, há muito desapareceram da nossa sociedade.

 

Velhos amigos, confidentes de verdes anos, ainda que residam na mesma cidade, andam tão afobados, que apenas se encontram e nem sempre, em datas festivas e funerais.

 

Declaram, de semblante cerrado e lastimoso, camuflando o mal disfarçado desinteresse, que não lhes sobeja tempo; tão engolfados andam em afazeres, que não conseguem telefonar, nem sequer responder a mensagens electrónicas, que timidamente se enviam.

 

Não os censuro, tanto mais - creio sinceramente, - se conhecerem que a desgraça bateu à porta do amigo ou familiar, não deixarão, de palma ou coroa na mão, despedir-se, em derradeiro adeus, do velho companheiro.

 

Infelizmente é tarde, muito tarde, para que lhes possa agradecer a presença amiga.

 

Quiçá, nessa funesta hora, acossados por doloroso remorso, dirão com lágrimas correndo pelo rosto: Como me arrependo de não ter respondido à mensagem; ao convite para tomar café; aos e-mails, que com frequência brindava, provando apreço por mim, demonstrando querer compartilhar, as notícias e os PPs interessantes que recebia!

 

Mas será tarde o arrependimento. O tempo que passa, não volta mais; ou como dizia Frei António das Chagas:” As águas do rio só passam uma vez pelo mesmo lugar.”

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 17:10
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