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Sábado, 15 de Dezembro de 2012
LAURENTINO SABROSA - O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO E ALGUMAS DIVAGAÇÕES A PROPÓSITO - X

 

 

 

 

 

 

Afirmei em tom acusatório que, a respeito do Acordo, há fanáticos do a favor e fanáticos do contra. Pessoalmente, procuro não ser fanático de nada, porque não acho muito relevante decretar que só é BOM PORTUGUÊS Pascoais, não Pascoaes, Matosinhos, não Matozinhos, minissaia, não mini-saia, para-raios, não pára-raios, joia,  não jóia., etc., etc. A tal unificação da língua em que tanto pensam os fautores do Acordo, nunca será conseguida. O sistema ortográfico vigente, apesar de nunca ter sido Acordo, é “uma estrutura essencial da Língua” (Prefácio do Presidente da Academia das Ciências, em apresentação do Dicionário editado por essa Academia). Se por pessoas de elevada competência foi estabelecido, entre muitas outras coisas, que os meses e estações do ano deviam ser escritos com maiúsculas; que na conjugação do verbo haver devia ser hei-de, hás-de, etc.; que se devia escrever anti-rugas e não antirrugas – que necessidade houve de vir dizer que isso agora já não é português correcto? Que grande importância tem que portugueses digam, por exemplo, António, cómodo, oxigénio, e brasileiros digam Antônio, cômodo e oxigênio, para que esse pormenor mereça uma disposição especial a obrigar-nos a aceitar ambas as formas de acentuação?

Mesmo que isso tenha na verdade alguma importância, é uma importância ínfima e ridícula perante a importância de evitar o aviltamento da língua, com o uso demasiadamente generalizado mas impróprio, desnecessário e absurdo de expressões e termos estrangeiros, conforme já falei no artigo anterior. É uma praga que nos devia entristecer porque se não for devidamente tratada, e em aliança com os erros grosseiros de conjugação verbal, de concordâncias e outros a que sempre temos assistido, vai tornar a nossa língua uma língua esfarrapada, que envergonharia Camões, Vieira, Herculano. No entanto, quem tem prestígio e autoridade para fazer o que é necessário, nada faz, deixa andar, deixa correr, e o mal continua a proliferar.

Na inconveniência de transcrever todo o prefácio do Dicionário da Língua Portuguesa, da Academia, tomo a liberdade de transcrever o seguinte parágrafo para o leitor o analisar juntamente comigo: A língua falada por um povo é um organismo vivo, enriquecendo-se quotidianamente no contacto dos seus falantes com as novas realidades da existência e até com falantes de outros idiomas. Há que lutar pela sua defesa e ilustração, mas sabendo que os novos vocábulos e até novos termos de outros idiomas ou estrangeirismos, uma vez integrados e afeiçoados no cerne da língua falada, não a corrompem nem a poluem lexicalmente. Também, não raro, alguns vocábulos desaparecem das línguas faladas e mesmo escritas, como folhas mortas separadas da sua matriz viva. São, todavia, mais numerosos os novos termos do que os velhos, os neologismos do que os arcaísmos. É o uso vocabular que consagra a ortodoxia lexical e também sintáctica, embora, nesta área, as fraseologias sejam de mais difícil integração no idioma do que os novos termos. Este parágrafo está escrito com a elegância de quem muito sabe bem escrever, mas também com a habilidade de expor verdades ao mesmo tempo que se defendem ideias de conveniência. O seu autor, Presidente da Academia das Ciências, tinha de justificar todo o conteúdo e estrutura do Dicionário a que me tenho referido, Dicionário esse que, sendo o mais moderno e completo repositório da língua portuguesa, é, quanto a mim, em alguns aspectos, é … desculpe-me o leitor um possível mas pequeno exagero…é uma lástima !

  Apesar de ser um grande repositório da língua, há bastantes vocábulos que esse dicionário inexplicavelmente não regista. Vou mencionar aqueles de que não me esqueci de tomar nota:

acédia , catatonia, catatónico, cognação, cognato, crematística, crematologia,  crestomatia, edícula, embolismo, enfortecer, essa (no sentido de catafalco), gaditano, glúteo, holicismo, holismo,  indículo,  libração, librar, nadir, placebo.   

Estes vocábulos são registados em outros dicionários de muito menor relevo, como por, exemplo, o DICIONÁRIO UNIVERSAL DA LINGUA PORTUGUESA, edição da Texto Editora (3ª.edição, 1998). Mas a minha maior revolta ou indignação não está no “esquecimento” que isso possa ser; está na “lembrança” que é o registo, a torto e a direito, dos termos estrangeiros, mesmo aqueles que não têm qualquer utilidade. O senhor Presidente da Academia quer justificar essa inclusão conforme vimos na transcrição acima (agora repetida): os novos vocábulos e até novos termos de outros idiomas ou estrangeirismos, uma vez integrados e afeiçoados no cerne da língua, falada, não a corrompem nem a poluem lexicalmente.

Para mim é profundamente lamentável que a Academia dê guarida no seu Dicionário aos estrangeirismos que estão em moda, parecendo aceitar que eles estão “integrados e afeiçoados no cerne da língua”. O Dicionário foi editado pela conspícua Academia das Ciência de Lisboa, sob o alto patrocínio da Fundação C. Gulbenkian, e intitula-se DICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA. Pelos vistos, todos esses estrangeirismos já são “português contemporâneo”. Isso fará parte da luta pela “defesa e ilustração da língua” de que fala aquele senhor presidente? Não me parece, e foi por isso que considerei aquele  Dicionário ser uma lástima.

(continua)   

 

 

    

LAURENTINO SABROSA    -   Senhora da Hora, Portugal

                            laurindo.barbosa@gmail.com

                

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:35
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